2011
Brasil 247 (que quer dizer 24 horas por dia, 7 dias por semana), o primeiro jornal brasileiro exclusivo para iPad, quer ser como The Daily, mas só aprendeu as lições erradas com Murdoch.
Enquanto o periódico americano busca valorizar as capacidades hipermídia do iPad e criar material inédito e interativo (imagens 360º, vídeos exclusivos, jogos e integração com mídias sociais, etc.), o Brasil 247 imitou apenas o estilo popularesco para seus textos rasos. Além disso, sua interface é um festival de erros, parecendo até uma experiência amadora.
Mesmo que o público do iPad não seja em sua maioria da classe C, nem compre jornais baratos, daqueles que sempre estampam mulheres seminuas e manchetes sangrentas na capa, o projeto editorial do Brasil 247 é um show de metáforas, aumentativos e diminutivos. Não é a cerveja que fica mais cara, mas sim a cervejinha. De presidente do Banco Central, Meirelles vira chefão e põe bloco na rua. Já na edição de ontem, títulos de gosto muito duvidoso buscam desesperadamente atrair a atenção dos leitores:


Embriagados com seus trocadilhos e maneirismos, a revisão ortográfica também fica de lado. Na Líbia, Kadafi muda o verbo saborear para "saborar". Kubrick, por sua vez, deve ter ficado muito atormentadOUI com a matéria sobre seu filme.
O jornal brasileiro para iPad tenta ser panorâmico, oferecendo notícias de poder, agronegócios, economia, esportes e entretenimento.
Mas não vai muito além do simples panorama. Os textos são rápidos, superficiais e é grande a quantidade de acontecimentos jornalísticos que ficam de fora de cada edição. Ou seja, da mesma forma como o The Daily, que lhe serviu de inspiração, o Brasil 247 é uma ótima forma para ficar desinformado.
A informação jornalística deve primar pelo rigor, pela correção dos fatos. Mesmo assim, o Brasil 247 prefere simplesmente ampliar a confusão. O jornal fez bem em cobrir a grande polêmica em torno do milionário projeto de blog de Maria Bethânia. Por outro lado, não é verdade que ela "captou R$1,3 milhão do Ministério da Cultura", que seu blog "leva" todo esse dinheiro do MinC.

A Lei Rouanet permite que um artista capte o montante autorizado em empresas privadas, que recebem incientivos fiscais para investimentos em cultura. Sim, é preciso criticar a lei, pois o governo repassa para a iniciativa privada a decisão em quem investir. Nessa lógica, artistas mais conhecidos levam vantagem. E, no fim das contas, o patrocínio acaba sendo virtualmente de dinheiro público, pois o governo deixa de arrecadar os impostos. As empresas, por sua vez, têm a oportunidade de investir em suas marcas, com um dinheiro que deveriam repassar para o governo. O problema não é simples, pois também sabemos que com frequência os impostos pagos são desviados. De qualquer forma, é preciso perceber que o Brasil 247 não explica o problema e prefere simplesmente repetir o que se difunde no Twitter. O custo estimado do blog de Maria Bethânia é realmente escadaloso. Mas um veículo jornalístico deveria explicar bem os fatos.

A diagramação do Brasil 247 não inova e é também desatenta. As capas têm estilo de revista, mas são feias e de estética ultrapassada. Como se vê acima, o título não respeita o fio que delimita as colunas. O uso de espaços entre parágrafos é frequentemente esquecido, juntando-os todos em um único e pesado bloco de texto.
O máximo da inter-relação com redes sociais é poder enviar links para Twitter, Facebook e e-mail. Nada de inclusão de comentários em tempo real na versão para iPad.
Na verdade, a interação pelas páginas do Brasil 247 copia outro periódico pioneiro no iPad: The Project, da Virgin. A rolagem para o lado muda a seção. Já o scroll vertical vira as páginas de uma mesma matéria e/ou exibe outros textos da mesma editoria. Deu para entender? Que bom. Agora se você usasse a seção de ajuda do periódico, você ficaria completamente perdido. É que o designer não entende bem o que é vertical e horizontal.

Nesta semana, a página de ajuda foi reformulada. Agora, você precisa fazer uma rolagem horizontal na página para aprender como fazer a rolagem! Hilário.

O Brasil 247 mantém um site, onde as notícias vão sendo atualizadas. Contudo, a integração com o aplicativo também é desastrada. Como se vê na imagem a seguir, o site é cortado ao meio enquanto o iPad estiver na vertical. E, para não esquecer de falar do design do site... que horror!
Apesar da estreia pouco elogiosa, torço para que a iniciativa dê certo. As funcionalidades do iPad são pouco exploradas, o jornal precisa definir melhor quem é seu público, aperfeiçoar seu conteúdo e ampliar e melhorar seu quadro de funcionários.
Surpreende-me como editores tão capacitados tenham cometido tantas gafes. Talvez seja a pressa. Mas nesse mercado tão competitivo, não existe tempo para erros de projeto nem desculpas.




