6 de Janeiro de 2006
LOVE AND DEATH
Era uma vez um continho muito, muito, mas muito raquítico, que nasceu prematuro, sem condições ainda de ser divulgado nem lido – aí o autor colocou o continho numa incubadora. Todos os dias ele vinha visitar o continho, coitadinho, tão mirradinho, de arcabouço frágil, situações incipientes, diálogos padecendo de disritmia e falta de fôlego – tanto que tinha no narizinho um tubo para respiração artificial. O autor enfiava a mão na incubadora pela abertura circular e, com uma luva, tocava nos dedinhos do conto, que de tão pequenininhos mal conseguiam se fechar na ponta do polegar dele. O autor sussurrava, quase cantando, “Um dia você vai participar da antologia do século e nós vamos rir disso tudo”. E os dedinhos do continho meio que davam uma apertadinha no polegar do autor. Mas lá pelo segundo ou terceiro dia, enquanto pajeava o continho, o autor viu as enfermeiras rindo e cochichando, atrás do vidro da sala da incubadora. Então ele, que além de arrebatado era um autor suscetível a críticas, foi ver que tititi era aquele – e uma das enfermeiras não demorou a soltar que corria por aí que aquele continho, sabe, não era dele. Mas – ela emendou – era só boato, imagina. Falou isso e foi embora. O autor sentiu o chão faltando, a garganta entalada, e depois de uns minutos voltou devagar até a incubadora. À medida que o sangue lhe subia ao rosto ele observava o continho mirradinho, de olhinho fechado, dormindo. Esperou até o sangue descer de novo, até ficar tarde, até não ter ninguém por perto – aí foi à máquina de oxigênio da incubadora, abaixou a cabeça e desligou. Apagou a luz da sala, pegou o casaco e só então se lembrou de que tinha guardado no bolso uma roupagenzinha para o continho, comprada na véspera, para ser colocada assim que pudessem ir para casa. Uma roupagenzinha pequenininha, fofinha, do tamanhinho exato do conto e que revestiria a criaturinha de um estilo e de um acabamento que fariam as visitas dizerem “é a sua cara”. O autor olhou para trás, sentiu doer-lhe só um pouquinho o esticado silêncio da máquina de oxigênio, foi até a lata de lixo, jogou a roupagenzinha e saiu do hospital. Lá fora a brisa noturna carregada de motes para histórias de amor e morte soprava, leve e um tantinho assim úmida.
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