A produção em sites colaborativos e em serviços da Web 2.0 vem aumentando exponencialmente a quantidade de conteúdo publicado na rede. Esse é um desafio para os mecanismos de busca, que precisam rastrear rapidamente todas essas novidades na rede. Foi justamente essa a principal razão da compra do Blogger pelo Google em 2003. Diante da crescente publicação na blogosfera, o Google percebeu que precisava rastrear essas informações com maior agilidade.
Já em 2006, mesmo tendo o serviço Google Video, a empresa também reconheceu a importância da compra do YouTube. Essa aquisição bilionária não se justificava apenas pelo conteúdo lá publicado, mas também pela riqueza da base de assinantes do sistema. E, como tudo na Web 2.0, onde há um volume significativo de pessoas interagindo recorrentemente e produzindo bom conteúdo existe também o alto potencial de lucratividade. (Bem, no caso do YouTube os custos andam muito mais altos que seus lucros).
Pois essas são as mesmas razões que nos mostram que mais cedo ou mais tarde o Google comprará o Twitter. Na verdade, o Google precisa fazer essa aquisição. A base de assinantes do Twitter cresce de forma impressionante. O conteúdo publicado a cada segundo é muito rico e precisa ser rastreado pelo Google. Na verdade, o Twitter Search (ex-Summize) e o Twazzup já fazem um excelente trabalho. Mas, perder ações de busca para outros mecanismos é prejuízo para o Google, pois deixa de monetizar seus anúncios com valor pleno. E mais, a imagem de seu mecanismo de busca fica desafiada.
Além do potencial futuro do Twitter na área da propaganda online, a base de assinantes e os dados sobre as redes que eles formam são informações fundamentais para estratégias mercadológicas. É verdade que o Twitter ainda não explora a propaganda em suas páginas, mas ele vem se preparando para isso. Na primeira quinzena de abril o Twitter deixou escapar uma pista sobre como pretende começar a veicular anúncios. Como se vê na imagem ao lado, as definições veiculadas em breve serão comercializadas. Mesmo que a empresa tenha dito que a veiculação da frase "Sponsored definition" foi um engano (!), muito em breve estaremos vendo anúncios no serviço.
Apesar da falta de rendimentos, o Twitter continua angariando investimentos. Enquanto isso, o número de assinantes tem aumentado muito nas últimas semanas. Na sexta passada, a apresentadora americana Oprah deu a sua primeira twittada ao vivo em seu programa, entrevistou o Evan Williams (co-fundador do Twitter) e o ator Ashton Kutcher (o primeiro a ultrapassar a marca de um milhão de seguidores). Em tempo, ninguém me convence que todo esse destaque no programa da Oprah não passou de um testemunhal pago para aumentar o valor de venda do Twitter. Já aqui no Brasil, a grande imprensa descobriu o Twitter faz pouco. A capa da revista Época e uma matéria no Fantástico atraíram um novo público para o serviço.
Enquanto cresce o interesse pelo Twitter e o número de assinantes vai aumentando, cresce também o possível valor de venda. O Google ainda precisará esperar mais um pouco para conseguir comprar o Twitter. Esta empresa certamente está esperando o momento e o valor certo. Ou será que um Rupert Murdoch da vida vai comprar antes? Ou o Twitter vai resistir todas as ofertas, como fez o Facebook?
Nesta segunda-feira eu escrevi sobre o poder do retweet. Um fato interessante é que logo após esse texto ter sido comentado pelo Edney no Twitter, seguiram-se 15 retweets, sendo que estes geraram mais 5 retweetadas. Tal procedimento em rede e o tráfego adicional gerado por aqueles retweets nos mostram outro aspecto interessante das redes: a força dos hubs.

Você certamente sabe que o um hub em uma rede social nada mais é que uma pessoa que tem um número muito alto de conexões. Certamente, o Edney (@interney) é um hub no Twitter. Neste momento, mais de 21 mil pessoas o seguem. Com tantos seguidores, não é de surpreender que um tweet do Edney renda muitos retweets. Em virtude da credibilidade que conquistou com o tempo, um texto que ele publique vem associado a sua autoridade na rede. É inclusive provável que seus "seguidores" no Twitter prestem mais atenção a uma mensagem enviada por ele do que por outra pessoa.
E como o Edney, como outros hubs, transitam em muitas redes, o volume de informações com que tem contato lhe mantém muito bem informado. Sendo assim, as informações que hubs retransmitem são fruto de uma filtragem prévia. À medida que esse filtro se torna bastante seletivo, garantindo a qualidade das informações passadas adiante, novos interagentes passam a confiar no que o hub publica. Em outras palavras, o capital social dos hubs cresce de forma recursiva. Quanto mais capital social...mais capital social. É o efeito "ricos ficam mais ricos".
As mensagens publicadas por hubs acabam "escorrendo" para outros grupos a partir de retweets de pessoas que funcionam como pontes entre essas redes. Esses novos leitores podem se interessar em conhecer os tweets de quem enviou aquela mensagens original, conferindo-lhe novos seguidores no Twitter.
Enfim, podemos concluir que nem todos os tweets e retweets tem a mesma força. A assinatura de um hub em uma mensagem ou em uma retweetada confere "peso" e motiva o repasse daquela informação.
Você está lendo suas mensagens no Twitter. Ao encontrar um texto interessante enviado por seu amigo Fulano, você não pensa duas vezes: faz um retweet. Ou seja, republica a mensagem. Essa retweetada leva o texto original para outras redes cujos participantes não não assinam o Twitter de Fulano. Assim, essas pessoas podem tomar conhecimento de uma informação a que não teriam originalmente acesso, por não fazerem parte da(s) rede(s) a que Fulano se filia.

No exemplo acima, você funciona como um "broker", fazendo uma ponte entre redes sociais diferentes. Esse fenômeno, chamado na teoria de redes sociais como "structural holes", viabiliza que informações ultrapassarem a simples circulação entre participantes de uma dada rede, "escoando" para outras redes.
Uma vez escutei em um congresso internacional que as informações que circulam dentro de uma rede da qual você participa faz você e seus colegas serem ainda melhores no que já fazem. Por outro lado, a conexão com outras redes sociais oferece um desenvolvimento em áreas que você conhece pouco, ampliando seu potencial. De fato, a circulação de informações em uma rede social tende a ser focada em interesses compartilhados. Mas novidades de outros clusters no sistema podem oxigenar um grupo coeso, motivando a criatividade e a diferença.
Logo, um simples retweet pode não apenas ampliar o alcance de uma informação, mas também criar novas conexões, motivar debates a partir de uma perspectiva diferente, e até mesmo gerar uma ação coletiva em rede. Sei que algumas pessoas não gostam de retweets pois redundam algo que elas já leram. Mas da próxima vez veja-os como um potente fenômeno de redes sociais.
Quer saber mais sobre o tema? Leia este capítulo de Ronal Burt, um dos principais nomes na teoria de Structural Holes.
É claro que não. O jornalismo não acabará. O que vem morrendo é um certo modelo industrial de jornalismo. Outros modelos precisam ser desenvolvidos para a reinvenção do jornalismo.
Os debates, contudo, são alarmistas, já que as ameaças vem de todos os lados.
O acesso instantâneo e gratuito vem desafiando os jornais em papel (de notícias estáticas sobre um longínquo ontem). Muitos tem fechado suas portas, entrado com pedidos de falência (como fez o Chicago Sun-Times nesta semana), convivido com dívidas crescentes (como o New York Times) ou até mesmo reduzido seus dias de circulação. Este é o caso dos jornais The Detroit Free Press e The Detroit News. Por cancelarem a entrega de jornais nas segundas, terças, quartas e sábados, só hoje (quinta-feira) os seus assinantes poderão ler sobre a queda do presidente da GM, forçada pela Casa Branca. Jornal de hoje com notícia de segunda!
A multiplicação de sites de jornalismo participativo, os blogs, os sites abertos de fontes primárias e as fotos e vídeos de cidadãos comuns parecem estar enfraquecendo a primazia das instituições jornalísticas. As ameaças ao diploma (em votação no Supremo) e a livre publicação na rede por qualquer "amador" parecem também colocar em xeque o papel das faculdades de jornalismo. Será?
A partir de uma perspectiva sistêmica, acredito que os desequilíbrios são o motor da transformação. Acho que o jornalismo e os jornalistas ficaram muito acomodados com um modelo industrial que parecia dar certo na área por tanto tempo. De fato, os salários permaneciam ruins e as vagas insuficientes para todos os formados. Mas, até há pouco tempo, o movimento inercial do jornalismo não parecia muito perigoso.
Enquanto isso, os jornais, revistas e programas de rádio e TV foram ficando iguais demais. Os textos e imagens ficaram pasteurizados. A própria criatividade parecia sofrer com as imposições das técnicas e workflows consagrados.
Quero crer, enfim, que todas as ameaças movimentarão o jornalismo, forçarão sua reinvenção. O jornalismo ficou velho como o jornal de ontem (ou, no caso de Detroit, como o jornal de domingo passado!). Novos modelos de negócios precisarão ser implementados e novos papéis e técnicas precisarão ser incorporados pelos jornalistas.
Logo, acho bobagem qualquer interpretação alarmista. Eu mesmo não poderia sobreviver sem jornalismo! Eu assino dois jornais impressos, assino revistas semanais e mensais, ouço notícias no rádio diariamente e leio de tudo na rede. Desse pout-pourri monto minhas visões de mundo. Só espero que ninguém venha pré-julgar o que leio, impondo que este ou aquele blog ou Twitter não pode ter credibilidade ou é escrito por um "amador". Deixa essa decisão comigo, OK?
Sabe qual o problema dos celulares terem câmeras para fotos e vídeos? As pessoas querem tirar foto de tudo, filmar tudo! Muitas vezes pouca importa o objeto a ser capturado. O que importa é registrar toda e qualquer imagem. Não custa nada! Ora, DVDs, cartões de memória e HDs são hoje muito baratos. Logo, vale a pena registrar e gravar tudo. Tenho um amigo que salva todas as fotos que já tirou desde que teve acesso a sua primeira câmera digital...mesmo as fora de foco e tremidas. Segundo ele, é um registro de sua vida. Ele tem razão.
Graças a essas microcâmeras pudemos ter registros instantâneos da enchente em Santa Catarina, dos atentados na Espanha e em Nova Iorque, entre outros fatos marcantes. Sem um celular barato nas mãos de uma cliente, não saberíamos da humilhação por que passou esta mulher, que precisou tirar a blusa para entrar em um banco.
E que seria do webjornalismo participativo se não fossem esses dispositivos móveis? Além da possibilidade de registro de imagens e textos, é possível publicá-los na rede, mesmo que não se esteja com um notebook à mão. Na verdade, esse é um dos diferenciais do webjornalismo participativo: o potencial de noticiar fatos muito antes da chegada de um jornalista profissional de uma grande instituição midiática.
Mas sejamos sinceros, nem sempre as fotos e vídeos são bem vindos. Em um teatro ou em um show intimista, câmeras e celulares ligados funcionam como lanternas nos olhos de quem está nas filas de trás. Lembro agora de uma apresentação circense que assisti em um teatro. Quando um arqueiro se preparava para acertar múltiplos alvos em uma performance que envolvia algum risco, um senhor na minha frente decidiu levantar a câmera em seus braços para melhor captar a cena (que ocorreria em apenas um segundo!). Nem ele conseguiu tirar a foto, nem eu consegui ver o feito.
Às vezes é a tecnologia que impõe o seu uso. Se o celular está no bolso ou na bolsa, por que não levar uma foto da peça de teatro como souvenir? Mesmo que o fotógrafo amador esteja no mezanino, sua camerazinha não tenha zoom e sofra com uma lente de segunda, é preciso tirar uma foto. A câmera demanda. É como se a tecnologia dominasse o indefeso fotógrafo.
Mas não posso negar que agradeci mil vezes aos fãs que filmaram o único show do Led Zeppelin em 2007. Poder ver a reunião daqueles "dinossauros" do rock, mesmo que em imagens tremidas e distantes, foi fantástico.
Já o web designer Andrews Ferreira Guedis foi além do simples prazer de assistir no YouTube a registros dos shows do RadioHead no Brasil. Decidiu editar clipes ao vivo da banda, juntando gravações de diversos fãs publicadas na rede. Em entrevista ao Vírgula, o blogueiro comenta:
A ideia surgiu exatamente quando estava assistindo as várias filmagens feitas por fãs da música Paranoid Android. Me bateu uma vontade de juntar certas cenas e ver no que dava. Eu já tinha visto uma ideia parecida com o Nine Inch Nails, que atualmente liberou três shows com filmagens profissionais para os fãs realizarem as edições.
Ontem, Andrews publicou uma nova edição da música "Fake Plastic Trees". Vale a pena acompanhar o desenvolvimento desse projeto de mashups, que pretende lançar um DVD do show. Certamente alguns vão questionar sobre os direitos autorais das imagens, etc e tal. Enquanto eles discutem, curta os vídeos no blog Radiohead - Rain Down.
Pois é, meu blog agora atende em novo endereço para melhor servi-lo. Após um gentil convite do Inagaki e do Edney, e com a ajuda e paciência do Paulo Henrique, da Pólvora, o Dossiê completou sua mudança de domicílio.
Confesso que é uma honra e uma responsabilidade integrar a família Interney Blogs. Espero fazer jus a este grupo!
Mas muitas novidades estão previstas para as próximas semanas. Um novo layout está sendo criado pela criativa Neca Richter (Dint). Novas histórias em quadrinhos sobre tecnologia estão no forno. Mas a velharia também continuará: críticas da cibercultura, análise da usabilidade de sites e gadgets, notícias sobre tecnologia, etc.
Neste mês recebi a quarta cobrança de uma assinatura da revista Carta Capital. O interessante é que jamais fiz essa assinatura e tampouco faria, pois não gosto dessa revista.
No mesmo dia em que recebi uma carta me parabenizando pela assinatura (hein?), na primeira semana de novembro de 2008, entrei em contato com a editora por telefone e por e-mail. Segundo os registros da Editora Confiança (Confiança???), eu teria feito essa assinatura pessoalmente com um representante. Além de serem incompetentes, ainda me chamam de esquizofrênico! É como se eu não me lembrasse de ter feito a assinatura.
Entrei em contato com a editora outras vezes, por e-mail e por telefone, e sempre escutei a promessa de que o valor cobrado por 4 meses seguidos seria devolvido. Nunca nenhuma revista chegou em minha casa (ainda bem!), nem a devolução foi realizada. Liguei para meu cartão de crédito que confirmou que nunca a editora entrou em contato com eles.
Logo, aviso os leitores que cogitam assinar essa revista: CUIDADO. A editora desConfiança é uma empresa que não respeita o público e mente.
Ela nasceu idea, e por muito tempo viveu entre nós como idéia. Mas agora, em sua maturidade, transformou-se em ideia.
Como tantas outras, esta idéia ficou obsoleta. Numa época em que o envelhecimento precoce condena tudo que é novo, a ideia mais nova condenou todas as velhas idéias.
Para explicar sua teoria das ideias (no grego ????), Platão recorreu à famosa metáfora da caverna, onde se assentavam pessoas comuns, iludidas por imagens projetadas. Já nossos especialistas encerraram-se em um gabinete para definir que brasileiros e portugueses (e outros gatos pingados) deveriam padronizar a ideia, sem acento e com muita precisão.
A ideia é um universal, "unidade visível na multiplicidade de objetos", ou uma representação geral, matéria comum do pensamento? Essa é uma questão filosófica, que pouca importa ao léxico agora padronizado.
Coitados dos especialistas lusófanos. Mal sabem eles que a ideia grafada da mesma forma entre brasileiros e portugueses jamais padronizará suas ideias sobre o mundo. Os novos dicionários já trazem a ideia registrada, dirimindo qualquer dúvida (esta ainda com acento…enquanto as proparoxítonas forem um grupo à parte). Aqui fora, contudo, brasileiros e portugueses tem ideias muito diferentes sobre o mesmo mundo em que vivemos. Xi, será que é mesmo o mesmo?
Apesar de nossa raiz portuguesa, experimentamos o real de forma muito diferente de nossos primos portugueses. Podemos agora usar a escrita de forma semelhante, mas falamos o mundo de forma distinta. Mais do que isso, nossas ideias sobre a vida em muito se distinguem. A língua não é apenas um conjunto de signos que representa objetos. Mais do que simples referência, ensinam Sapir e Whorf, as línguas carregam consigo nossas concepções de mundo. Exemplo típico é o número de palavras que os esquimós usam para se referir ao que conhecemos simplesmente por "neve".
E neste mundo tecnológico, onde tudo é reduzido à informação quantificável, empacotável e transmissível, não importa como a ideia é grafada. Ela tem existência separada do corpo, e pode sofrer download daquele aparato úmido e perecível. Essa fantasia cibernética, claro, não foi escrita por um teórico gripado ou mergulhado em uma paixão arrebatadora.
A ideia, para ele, não tem nem acento nem afeto. Talvez você não tenha nem ideia (nem idéia) do que estou falando. Nem tampouco ache importante uma crítica sobre o mecanicismo de muitas teorias sobre redes sociais, onde simplesmente se quantifica a circulação de informações, sem qualquer preocupação com as subjetividades e formações discursivas que contaminam necessariamente as ideias. Essa contaminação não importa nos debates transmissionistas, que equivalem comunicação e epidemias virais.
Bem, a única coisa que vale decorar é que ideia não tem acento.
Reproduzo abaixo minha entrevista que o jornal Zero Hora publicou ontem:
Professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Informação da UFRGS, Alex Primo sustenta que o mundo digital deu origem a um novo padrão de estudante, acostumado ao uso da tecnologia. Para se adequar a esse perfil, escolas e educadores devem rever suas práticas. Confira trechos da entrevista a ZH:
Zero Hora – Qual principal o impacto das novas tecnologias na vida do estudante?
Alex Primo – O acesso às informações. Antes, a educação era baseada no livro, e os livros eram prescritos pelos professores como a informação que devia ser estudada, onde estavam as respostas. Hoje, mesmo uma criança tem possibilidade de buscar as soluções na internet.
ZH – O que isso muda?
Primo – Constrói na criança o espírito da investigação. Não é o professor que entrega uma resposta pré-definida. Ela vai atrás para construir suas respostas.
ZH – É um novo aluno?
Primo – Sem dúvida. Antigamente, falava-se em ensinar. Hoje, é preciso ter preocupação maior com a educação, como um processo global para a aprendizagem e para a produção ativa. O aluno não quer mais se sentar e ouvir, porque ele está acostumado a produzir por meio das novas tecnologias.
ZH – Isso exige uma adaptação na maneira de dar aula?
Primo – Demanda-se um maior dinamismo nas aulas e a valorização da expressão multimídia: usar fotos, sons, textos em blogs para os estudante poderem valorizar aquela linguagem que eles conhecem. Se não se fizer isso, fica um hiato muito grande entre linguagem do aluno e do professor.
ZH – Os jovens de hoje têm menor capacidade de concentração?
Primo – Uma vez escutei que havia professores que ensinavam em blocos de 15 minutos e contavam uma piada, para seguir o ritmo da televisão. Agora, percebemos uma mudança, as pessoas se afastando da TV e indo para o computador, onde a dedicação é total. Ficam horas no computador. A diferença é que hoje se navega em muitas janelas ao mesmo tempo. O jovem conversa, navega, vê vídeos, tudo ao mesmo tempo. Então, é uma concentração fragmentada.
ZH – A internet estimula a cópia de trabalhos?
Primo – O plágio, a cola da enciclopédia sempre existiu. Eu lembro de fazer isso quando criança, vários alunos copiavam informações das enciclopédias, o professor recebia muitas cópias e nem se dava conta. Não é um problema novo, da internet. O interessante é que o aluno comece a reconhecer a importância da consulta às fontes e de valorizar a autoria, não minimizar a importância da busca de informações e citações.

Nesta quarta parte do relato da pesquisa, eu termino de apresentar as tabelas com os dados sobre temas, formas composicionais e estilos mais frequentes em cada blog analisado. Mais uma vez, eles são aqui agrupados segundo a minha proposta de gêneros de blogs apresentada aqui.
O gênero Pessoal Auto-reflexivo refere-se a blogs individuais voltados para a manifestação de opiniões e reflexões pessoais sobre si, sobre os outros e sobre a vida cotidiana dos blogueiros. Tais manifestações (mesmo em blogs privados, com acesso apenas para um pequeno grupo) podem constituir o que Nardi, Schiano e Gumbrecht (2004) chamam de "pensar enquanto se escreve". Posts neste gênero de blog podem tratar do trabalho do autor e de colegas desse contexto. Contudo, diferentemente dos blogs profissionais, tais atividades participam como mais um aspecto da vida do blogueiro e não como foco ou tema principal. É importante salientar que o gênero pessoal auto-reflexivo é certamente o mais referenciado, tanto na academia quanto na imprensa. Possivelmente, permanece sendo o mais comum na blogosfera em números absolutos. Contudo, como se vê, ele não é sinônimo de blog. Ou seja, trata-se apenas de um gênero entre tantos outros (como se busca aqui demonstrar), e não a própria definição do que seja blog.
A tabela abaixo exibe os dados dos 2 blogs encontrados neste gênero. Vale lembrar que as 3 últimas colunas mostram os dados mais frequentes no que toca a forma composicional, tema e estilo. Os resultados abaixo foram coletados de forma independente. Ou seja, eles não são interdependentes, podendo ou não ter ocorrido ao mesmo tempo em um mesmo post. A coluna "rank" mostra a colocação do blog no ranking utilizado pela pesquisa (ela foi omitida nas tabelas anteriores). A coluna "posts" mostra quantos textos foram publicados no mês avaliado.

É interessante observar que dos 50 blogs estudados apenas 2 são do gênero auto-reflexivo. Possivelmente em nossa pesquisa atual, que avalia blogs de baixa autoridade, um número bem maior de blogs se enquadrarão neste gênero. A amostra analisada nesta pesquisa, por ser composta por muitos probloggers, e por adotar diversas estratégias para o aumento das audiências, acaba por se afastar das práticas típicas do gênero pessoal auto-reflexivo.
O gênero Pessoal Reflexivo é também produzido individualmente. Neste gênero, o blogueiro comenta as informações que recebe, analisa criticamente as notícias da mídia e demonstra suas opiniões sobre produtos culturais (livros, filmes, músicas, exposições, etc.). Pode tratar-se de blog temático (voltado para resenhas críticas de filmes, por exemplo) ou de comentários generalistas. Enquanto no blog pessoal auto-reflexivo a reflexão do blogueiro volta-se principalmente "para dentro", para a própria existência, o gênero pessoal reflexivo caracteriza-se pela ênfase nos comentários sobre as ações e produtos de outras pessoas e organizações ou sobre a atuação de governos, políticos, esportistas, etc. E, diferentemente dos blogs profissionais, quem fala aqui é o sujeito comum, não um especialista em determinada área. Ou seja, os posts não se baseiam em argumento de autoridade. Como a voz no blog não se apresenta como aquela de um expert (mesmo que o blogueiro o seja em determinado segmento), as opiniões não são formatadas estrategicamente, tendo em vista objetivos profissionais.
Em um blog coletivo de gênero Grupal Reflexivo um grupo manifesta suas avaliações críticas sobre temas de interesse que aproximam os participantes que o compõem. Nesta publicação grupal, um grupo de amigos pode escrever posts individuais manifestando a opinião particular de cada um (sobre o campeonato brasileiro, em um blog sobre futebol, por exemplo), sendo eles até mesmo contraditórios entre si. Por outro lado, os blogueiros podem reunir seus esforços para defender uma causa comum (como software livre ou ecologia). Em blogs de fãs de algum produto cultural, os interagentes podem cooperar no sentido de discutir paixões, debater preferências e publicar resenhas críticas sobre determinados produtos.
O gênero Organizacional Informativo serve para o registro de informações sobre o segmento de atuação da organização, sem que ela manifeste seu parecer sobre os fatos. Blogs privados podem ser utilizados para o armazenamento digital de lançamentos e ações da concorrência. Blogs coletivos de probloggers são considerados informativos quando basicamente sugerem links ou produzem clipping de textos e imagens produzidos por terceiros apenas com a finalidade de gerar tráfego para suas estratégias de monetização.
O último gênero identificado nesta pesquisa foi o Organizacional Reflexivo. É através deste blog coletivo que uma organização manifesta suas opiniões sobre os temas de seu interesse. Uma organização ativista, por exemplo, pode usar o blog como manifesto online, fazendo críticas e defendendo propostas. Por outro lado, probloggers podem utilizar este gênero de blog para a análise crítica ou inclusive para a sátira de fatos de um segmento.

Os outros gêneros de minha tipologia não foram identificados dentre os 50 blogs analisados. As definições desses gêneros podem ser encontradas aqui.
Como estamos no final do ano, deixarei os dados de correlações e os resultados sobre número de comentários para relatar no semestre que vem. Até lá, gostaria muito de ouvir os comentários de vocês para que a pesquisa possa ser aperfeiçoada. Esse debate também nos ajudará a compreender melhor a blogosfera lusófona.