21 de Junho de 2005
DA FACÇÃO DOS ASPEIROS DIGITAIS
Todo cuidado é pouco com os que fazem aspas com os dedos. Em termos de periculosidade a facção dos aspeiros digitais só se iguala ao destacamento da viração ( pessoas que dizem o tempo todo “então eu virei e falei assim...”, deixando claro que a tática é fazer com que os interlocutores percam o rumo da conversa tentando adivinhar para que lado eles se virarão na próxima fala – “ops, agora foi para a direita e eu achando que era a esquerda; droga, agora ele fez que ia virar e não virou”) e a brigada da pegação (os que vivem dizendo “então eu peguei e falei...”, onde se denotam insofismáveis intenções apalpatórias, o que impede que os interlocutores prestem atenção à conversa por se preocuparem o tempo todo em tapar a genitália e encostar a bunda na parede mais próxima).
Os aspeiros digitais são a ponta do iceberg da crescente onda de terrorismo gesto-dialogal. À parte as intenções subliminarmente insidiosas (por exemplo, quando o aspeiro acena com os dedinhos no meio de um Pois não é que o consagrado filósofo Olavo de Carvalho blábláblá? e aí você percebe que as aspas não foram para consagrado nem para filósofo – mas justamente para Olavo de Carvalho, o que realimenta a suspeita de que o nome seja mesmo o pseudônimo que o Emir Sader usa nos dias ímpares), a verdadeira ameaça consiste nas subdivisões da facção, que já vinham sendo preparadas em campos de treinamento secreto e que encontram-se prontas para a infiltração na vida civil.
Teremos, assim, os travessudos (que reproduzirão diálogos fazendo travessões com os dedos antes das falas; se bem que os mais refinados preferirão o estilo anglo-saxão, utilizando aspas mesmo – o que confundirá o interlocutor incauto que, coitado, detectará o tempo todo uma ironia inexistente na fala deles), os italizantes (dialogueiros que para imprimir o itálico no que dizem – na citação de nomes de obras ou termos estrangeiros – inclinarão abruptamente a cabeça para a direita, o que proporcionará torcicolos homéricos aos interlocutores que tentarem acompanhá-los) e os paragrafiteiros (que ao sinalizar a mudança de parágrafo darão saltinhos para a esquerda, derramando uísque e salgadinhos no tapete do anfitrião e fazendo com que os interlocutores, para não perder a conversa, acabem indo parar a quatro quarteirões de distância da festa). Não acaba aí: virão também, para desestabilizar qualquer tentativa de diálogo, os ponto-e-virgulinos (chamados em inglês de “dot comma”) e os caixa-alta (terroristas dialogais de afortundada posição social, para vermos aonde chegou a infiltração).
Registre-se, aliás, o caso de uma conhecida socialite militante da vanguarda do parêntese, que dia desses, num chá beneficente, ao discorrer sobre o que ela ainda procura no homem ideal, fez o gesto afastando as palmas das mãos – provavelmente para apor alguma citação – e causou frisson entre os convidados. Mas imediatamente o namorado, ponto-finalista juramentado, a retirou da rodinha. E fecha parêntese, porque eu falava era dos aspeiros digitais, oh céus.
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