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3 de Agosto de 2005

ARE YOU LONESOME TONIGHT?

Elvis nunca gostou de rock. E o mistério é que a família – mãe, tia e avós, testemunhas juramentadas de Jeová – também não podia ouvir falar em música profana. Teremos, pois, de esclarecer o porquê do nome através de uma trama noir, com ventilador de teto, persiana, um datilógrafo de costeletas crespas, um velho careca e uma loira fatal.

Elvis tirou a tarde de ontem de folga e foi ao 3º Cartório de Registro Civil, para averiguar quem eram o tabelião e os outros profissionais do estabelecimento em 77, quando nasceu. Enquanto o funcionário de óculos de aro de tartaruga fuçava os papéis, suando vapor, Elvis se perguntou o que fazia ali o ventilador chiando feito gemido ensaiado de mulher que nunca chega lá. Aliás ele não fazia mexer nem as persianas empoeiradas que deixavam entrar fatiada a tarde amarela e sem graça. “Esse aqui”, disse o óculos de tartaruga, mostrando uma foto já descorada de um tipo com costeletona, “era o escrivão da época. Miron.” E, limpando o vapor na testa com a manga da camisa: “O dono do cartório na época morreu, deixou para o filho, que está de viagem. Sobrou só o Miron para você pesquisar”. Do cartório mesmo Elvis ligou e do outro lado atendeu um velho careca – mas que até hoje cantarola "Are You Lonesome Tonight?" sem errar a letra. “É, sou o Miron. Lembro do teu pai. Sujeito asqueroso, uma recaída da tua mãe. A família dela nunca gostou daquele ‘ateu sem volta’. Ele bebia e desconfiava de tua mãe. Achava inclusive que não era teu pai verdadeiro. Veio, bêbado, te registrar. Quando eu perguntei se o recém-nascido ia ter o nome do pai ele achou graça de eu falar ‘pai’ e disse, cínico, acho que para ele mesmo: ‘É o vizinho...’ Ouvi e pensei que seria o teu prenome, as letras todas juntas, e comecei a datilografar – achando justa aquela singela homenagem ao rei, justo no ano da morte dele. ‘Vai no diminutivo mesmo?’, eu perguntei, aí ele percebeu e disse ‘Pára!’ - então tive tempo de pelo menos não colocar o ‘inho’. Ele leu como ficou, riu e mandou deixar. Sumiu no mundo e te largou esse nome.” Elvis desligou o telefone com um estranho gosto de chiclete de uva na boca. E sim, a mulher fatal era Edilene, uma loira oxigenada sentada na recepção do cartório, esperando para reconhecer firma nuns papéis e que refrescava o busto suado abanando um exemplar antigo da Carícia.


Postado por Nelson Moraes às 16:07:23 | Literatices | comente





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