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2 de Fevereiro de 2005

Palestras Almirânticas

JONATHAN SWIFT, KÖLSCH E OS CANARINHOS DE PETRÓPOLIS

(Dá uns tapinhas no microfone, sopra e diz “Alô, alôôôôô”)

Bom, como um esforçado sobranceiro (não consultes dicionários; sobranceiro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem que fala difícil apenas como mecanismo de defesa), imagino que humor negro de mínima qualidade seja o auto-explicativo: aquele em que cada destilada peçonhenta e cada estocada pedante no senso comum já denuncie – ao leitor minimamente esclarecido, claro – a que veio. Este texto de Jonathan Swift, por exemplo. Só tire as crianças da sala, antes.

(Pigarreia, toma um gole d’água e ajeita os óculos)

Sim, há o outro tipo de humor negro: aquele de efeito retardado, que para ser decifrado requer a posterior dissecação por parte do autor; algo como reunir a audiência numa metafórica sala de imprensa e diante de um simbólico microfone proclamar: “For chrissake, ninguém notou que era só um gracejo?” E isso depois que as ilações precipitadas já tiverem sido tidas e os desdobramentos encaminhados sabe-se lá para onde.

Imaginem então os tecnocratas nazistas como uma elite de humor nigérrimo e sofisticado, reunidos em Grossen-Wanssee para deliberar sobre a Solução Final – na verdade apenas uma grande piada, mein freund, para desopilar o fígado de uma Europa cada vez mais macambúzia: se os judeus adoram rir de si próprios, por que não darmos o mote? O problema é que, por conta do violentíssimo e prolongado porre de Kölsch que eles tomaram depois da reunião, esqueceram-se de explicar aos meios de comunicação que era um chiste – e quando a notícia vazou já era tarde: não restou aos consternadíssimos nazistas outra alternativa senão aplicar efetivamente a Solução Final, para não pegar mal junto aos parceiros do Eixo. Teria sido só isso, então: falta de timing.

(Bebe mais um gole d’água)

Dizem que esse tipo de humor começou no Gênesis. Como se sabe, no princípio não era o verbo, mas o plural majestático: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança; façamos depois o ornitorrinco e juremos de pés juntos que não tivemos nada com isso!”. Pois bem, Javé então gracejou com seu alter-ego: “Que tal fazermos um casal para habitar a terra e multiplicar-se, sendo que os filhos homens do casal terão que conhecer incestuosamente as irmãs para tal multiplicação fazer efeito – o que gerará uma raça endogâmica e completamente pateta?” Só que alter-ego não entendeu o sarcasmo e deu andamento à criação. Até hoje Javé tenta dizer que estava brincando (basta tocar a terceira faixa de “Os Melhores Momentos dos Canarinhos de Petrópolis – vol. IV” de trás para a frente que você ouve: “Pelo amor de Mim, era só um chiste!”). Mas já tinha passado um pouquinho da hora.

(Prepara-se para sentar-se mas, a um murmúrio vindo do fundo da platéia, ergue-se intempestivamente)

Como assim, plagiário do Machado de Assis? Por causa da frase lá no início de minha fala? Mas aquilo era uma intertextualização; será que eu tenho que explicar tudo?!?


Postado por Nelson Moraes às 17:22:41 | Proclamações | 15 comentários




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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Clarice

Prepara-te, infiel! Aquele cara que fez uma oratória diretamente da sede da Assembléia de Deus vai voltar. Ah, se vai!
Eu? Não rolei de rir porque não sou de rolar, mas ri um bocadão.
;}

PermalinkPermalink 02.02.05 @ 21:13



Comentário de: Artur, o Idiota

Pois é, First Lord, eu tenho me embaraçado nos novelos dessa retórica muderrna, com válvula de escape acoplada. Culpa, creio, de minha asnice ao freqüentar o lado 'inteligente' da blogosfera.
E isto é um no-comment.

PermalinkPermalink 03.02.05 @ 01:55



Comentário de: Nilton F.

Post sem proposito. Voce ja fez melhor.

PermalinkPermalink 03.02.05 @ 12:09



Comentário de: Nilton F.

Ei, estou brincando. Sera que eu tenho que explicar isso tambem? :)

PermalinkPermalink 03.02.05 @ 12:11



Comentário de: Walter

E o ornitorrinco? É intertextualidade também?

PermalinkPermalink 03.02.05 @ 12:26



Comentário de: C. R. Rodarte · http://quid_est_veritas.zip.net/

Em nome da Associação Protetora dos Ornitorrincos, exijo um post de retratação sob risco de ter que lhe mover uma ação judicial!!!! [:P]

PermalinkPermalink 03.02.05 @ 16:50



Comentário de: Milton Ribeiro · http://www.miltonribeiro.blogger.com.br/

Curioso. A gente recebe o FSM aqui em Poa e te dá vontade de comer criancinhas em Goiânia!

PermalinkPermalink 03.02.05 @ 19:15



Comentário de: Serbon · http://www.chinfra.blogger.com.br

peraí... o Jonathan Swift fez uma proposta destas e depois fundou uma indústria alimentícia? Nunca mais comerei salsichas!!!lsichas???

PermalinkPermalink 03.02.05 @ 19:53



Comentário de: Navegador · http://www.navegandopelasletras.blogspot.com

Uma crítica feita com humor já é bem incisiva, feita com humor negro, supera a mais enfadonha verborragia.

PermalinkPermalink 04.02.05 @ 02:37



Comentário de: Renato K. · http://pralademarrakech.blogspot.com

Machado de Assis ? Quem é esse cara ? Achei que tivesse sido o Nelson quem fundou a ABL.
E muito boa a referência aos Caralhinhos de Petróponis.

PermalinkPermalink 04.02.05 @ 08:09



Comentário de: Igor · http://gendarme.blogspot.com

Não é humor negro, é afro-brasileiro.

PermalinkPermalink 04.02.05 @ 08:38



Comentário de: smart shade of blue · http://smartshadeofblue.brblog.com

Segundo o Chico de Oliveira, ornitorrinco é outra história. Aliás não há maior prova do humor negro do Criador que o ornitorrinco, com a possível exceção da Cruz de Caravaca. Caravaca !!!

PermalinkPermalink 04.02.05 @ 11:35



Comentário de: Navegador · http://www.navegandopelasletras.blogspot.com

Acabei de colocar no meu site pessoal um link para o seu blog. Se puder fazer o mesmo por mim, agradeço.

PermalinkPermalink 05.02.05 @ 23:59



Comentário de: tesco

Tendes ascendência irlandesa, Almirante?

PermalinkPermalink 09.02.05 @ 00:42



Comentário de: Fernando Cals · http://observador.blogbrasil.com

Oi, Nelson,
depois de rir de rolar, como sempre, fiquei pensando nos pobres, e tão abandonados, ornitorrincos.
Porque não aceita-los como de nossa, deles, criação?
Abração
fernando cals

PermalinkPermalink 09.02.05 @ 11:29



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