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6 de Janeiro de 2005

POST NOIR

Noite chuvosa. Meu blog estava às moscas, como ocorre a todo blogueiro do lado leste de San Francisco nesta época do ano. Eu baixava um MP3 do Wynton Marsalis enviado por Jack Fuinha, o único comentarista de meu blog – quando de repente ela entrou na caixa de comentários: alta, insinuante, cool, toda atitude, as bordas azuis e... ah, certo, eu descrevia a caixa de comentários. Mas então entrou lá aquela loura fantástica. "Meu marido sumiu", disse o comment, complementando: "Agora passa lá no meu fotolog e não esquece de deixar um comentário". Acendi um cigarro e, a bordo do meu mouse cupê 1996, rumei ao fotolog dela. Chegando lá vi as fotos do marido desaparecido. Deixei um comment: "50 dólares a hora, mais despesas". Ela postou um emoticon com uma pequena lágrima, e eu teclei: "Meu coração é mole mas o bolso é duro, boneca. É pegar ou largar". Ela postou um smilie (não sei se por causa da última frase ou do "duro") e voltei então ao meu blog. Encontei o template todo desarrumado, como se o houvessem invadido e revirado. Já saberiam que eu estava no caso? Mandei um MSN a Little Todd, meu fornecedor de código html e de fofocas. Perguntei se ele podia arrumar o template e o que ele saberia do caso. Ele cobrou oito dólares adiantados e passou a dica: o fotolog da loura estava nos Toplinks – ela devia ser do high society da blogosfera. Acendi um cigarro, peguei novamente o cupê 96 e fui até o Google. Digitei o nome do marido desaparecido. No meio da pesquisa meu ICQ foi invadido por uma gang de vírus com sotaque armênio, que ameaçou desconfigurar meu Explorer se eu não desistisse da busca. Acendi um cigarro, arranquei com meu cupê 96, dei um cavalo-de-pau em torno do teclado até clicar no Norton Antivírus que Little Todd disponibilizara em minha máquina. Livre por um fio de mouse da máfia armênia, prossegui até descobrir, via Google: o marido desaparecido havia entrado para uma comunidade hippie no Orkut, e não retornaria mais aos blogs. Acendi um cigarro. Voltei ao fotolog da loura, o qual, para minha surpresa, mostrava fotos dela aos beijos e abraços com... Jack Fuinha. Fora tudo armação dele, vingando-se porque eu nunca respondia a seus comments. Ele na verdade era webmaster, e fora quem providenciara o ataque dos vírus armênios. Sem falar do conluio com a loura fotoblogueira, sua amante. E agora? Eu estava sem um tostão. Minha conexão era discada – quem pagaria pelas incontáveis horas em busca do marido sumido? Jack e a loura enviaram um emoticon risonho e com chifrinho, postando: "Contente-se em saber que o provedor pode desabilitar seu blog antes que a companhia telefônica corte a linha, old pal". Suspirei. Era uma noite chuvosa. Acendi um cigarro e, a bordo de meu cupê 96 – que já dava mostras de falhar a qualquer momento – acessei a página da Organização de Combate ao Enfisema.


Postado por Nelson Moraes às 17:08:47 | Literatices | 12 comentários





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Comentários:


Comentário de: smart shade of blue · http://smartshadeofblue.brblog.com

Le Blog Noir. :)

PermalinkPermalink 06.01.05 @ 17:21



Comentário de: Nilton F.

Senti falta so do anao marroquino.

:-)

Otimo

PermalinkPermalink 07.01.05 @ 07:33



Comentário de: Nelson · http://www.praiadonelson.com

Meanwhile, ouçam Marsalis com "Sometimes It Goes Like That".

PermalinkPermalink 07.01.05 @ 08:06



Comentário de: Artur · http://url

First Lord, nessas horas só recorrendo à pocket-booze-bottle de 120MHz, aquela das emergências, guardada no cache.

PermalinkPermalink 07.01.05 @ 08:46



Comentário de: Marco Aurelio Brasil · http://www.verbeat.com.br/blogs/eporaqui

Maldito Jack Fuinha. As loiras adoram homens de nariz comprido! Assim foi e assim será até o fim dos tempos ou até Nelson deixar de me embasbacar. O que acontecer primeiro.

PermalinkPermalink 07.01.05 @ 11:04



Comentário de: tiagón · http://www.verbeat.com.br/blogs/bereteando

"Boneca". Eu leio detetives só para vê-los chamando as boazudas de "boneca" com alguma verossimilhança. Gênio.

PermalinkPermalink 07.01.05 @ 12:58



Comentário de: Mello Moraes · http://url

Outro dia, digitei no Google (algo a ver com Cepacol?) a expressão "marido desaparecido". Apareceu esmurrando a porta do chatô (não o Assis) um cara geladeira, apontando o treizoitão. Ufff. Deu o que fazer para consolar a boneca e ainda sair de fininho...

PermalinkPermalink 09.01.05 @ 14:16



Comentário de: Milton Ribeiro · http://www.miltonribeiro.blogger.com.br/

Fantástico! Ri muito. Só corrija aquele "supresa" lá no meio. Grande abraço.

PermalinkPermalink 10.01.05 @ 07:30



Comentário de: Nelson · http://www.praiadonelson.com

Milton, por ter sido o único a passar no teste-surpresa, você acaba de ser contemplado: seu endereço foi passado à máfia armênia. :-) Abração.

PermalinkPermalink 10.01.05 @ 09:23



Comentário de: Wander(P.Alegre) · http://url

O espírito de Raymond Chandler baixouaki.òtimo.Abraços

PermalinkPermalink 12.01.05 @ 14:12



Comentário de: Ratapulgo fictício · http://orabolas.blogspot.com/

Gênio!
RAM Spade e o Firefox Maltês atacam novamente! :)
Copiei!

PermalinkPermalink 15.01.05 @ 04:42



Comentário de: DaniCast · http://www.havesometea.net/MadTeaParty/

Amei, amei!

PermalinkPermalink 19.01.05 @ 20:19



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