Espaços

Blog de Papel

Minúsculos Assassinatos

Um Defeito de Cor

Incompletos

Patinando com o Alter Ego

As aventuras do capitão presença

Virgínia Berlim - Uma experiência

Todas as festas felizes demais

Operação P-2 - Olivia Maia

Meias Vermelhas - Marcos Donizetti

22 de Julho de 2004

Contículos

ADVÉRBIOS, HENNA E UM BAITA INCÊNDIO


Pelo que sabemos as mortes teriam sido causadas pelo uso impreciso de um advérbio.


Vanderley apresentava um programa de entrevistas "culturais" no horário da madrugada, que dava traço de audiência – mais uma consideração da emissora à sua condição de repórter social decadente. Vanderley mantinha também o hábito de utilizar "literalmente" fora do contexto. "Estou literalmente cansado". "O cabelo de nossa entrevistada está literalmente mais curto". Isso inclusive sempre foi motivo de secreta chacota por parte da equipe do programa, dos técnicos à produção. Ontem à noite, ao entrevistar um professor de português aposentado, Vanderley teve – na conversa em off que antecedia a entrevista – a atenção chamada pelo intelectual, que em voz baixa lhe corrigiu o uso do advérbio: "Significa ao pé da letra. Não é sinônimo de 'realmente'. Serve para tirar de algum termo sua condição de metáfora. Se a palavra tem duplo sentido, o 'literalmente' vem acentuar que o termo está sendo usado em seu conceito original, denotativo." "Sei, sei", disse Vanderley entre circunspecto e constrangido, passando os dedos pelos cabelos avermelhados de henna. A entrevista seguinte foi com um cientista maluco que inventara um eletrodo a partir de água mineral. Uma faísca da engenhoca escapuliu, pegou na cortina do cenário, alastrou-se até o papel manteiga que cobria um dos refletores e que já estava superaquecido; o pequeno foco não pôde ser debelado e logo o estúdio estava em chamas. A porta por algum motivo não quis destrancar e o pânico irradiou-se tão rápido quanto as labaredas. Sem lembrar-se do número dos bombeiros, Vanderley só teve tempo de ligar de seu celular para a casa do produtor do programa – e, em meio ao torvelinho, um instante de auto-realização: utilizar corretamente o advérbio. A bateria do celular já acabando e ele só pôde gritar: "O programa está literalmente pegando fogo!" A ligação caiu e o produtor voltou a dormir, satisfeito, imaginando que a audiência deveria estar reagindo.


Postado por Nelson Moraes às 18:54:53 | Literatices | 10 comentários





Posts similares:
Chaves derruba mais um
Notícias que gostaríamos
(ou não) de ler

Anjo em Pânico!

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: Lucia

O texto está literalmente genial, caro almirante!
Abração

PermalinkPermalink 22.07.04 @ 19:14




q texto bom, vc é otimo. me sinto bem vindo aqui.

PermalinkPermalink 22.07.04 @ 21:08



Comentário de: MarcosVP · http://www.pirao.blogger.com.br

Esse texto é duca... mesmo na reprise...;-)

PermalinkPermalink 23.07.04 @ 11:58



Comentário de: Ju · http://palpite.zip.net

Muuuiitoooo bommmm!!! Você aprendeu com o Veríssimo?

PermalinkPermalink 23.07.04 @ 12:04



Comentário de: Nelson · http://www.praiadonelson.com

Lucia e Nanda: obrigados. A embarcação, penhorada (fomos obrigados; as dívidas contraídas por Starbuck, Flask e Stubbs com rum paraguaio e proxenetas taitianos excederam o limite do razoável), agradece. :-))) Beijão.

Marcos: é, ele já tinha sido publicado no Blog de Bolso. Mas aqui eu não me lembro. Já havia, também? Help me. Minha memória, como diria meu alter ego bilíngüe Jack Bridges, is going to the bag. Abração.

Ju: aprendi, sim. Mas, por puro controle de qualidade da franquia LFV, ele nega a influência. ;-) Beijão.

PermalinkPermalink 23.07.04 @ 12:20



Comentário de: tiagón · http://verbeat.com.br/blogs/bereteando

Ah, ajudo - já, já havia sido publicado aqui, Nérço. O que não significa que não valha a pena ler de novo, literalmen... opa, cliquei no comentário jurando pra mim mesmo que não ia fazer piadinha nem trocadilho. Melhor ir embora logo, que já me espera a minha liteira... ah, droga!

PermalinkPermalink 23.07.04 @ 13:56



Comentário de: Nelson · http://www.praiadonelson.com

Tiagón, compadre - gracias pela lembrança, pués. Fica registrado meu constrangimento aqui por submeter meus visitantes a essa reprise involuntária. Acho que quando transferi os arquivos do blog para o site de domínio próprio alguma coisa se perdeu. Além de minha vergonha na cara. À minha meia dúzia de quatro ou cinco leitores, it won't happen again. I promise.

PermalinkPermalink 23.07.04 @ 15:26



Comentário de: name Creuzodette · http://urldomesticaslivres.blogger.com.br

Sô Nérçu di Deus..! Que coiza maizi orroroza qui cuntesseu com ô coitadu homi? Ô ôtro homi qui tendeu ô telefoni num criditô nele, né mêz? Nossinhora, pareci inté veudadi. Ô sinhô inscrevi tão beim qui inté paressi cuntecimento di novela! Conta maizi istórias dessa, conta! Abrassus da Crê

PermalinkPermalink 23.07.04 @ 19:27



Comentário de: Fernando Cals · http://observador.blogbrasil.com

Oi, Nelson,
Literalmente fudido, o Vanderley!
A vida, é muito dura! Literalmente.
Abração
Fernando Cals

PermalinkPermalink 23.07.04 @ 22:52




muito bom!!!! e como os comentários com o uso da palavra "literalmente" já foram feitos, abstenho-me... abraço...

PermalinkPermalink 26.07.04 @ 14:07



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.