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22 de Novembro de 2004

Cordel Epistemológico

A PELEJA DO FILÓSOFO COM O ECONOMISTA


Nhô Olavo picava fumo
E aristotelicamente

Filosofava sem rumo
Debaixo do sol tão quente

Pra acabar com a gastura
De uma garrafa ele sacou

Tomou um gole de pinga
E descobriu que a quentura

Que reinava na caatinga
Era culpa de Moscou!


Nhô Emir vinha contente

Montado num jegue roxo
Apesar do clima quente

Ele não se fez de frouxo
Mastigava sua farinha

Misturada à rapadura
Cantando a "Internacional"

Com a voz afinadinha
E pelo calor infernal

Acusava a ditadura!


Quando se encontraram ambos
Todo o povo quis vir ver

E ouvir os ditirambos
Que cada um ia tecer

De um lado o economista
Caudatário de Karl Marx

Do outro, le penseur
De viés neo-platonista

Um amigo do MST
E um inimigo das FARCs!


Nhô Olavo deu início

Já olhando meio torto:
"O problema, ó estrupício,

É que o marxismo é morto
Tu cultiva essas doenças:

Fidel, Chávez e Kim
Pois de me ouvir não te furte:

Já tombaram tuas crenças
A Escola de Frankfurt

E o Muro de Berlim!"


Nhô Emir pois replicou
Não deixou cair a bola:

"Pois saiba – quem se finou
Foi esse teu deus carola

Tu promove uma mistura
De Platão e astrologia

Dizendo que é ultramontano
Papa-hóstia de alma pura

Tu não passa é de um insano
Cagando verborragia!"


Nisso o cego Aderaldo

Apareceu de surpresa
Disse: "De rir me esbaldo

Com essa tamanha torpeza
Ambos enganam o ouvinte

Com esse discurso pentelho
Pois sou trovador a sério

E desfaço esse acinte
Mato dos dois o mistério:

Um do outro é o espelho!"


Nhô Olavo e Nhô Emir
Se escafederam depressa

Olha lá os dois a fugir
Em ninguém mais pregam peça

Olavo disse: "Cumpadi,
Já sabem que somos só um

Mas com o sinal trocado!"
E Emir: "Pois é verdade

A gente tá mais queimado
Que a pele do Mussum!"


E agora, o que fazer?

Nunca mais vai ter debate
Quem é que agora vai crer

Nesse imenso disparate?
Mas Emir teve uma idéia

E Olavo já apoiou
E aplaudiu diversas vezes

Vão armar uma leréia:
Fingir que são siameses

E arrasar num freak show!


Postado por Nelson Moraes às 17:45:54 | Poesia | 16 comentários





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Comentários:


Comentário de: Artur de Assaré · http://url

O Verdadeiro e Feroz Combate da Cobra Catarina e do Lagarto Militão - e os bardos urbanos que o narram - ficam agora a dever muito ao Almirante da Academia de Quixadá.

PermalinkPermalink 22.11.04 @ 18:37



Comentário de: Igor · http://gendarme.blogspot.com

Nelseverino, cante agora "A chegada de Derrida no Inferno", por favor!

PermalinkPermalink 23.11.04 @ 07:31



Comentário de: smart shade of blue · http://smartshadeofblue.brblog.com

clap clap clap

meus parabéns.

Agora só falta contar como "O Kraken de Sete Tentáculos se Livrou de Dois Desenvolvimentistas com Uma Cajadada Só"...

PermalinkPermalink 23.11.04 @ 07:57



Comentário de: tiagón · http://www.verbeat.com.br/blogs/bereteando

Por rimar Kim com Berlim, você acumulou pontos no Programa de Milhagem do Cordel Online (Pro-MICO)! Troque seu bônus por trechos aéreos Crato-Sobral-Crato, com direito a rapadura de palha ou rapadura puxa.

PermalinkPermalink 23.11.04 @ 08:01



Comentário de: Clarice · http://url

Rapadura com lagarto num repente político-filosófico-gastronômico!
Você é da moléstia, home!

PermalinkPermalink 23.11.04 @ 11:04



Comentário de: Renato K. · http://pralademarrakech.blogspot.com

Baixou o Patativa no Nersão ... O que me lembra que dona Patroa tá indo pra Fortaleza amanhã, e vai me trazer um licorzim de jenipapo de lá - nhô Nerso e nhá Cynthia são pra lá de bem-vindos pra ajudar-me a ver o fundo da garrafa. Quando certos obstáculos geográficos puderem ser superados, bem entendido.

PermalinkPermalink 23.11.04 @ 13:27



Comentário de: Milton Ribeiro · http://www.miltonribeiro.blogger.com.br/

Sou um cara de onde não sai poesia nenhuma. Até leio, mas não consigo escrever nada! Fico invejoso de quem consegue, mesmo na brincadeira. Sou um grosseirão. Grande abraço do Milton, o Retornante.

PermalinkPermalink 23.11.04 @ 15:09



Comentário de: Sil · http://saloncomedor.blogspot.com

Muito, muito bom é isso aqui!!
Saudade!
bjo

PermalinkPermalink 23.11.04 @ 18:38



Comentário de: Hipopótamo Zeno · http://www.zeno.com.br

E ninguém vai falar que a melhor rima é a Marx/FARCs??? Mais uma láurea pro Nersão, pô!

PermalinkPermalink 23.11.04 @ 20:33



Comentário de: Lucia

Caro Ao Mirante,
Como sempre a trova está supimpa!
Abraços

PermalinkPermalink 23.11.04 @ 22:10



Comentário de: Nilton F.

Nelson, a metrica eh a mesma dos cordeis tradicionais? Me pareceu que sim.

PermalinkPermalink 24.11.04 @ 11:03



Comentário de: Nelson · http://www.praiadonelson.com

Nilton, procurei me aproximar ao máximo. Estrofes com dez versos octossílabos, sendo os quatro primeiros emparelhados e os seis restantes cruzados. Existem outras estruturas, mas essa é a mais usual. E não, não sou especialista no assunto - pesquisei a métrica de cordéis junto ao ceguinho Google de Caruaru. :-)

PermalinkPermalink 24.11.04 @ 11:18



Comentário de: Serbon · http://www.chinfra.blogger.com.br

Nhô Nelson,a melhor parte foi a mistura de "Platão com astrologia"....clap, clap, clap...

PermalinkPermalink 24.11.04 @ 11:19



Comentário de: Marco Aurelio Brasil · http://www.verbeat.com.br/blogs/eporaqui

Tenho um amigo que casa agora domingo e pensava em justamente comprar uns cordéis pra presentear-lhe. Todo mundo sabe que literatura de cordel é muito útil na lua de mel, e não é pela rima não. Agora minha busca terminou, mais uma vez, NeoSon vem ao encontro dos anseios mais profundos da humanidade. Forcei?

PermalinkPermalink 24.11.04 @ 14:06



Comentário de: Nelson · http://www.praiadonelson.com

Just for the record, eu ia fazer um cordel sobre um arranca-rabo entre o Todo-Poderoso e um cômico judeu agnóstico, em plena aridez agreste, que se intitularia Deus e Woody Allen na Terra do Sol*, mas desisti. O MinC achou que não teria contrapartida social.

(*)Certo, concordo que falado soa melhor.

PermalinkPermalink 24.11.04 @ 14:53



Comentário de: tesco · http://www.exepes.blig.ig.com.br/

Bravo! O qui seria di nóis sem a expricação do cego Nérso, digo, do Armerante Aderaldo?

PermalinkPermalink 24.11.04 @ 19:58



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