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26 de Dezembro de 2005

TÁLIA, A MUSA

Aí diz que o escritor ligou o computador, acessou o Google Earth, viu mais ou menos onde era a Grécia, virou-se para lá e clamou ao Olimpo que enviasse uma musa, porque precisava começar o livro logo. Não deu cinco minutos tocaram a campainha. Era o entregador de pizza. O escritor viu que faltava orégano na calabresa e mandou de volta. Daí a meia hora tocaram de novo a campainha e entrou a moça com a cara da Jennifer Connely, usando uma túnica fininha de algodão, coroa de hera, sandálias prateadas e carregando aquela máscara risonha.

– Uau – disse o escritor. – Quando pedi pra capricharem mais no tempero não pensei que fossem levar ao pé da letra.
– Ótimo – disse a moça. – Vejo que já começamos com uma típica comédia de erros. Bom timing. Mas não, não sou da pizzaria. Vim atender a seu chamado.
– Você é...? – perguntou o escritor, pensando se seria um bônus de Natal da agência de acompanhantes.
– Não sou a Jéssica nem a Dayanne que você pensou aí, também, não, darling. Sou a Tália.
– Tália? – disse o escritor, tentando se lembrar. – Mas Tália não é... mm... a musa da Comédia?
– Ah, finalmente. Achei que eu estivesse falando grego. Ou quando muito dialeto jônico. – E a moça colocou a máscara para dar um risinho baixo.

O escritor sentou-se ao computador, mais contrariado que surpreso. Aí falou:
– Mas, das nove musas, por que logo a da Comédia?
– Zeus escreve certo por linhas tortas, dear – e a moça piscou por detrás dos olhinhos da máscara.
– Tá, entendi a piada – disse o escritor. – Mas ainda assim: meu negócio é drama! Minha especialidade são histórias secas, naturalistas. Densas. Viscerais. Um soco no estômago do leitor, entende?
– Então me considere uma sparring que veio melhorar seu upper, benzinho. Soco no estômago? Ew.

O escritor olhou para cima, como se clamasse a alguma entidade:
– Mas eu sempre quis ser reconhecido como autor sério! Não atravessei o Dostoiévski inteirinho e treinei aqueles maneirismos pra isso! – e, erguendo as mãos ao céu: – Por quê?
– O Olimpo é pra lá, darling – e a moça apontou a janela à esquerda.
– Recuso a pecha de piadista – prosseguiu o escritor, fingindo que não tinha ouvido. – Não quero ser o arauto da leviandade. O literato da irresponsabilidade. Fazer rir é demérito! O mote, o trocadilho, o joguinho de palavras, os diálogos bate-e-vira com escada pra piada e pro punchline? Isso denigre meu talento!
– Benzinho, eu sou mandada da Grécia até essa quitinete esculhambada, mal decorada, com a tampa do vaso levantada, de frente pra dois terrenos baldios e você reclama de demérito? Já parou pra pensar na vista que temos lá do Olimpo?

O escritor voltou-se à tela do computador:
– Certo. Me desculpe. Não pretendi ser ríspido. Er... Podemos ao menos tentar uma comédia dramática? Um romance onde o humor aos poucos vá dando lugar à denúncia social, e...
– Uh, sweetie, você passou bem pelas primeiras fases: negação, revolta e agora a negociação. Depois vem a depressão (nada que esse meio Jack Daniel’s aí não resolva) e finalmente a aceitação. Portanto, mãozinha no teclado e manda uma comédia rasgada!

Nisso tocaram a campainha. Era o entregador de pizza de novo. A musa atendeu, viu que ele era a cara do Benicio Del Toro de banho tomado, desceu a máscara e abriu um sorriso:

– Hm, a clássica premissa cômica. Ulalá, como musa não posso deixar passar – Virou-se então ao desalentado escritor e: – Vai trabalhando aí, tá, benzinho? Tenho umas coisas, hã, protocolares a tratar agora. Liturgia do cargo.
– Mas... – balbuciou o escritor. – E eu fico aqui sozinho? O que eu escrevo? O que eu faço?
– Desbanca o Verissimo do ranking, ué. Aproveita que ele anda meio desnorteado e pouco inspirado por conta do fracasso do PT e ó: vai fundo!


Postado por Nelson Moraes às 11:00:13 | Esquetes | comente





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