Vem aí os mestrados profissionalizantes em jornalismo

23Jun
2009

O fim da obrigatoriedade do diploma acabará com a qualidade e credibilidade das informações na mídia? Ainda que possamos encontrar desequilíbrios nestes primeiros anos, não acredito que isso seja o derradeiro destino. Certamente as instituições jornalísticas não arriscarão seus investimentos e não abrirão tamanho flanco para a ação de seus concorrentes. E, com a disponibilidade de informações na rede (em diferentes periódicos, blogs, rádios e TVs online do mundo inteiro, além de acesso direto a sites das fontes primárias), ou os veículos jornalísticos oferecem informação relevante, bem trabalhada e atualizada, ou de fato tendem ao desaparecimento.

jornalistaDe fato, a situação dos empregos e salários no Brasil dificulta a equiparação de nosso jornaslismo com o de outros países desenvolvidos onde o diploma não é exigido (como EUA e França). Apesar das diferenças, ainda estou otimista que o jornalismo de qualidade resistirá.

Para ser um bom jornalista não basta saber escrever bem, ter publicado romances, ser bom fotógrafo ou ter participado de festivais de vídeo. Por outro lado, não concordo que só será bom jornalista quem tiver cursado a faculdade de comunicação. Mesmo assim, reconheço que a formação que damos para nossos alunos na Faculdade de Comunicação faz diferença sim. Acredito realmente que a boa formação ainda será decisiva para a contratação e manutenção de profissionais nos quadros dos veículos jornalísticos.

Entendo a revolta de muitos alunos de jornalismo (principalmente de caras faculdades particulares). A sensação é de que perderam tempo e dinheiro. Mas a formação que receberam, isso ninguém lhes tira. Tenho certeza que apesar do fim da obrigatoriedade do diploma, ele ainda fará diferença; principalmente aqueles emitidos por faculdades de renome. Já os diplomas de jornalismo de instituições de esquina... esses talvez sirvam apenas para enfeitar paredes.

Algo que vai mudar nas redações e nas faculdades de comunicação é a presença de profissionais com graduação em outras áreas. Imagino que em pouco tempo os mestrados profissionalizantes em jornalismo começarão a aparecer. Até o momento, os programas de pós-graduação em Comunicação não tinham manifestado interesse nesse tipo de mestrado, apesar dos incentivos da Capes. Mas agora, com o fim da exigência de graduação em jornalismo, creio que haverá uma demanda importante por cursos de pós-graduação em jornalismo. Não tenho dúvida que as universidades particulares serão as primeiras a oferecer esse tipo de curso profissionalizante.

Será que se bons sociólogos, historiadores, economistas, cientistas políticos, professores de educação física cursarem esse tipo de programa de pós-graduação em jornalismo não poderemos ter boas surpresas quando ingressarem nas redações do Brasil? É pagar para ver.

O fim da obrigatoriedade do diploma é a morte do jornalismo no Brasil?

18Jun
2009

Certamente o fim da obrigatoriedade do diploma, decidido ontem no STF por 8 votos a 1, não porá fim ao jornalismo no Brasil. Neste debate precisamos separar duas discussões que não são exatamente a mesma coisa. As reflexões sobre o jornalismo e sobre o status da profissão de jornalista demandam argumentações em separado. Apesar da clara inter-relação entre as reflexões é capcioso afirmar que a não exigência de diploma acabará com a qualidade do jornalismo como um todo.

Ainda que se goste muito de elogiar o jornalismo americano e francês, prefere-se esquecer que lá o diploma em jornalismo não é pré-requisito para o exercício da profissão. Sobre essa condição, que se repete em dezenas de outros país, vale a pena ler este estudo realizado pelo professor Afonso Albuquerque.

Vamos ser sinceros, no Brasil o debate tornou-se por demais corporativista. Apesar da falaciosa campanha da Fenaj de que o fim da obrigatoriedade do diploma seria uma ameaça à democracia, a sociedade terá muito a ganhar com tal liberdade. Além de repetir o risco democrático que a liberdade de expressão pode acarretar (pasmem!), O presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), Sérgio Murillo Andrade, ainda lançou ontem esta pérola: "Foi um milagre o Supremo não nos proibir de exercer o jornalismo no Brasil" (veja íntegra da matéria da Folha de São Paulo). Sinceramente, os argumentos falaciosos de Andrade e da Fenaj acabam colocando em dúvida a seriedade de toda uma categoria. Ou os filiados concordam com a retórica distorcida de seu presidente?

Precisamos reconhecer que os salários de jornalistas nunca foram muito bons. E o volume de vagas cada vez se mostra mais insuficiente. Tal cenário inspira a reação à entrada em cena de profissionais com diplomas em outras áreas (ou até mesmo sem diploma!). Mas, como um defensor da liberdade de expressão, sou otimista. Apesar de potenciais deslizes nos primeiros tempos, acredito que o jornalismo no Brasil irá melhorar.

Dizer que o webjornalismo participativo, que blogs e que o fim da exigência do diploma representa a morte do jornalismo é assumir que o mesmo é muito frágil, o que não é verdade. O que morre é uma concepção antiga de jornalismo. Infelizmente, trata-se de uma área cheia de preconceitos. Diplomados preferem virar a cara para ex-colegas que trabalham em assessorias de imprensa: "Ora, isso não é jornalismo", dizem. É preciso abandonar visões essencialistas que querem fazer crer que só existe um tipo de jornalismo: o hard news da Folha de São Paulo!

Tampouco acredito que a decisão do STF acabe com as faculdades de jornalismo. Apesar de jornalistas odiarem ser comparados com publicitários (preferem se comparar com médicos, advogados e engenheiros), esta categoria nunca precisou mostrar diploma em qualquer agência. Mesmo assim, tais empresas vem sistematicamente empregando apenas diplomados. Sou convicto, portanto, que uma boa formação pode garantir um bom exercício da profissão. Logo, apesar dos rumores distribuídos pela Fenaj, acredito que a formação universitária em jornalismo melhorará com este baque (ela precisa melhorar!) e que fará diferença nas entrevistas de emprego. Espero também que os alunos de jornalismo ampliem seu interesse pelo estudo amplo e continuado.

Nos últimos anos ouvi em congressos a defesa de que o jornalismo deveria ser uma ciência autônoma e que profissionais e pesquisadores de outras áreas não deveriam estudar ou opiniar sobre jornalismo por falta de preparo. Torço que a decisão do STF realmente levante a poeira e mostre o que embolorava por baixo. Torço para que o debate nacional sobre jornalismo (e não simplesmente sobre jornalistas) se amplie. Espero não estar enganado, mas suspeito que o jornalismo começou ontem a ser reinventado. E que bom quando uma área se movimenta e se atualiza!

Blogs X jornais: o debate Steven Johnson X Paul Starr

13Mai
2009

A Folha deste domingo publicou a tradução de um debate travado entre os jornalistas Steven Johnson e Paul Starr sobre internet e jornais. Na maioria dos debates tendemos a escolher com qual parte concordamos. Neste, contudo, é preciso reconhecer a pertinência dos argumentos dos dois lados. O que pretendo neste post é justamente discutir algumas idéias.

Antes de mais nada, é preciso descrever os oponentes em cada canto do ringue. Johnson é co-fundador e editor-chefe da revista online Feed Magazine, mas é mais conhecido entre nós por livros como "Emergência", "Surpreendente! A televisão e o videogame nos tornam mais inteligentes" e "Cultura da Interface". Starr é professor de sociologia da Univesidade de Princeton, ganhou o prêmio Pulitzer de não-ficção e autor de livros como "Freedom's Power", sobre o desenvolvimento do liberalismo.

Na mensagem que abre o debate, Johnson sugere que a mídia seja hoje entendida como um ecossistema. De fato, o atual sistema midático já não pode ser estudado como um regime centralizado por grandes instituições midiáticas. Johnson lembra que os blogs e o YouTube nos ajudam a compreender o jogo político, acompanhar a íntegra de discursos e conhecer longas argumentações sobre tais fatos. Para que se possa compreender o sistema midiático contemporâneo, o autor sugere que se faça como os ecologistas ao estudar uma floresta: é preciso observar as florestas que tiveram mais tempo para se desenvolver. Nesse sentido, é preciso usar o mesmo método para compreender a evolução dos blogs. Inicialmente se focavam em tecnologia. Com o passar do tempo, passaram a cobrir e comentar todos os assuntos que se encontram nos jornais convencionais.

Apesar de Starr reconhecer a importância da internet para a troca de informações e debate público,ele provova:

Mas, você está tomando algumas árvores por uma floresta.
Além disso, a própria metáfora orgânica induz ao engano. As mídias não se desenvolvem naturalmente. Elas se desenvolvem historicamente, e as forças que regem seu desenvolvimento são sobretudo políticas e econômicas.

Starr tem razão ao criticar a metáfora de Johnson. Na verdade, este último tem se notabilizado por empregar diversos exemplos biológicos para fundamentar os argumentos em seus livros. O problema desse tipo de estratégia, que equipara sociedades humanas com o trabalho instintivo de insetos sociais (abelhas, formigas) e a estrutura midiática com ecossistemas e florestas, é que se minimiza ou mesmo se apaga tudo o que é político, histórico e subjetivo nas redes sociais. Deixa-se de lado a inveja, a vingança, o orgulho a vaidade, etc. No que toca os regimes midiáticos, não podemos os analisar como simples evolução darwiniana. Starr tem razão neste ponto. A história e a política não podem ser reduzidas ao biológico.

Por outro lado, Starr vê a internet como uma inimiga do bom jornalismo. Realmente, o conteúdo gratuito disponível na rede ameaça a vida dos jornais impressos. Mas não podemos transformar esse cenário em um duelo onde um lado é o bandido e o outro é o mocinho. Como reconhecem Johnson e Starr, parte da crise de grandes jornais é justificada por má administração. Mesmo assim, este último considera que a internet não pode garantir, como fazem os jornais, jornalismo profissional e responsável e engajamento do público. Além disso, Starr aponta que os internautas desempenham uma leitura perigosamente seletiva. Enquanto em um jornal um fã de esportes acaba passando por páginas de outras editorias (política, economia, etc), na web ele lerá apenas o que lhe interessa: as páginas esportivas. Ou seja, existe mais informação na web, mas isso não quer dizer que as pessoas estejam mais bem informadas sobre o mundo.

Johnson retruca com estilo:

Qual sociedade lhe parece incluir mais participação cívica? Uma em que o noticiário é controlado por uma pequena minoria e onde as interações cívicas das pessoas acontecem como leitura feita a caminho da seção de esportes? Ou uma em que milhares de pessoas comuns participam ativamente na criação do próprio noticiário?

Para ilustrar seu ponto, Johnson cita seu site Outside.in, um agregador de notícias que permite que os interagentes encontrem informações sobre a sua própria vizinhança. Ou seja, oferece uma valorização do "hiperlocal".

Esse é o grande potencial da rede. Como a grande mídia se interessa em difundir tudo aquilo que atrai maior público, ela acaba por se focar no gosto médio (no mínimo denominador comum), nos grandes fatos ou no que é mais bizarro. Já a web, com seu espaço infinito, permite que tudo seja publicado: discursos e debates na íntegra, notícias pontuais que visam pequenos públicos, opiniões radicais, etc. E, mais do que isso, as redes sociais online se encarregam de passar adiante informações que elas julgam relevantes (o que permite interconectar diferentes redes ).

É justamente essa força informacional das redes sociais online e dos agregadors de notícias que assusta Starr. Sobre o Outside.in, ele dispara:

Pelo que pude apreender, ele não faz nenhum trabalho de reportagem próprio. Ele agrega o que aparece em outros lugares. Não parece haver qualquer critério de relevância ou importância. E, se o que aparece em outros lugares é lixo, o site ajuda a difundir esse lixo, porque, por sua própria natureza, um site de notícias automatizado não possui aquilo que tem todo bom editor: um detector de lixo.

Essa crítica mira também outros agregadores, que apenas coletam notícias produzidas e custeadas por outras instituições. Enquanto lucram com propaganda, tais agregadores acabam por prejudicar o sistema jornalístico estabelecido:

Sites como o seu, que tiram notícias, comentários --e lucros-- da web dependem inteiramente de que outros paguem pelo trabalho original de reportagem. Alguns blogueiros podem dar furos jornalísticos ocasionais, mas fazer de conta que eles possuem as capacidades de um grande jornal metropolitano é enganoso.

Ora, não se pode ampliar tal crítica para toda rede. Blogs não são o vilão da história, nem querem acabar com os jornais. Nem tampouco os blogueiros aspiram substituir os profissionais dos jornais. Vamos ser sinceros, nós blogueiros dependemos da grande mídia para nos informarmos e termos sobre o que falar! Por outro lado, nosso papel, creio eu, é de não apenas reproduzir esse conteúdo, mas analisá-lo, criticá-lo. O que a blogosfera tem de melhor é essa capacidade de dar sentidos diferentes ao que se encontra na mídia, dar repercussão contextualizada.

Agora, não posso negar que agregadores de notícias e blogueiros que simplesmente copiam e colam notícias canabalizam os veículos noticiosos. Aos poucos vou ficando convencido que um sistema de micropagamentos ou algum tipo de assinatura barata será adotado pelos sites jornalísticos. Mas tenho sérias dúvidas se isso resolverá o problema.

A discussão continua...

Poderá o Kindle DX salvar os jornais?

07Mai
2009

Os jornais estão em crise. As versões online estão canabalizando os periódicos impressos das grandes instituições jornalísticas. A capa de uma edição recente da revista Time perguntava: o que poderá salvar o seu jornal? O problema é tão grave que o diretor de conteúdo do Estadão, Ricardo Gandour, defende que o conteúdo dos jornais online deve ser fechado.

Todos os jornais devem fechar o conteúdo gratuito e passar a cobrar. Senão, será a morte do jornalismo (via Comunique-se).

A defesa é contundente e polêmica. Contudo, é preciso lembrar que mesmo que os jornais impressos venham a desaparecer, o jornalismo não irá desaparecer. Nós precisamos do jornalismo. A sociedade, a política, a cultura dependem do jornalismo. Mas ele não é sinônimo de jornais.

De fato, parece anacrônico receber o jornal em casa pela manhã com notícias de ontem, que já chegam obsoletas com os novos fatos que vem sendo publicados na rede desde a noite passada. Mas como pode a cara estrutura de empresas jornalísticas ser sustentada se os veículos online não são tão lucrativos quanto suas versões impressas? Em sua palestra no último Campus Party, o jornalista blogueiro Ricardo Noblat afirmou que uma única revista incluída na edição dominical de O Globo é mais rentável que os ganhos com publicidade de todo um mês do site do jornal.

Banners e anúncios online não vem se mostrando suficientemente rentáveis. Antes, acreditávamos que basta juntar um alto número de internautas que os lucros virão. O Google vem percebendo que isso não é bem verdade, pois não tem conseguido transformar o popular YouTube em um serviço lucrativo.

Confesso que eu presto mais atenção nos anúncios do jornais impressos que assino (Folha de São Paulo e Zero Hora) do que em banners e nos links patrocinados do Google. O impacto visual de um grande anúncio na Folha de São Paulo, mesmo que impresso em papel jornal, me seduz muito mais que um banner animado.

Diante desses fatos, podemos dizer que a crise não é só do jornais impressos, mas também da propaganda online. Será que viveremos em breve o estouro de uma nova bolha? Talvez. De toda forma, precisamos entender essas ameaças como um força que demandará que o jornalismo e a propaganda se reinventem. São esses momentos históricos que podem movimentar toda uma área, promovendo inovações e avanços.

Vamos ser sinceros, os jornais estão cada vez mais parecidos. A propaganda, principalmente de grifes e bebidas, também se satisfaz com receitas batidas. Podemos até perguntar: será que o crescente interesse por blogs independentes não é uma busca por análises críticas e criativas que rareiam nos jornais? Será que as pessoas não cansaram do simples quê+quem+onde+quando+como+ por quê? Em outras palavras: existe uma crise do jornalismo ou de um modelo específico de jornalismo? Qual será o futuro do jornalismo?

Por outro lado, alguém pode argumentar que o New York Times traz o melhor de todos os mundos (informação, crítica, humor, cultura, etc.), mas enfrenta a eminência de sua falência. Diante do fechamento de outros jornais americanos, será que o possível fim do New York Times não desencadeará um tsunami nas redações do planeta? É verdade que não podemos reduzir o problema do jornal à ameaça do online. Vivemos hoje uma crise econômica mundial. O New York Times construiu um luxuoso prédio em uma das zonas mais privilegiadas da cidade e investe no time de baseball Rex Sox. Ou seja, a crise do NYT, como de outras instituições jornalísticas, também advém de outros problemas administrativos.

O New York Times já testou vários modelos de negócios em seu site, mas ainda não encontrou a fonte de receita correta. Mas vale agora acompanhar o movimento do jornal em utilizar tecnologias digitais recentes e implementar novas formas de assinatura.

Tem se falado muito sobre o uso do Kindle da Amazon para a leitura do NYT. E com o anúncio de ontem sobre lançamento do Kindle DX, a discussão sobre um novo modelo de negócios para os jornais volta a esquentar. O novo dispositivo tem a tela bem maior e vem sendo apresentado como a alternativa ideal para livros didáticos e para a leitura de jornais. O Los Angeles Times vai além e diz que o Kindle DX tem uma tarefa muito grande: salvar a indústria de jornais. Será que ele conseguirá sozinho cumprir tamanha façanha? O que se espera é que os leitores se sintam motivados a pagar pelo conteúdo. A aposta é interessante. Para que os leitores aceitem assinar jornais online seria preciso que todos fechassem seus conteúdos ao mesmo tempo. Ou seja, se o Estadão passasse a cobrar pelo acesso a seu site, seus leitores migrariam para outro jornal online gratuito. Por outro lado, a adoção de um novo dispositivo (um leitor de e-books) com boa usabilidade e que pudesse mimetizar a experiência de leitura de um jornal é de fato uma aposta viável.

O New York Times já tinha desenvolvido um sistema de assinaturas para a primeira (e "bugada") versão do Kindle. De toda forma, pelo que afirma o analista Peter Kafka, os lucros com o serviço ainda é modesto. Mas, com a popularização do Kindle é possível que vejamos em breve um aumento da lucratividade.

Como já tive a oportunidade de dizer em outros posts, eu gosto da interface do jornal impresso. A leitura de um jornal faz parte de nossos hábitos. Gosto de ler a Zero Hora de manhã na mesa do café. Seria muito chato levar o notebook para a cozinha! E leio a Folha de São Paulo durante o almoço. Nessas horas, o que menos quero é ficar clicando e navegando. Suponho que o Kindle DX possa se aproximar daquela experiência. Mas, como ainda não testei o dispositivo, não posso ainda confirmar isso. De qualquer forma, existe esperança para o New York Times. Ela vem através de um novo dispositivo, e não via seu site na Web.

Como o potencial é grande e o custo da impressão de jornais é muito alto, o colunista Nicholas Carlson chega a defender que o New York Times deveria enviar Kindles gratuitos para seus assinantes!

Um grave problema que vejo no Kindle é que ele não oferece acesso à Web. Logo, continuaremos lendo jornais com as notícias de ontem!

Ameaçado por todos os lados, o jornalismo vai acabar?

02Abr
2009

É claro que não. O jornalismo não acabará. O que vem morrendo é um certo modelo industrial de jornalismo. Outros modelos precisam ser desenvolvidos para a reinvenção do jornalismo.

Os debates, contudo, são alarmistas, já que as ameaças vem de todos os lados.

O acesso instantâneo e gratuito vem desafiando os jornais em papel (de notícias estáticas sobre um longínquo ontem). Muitos tem fechado suas portas, entrado com pedidos de falência (como fez o Chicago Sun-Times nesta semana), convivido com dívidas crescentes (como o New York Times) ou até mesmo reduzido seus dias de circulação. Este é o caso dos jornais The Detroit Free Press e The Detroit News. Por cancelarem a entrega de jornais nas segundas, terças, quartas e sábados, só hoje (quinta-feira) os seus assinantes poderão ler sobre a queda do presidente da GM, forçada pela Casa Branca. Jornal de hoje com notícia de segunda!

A multiplicação de sites de jornalismo participativo, os blogs, os sites abertos de fontes primárias e as fotos e vídeos de cidadãos comuns parecem estar enfraquecendo a primazia das instituições jornalísticas. As ameaças ao diploma (em votação no Supremo) e a livre publicação na rede por qualquer "amador" parecem também colocar em xeque o papel das faculdades de jornalismo. Será?

A partir de uma perspectiva sistêmica, acredito que os desequilíbrios são o motor da transformação. Acho que o jornalismo e os jornalistas ficaram muito acomodados com um modelo industrial que parecia dar certo na área por tanto tempo. De fato, os salários permaneciam ruins e as vagas insuficientes para todos os formados. Mas, até há pouco tempo, o movimento inercial do jornalismo não parecia muito perigoso.

Enquanto isso, os jornais, revistas e programas de rádio e TV foram ficando iguais demais. Os textos e imagens ficaram pasteurizados. A própria criatividade parecia sofrer com as imposições das técnicas e workflows consagrados.

Quero crer, enfim, que todas as ameaças movimentarão o jornalismo, forçarão sua reinvenção. O jornalismo ficou velho como o jornal de ontem (ou, no caso de Detroit, como o jornal de domingo passado!). Novos modelos de negócios precisarão ser implementados e novos papéis e técnicas precisarão ser incorporados pelos jornalistas.

Logo, acho bobagem qualquer interpretação alarmista. Eu mesmo não poderia sobreviver sem jornalismo! Eu assino dois jornais impressos, assino revistas semanais e mensais, ouço notícias no rádio diariamente e leio de tudo na rede. Desse pout-pourri monto minhas visões de mundo. Só espero que ninguém venha pré-julgar o que leio, impondo que este ou aquele blog ou Twitter não pode ter credibilidade ou é escrito por um "amador". Deixa essa decisão comigo, OK?

A brasileira agredida não foi agredida. Hein?

20Fev
2009

O caso da brasileira Paulo Oliveira, que alegou ter sido atacada por neonazistas na Suíca, movimenta a imprensa desde a semana passada. Não poderia ser diferente. Envolto em mistério e informações contraditórias, além das contra-acusações da polícia suíça, o caso tem todos os ingredientes para despertar a curiosidade da audiência.

No meio disso tudo, o G1 acabou ficando confuso. Veja a matéria abaixo. O texto, atualizado pela última vez ontem às 14h08, confunde tudo: "a brasileira agredida na Suíca" forjou "uma suposta agressão". Logo, é correto referir-se a Paula como "a brasileira agredida na Suíca".

Uma agressão ao bom jornalismo?

A Associated Press vai processar este blog

11Fev
2009

Depois de um bom período de férias (praia, descanso, palestra no Campus Party), este blog vai voltando lentamente ao seu ritmo.

Enquanto isso, ofereço aqui minha contribuição para que a Associated Press continue fazendo notícia. Pois não é que ela processou o desenhista-stakista-empresário Shepard Fairey por ter feito um cartaz inspirado em foto de sua propriedade? Impressionado com essa atitude, apresento abaixo o meu próprio mashup. Se a Associated Press, Andy Warhol e os próprios Obama e Fairey (!) quiserem me processar, por favor usem o formulário de contato deste blog.

fairey-primo-obama

Ei, faça você também seu mashup, remix, sua cópia ou releitura, um plágio ou homenagem da imagem da Associated Press! Quem sabe ela para de querer virar notícia! Ou, ainda melhor, você vira notícia!

UPDATE: preciso reconhecer, minha imagem não se compara a essas que achei por aí (sigam os links):

http://planonove.blogspot.com/2008/12/obamis.html

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Manuel Pinto e o webjornalismo participativo: uma entrevista que uniu o Twitter, o presencial, o YouTube e o blog

24Nov
2008

Eu estava acompanhando o 6o. SBPJor através da cobertura de Gabriela Zago e Laura Storch via Twitter. Como eu estava achando muito interessante a palestra de Manuel Pinto, da Universidade do Minho, decidi enviar uma pergunta (na verdade duas!) através do Twitter para ser lida pela Laura durante a sessão de perguntas. Seria muito interessante que isso pudesse ter acontecido, pois certamente uma boa parte (a maioria?) da platéia não conhecia o que é Twitter.

Infelizmente, a sessão foi muito disputada e a Laura não pôde ser ouvida. Insatisfeitas, as duas twitteiras decidiram interpelar o Manuel logo após o fim da mesa. Armadas com a câmera e microfone de um Macbook, elas gravaram a seguinte mini-entrevista (nada mais pertinente ao contexto dos micro-blogs e das micromídias!):

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=wXB73KNPldU]

Além da excelente resposta do amigo Manuel, a experiência foi muito interessante pelo encadeamento entre o presencial, o Twitter, o YouTube e o blog, mediado por aparatos móveis e conexões WiFi.

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PS: Obrigado Laura e Gabriela pela intermediação e pela excelente cobertura.

Encadeamento midiático na polêmica sobre a foto dos índios isolados na Amazônia

20Nov
2008

Na semana passada, estive palestrando no I Colóquio em Imagem e Sociabilidade, organizado pelo GRIS na UFMG. Durante o evento, assisti ao trabalho de Débora Gabrich, no qual ela faz um interessante estudo sobre a polêmica internacional em torno da foto de índios isolados na Amazônia. Para essa discussão, ela utilizou o conceito de "encadeamento midiático", com o qual venho trabalhando. Em virtude da proximidade de seu artigo com os temas que vêm sendo abordados neste blog, sugeri que ela fizesse um resumo de seu trabalho para discutirmos aqui. Vejam abaixo o resultado.

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Encadeamento midiático dos índios isolados

Sim, concordo com o conceito de Primo: há encadeamentos midiáticos entre tipos de mídia de massa, nichos e micromídias, nos quais são percebidos alterações de valor.

A primeira foto dos índios isolados na internet foi divulgada pelo blogueiro Altino Machado, de Rio Branco-Acre e na revista Terra Magazine, em 23 de maio de 2008. Altino recebeu do sertanista da Funai José Carlos dos Reis Meirelles Júnior e quis sensibilizar a opinião pública contra madeireiros peruanos que prejudicam as tribos.

Em dois dias, o encadeamento se alastrou na blogosfera: blog português Tupiniquim, blog do Edvaldo, deputado do Acre, blog da Glória Peres e outros. No circuito transnacional: Reuters e Global Voices em inglês, russo e francês em 24 horas.

Uma semana após, a 'velha mídia' Folha de São Paulo ilustrou a manchete com a 'velha imagem'.

A divulgação causou reação imediata: o governo do Acre criou novos postos de guarda para proteger os índios dos madeireiros peruanos.



A falácia da novidade: contra-encadeamento

Os indígenas amazônicos interagem com a civilização desde 1800. Quem não sabe, quando lê "índio isolado", tem impressão que é 'novidade'. Um mês após a primeira divulgação, circulou na mídia internacional que a imagem era fraude. Isso porque o jornalista Gabriel Elizondo, correspondente da Al Jazeera no Brasil entrevistou o sertanista Meirelles em Feijó-Acre e disse que os índios são 'conhecidos' desde 1910.

A partir daí, Peter Beaumont, jornalista especialista em Oriente Médio, do jornal inglês The Observer deduziu que não era uma "descoberta inédita" e concluiu ser uma farsa.

Começa outro encadeamento midiático, com valor alterado. Para a Radio Nederland: 'Tudo não passou de uma fábula' do governo brasileiro e das ONGs. Para o espanhol El Pais: "una historia bonita, pero un fraude". As organizações WWF e Aidesep negaram as acusações em suas páginas oficiais.

O sertanista Meirelles divulgou nota e a Survival Internacional apresentou denúncia na Comissão de Controle da Imprensa do Reino Unido. Beaumont, que primeiro quis processar a ONG, pediu desculpas e admitiu ser a sua versão "imprecisa, enganadora e distorcida". Porém, a reprodução da imagem com valores alterados foi usada por madeireiros contra as ONGs, em veículos da imprensa local no Peru.

Os diálogos transculturais

As migrações de valores são evidentes nos posicionamentos relativos dos nós do encadeamento, ou o que Braga (2008, p. 206) chama de thread: "três ou mais postings por duas ou mais pessoas orientadas para um único tópico". São comentários deixados por leitores. No blog do Altino há 16 comentários. Dentre eles, dois evidenciam uma visão cultural contrária sobre a 'gestão' dos índios:

"Marystela Ricciardi disse…
Altino, (…) Maravilhosa a sensação de ter a certeza de que os índios estão lá na sua cultura original e sem intervenções de brancos para alterá-la.

Anônimo disse…

Posso estar errado, mas acho um pouco de egoísmo nosso manter esse povo longe do progresso somente para podermos ver como eles se mantém sem nosso avanço. O governo deveria ter um programa de adaptação digna ao mundo moderno."

São conteúdos imbricados em torno de uma mesma questão, cognitivamente relacionados, sem as pessoas se conhecerem ou manterem conexão. Encadeamento midiático é isso, um fluxo de interpenetração e intertextualidade entre veículos, em diferentes níveis quanto a sua materialidade, equalizados pelo dispositivo das tecnologias digitais, reflexos das representações uns dos outros.

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Parte 3/3 - A cobertura dos casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann em jornais, blogs e no Twitter

18Nov
2008

Nos últimos dois posts busquei relatar brevemente os dados da pesquisa que realizei sobre como se deu a cobertura e o debate dos casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann nos jornais, blogs e no Twitter. Na última parte desta série, quero apresentar algumas conclusões gerais (se preferir, leia meu artigo completo sobre a pesquisa).

Durante os 16 dias que acompanhamos matérias, cartas de leitores, posts e tweets que mencionavam os casos, foi possível identificar o fenômeno que chamo de "encadeamento midiático" (leia mais sobre isto neste artigo). Ou seja, observou-se uma intertextualidade entre os diferentes níveis midiáticos: mídia de massa, mídia de nicho e micromídia (e seu sub-tipo micromídia digital). Tanto os cidadãos comuns utilizaram seus posts para comentar o caso e analisar a cobertura da grande mídia, quanto estas instituições se referiram em seus jornais aos blogs e Twitter, como também se aproveitaram destes meios digitais para divulgar matérias e links para suas páginas na Web.

Quanto ao tempo, observou-se que a blogosfera reage com grande velocidade aos fatos noticiados na mídia. Como se pôde constar nos gráficos gerados pelo Technorati, assim que o caso Isabella Nardoni chegou aos veículos jornalísticos, os blogs passaram a falar ativamente sobre a menina. Se antes não se verificava a ocorrência de seu nome, assim que se noticiou o fato, o Technorati e Blogpulse apontaram picos de postagem sobre ela.

Por outro lado, o caso Madeleine, de repercussão internacional, vinha sendo pouco coberto na mídia tradicional, em virtude da ausência de novos fatos. Apesar disso, e mesmo antes do aniversário de um ano do desaparecimento da inglesa, blogs e Twitter permaneciam falando do caso. Isto é, o timing na blogosfera e em micro-blogs se diferencia daquele da mídia tradicional. Em virtude do constrangimento de espaço e tempo em rádios, TVs, jornais e revistas, só o que é mais atual e cumpre os critérios de noticiabilidade é veiculado nos veículos jornalísticos. Mesmo instituições midiáticas do mundo inteiro usaram o Twitter para tratar do caso Madeleine em dias que jornais e TVs não abordavam o tema.

Durante os 16 dias da análise dos 3 jornais da amostra, observou-se outros casos explícitos de encadeamento midiático. Veja abaixo apenas alguns deles:

  • O caderno Donna de Zero Hora, em uma matéria sobre homens na cozinha (27/04), citou blogs do nível micromidiático dedicados à gastronomia.
  • O mesmo jornal reproduz trechos do blog da cantora Maria Rita (do nível de nicho) sobre sua turnê em Porto Alegre (6/05).
  • A Folha de São Paulo fez uma nota sobre a resposta da pré-candidata Hillary Clinton à acusação de blogs políticos de que teria cometido uma "gafe racista" (9/05).
  • Em uma matéria sobre o dossiê da gestão Fernando Henrique, a Folha relatou que cópias de um post do blog de José Dirceu foram distribuídas para a imprensa durante um evento.
  • Sobre o caso Isabella, O Sul publica a seguinte matéria de página inteira (28/05): "Caso Isabella vira 'febre' na Internet. Comoção se reproduz virtualmente, e debate sobre o crime toma conta do Orkut, de blogs e portais de notícias".

Enfim, o interesse que motivou essa pesquisa foi justamente confrontar a polarização que muitos fazem entre a micromídia digital e as mídias de massa e de nicho. Além do encadeamento midiático, foi possível demonstrar empiricamente que blogs e Twitter não são apenas produções espontâneas de pessoas comuns. Como se viu, as próprias instituições midiáticas tradicionais vêm utilizando tais meios digitais para a divulgação de notícias e atração de novos leitores (e, portanto, audiências para seus anúncios). Por outro lado, esse mesmo público se expressa e interage na blogosfera e em micro-blogs debatendo as notícias lidas. Além disso, desempenham uma função de watchdog da grande mídia, avaliando e criticando as coberturas sensacionalistas.

Para além de uma simples polarização entre broadcasting e narrowcasting, a estrutura midiática contemporânea complexificou-se, ampliando as vozes e intensificando a circulação e debate de informações.

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PS: Peço desculpas ao leitores pela demora que tomou a publicação desta terceira parte. Mas nas últimas 3 semanas estive viajando por 4 destinos e em diferentes eventos. :-O


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