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7 de Novembro de 2004

AMOROSO CONTÍCULO DE TERROR

Eis portanto o ainda tão belo rosto de Marcela com as lisas feições coaguladas e emolduradas pelas vivíssimas flores na borda do caixão. Como eu adoraria despejar tudo agora, agora, e que daqueles traços embaçados renascessem aqui e ali filetinhos de sombra, ensaios de espasmos ou mesmo tonalidades de cor, angústia e desejo de vingança; como me deliciaria ser o primeiro a perceber alguma forma de vida se espreguiçando para acordar encolerizada nesta fisionomia irritantemente sossegada, a partir de minha revelação: óbvio que te traí, meu amor. Te traí com todas as letras e todas as tuas amigas, te enganei tantas vezes quantas me permiti deixar a consciência guardada na gaveta do criado-mudo e sair à noite para meus, abre aspas, plantões. Não deu tempo de eu te ver me vendo tirar acintosamente a máscara de cirurgião tão apegado ao juramento de Hipócrates e pronto a correr aos leitos de hospital, a qualquer hora da madrugada, para acordar nas camas de Lenora, Helena, quem fosse. Meu sonho era ver teus sossegados olhos se abrindo de supetão e ah, finalmente dando acolhida ao maravilhoso brilho do rancor, presos ao meu olhar tão despudoradamente confessional, ao meu rosto sóbrio não mais te mentindo – mas pronunciando devagar e sereno as pontiagudas sílabas feito inesperada admissão no tribunal de júri, de deixar juiz e advogado tontos: te traí, meu amor, tantas vezes e não, jamais eu perderia a conta. Foram cento e noventa e duas, sem contar as três que – o que vejo? O que vejo, por deus, senão um filete de sombra, um pequeno espasmo no canto da boca de Marcela? Um projeto de sorriso que já estaria lá e eu não havia ainda me dado conta? Assim como os olhos, que me guardavam desde sempre por baixo das pálpebras tão fingidamente assentadas? Quem finge o quê, aqui? Tento avaliar melhor o traço giocondo no canto daqueles lábios mas não consigo; a última coisa que vejo é Marcela esticando as sossegadas mãos para fechar a tampa do meu caixão. Tudo escuro.


Postado por Nelson Moraes às 11:44:39 | Literatices | 14 comentários





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Comentários:


Comentário de: Artur · http://url

Bravo!!

PermalinkPermalink 07.11.04 @ 13:04



Comentário de: Inagaki · http://www.pensarenlouquece.com

Muito, muito bom. M. Night Shyamalan deliraria com esse conto.

PermalinkPermalink 07.11.04 @ 13:50



Comentário de: Renato K. · http://pralademarrakech.blogspot.com

Cara, você é MUITO bom. Eu devia me envergonhar de chamar aquilo lá de blog.

PermalinkPermalink 08.11.04 @ 11:38



Comentário de: Renato K. · http://pralademarrakech.blogspot.com

E o comentário foi em dobro porque você é duplamente bom. Não, é porque o meu mouse tá uma meleca mesmo, sorry.

PermalinkPermalink 08.11.04 @ 11:40



Comentário de: Lucia

Caro Senhor dos Mares,
Conto assustadoramente bom!
Abração

PermalinkPermalink 08.11.04 @ 15:45



Comentário de: Nelson

No papel de Marcela, Julianne Moore. Sei, sei, ela já havia sido escalada também neste post. Viu o que você faz comigo, Julianne, you evil redhead?

PermalinkPermalink 08.11.04 @ 16:08



Comentário de: Marco · http://url

Não há nada a dizer senão isso: muito bom! Encabulantemente bom. Té mais.

PermalinkPermalink 08.11.04 @ 21:42



Comentário de: Suely · http://www.paznaterra.blogbrasil.com

Cento e noventa e duas? Podia ter sido cem para arredondar *rs


[]´s

PermalinkPermalink 09.11.04 @ 01:44



Comentário de: Edson Marques · http://mude.weblogger.com.br

Nelson,

Belíssimo contículo!

E eu fico pensando, como se fosse um colombo entusiasmado: por que não tive essa idéia (brilhante), antes?


Aliás, quem ama não trai: exerce a liberdade que o próprio amor concede!


Abraços, flores, estrelas...

PermalinkPermalink 09.11.04 @ 08:40



Comentário de: tiagón · http://www.verbeat.com.br/blogs/bereteando

Eu concordo com a Julianne Moore, se o Tim Burton dirigir. Ou o Jim Jarmusch.

E, por favor, Gary Oldman.

PermalinkPermalink 09.11.04 @ 12:05



Comentário de: ratapulgo · http://copy-paste.blogspot.com/

Karo Kowalsky,

O seu narcoléptico texto foi cremado no Copy & Paste.

meus pêsames,

PermalinkPermalink 10.11.04 @ 04:52



Comentário de: tesco · http://url

Pavoroso de bom.

PermalinkPermalink 10.11.04 @ 07:47



Comentário de: Clarice · http://url

Bem, chega o ponto em que o estoque de elogios se esgota e o jeito é ser repetitiva: Muito bom! Muito bom! Muito bom!
:}

PermalinkPermalink 12.11.04 @ 19:58



Comentário de: LorieWhite83 · http://panic-attack.uni.cc


PermalinkPermalink 11.01.05 @ 18:35



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