26 de Junho de 2005
PLANTÃO MÉDICO
– Doutor, antes de começarmos eu queria ver o currículo do seu dedo.
– Como?
– O CV do seu dedo.
– Mas pra quê?
– Ora, eu vou a um urologista que nunca vi na vida, de quem nunca ouvi falar – e com três minutos de conversa já entramos em intimidades digitais? Não, não e não. Quero a ficha corrida do seu dedo: por onde ele já passou, onde ele já freqüentou, quais as reais intenções, essas coisas.
– Calma. Já vi pacientes com esse tipo de insegurança. Olha: é só um dedo médio.
– Pois então. O nome já entrega. Um dedo mediano, sem grandes aspirações, sem ideal. O senhor quer que eu deixe um dedo desprovido de ambição ir entrando assim na minha vida? Preciso pensar no futuro! O que eu direi a meus netos? Que meu primeiro exame de toque retal foi feito por um dedinho medíocre?
– Não tem com o que se preocupar. Vou usar uma luva.
– Ah, claro, no primeiro toque é sempre assim. Ele vem todo vestidinho, social, bonitinho: tudo fachada! Quem me garante que quando eu voltar aqui, lá pela terceira ou quarta vez, ele já não vai querer ir entrando antes mesmo de eu abaixar a calça, achando que a casa é dele? Nem pensar. Pode ir tirando a luva e botando esse dedinho aí pra digitar o currículo. Ah, o mais importante: corta essa.
– O quê?
– Unha.
********
– Seu Andrada, acho que finalmente descobrimos o motivo do senhor ter engordado absurdamente após começar a dieta.
– Finalmente, doutor! O senhor pode imaginar que situação a minha: dois meses fazendo exercícios e só à base de água e salada – pra engordar vinte e oito quilos!
– Pois é. Mas agora chegamos a um diagnóstico.
– Sim? Sim?
– A partir dos resultados deste último exame, detectamos que o senhor é uma metáfora.
– Uma... Como?
– Metáfora. Figura de linguagem que consiste em tecer um comparativo de forma a...
– Eu SEI o que é uma metáfora, doutor. Mas... Como isso foi acontecer comigo?
– Ainda não sabemos. Pode ser que o senhor, andando por aí sem agasalho, tenha sido acometido por alguma corrente literária simbolista, tornando-se personagem de um conto alegórico. Precisaremos de mais exames.
– Mas... Mas... Metáfora do quê, doutor?
– Ainda é cedo pra um diagnóstico mais preciso. Quem sabe estejamos lidando com a ilustração sarcástica da compulsão em ostentar uma condição sócio-econômica através da privação deliberada de certos privilégios... Mas também pode ter a ver com a entrevista do Gabeira à Veja. Temos que analisar.
– Que coisa. E... Por que é que o senhor acaba de fazer essa cara estranha aí enquanto lê o exame, doutor?
– Hum. Más notícias. Pelo que vejo aqui, o senhor é uma metáfora política.
– E...?
– Metáfora política seu plano não cobre.
*******
– É a primeira vez que o senhor vem a um psiquiatra?
– Sim, doutor.
– Então devia mandar examinar sua cabeça. Hahahahaha.
– Tá vendo, doutor? O problema é esse aí.
– O quê? O meu “hahahahaha”? O senhor queria que eu fizesse “kkkkkk”, feito blogueiro?
– Não, doutor. Estou dizendo que meu problema é o complexo de escada.
– Sei. Quando fica de fogo é escada de incêndio, quando trabalha demais é escada de serviço? Hehehehehehe.
– Olhaí. De novo. É por isso que eu sou complexado, doutor. Desde pequeno me usam de escada em diálogos. Sempre a minha fala é a que antecede a tirada do interlocutor, e que sempre é uma piadinha infame. Tem tratamento pra isso?
– Claro: pode tratar de sumir daqui, que eu não trato chato! Hihihihihi.
– …
– Aliás, quem trata chato é dermatologista! Hohohohoho.
– ...
– E não adianta fazer reticências nos diálogos, pois pra três pontos o remédio é um quarto. Um quarto no hospício! Huhuhuhuhu.
– O que eu faço, santo Deus?
– Ah, pode me chamar de doutor, mesmo! Huahuahuahua. Ei, tá indo aonde? Vem cá! Você não pagou a consulta!
– É que eu devo ser escada rolante, doutor. Fico rolando minhas dívidas e...
– Mmmmm. Até que não foi mal. Já tá aprendendo. Volta e senta aí: acho que seu caso tem cura.
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