2011
Você deve ter lido (e ficado chocado) sobre o casal de classe média alta de Curitiba que, após investir em uma cara inseminação artificial, decide abandonar uma das trigêmeas no hospital. Para eles a decisão era simples: não queriam mais que duas filhas. Segundo uma lógica grosseiramente econômica, eles devem pensar que o "pacote" que compraram está trazendo um "brinde" indesejado. O contrato assinado na clínica de reprodução assistida deixava clara a possibilidade de nascimento de até quatro filhos. Mesmo assim, o casal parecia determinado a "comprar" no máximo dois bebês.
Ainda na maternidade, enquanto as outras famílias vibravam emocionadas com seus recém-nascidos, o marido tomava a decisão de qual das três deixaria para trás no hospital. Optou inicialmente em "descartar" aquela que apresentou um pequeno problema respiratório durante o nascimento -- algo que pode acontecer em partos, principalmente de gêmeos e prematuros, e que não necessariamente determina problemas futuros. A escolha de dois bebês dentre os três não parecia muito distante daquela que o casal provavelmente empreende ao selecionar quais frutas vão levar em um supermercado. Não estavam ali em sua frente três filhas legítimas, mas três unidades.
O casal agora diz estar arrependido, enquanto as trigêmeas permanecem recolhidas em um abrigo do Conselho Tutelar. A advogada sugere como causa da polêmica decisão uma depressão pós-parto. Mas e o pai? O que justifica sua determinação em sair do hospital com apenas dois bebês, deixando para trás uma filha? O parto foi mais que planejado. Investiu-se uma significativa soma na inseminação artificial. Mas o resultado final frustrou o projeto traçado pelo casal. Sem problemas, a solução seria simples: abandonar o bebê que para eles parecia "excessivo".
Desculpem, estou escrevendo com a mão pesada, exagerando nos termos. Mas, como cidadão e como pai, não tenho como não ficar indignado. Além de meu pesar pelo futuro das três crianças, mais uma vez observo como as relações humanas cada vez mais se objetivam, tornam-se estritamente pragmáticas, reduzidas a uma troca econômica. Em nossa sociedade do consumo, somos o que compramos e o que mostramos. Dada a velocidade da obsoletização dos bens, o rápido descarte e substituição por novos produtos são a única forma de satisfazermos nossa gana consumista. E o mercado está preparado para oferecer soluções temporárias para nossa fúria capitalista.




