Não há nada de errado em dizer, de forma irônica, que este ou aquele blogueiro é uma celebridade na Web. Por outro lado, essa atribuição é tão imprecisa quanto entender que um comentarista crítico é um policial ou achar que um blogueiro age exatamente da mesma forma que um inseto social (formigas, abelhas). Comparações e metáforas podem ser muito úteis didaticamente, mas nunca podemos esquecer o que essas equiparações frouxas escondem.
Para ser preciso, portanto, precisamos olhar com mais cuidado o que é uma celebridade. Como disse em meu último post, celebridades são um fenômeno da comunicação de massa. Por isso, transportar esse conceito para a blogosfera, que nitidamente não é um contexto massivo, é problemático. Ora, fama e renome não são sinônimos de celebridade. Ainda que esta última seja necessariamente famosa, e que um Ronaldo, por exemplo, tenha renome no contexto esportivo, aquelas primeiras características não conduzem alguém necessariamente ao status de celebridade.
Se em outros tempos o herói tinha um papel cultural importante, hoje ele perde espaço para as celebridades. Enquanto o herói é reconhecido por sua bravura e grandes feitos, a celebridade ganha notoriedade por seu nome/marca. Corrosivo, o pesquisador Boorstin sentencia: o herói é um grande homem, a celebridade não passa de um grande nome! Na mesma linha, Lowenthal define os heróis do passado como “ídolos de produção”. Já os "heróis" midiáticos seriam “ídolos do consumo".
Entre as celebridades, podemos distinguir os seguintes tipos (Rojek):
- celebridade conferida – decorre de linhagem, como a família real inglesa;
- celebridade adquirida – deriva de realizações individuais (conquistas esportivas, artísticas, etc.);
- celebridade atribuída – mesmo sem talento ou habilidade excepcional, essa pessoa consegue atrair grande interesse, muitas vezes acessorado por intermediários culturais.
Dentre esse último tipo, Rojek sugere a categoria de "celetóide". São os sucessos efêmeros que aparecem na mídia com grande velocidade, para logo em seguida desaparecer. Exemplos são ganhadores de loteria, heróis por uma dia, etc.
Podemos localizar nesta última categoria aquelas pessoas que de uma hora para outra se tornam muito conhecidas no YouTube ou em algum site, por causa de uma dança esquisita, por uma forma engraçada de falar ou cantar, ou...por coisa pior! Mesmo assim, conseguem atrair grande atenção na rede e da grande mídia. Após aparecerem em programas e revistas, e experimentar por pouco tempo o sabor da fama, esses celetóides retornam abrutamente para seu anonimato.
E o que dizer de blogueiros muito conhecidos na blogosfera? Não estou falando de Marisa Orth, Dado Dollabella ou Carolina Dieckmann, por exemplo, que já eram celebridades antes de abrir um blog. Estou falando daquelas pessoas que com o tempo ganharam grande notoriedade com seus blogs, como Inagaki e Cardoso. Podemos chamá-los de celebridades? Não me parece. Entendo que eles gozam de grande renome na blogosfera, mas que não ocupam o mesmo status midiático que uma estrela de cinema, um esportista internacional ou uma socialite, como Paris Hilton.
Podemos então concluir (pelo menos por enquanto!) que temos celebridades na blogosfera, mas não da blogosfera.
Nessas horas vale lembrar o Marmota ao dizer que blogueiro famoso é como Miss Cangaíba!
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Quer saber mais sobre esse tema, então não deixe de ler os livros Celebridade, de Chris Rojek, e The celebrity culture reader, de David Marshall.
Você já deve ter visto vários posts falando sobre celebridades na blogosfera. A Wikipédia inclusive mantém diretórios de fenômenos da Internet e de "celebridades" do YouTube. Lá você encontra listagens atualizadas de vídeos, músicas, perfomances e pessoas que de uma hora para outra se tornam muito conhecidos em todos os cantos da Web. Mais do que de repente, você começa a receber links do YouTube e de sites cujos personagens principais você passa a saber o nome. Foi assim com Mahir Çağrı (I kiss you), Tay Zonday, Dancing Matt , Obama Girl, entre tantos outros. Com a mesma velocidade, você repassa o link em seu blog, por e-mail e no Twitter. É com essa disseminação em rede que anônimos ganham notoriedade e, possivelmente, até dinheiro e reconhecimento da grande mídia. Tay Zonday, por exemplo, estrelou um comercial para o refrigerante Dr. Pepper e, nada mais lógico, apresentou o evento YouTube Live. Durante este último evento, outras "celebridades" do YouTube fizeram apresentações, como Funtwo, Bo Burnham, Chad Vader.
Quer ver um pout-pourri dessas personalidades da Web? Então não deixe de assistir ao bem-humorado clipe da música Pork and Beans, da banda Weezer, por onde desfilam vários famosos da internet (veja aqui a listagem).
Mas seriam de fato celebridades? Estes desconhecidos que ganham súbita fama na rede (e muitas vezes desaparecem logo em seguida) podem ser comparados a Tom Cruise, Britney Spears, Paris Hilton, Luma de Oliveira, Sandy, Xuxa, Luana Piovani? Será que fãs dormiriam na frente do hotel em que Mahir Çağrı está hospedado? E quanto da pequena venda de camisetas de Tay Zonday não passa de simples curtição?
Em outras palavras, podemos simplesmente aplicar o mesmo termo "celebridade" a pessoas que ganham notoriedade instantânea? Veja, celebridade não é o mesmo que renome. Ser bem conhecido e até admirado em um bairro ou em uma comunidade científica não é o suficiente para tal pessoa atingir o mesmo status de um Bono Vox. Celebridades não são apenas pessoas famosas. Tais figuras, que passaram a emergir no cinema na primeira década do século XX, são uma mercadoria das indústrias culturais. Seus nomes e personalidades construídas servem como slogans de venda, fazem parte de estratégias mercadológicas. E, como produtos a venda, seus nomes (marcas) e suas imagens são controladas por equipes que ajustam suas aparições ao gosto dos consumidores.
Celebridades devem ser compreendidas em uma lógica de produção e consumo, segundo estratégias persuasivas bem planejadas. Como mercadoria, também se tornam obsoletas assim que um novo nome/produto atinge o mercado midiático. Nessa lógica, cantoras loiras, boy bands, calouros em programas de auditório (American Idol e afins), modelos e atores se sucedem na prateleira.
Não é estranho, portanto, que apliquemos o mesmo conceito da comunicação de massa ("celebridade") a pessoas de renome ou que alcancem rápido reconhecimento na rede? E será que estamos tão adestrados pela grande mídia que também desejamos inventar e encontrar celebridades na blogosfera? Que papel elas tem em nosso imaginário já que esperamos encontrar o mesmo terreno familiar das estrelas nas telas de nossos computadores? Não seria a internet o espaço onde nos livraríamos do poder da mídia?
Estas são algumas das questões que motivaram a escrita deste artigo que apresentarei na próxima semana no Encontro da Compós em Belo Horizonte. E este é o tema que inspirará os posts desta semana.
Primeiro de abril. Certamente teremos um longo dia de pegadinhas via blogs, Twitter, e-mails, etc. E que tecnologia falsa será que o Google apresentará neste ano? Ora, isso já faz parte da cultura internética.
Mas, como o dia da mentira na internet já perdeu muito de sua graça, decidi fazer diferente: refletir sobre alguma verdades que eu gostaria que fossem mentiras de primeiro de abril.
- O projeto inicial de uma internet livre e democrática vem sendo minado por políticos e grandes organizações
- A velocidade dos processadores, o armazenamento ilimitado e a instantaneidade da comunicação nos deixou ainda mais sem tempo
- Toda alegria é passageira
- A tecnologia trouxe soluções para problemas que não tínhamos
- Muito dos relacionamentos em redes sociais online vem assumindo um caráter burocratizado, estratégico e previsível
- Nossa onipresença tecnológica, via dispositivos móveis e conexão permanente, tem nos tornado cada vez mais ausentes
- Os avanços da robótica e da inteligência artificial são incapazes de resolver um básico problema não-tecnológico: a fome
- A cada verão mais quente lembramos que a Terra está em perigoso processo de aquecimento
- O ativismo político e social, mediado pelas tecnologias de informação e comunicação, é apenas uma pequena fatia do total das interações na rede
- Nossa obsolescência ainda é programada
- As baterias de nossos equipamentos precisam ser recarregadas frequentemente
- Nossa competência em desenvolver sistemas cada vez mais precisos ainda não resolveu nossos medos e inseguranças