5 de Novembro de 2009
Entrevista: Jonathan Swift fala sobre o humor brasileiro atual
(As respostas a esta entrevista foram extraídas da obra “Panfletos Satíricos”, de Jonathan Swift – Editora Topbooks – Tradução de Leonardo Fróes. Os itálicos foram mantidos como na obra original)
Mr. Swift, por que é que no Brasil comediante stand-up anda proliferando mais do que humorista sem graça no Zorra Total? Você liga a televisão e dá de cara com um humorista stand-up. Vai almoçar com a família no Leitão na Brasa e tem lá um humorista stand-up. Eu mesmo nem vou mais a reunião de condomínio ou velório, por puro medo. O que explica essa pandemia?
A quem quer que tenha a ambição de se fazer ouvir, numa concentração de pessoas, é mister empurrar, apertar, abrir caminho e subir, com incansáveis padecimentos, até se pôr acima delas num certo grau de altitude. Ora, em todas as assembléias, por mais que os presentes se acotovelem, podemos observar este curioso fenômeno; qual seja, que sobre as suas cabeças há lugar de sobra; como chegar lá é que é o grande problema, sendo tão árduo se livrar da multidão como do inferno.
Nossos comediantes, ao entrevistar políticos e celebridades, trocam o tapão na cara pelo tapinha nas costas. Eles não estão deixando de ser críticos para se dedicar ao vôlei, tornando-se exímios levantadores de bola?
É fácil determinar a missão de um verdadeiro crítico, que é penetrar neste vasto Mundo e dar caça sem trégua às monstruosas imperfeições que nele são engendradas: arrastar para fora do seu covil os erros que se ocultam como Caco; multiplicá-los como as cabeças da Hidra; e amontoá-los como a bosta nas estrebarias de Áugias.
Então nosso humor chapa branca tomou mesmo as cotas do humor negro?
Uma prova irrefutável são as famosas amabilidades trocadas nesses últimos anos. Mal podem aparecer uma peça ou um panfleto sem agradecimentos pela acolhida geral e os aplausos que lhes forem dispensados, sabe lá Deus onde, ou quando, ou como, ou de quem foram recebidos.
O senhor poderia fazer uma radiografia do típico humorista brasileiro de hoje? Pela UNIMED, por favor, para que esta entrevista nos saia mais em conta.
Pouco importa que ele tenha a cabeça vazia, desde que tenha cheio o seu Caderno de Trechos para Citação; e se você lhe reduzir as Circunstâncias de Método, e Estilo, e Gramática, e Inventividade, mas permitir-lhe os privilégios comuns de transcrever de outros, não mais ingredientes ele irá desejar a fim de compor um tratado que fará bela Figura.
O que fazer então com esse contingente de comediantes? Porque parece que o mercado de bucha de canhão já foi todo tomado pelos chineses.
Não descerei a tais minúcias, a ponto de insistir no vasto número de dândis, poetas, rabequistas e políticos que o mundo poderia recuperar por uma reforma assim; mas o que é mais essencial, além do claro ganho que adviria à comunidade, por tão grande aquisição de pessoas para empregar, cujos talentos e capacidades acham-se agora mal aplicados: é que dessa investigação decorreria para o povo um colossal proveito.
Bom. Suas considerações sobre esta, er, entrevista.
Já verifico que no meu Caderno de Citações as saídas começam a sofrer vultoso aumento em relação às entradas. Por conseguinte, farei aqui uma pausa, até descobrir, sentindo o pulso do Mundo e o meu também, que seja de absoluta necessidade para ambos eu retomar a minha pena.
(Retomar a pena, claro, para assinar a procuração judicial a ser movida contra este blog por captação não-autorizada dos trechos. Vê-se que o contagiante e sestroso espírito do humor brasileiro, movido a processos e pedidos de reparação, já acometeu Mr. Swift. Este blog interrompe assim as transmissões e sai à irlandesa)
22 de Outubro de 2009
Fábula: Declínio e Queda de uma Máscara

Era uma vez, nas coxias de um night-club, uma máscara do Groucho Marx que, cansadíssima de ser utilizada por comediantes que a colocavam para se anunciar groucho-marxistas – como se tivessem acabado de inventar a piada –, resolveu se disfarçar, tirando os óculos e tascando um aplique no bigode, para passar despercebida e não penar mais.

Até um comediante achá-la a cara do Nietzsche, passar a mão dela, colocá-la e dizer Deus morreu e eu também não ando me sentindo muito bem! A máscara, desesperada, conseguiu escapulir, tirou a sobrancelha e radicalizou no aplique, com tintura branca.

Só que aí foi pega por um comediante que a colocou e disse Quem morreu agora, Nietzsche? Quem?? Na terceira tentativa de fuga, a máscara tentou se recompor mas só teve tempo de colocar de volta a sobrancelha.

Isso porque um humorista passou a mão nela para usá-la dizendo Pronto, agora sou o Marx original. Chupa, Groucho! Mais uma vez a máscara conseguiu fugir – e finalmente voltou à sua primeira configuração.

Mas aí o night-club foi alugado por uma noite para uma troupe de stand-up brasileiro. A máscara ficou lá na coxia mesmo, preterida por centenas de alusões a viados, empregadas, nordestinos, gordos, anões, louras burras e cornos. A máscara acabou se sentindo abandonada. Tem gente que nunca, nunca está satisfeita.
2 de Outubro de 2009
O Stand-up de Deus

(...) Bom, em breve vocês vão dar pela minha falta. Ou talvez até antes, se esse stand-up for um fracasso e me tirarem à força aqui do palco (risos). Mas como eu dizia: vou dar uma sumida. Não que eu vá deixar de existir, não. Eu não ia dar essa alegria ao Richard Dawkins. Ele já anda rindo o suficiente com o dinheiro daqueles malditos bestsellers (risos). Aliás, ateu famoso comigo é assim: já matei o Carl Sagan com um tumor, já mandei uma distrofia muscular pro Stephen Hawking, esperem para ver a hemorróida dos diabos que estou preparando pro Dawkins (risos). Bom, direto ao assunto – vou sumir porque preciso entrar no Programa de Proteção às Testemunhas. Claro: o Obama, depois de dizer “Yes we can”, fala “Deus é testemunha”. O Ahmadinejad, após anunciar que o programa nuclear iraniano só tem fins pacíficos, fala “Deus é testemunha”. O Ministro da Educação brasileiro, ao dizer que o ENEM é o substituto perfeito para o Vestibular, fala “Deus é testemunha”. Assim eu acabo no descrédito total, caramba! (risos) Justamente pra evitar mais danos ainda à minha imagem é que vou sumir e adotar outra identidade. Certo, certo, outra que não seja o Filho e o Espírito Santo (risos). E acaba de me ocorrer que o único perigo é as Testemunhas de Jeová aproveitarem pra requisitar também a proteção do programa (risos). Já pensou? Eu poderia até dizer que o Michael Jackson, que era a testemunha de Jeová mais famosa do mundo, fingiu a morte só pra poder entrar no programa e limpar a ficha policial dele – mas, francamente, piada com o Michael Jackson nem eu aguento mais (risos). Bom, então é isso. Adeus. Mesmo incógnito, eu mando um postal de onde estiver. E se ele vier de todos os lugares, não reparem: é que eu tive uma recaída (risos).
15 de Setembro de 2009
Dos ex-blogueiros
Ex-blogueiro é lenda urbana, assim como o pesquisador do IBOPE e o leitor de O Imbecil Coletivo. Me aponte um ex-blogueiro e eu te direi que é falta de polidez apontar o dedo para uma entidade tão, sei lá, mítica. As crianças de hoje já estão se acostumando a encarar, como rito de passagem, a efetiva inexistência de três instituições, pela ordem: Papai Noel, o ex-blogueiro e o Estado provedor. Uma vez espalharam por aí que haveria, perdido no obscuro emaranhado das infovias, um jacaré albino. Webmasters escarafuncharam e deram de cara com – oquei, oquei, já está perdendo a graça – um ex-blogueiro. Ex-blogueiro é igual ex-veado ou ex-político: ele divulga que vai largar a coisa, ops, e recebe de todos os lados um calorosíssimo “arrã”. Ex-blogueiro só presta mesmo para servir de ideal atingível quando se publica um post sobre os estilismos onomatopaicos do texto de Joyce e se obtém de comentário “kkkkkk, e ela soh fala da Gisele Bündchen no site dela. Ah, o q eh onomatopaicos?” O hiato entre um ex-blog e um blog novo é o mesmo tempo que o Al Pacino leva para dizer “Just when I thought I was out, they puuuull me back in!!!” Ex-blogueiro e mãe só mudam de endereço. Ele anuncia que vai fechar o blog já pensando no primeiro post do endereço novo que abrirá daqui a três, quatro semanas: “É, com essa história da compra dos caças franceses não deu mesmo pra eu ficar quieto”. Em verdade, em verdade vos diria que ex-blogueiro legítimo é só mesmo blogueiro morto, mas tem quem creia em metempsicose – e aí a porta USB é mais embaixo.
28 de Agosto de 2009
Bigode do cantor Belchior é visto sobrevoando o Sertão do Cariri

O bigode foi fotografado pelo cantor Ednardo,
que também anda sumidão e pediu para não ser
identificado.
Populares do Sertão do Cariri afirmaram ter visto ontem o que pode ser o bigode do cantor Belchior, sobrevoando a área a aproximadamente 50 metros de altura. Técnicos do Ministério da Aeronáutica preferiram não confirmar se o objeto voador seria de fato o adorno facial do cantor cearense: “Pode ser um balão meteorológico, a sobrancelha do Elias Gleiser ou os novos pentelhos da Claudia Ohana”, afirmou o técnico Endauro Rebouças, que pediu para não ser identificado. Para os populares, a observação do objeto voador talvez seja um indício de que o cantor não sumiu do mapa, ao contrário do que se diz. “Basta olhar o Pico da Neblina, para vislumbrar o nariz dele, e o município de Taquaral Rachado, em SP, para ouvir sua voz”, opinou o geógrafo Laimar Massinha, que pediu para não ser identificado. No entanto, a opinião corrente é que, por ter sido trending topic no Twitter já há quatro dias, o assunto, assim como a carreira do cantor, está esquecido.
6 de Agosto de 2009
Antes ela do que eu
– Ih: a metalinguagem já era.
– Olha, eu concordo que como recurso ela já deu no saco, mas dizer que acabou é ...
– Não. Eu disse que ela morreu mesmo. Ali, na esquina da Nóbrega com a Tenente Firmino, quando ia saltar do ônibus. A sandália ficou presa na porta, aí ela caiu de cara no meio-fio e pimba. Diz que ainda deu umas tremidas na perna, até chegar a ambulância. Acabou morrendo no caminho.
– Hm. Eu devia saber. O próprio título aí em cima não deixa de ser um presságio irônico. Quer dizer que a partir de agora esse nosso diálogo metalingüístico, sobre a ciclotimia das tendências literárias, e repleto de auto-referências, deixa de existir.
– Tá. Mas o que a gente faz?
– Bom. Comecemos admitindo então que não estamos mais no diálogo, uai. E que nossos travessões a partir de agora ficaram obsoletos.
– Que travessões?
– Esses aqui, antes da fala.
– Ah.
– Aliás, nem sei o que fazer com eles.
Não seja por isso: olha aí!
– Queisso?
Ué. Subi no travessão: tou usando de skate. E dá licença, dá licença que eu vou barbarizar nessa rampa aí, ó. Ai, ó, brôu!
– Caramba. Não era rampa. Era o cê do meu “Caramba”. Quase me acertou. E deixa de falar brôu; isso saiu de moda junto com a metalinguagem.
Opa, desculpa. Olha, tenta você também. É fácil.
Ooooooooops \ Ai! Não, não dá certo. Não levo jeito, não. Sou muito velho pra isso.
Então aproveita que você se machucou e usa seu travessão como bengala, ué!
| Ei. Tem razão. Olhaí. Eu agora tenho uma bengala. Tchururu.
Chique no úrtimo, brôu.
| Peraí. Você fica se equilibrando descompromissadamente no seu skate, eu posando de lorde com minha bengala... O problema é que com isso acabamos incorrendo na metalinguagem e dando andamento ao enredo!
Ah, pára.
| Sério! Olhaí: mesmo morta ela faz questão de deixar claro que fora dela não tem trama possível! Não podemos ceder. Não podemos. Precisamos lembrar que essa história não existe mais, caramba: temos que parar de interagir com os elementos constitutivos do texto! Precisamos deixar de acontecer.
Uai. Certo.
| ...
...
| ...
...
| ...
...
| ...
...
| ...
...
| ...
... \
| ...
... \ _
| ...
... \ _ | _ /
| ...
... \ _ | _ / _ \ _ | _ / _ \ _ | _ /
| Mas... o que é isso, agora?!?
Malabarismo com os travessões, ué. A gente não tava usando mesmo.
| Dá pra parar?
Ah, ficou o maior tédio, aqui! Você olha e...
| Pssst! Não dialoga diretamente comigo. Não podemos fazer sentido! Disfarça e fala baixo. Fala baixo.
Tá. O lance é que isso de não acontecer acaba ficando um pé no saco, e...
| É, eu sei.
É, eu sei.
| Por mim eu punha agora um ponto final na história, mas seria sucumbir de novo à metalinguagem.
Por mim eu punha agora um ponto final na história, mas seria sucumbir de novo à metalinguagem.
| Você tá me imitando?
Você tá me imitando?
| Pára com isso!
Pára com isso!
| Pára, caceta!
Ué, não é pra falar baixo, neguinha?
| Escuta, a cada vez que você fala, ou faz sentido, ou tece uma situação, só piora tudo!
Ah, bobagem. Precisamos é passar o tempo. Ei, que tal ficar sem respirar até a fonte do texto ficar azul? Ou concurso de salto à distância com travessão? Não é porque a metafísica morreu que a gente vai ficar borocoxô, e...
| Peraí. Você disse... metafísica?
Ahn. Er.
| Foi a metafísica que morreu?!?
Uai. Me disseram que tinha sido uma meta-whatever aí. Nem reparei direito.
| Caraaaaaaaaaamba, eu devia saber! Eu devia saber! A metalinguagem não estava descendo do ônibus! A metalinguagem era o ônibus! Eu devia saber!
Ué. Se você diz...
| Aliás, dá licença.
O quê?
– Pronto. Voltei o travessão pro lugar dele. Agora tenha a gentileza de fazer o mesmo.
Ah, brôu, eu vou ficar aqui mesmo, ó.
– Desce desse skate agora mesmo! Vamos retomar nosso conto metalingüístico. E brôu não é gíria de skatista!
Vai, deixa eu ficar aqui. Ó, ó, dá pra fazer uns flips radicais nas falas, e...
– Põe esse travessão na frente de sua fala agora mesmo, ou...
Ou o quê?
– Eu dou um jeito de transformar suas falas em diálogo indireto!
Nhemnhemheitoehnhemformahemfalanhemnhiálogonhehnidireto...
– Como é?!?
– Nada. Nada não.
16 de Julho de 2009
A Criação do Mundo, vista pelo Manhattan Connection
( Prólogo )
LUCAS MENDES ( para a câmera ): Em Saturno, vão-se os anéis e ficam as ênclises. Em Vênus, avistar o monte a olho nu só pode dar sacanagem. Em Mercúrio, o Sol é para todos - literalmente. Na Terra recém-criada, um jardim, uma macieira e uma descoberta de extrema gravidade, e não, não falamos de sir Isaac Newton. Aqui, na conexão, os quatro cavaleiros do Apocalipse que falarão mesmo é do Gênesis: Caio Blinder, Diogo Mainardi, Ricardo Amorim e Pedro Andrade.
( Entra a abertura, com a musiquinha que lembra show erótico, e o vocal masculino sussurrando algo que soa como “I’m demented, I’m demented”. Volta Lucas Mendes )
LUCAS MENDES: Nesta semana foi criada a Terra, e ontem Deus já parou pra descansar. ( para Caio Blinder: ) Isso mostra que Deus é brasileiro?
CAIO BLINDER: Bom, quem odeia o Brasil irá concordar que isso demonstra a lassidão dos trópicos. Quem gosta do Brasil verá nisso a magnificência de ser brasileiro, e...
DIOGO MAINARDI ( em off ): Isso, Caio. Explica a piada, e desenha, também, pro Lula colorir.
CAIO BLINDER ( risadinha nervosa ): Eu faria isso se você não me interrompesse a todo momento ( volta-se para Lucas Mendes: ) O caso é que Deus pode ter se naturalizado brasileiro mas na verdade é israelense. Assim, não vai faltar quem diga que isso tudo é lobby judaico para dominação do Éden. ( outra risadinha nervosa )
LUCAS MENDES: Ô, Ricardo. Por que Deus foi criar justo a Terra?
RICARDO AMORIM: Olha, Lucas, tem que ver a conjuntura. O negócio é que Deus pensou grande e criou primeiro Saturno - mas a construção dos anéis acabou superfaturada, e isso começou a sugar a verba feito um buraco negro. Como planeta é commodity, as ações sofreram uma queda acentuada, desestabilizando a liquidez e gerando boatos de quebra no mercado financeiro. Foi para abafar isso tudo e desviar a atenção que Deus criou a Terra.
LUCAS MENDES: Ô, Diogo. Por que os anéis de Saturno foram superfaturados, hein?
DIOGO MAINARDI: Bom, o escândalo do anelão foi surpresa só pra quem não acompanha o noticiário. Quem leu minha coluna na Veja de dois meses atrás sabe que só tinha lulista na licitação. Agora, claro, os governistas vão dizer que a CPI de Saturno é golpe.
CAIO BLINDER ( em off ): Diogo, pra Paulo Francis só estão faltando as penas, hein?
DIOGO MAINARDI: Que penas, Caio?
CAIO BLINDER: As penas pro crime de calúnia e difamação, depois do processo da diretoria da Petrobras! ( Cai na risada. Nervosa )
( Diogo diz que Caio melhorou muito as piadas, o que já não aconteceu com as opiniões; Ricardo diz que Diogo está se esquecendo das licitações cósmicas na era FHC – falam todos ao mesmo tempo, igual a um Saia Justa de cuecas )
LUCAS MENDES: ( pondo ordem na casa ) No próximo bloco, uma maçã que deu o que falar – e não, não falamos da administração Bloomberg. Enquanto isso, fiquem com cenas de “Seis dias que abalaram o Mundo”, mostrando a Criação, dia a dia: a luz, as águas, a terra, as plantas, os animais e o homem, ao som de Begin the Beguine, de Cole Porter. Angélica, no princípio eram as trevas?
( Entram as cenas que Lucas anunciou, com a trilha. Corta para os comerciais. Entra novamente a musiquinha pornô. Volta o bloco )
LUCAS MENDES: No princípio era o verbo. Depois entrou o sujeito oculto. Ele trouxe uma maçã, pra testar os predicados de Eva. Que ficou cheia de reticências, e...
DIOGO MAINARDI ( em off ): Ô, Lucas. Quem redige esses textos aí é o Caio...?
CAIO BLINDER ( risadinha nervosa ): Caramba, o Diogo deve ir dormir pensando em mim.
DIOGO MAINARDI: Penso, sim. Os carneirinhos já não estavam mais tão monótonos.
LUCAS MENDES: ( retomando a palavra ) Bom, como eu ia dizendo, uma maçã pôs tudo a perder. Adão e Eva perderam o paraíso, Deus perdeu a confiança na raça humana e o redator da Bíblia perdeu a paciência, porque a partir daí ele pula direto para a Arca de Noé. Ô, Ricardo, pode uma maçã fazer isso tudo?
RICARDO AMORIM: Claro que pode, Lucas: a maçã, uma valiosa commodity numa monocultura como era o caso do Éden, estava supervalorizada. Quando ela caiu na cotação agrícola, por causa da serpente, o spread negativo puxou pra baixo todo o segmento de hortifruti, que é o setor produtivo mais presente no Gênesis. Depois disso, só o dilúvio mesmo.
( Entra outro momento Saia Justa porque Diogo Mainardi acha que a pecuária é que é o setor mais produtivo do Gênesis, e que isso de privilegiar a lavoura é coisa de esquerdista; Caio Blinder entende “skatista” e, com uma risadinha nervosa, pergunta o que será então que os surfistas acham; Ricardo Amorim afirma que ele mesmo faz trekking, mas não vê correlação entre as coisas; Lucas Mendes mais uma vez põe ordem na casa, anunciando o próximo bloco. Entra musiquinha pornô etc, volta musiquinha pornô, entra de novo Lucas Mendes )
LUCAS MENDES: Nosso correspondente no jardim do Éden, Pedro Andrade, fala agora dos melhores points turísticos do local, além da culinária. Pedro, Eva viu a uva?
( Pedro Andrade aparece seminu, trajando só uma gravata e uma folha de parreira. Ao fundo, o Jardim do Éden )
PEDRO ANDRADE: Claro que viu, Lucas: afinal, foi da parreira que ela tirou a folha pra se cobrir. Mas Eva viu também o potencial da maçã. A partir daí, a culinária no paraíso nunca mais foi a mesma. Eu mesmo já provei, aqui no Heaven’s Gate - o restaurante mais descolado do Éden - todas as especialidades de appfelstrüdel, e falei com o casal de proprietários, que garantiram que não experimentar é que é um pecado.
( Pedro Andrade então começa a conversar em hebraico com Adão e Eva. Os dois falam ao mesmo tempo, com tradução simultânea de Pedro, em áudio sobreposto. O casal passa a discutir acaloradamente porque Eva quer inventar uma nova utilidade para a maçã, que é colocá-la na boca de um porco assado, mas Adão argumenta que isso não é nada kosher. O clima esquenta. Eva acusa Adão de não ter visão comercial. O Anjo Gabriel entra no meio com a espada de fogo. Pedro prudentemente sai de cena, mastigando um naco do pernil e fazendo sinalzinho de aprovação para a câmera. Fecha o bloco. Música pornô, comercial, música pornô. Volta o estúdio )
LUCAS MENDES: Bom, já que o assunto do programa é a Criação, e mais especificamente, o Todo-Poderoso, a pergunta da semana é: Paulo Francis morreu?
DIOGO MAINARDI: Morreu pra você, âncora ingrato. Pro Caio ele continua lá, puxando o pé até hoje.
CAIO BLINDER: E continua tendo o saco puxado pelo Diogo. ( risadinha nervosa )
LUCAS MENDES: Ô, Ricardo. Numa visão macroeconômica, você acha que foi o Paulo Francis que criou o mundo?
RICARDO AMORIM: Olha, Lucas, só se foi num dia em que ele estava com baixa auto-estima...
CAIO BLINDER: O Francis, com baixa auto-estima?!?!? ( risadinha histérica )
RICARDO AMORIM: ...o que prova matematicamente que Deus não existe.
( Mediante a conclusão, a GNT deixa também de existir e o programa sai do ar. É o fim do mundo )
3 de Julho de 2009
J. Cesário, revisor particular
Era sexta-feira. Ela entrou em meu gabinete puxando uma corda. Na ponta da corda o focinho de um cavalo, depois a cabeça do cavalo, até o cavalo inteiro entrar e ocupar quase toda a sala, bufando perdigotos espumentos e trazendo, na sela, um sujeito de óculos escuros, aparentemente cego, que ainda bateu a cabeça umas duas vezes no batente até abaixar-se para poder passar pela porta.
– Veja a situação do meu chefe – ela disse, a voz mais descolorida que o cabelo.
Ao invés de perguntar “Qual dos dois?”, suspirei e a corrigi:
- Se você se refere a cela de cadeia, é com cê. Não com ésse.
Imediatamente a configuração cavalo-homem-corda se converteu na foto do mesmo sujeito, agora atrás das grades de uma cadeia. Ela me mostrou a foto, no celular dela.
– Ele é craque em marketing. Sabe o Cristo Redentor? Pois é. Ele vendeu a vista pruns japoneses.
– É com crase. – e frisei: – Aá. Ele não vendeu a vista, e sim à vista.
Subitamente os óculos escuros sumiram da foto do sujeito, que passou a ostentar um par de brilhantíssimos olhos castanhos. Mas não muito convencidos da competência da mensageira. A loira descolorida tirou um bilhete desamassado da bolsa e me entregou. A letra era cursiva e demonstrava uma certa urgência:
Caro J. Cesário. Acho melhor eu mesmo falar. Você já deve ter notado que a Betânia aí não passou um retrato muito fiel da situação. Literalmente. Usei certo o advérbio? Bem. O problema é que eu sou diretor de criação de uma grande agência de propaganda e, ontem, apresentei uma campanha para o Ministério do Turismo. Comecei explicando que tínhamos que vender o Cristo Redentor como um ícone não só do Rio, mas da América Latina. Nesse instante o Assessor do Ministro levantou-se da mesa, deu um tapa na testa e afirmou ter adorado minha idéia de vendermos o Cristo. “Amanhã chega uma missão japonesa, e eles não hesitarão em pagar em dólar, cash! Dá pra construirmos a nova sede da Embratur!” Como ele disse que a minha agência teria comissão, concordei. O problema é que, no dia seguinte, ao redigir um cartaz de boas vindas para receber os compradores no aeroporto, me veio a dúvida se agora, depois da Reforma Ortográfica, ‘bem vindos’ é com ou sem hífen. Fiquei visivelmente travado e, como sou publicitário, a polícia federal achou que era por causa de pó. Abuso semântico de autoridade, você sabe. E então, J. Cesário? Só sua revisão poderá esclarecer tudo e me livrar daqui.
Pensei em tirar os pés da mesa, para que a descolorida não reparasse na sola solta do meu sapato, mas como para ela “sola” seria com cê cedilha, e sem a cedilha, no fim das contas cola acabaria é resolvendo o problema. Mantive os pés na mesa.
– Olha – falei. – Os especialistas em língua portuguesa ainda não acordaram se o hífen sai ou não. A utilização permanece facultativa.
Ela sacou o celular e ligou para o patrão:
– Ele acabou de dizer que quem resolve isso ainda está dormindo.
Deu para perceber – até ouvir, eu diria – a reação do publicitário, à qual ela reagia, a cada frase, ora afastando um pouco o celular do ouvido, ora comprimindo um tantinho os olhos. Por fim falou:
– É. Eu sou mesmo. – e desligou.
Ela então se converteu numa mula – com a crina descolorida –, suspirou fundo e saiu em passo miúdo da sala, sem nem perguntar quanto seriam meus honorários. Olhei para o chão e fui pegar a pá e a vassoura, pensando seriamente que, na atual conjuntura gramatical, eu ganharia mais trocando o Revisor Particular pintado na minha porta por Recolhedor de Dejetos Equinos.
Sem trema.
19 de Junho de 2009
STF derruba a obrigatoriedade do diploma para blogueiros
Blogueiro diplomado e desolado: “E agora,
que utilidade eu dou ao meu canudo? Só se
for pra chupar conteúdo de outros blogs!”
Em sessão extraordinária, os ministros do Supremo Tribunal Federal, em mais um lance controverso, decidiram dar vitória por pontos ao ministro Joaquim Barbosa numa luta de jiu-jitsu com o ministro Gilmar Mendes. No intervalo entre o terceiro e o quarto rounds, Mendes, para relaxar, julgou e decretou improcedente a obrigatoriedade de diploma de curso superior para a profissão de blogueiro. Imediatamente começaram os protestos no aludido segmento. “Levei 5 anos cursando o IUB - Instituto Universitário Blogueiro!”, declarou Canábio S. Ativo, dono do blog Prensar Enlouquece, cujo conteúdo mostra a dificuldade que é processar fumo alternativo nos dias de hoje. “Poderia ter aproveitado esse tempo criando perfis fake para esculhambar blogs que reivindicam a legalização, o que acaba com nosso negócio!” Já Bertrand Croupier, webmaster do portal Apostas, que trabalha com pôquer online valendo dinheiro, viu-se duplamente prejudicado: “A Polícia Federal fechou meu blog e o STF invalidou meu diploma. Só falta agora cassarem minha carteirinha de sapo!” O proprietário do blog Molhar o Biscoito Afina e é Massa, John Holmes Long Silver, que posta vídeos de sexo explícito protagonizados pelo próprio, alisou seu enorme membro e deu o depoimento: “O meu canudo eu garanto”. Uma nota emitida pelo SPAM (Sindicato dos Postadores Adeptos da Manha) conclamou a categoria para uma passeata de blogs em frente ao site do STF, mas o Sitemeter registrou pouquíssimos acessos à manifestação. E o que é pior – ninguém deixou comentário.
17 de Junho de 2009
A Perigosa Facção dos Aspeiros Digitais
Todo cuidado é pouco com quem faz aspas com os dedos. No quesito periculosidade a facção dos aspeiros digitais só se iguala ao destacamento da viração (pessoas que dizem o tempo todo “então eu virei e falei assim...”, deixando claro que a tática é fazer com que os interlocutores percam o rumo da conversa tentando adivinhar para que lado eles se virarão na fala seguinte – “ops, agora foi para a direita e eu achando que era a esquerda; droga, agora ele fez que ia virar e não virou”) e a brigada da pegação (os que vivem dizendo “então eu peguei e falei...”, onde se denotam insofismáveis intenções apalpatórias, o que impede que os interlocutores prestem atenção à conversa por se preocuparem o tempo todo em proteger a genitália e encostar o traseiro na parede).
Os aspeiros digitais são a ponta do iceberg da crescente onda de terrorismo gesto-dialogal. À parte as intenções subliminarmente insidiosas (por exemplo, quando o aspeiro acena com os dedinhos no meio de um Pois não é que o consagrado blogueiro Reinaldo Azevedo blablabblalá? e aí você percebe que as aspas não foram para consagrado nem para blogueiro – mas justamente para Reinaldo Azevedo, o que realimenta a suspeita de que o nome seja mesmo o pseudônimo que o Paulo Henrique Amorim usa nos dias ímpares), a verdadeira ameaça consiste nas subdivisões da facção, que já vinham sendo preparadas em campos de treinamento secreto e que se encontram de prontidão para infiltrar-se na vida civil.
Teremos, assim, os travessudos (que reproduzirão diálogos fazendo travessões com os dedos antes das falas - se bem que os mais refinados partirão para o estilo anglo-saxão, utilizando aspas mesmo, o que confundirá o interlocutor incauto que, coitado, detectará o tempo todo uma ironia inexistente na fala deles), os italizantes (dialogueiros que para imprimir o itálico no que dizem – em citações de obras ou termos estrangeiros – inclinarão abruptamente a cabeça para a direita, o que proporcionará torcicolos homéricos aos interlocutores que tentarem acompanhar o raciocínio) e os paragrafiteiros (que ao sinalizar a mudança de parágrafo darão saltinhos para a esquerda, derramando vinho no tapete branco do anfitrião e fazendo com que os interlocutores, para não perder a conversa, acabem indo parar no hall, perto da escada de incêndio). E não acabou: virão também, para desestabilizar qualquer tentativa de diálogo, os ponto-e-virgulinos (que nos meios virtuais já andam sendo apelidados de “dot comma”) e os caixa-alta (terroristas dialogais de afortunada posição social – só para vermos aonde chegou a infiltração).
Aliás, registre-se o caso de uma conhecida socialite militante da vanguarda do parêntese, que dia desses, num badalado evento de moda, ao discorrer sobre o que ela ainda procura no homem ideal, fez o gesto afastando as palmas das mãos – pormenorizando alguma assertiva, por certo – e causando frisson entre os presentes. Mas imediatamente o namorado, ponto-finalista praticante, a retirou da rodinha. E fecha esses parênteses todos aí, porque eu falava era de aspas, caramba.

















