Sociedade artificial e inseminação de consumo

07Abr
2011

Por Alex Primo
Editor

Você deve ter lido (e ficado chocado) sobre o casal de classe média alta de Curitiba que, após investir em uma cara inseminação artificial, decide abandonar uma das trigêmeas no hospital. Para eles a decisão era simples: não queriam mais que duas filhas. Segundo uma lógica grosseiramente econômica, eles devem pensar que o "pacote" que compraram está trazendo um "brinde" indesejado. O contrato assinado na clínica de reprodução assistida deixava clara a possibilidade de nascimento de até quatro filhos. Mesmo assim, o casal parecia determinado a "comprar" no máximo dois bebês.

Ainda na maternidade, enquanto as outras famílias vibravam emocionadas com seus recém-nascidos, o marido tomava a decisão de qual das três deixaria para trás no hospital. Optou inicialmente em "descartar" aquela que apresentou um pequeno problema respiratório durante o nascimento -- algo que pode acontecer em partos, principalmente de gêmeos e prematuros, e que não necessariamente determina problemas futuros. A escolha de dois bebês dentre os três não parecia muito distante daquela que o casal provavelmente empreende ao selecionar quais frutas vão levar em um supermercado. Não estavam ali em sua frente três filhas legítimas, mas três unidades.

O casal agora diz estar arrependido, enquanto as trigêmeas permanecem recolhidas em um abrigo do Conselho Tutelar. A advogada sugere como causa da polêmica decisão uma depressão pós-parto. Mas e o pai? O que justifica sua determinação em sair do hospital com apenas dois bebês, deixando para trás uma filha? O parto foi mais que planejado. Investiu-se uma significativa soma na inseminação artificial. Mas o resultado final frustrou o projeto traçado pelo casal. Sem problemas, a solução seria simples: abandonar o bebê que para eles parecia "excessivo".

Desculpem, estou escrevendo com a mão pesada, exagerando nos termos. Mas, como cidadão e como pai, não tenho como não ficar indignado. Além de meu pesar pelo futuro das três crianças, mais uma vez observo como as relações humanas cada vez mais se objetivam, tornam-se estritamente pragmáticas, reduzidas a uma troca econômica. Em nossa sociedade do consumo, somos o que compramos e o que mostramos. Dada a velocidade da obsoletização dos bens, o rápido descarte e substituição por novos produtos são a única forma de satisfazermos nossa gana consumista. E o mercado está preparado para oferecer soluções temporárias para nossa fúria capitalista.



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Comentários:


Comentário de: Tatyana Medeiros · http://meupapelnomundo.blogspot.com

O que não entendo é porque eles não descartaram um dos embriões, quando ainda eram embriões... Aliás, entendo sim. Devem ser daquele tipo que acham um absurdo o aborto, uma atitude não cristã. Porque atitude cristã é abandonar um recém nascido no hospital.

PermalinkPermalink 07.04.11 @ 14:33



Comentário de: Victor · http://www.blablagol.com.br/

Curiosamente, comecei a ler o texto e achei se tratar de um CONTO de ficção científica para depois colocar alguma reflexão ou coisa assim.
Não fosse o LINK para a notícia, assim iria achar até o penúltimo parágrafo de tão surreal que é a situação.

PermalinkPermalink 07.04.11 @ 16:55



Comentário de: Bibiana · http://www.scriptografias.blogspot.com

Ontem pela manhã, uma amiga comentava que ao observar o comportamento humano entendia exatamente porque experimentamos um caos a cada novo acontecimento, em nível local ou global.

Hoje, lendo sobre os animais vivos (peixes e tartarugas) que estão sendo usados como chaveiro na China (http://migre.me/4cX32) e as meninas "mercadorias" de Curitiba, somo à observação de minha amiga a minha própria descrença na humanidade que nos habita, cada vez mais minguada.


PermalinkPermalink 08.04.11 @ 16:38



Comentário de: Gabriela de Paula · http://www.blogagabriela.blogspot.com

Uma grande amiga, que é professora em uma escola para crianças ricas, já me havia relatado casos semelhantes. É comum casais que fizeram reprodução assistida se sentirem como CONSUMIDORES enganados quando vêm mais filhos do que o planejado. Mas outro amigo se separou da primeira esposa depois que ela rejeitou as filhas gêmeas (que foram concebidas naturalmente à moda antiga). Eles já tinham um menino e só queriam mais um, alegava a moça.
Filho não é escolha certeira, é caixa misteriosa. E se viesse "com defeito"? Iam devolver? Paternidade e maternidade é uma decisão que deve contemplar as mais diversas possibilidades e não a busca de uma meta a ser atingida. Com perfeição.

PermalinkPermalink 10.04.11 @ 12:58



Comentário de: Adriana

Parabens. Voce colocou em palavras o que eu sinto com essa noticia. Espero que o juiz tire essas crianças desses monstros que as fizeram. Um ser que tem a capacidade de escolher entre os filhos qual vai abandonar a sua propria sorte não é humano. Espero tambem que sirva de alerta e que sejam feitas regulamentaçoes mais rigorosas quanto a essas clinicas. A seleção de quem está apto a fazer o tratamento nao pode ser baseada somente na possibilidade de pagar o alto custo do tratamento. Vejam o exemplo da adoção: a burocracia existente está ai para evitar que desajustados recebam uma criança. E quanto aos casais que procuram essas clinicas? Acho que esses casais deveriam passar pelo mesmo esquema rigoroso e burocratico que passam aqueles que desejam adotar. Ai, realmente, aqueles que nao podem ter naturalmente (e a natureza é sábia) só iriam receber filhos se estivessem aptos. Já que não podemos comprar o que ja está pronto, não deveriamos poder comprar por encomenda.

PermalinkPermalink 15.04.11 @ 15:30



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