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28 de Abril de 2005

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CELEBRIDADE

O nem tão conhecido assim romancista Lauro Maurílio resolveu que a notoriedade só bateria à sua porta mediante circunstâncias extremas, e assim não perdeu mais tempo. Matou seu colega de quarto, o efetivamente anônimo contista Plauto Serafim – que tinha mais ou menos sua estatura –, arrancou os dentes e as pontas dos dedos do cadáver para evitar a identificação, carregou o corpo para os fundos de uma favela, largou-o em um barracão abandonado, tocou fogo e esperou. Vendo os esturricados restos mortais do amigo entre as cinzas do barracão, fez uma ligação de orelhão para as redações de jornais, com um lenço no bocal, assumindo a autoria do seqüestro, tortura, morte e carbonização do romancista Lauro Maurílio – e dizendo-se líder da facção de fãs psicóticos do escritor. Deu o endereço do barracão. Com o resto de suas economias comprou uma barraca, sanduíches de atum com cenoura para quatro semanas e acampou à beira de um córrego a doze quilômetros de Aricanduva. Imaginava-se, dentro de um mês, retornando à civilização e vendo os originais com que Lauro Maurílio abarrotara dezenas de editoras finalmente chegando ao grande público (até o desenho da capa – uma iconografia vagamente celta – ele idealizou, enquanto tirava restinhos de cenoura dos dentes). Voltou barbudo, com úlcera e sarna, vinte e três dias depois, tomando conhecimento de que uma seleção dos melhores contos de Plauto Serafim estava amplamente divulgada pela internet e prestes a ser publicada por uma média editora. É que a polícia, nas investigações, encontrara o caderno de manuscritos de um autor desconhecido na cabeceira de uma das camas do quarto. Daí para acharem que Plauto Serafim era pseudônimo do nem tão conhecido assim e já falecido romancista Lauro Maurílio foi um pulo. Lauro, embaraçado, fica agora na dúvida se usufrui esta duvidosa glória póstuma; mas convenhamos – Plauto Serafim tem mesmo a maior cara de pseudônimo.


Postado por Nelson Moraes às 13:03:20 | Literatices | comente



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