4 de Agosto de 2005
DOS POSTS CONFESSIONAIS
Confesso que não tenho nada a confessar em um post. Aliás, quase nada. Mm. Olha, tenho só uma confissãozinha besta, aqui, do tamanho de, o quê?, duas linhas. Certo. Meio parágrafo. Ajoelho-me no template e me aproximo do ouvido do(a) leitor(a) que vem investido(a) da sacerdotal missão de conceder penitência a meus sórdidos arcanos:
“Perdoai-me, porque eu pequei.”
E ele(a) diz:
“Olha, venho sempre em seu blog mas nunca comento. Essa é a primeira vez, porque...”
“Não, não. Por favor, me ouça. Este é um post confessional. Nenhuma literatice, ou fustigada em blogs bestas, ou parábola admonitória, ou mesmo link para notícias insólitas no Estadão – só confissão, mesmo. Eu preciso. É coisa que me corrói, qual seiva contaminada por um pesticida que acaba minando a aura fotossintética e a vontade de respirar de uma planta, qual veneno de tal ordem insidioso que antes de matar o corpo faz definhar a alma e alquebrar-se o coração...”
“Mean boy! Sempre que eu ler Byron agora vou me lembrar de você. Damn ya. :-) ”
“Não, não! Quer me ouvir? Eu preciso fazer esta confissão. Eu preciso me abrir antes que a peçonha do irremed... Certo, certo. Sem elaborações. Eu preciso me abrir”.
“Acredita que acabei achando seu blog no Google enquanto procurava por ‘Elvis’? E olha só, nunca ia imaginar que seu texto fosse tão...”
“Por favor, por favor. Se eu não me confessar agora eu acabo dando um delete neste código html!”
“Vamos atualizar mais este blog, mister? Vê se posta com mais freqüência. A gente aparece aqui atrás de novidades e...”
“Mas eu postei ontem, e já estou atualizando hoje! Voltei porque preciso fazer uma confissão!”
“Olha: cheguei, li, gostei e voltarei mais vezes.”
“Não, não, não vá! Eu... Eu... Eu fiz suruba animal virtual com uma teóloga armênia de meia-idade linkada no site do Santo Sudário e com a webmaster do site da prefeitura de Mogi Mirim!”
“Rsrsrsrs. Você tem MSN?”
“Ufa. Certo, eu queria só sua atenção. Agora dá para me ouvir? Pois bem, minha confissão na verdade é outra. Aliás, dá um bom parágrafo. Bem. Eu tenho a mania de... de ficar comparando o número de comentários daqui com os dos outros blogs! Pronto. É isso. Eu reparo mesmo. Me esmero por três dias na confecção de um post, fico aguardando o feedback dos leitores, e até tento me enganar achando que ‘ah, o post ficou tão bom que ninguém tem o que acrescentar’, mas quando vejo posts completamente bobos em outros blogs com 83 comentários eu me ardo de inveja! Fico desejando que o template desses blogs se desconfigure! Fico torcendo para que o servidor deles saia do ar e não volte nunca mais! Fico ansiando para que algum comentarista cometa uma incontinência verbal contra uma empresa e uma decisão judicial suspenda o blog! Uf. É isso. Falei. Pronto. Sei que agora o que me resta é o opróbrio. Sei que não vou ter coragem de olhar para minha própria cara no perfil do Orkut. Sei que a partir de agora sou um pária virtual. Mas eu precisava botar isso para fora. Vem falar que você não tem isso, no seu blog?”
“É por isso que eu nunca me decepciono quando venho aqui. Sempre aprendendo.”
“Então você não se escandalizou com minha torpe confidência? Quer dizer que você às vezes é presa deste sentimento mesquinho?”
“Tendo um tempinho dá uma passada lá no meu blog, OK? E não esquece de deixar um comentário. ;-) ”
“Sim, sim, se eu passar e comentar você promete que me perdoa? Promete que me concede a indulgência por que meu plangente espírito tanto suplica?”
“Rrsrsrs. Fui.”
Apaziguado, termino o post. Fico me perguntando se o(a) leitor(a) caiu em minha armadilha retórica. Claro que na verdade eu ardia por confessar era a suruba animal virtual com a teóloga armênia de meia-idade linkada no site do Santo Sudário e com a webmaster do site da prefeitura de Mogi Mirim. Óbvio que me desviei e, por pura malemolência dissertativa, concentrei o pendor confessional na falsa alegação da inveja de outros blogs. Acho que ele(a) não percebeu a inverossimilhança dessa argumentação tão estapafúrdia, “ressentimento por conta dos numerosos comentários nos outros blogs”, ha. Leitor(a) ingênuo(a). E quando me perdoou, acabou perdoando também por tabela a suruba virtual. É isso. Sinto-me renascido. Aprendam, crianças: são as manhas de um blogueiro cujo coração é um livro aberto. E cá para nós, uma confissãozinha sempre faz bem à alma penada deste depravado lobo do mar.
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