Oportunismo 2.0: a tragédia do Japão e a lição do Bing

16Mar
2011

por Mariana Oliveira
Redatora

Em tempos de catástrofes e desastres naturais, os atos de solidariedade ganham mais força. Se existem pessoas que são dedicadas o ano inteiro para alguma causa, ONGs e afins, há também uma grande parcela da população que se sente motivada a ajudar apenas em momentos de comoção extrema - enchentes, terremotos, tsunamis(!). A internet, é claro, oferece diversas maneiras para quem quer ajudar e não sabe como. E não estou me referindo apenas às pessoas físicas - as corporações vêm se envolvendo cada vez mais nessas ações solidárias, encontrando meios de "fazer a sua parte" - seja por vontade própria ou por cobrança de seus clientes.

Na web, encontramos algumas ações que já são bem conhecidas, como o Person Finder que o Google disponibilizou nos terremotos do Haiti e do Chile - e temos novidades, como o aplicativo Mini Fazenda, da empresa Vostu, que conta com mais de 1 milhão de usuários no Orkut e colocou à venda "sementes de Algodão Doce Azul" por 5 reais, revertidos para as vítimas da enchente na Região Serrana do RJ.

Nesta última semana, não há outro assunto senão o terremoto + tsunami + (...) que atingiu o Japão, o que resultou em diversas ações para ajudar a população do país. E um dos casos que mais chamou a atenção foi o Bing, que publicou este tweet: "Como você pode ajudar o Japão: http://binged.it/fEh7iT. Para cada retweet, o Bing irá doar U$ 1 para as vítimas do terremoto, até atingir U$ 100 mil."

A estratégia deu certo: foram 107 mil RTs, contendo link para uma página no site da Microsoft com informações sobre a situação no Japão. Missão cumprida!

Será? Pensando melhor e parafraseando Shakespeare: há algo de podre no Reino da Dinamarca. Por trás desse tweet, estava ninguém menos que a Microsoft - que podia reconstruir o Japão inteiro se quisesse! Ok, exagerei, mas você entendeu. Ficar mendigando RT pegou mal. A primeira grande reação foi o tweet do comediante Michael Ian Black, para seus 1,5 milhão de followers, com a seguinte frase: "Hey @bing, pare de usar uma tragédia como uma oportunidade cretina de marketing". A partir daí, o tiro saiu pela culatra: para o Bing não restou nada a não ser pedir desculpas e avisar que a empresa faria a doação integral, independentemente da quantidade de RTs.

Essa troca "Dê um Like/RT e doe algo" é uma prática bem comum nas mídias sociais. É uma forma de unir o lado "social" da empresa, que fará a doação, mas dar um jeitinho de divulgar a marca. No Brasil, lembro de uma infeliz ação da Nutry que prometia, a cada RT, uma barrinha de cereal para os desabrigados do RJ. Infelizmente não deixa de ser uma maneira de explorar a tragédia aos olhos do marketing, através do discurso "só queremos ajudar". E sempre fica aquela pergunta no ar: se o dinheiro está disponível para a doação, porque a empresa simplesmente não a faz? Como diz esse post, sobre as estratégias de marca durante tragédias: de boas intenções o inferno está cheio.

Ao mesmo tempo, existe um paradoxo sobre o retorno para a empresa: a simples doação provavelmente não renderia benefícios à marca, já que quase ninguém ia ficar sabendo. Fica a minha pergunta: vale a pena arriscar, como no caso do Bing? Nestes episódios recentes, que empresas conseguiram unir a ação solidária à divulgação da marca, sem este cunho toma-lá-dá-cá? A exploração de desastres de tamanha comoção mundial é uma tática de marketing legítima ou "suja"?

Ah, apenas para fins de curiosidade: apesar dos mais de 100 mil RTs do Bing, o link teve menos de 50 mil clicks - ou seja, as pessoas até divulgaram, mas não clicaram! Tsc, tsc...



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Comentários:


Comentário de: S.O.S Gospel · http://www.sosgospel.com.br

Muito boa essa reflexão, acredito que usar um momento como esse é triste... e essa da Nutry eu não tinha visto.

PermalinkPermalink 17.03.11 @ 11:47



Comentário de: Ana Reczek · http://saopauloparainiciantes.blogspot.com

Eu não sou tão dura com as empresas que fazem este tipo de ação.

Se por um lado a empresa condicionar sua ajuda à divulgação do público é meio que chantagem barata e tem viés negativo, por outro existe a possibiliade de usar a verba de marketing para fazer uma ação humanitária e ainda assim trazer retorno para o cliente.

Algumas questões:

Qual a diferença de pedir RTs para sortear um carro e pedir RTs para doar o mesmo valor em alimentos?

É preferível não fazer a doação e sortear o carro se existe verba apenas para marketing e não para ações sociais?

Empresas visam o lucro, não é possível viver em um mundo idealizado e esquecer que estamos aqui pela grana. Como Faz?

No caso da Bing, imagino que dado o tamanho da corporação exista uma verba para ações sociais, mas e as empresas menores?

Otima reflexão :)

PermalinkPermalink 17.03.11 @ 16:12



Comentário de: Diana Pádua · http://www.midiamorfose.com

Muito bons argumentos, tanto da Mari quanto da Ana!

Eu já fui muito dura com as empresas que fazem esse tipo de ação, e ainda acho que algumas pegam pesado - por exemplo, o caso do Peixe Urbano, que vinculava a sua doação a uma "compra" de cupom pelo site, e consequentemente, tinha um potencial cliente se cadastrando, entendendo como funciona uma compra coletiva e por aí vai.

Mas na tragédia das chuvas no Rio esse ano, escrevi um post no O Melhor do Marketing em que questiono essa visão dos consumidores de que qualquer ação social de uma empresa tem esses "objetivos perversos" por trás.

Sim, lucro e imagem positiva são objetivos empresariais, mas eu não consigo enxergar que os profissionais de uma empresa simplesmente se tornam seres insensíveis por causa disso. :)

No post que escrevi, contei uma experiência pessoal, de uma empresa em que trabalhei. Quem não conhece meus ex-chefes, acha que tudo o que eles querem é se promover. Mas não, a preocupação social é algo inerente aos dois, de todos os dias mesmo. E durante a tragédia, vi um deles correndo atrás, conseguindo apoio de empresa de ônibus, da Cruz Vermelha, de uma empresa com um grande armazém, e pedindo no Twitter que as pessoas ajudassem no que pudessem. (E olha que ele é uma das pessoas mais "comerciais" que eu conheço, mas começou a fazer tudo isso sozinho).

Enfim, acho que é importante dosar, e é difícil saber em que ponto a empresa está ultrapassando a barreira do bom senso. Mas é uma reflexão que profissionais de marketing e comunicação precisam fazer antes de pensar em ações desse tipo. Cautela nunca matou ninguém. ;)

No mais, saudades de vcs, meninas!!
Bjinhos

PermalinkPermalink 19.03.11 @ 22:12



Comentário de: Alessandro Dórea · http://www.alessandrodorea.com.br

Concordo com a Ana.
"Qual a diferença de pedir RTs para sortear um carro e pedir RTs para doar o mesmo valor em alimentos?"

PermalinkPermalink 19.03.11 @ 22:21



Comentário de: Fernanda Fabian · http://www.twitter.com/fernandaf

Muito boa colocação Mari!

Concordo em partes com você. Mas, também, concordo com a Ana quando ela coloca as questões super relevantes.

Acho que muitas empresas buscam sim um oportunismo por trás destas ações, e isso é mais percebido ainda quando elas nunca fizeram alguma prática social e 'do nada' iniciaram uma campanha no meio digital, que de certa forma possui maior visibilidade atualmente.
Em contrapartida, penso que é uma forma de 'humanização', ou uma tentativa de ser, de se aproximar com a realidade que as pessoas estão fazendo.
Uma ação que li e achei bem bacana, é da Tim, que, se não me engano, vai permitir que as pessoas liguem para o Japão sem custos. Isso é ótimo para quem tem familiares por lá. Não estou por dentro de como está sendo esta campanha, mas acho que é uma atitude plausível e que vai de encontro com as condições da empresa, já que é um serviço dela, e ao que as pessoas necessitam.
Ou seja, acho que este tipo de ação deve ser muito bem pensada e planejada, e que realmente ajude e acrescente em algo para as pessoas, já que é isso que elas precisam em um momento como esse.

PermalinkPermalink 19.03.11 @ 23:37



Comentário de: Caio Costa · http://blogcitario.blog.br

Se a Tim fizer esta promoção e jogar no Twitter, certamente será bem acieta e receberá RT´s espontâneos sem precisar "mendigar", pois o que a maioria das pessoas fazem e procuram no Twitter é partilhar informações úteis. Acredito que, neste caso da Tim, as pessoas sentiriam que estariam ajudando de verdade, mesmo não sendo cliente da operadora. A partir daí, o aumento de linhas poderia aumentar consideravelmente.

Por isso, o bom senso deve sempre prevalecer e planejar uma ação via redes sociais requer muito planejamento para prever esses tipos de reações que o Bing recebeu.

PermalinkPermalink 23.03.11 @ 05:23



Comentário de: ronaldograuna

Cada vez mais essas politicas estarão visiveis no mundo.
A visão das corporações tendem a isso..... é um processo irreversivel.
ATT
ronaldograuna@hotmail.com

PermalinkPermalink 23.03.11 @ 21:43



Comentário de: Luis Mosko · http://www.maisempresas.com

No ramo empresarial, é muito dificil as empresas pensarem unica exclusivamente em fazer ações sociais, sem pensar em nada em troca.

Eu não acho que pedir RTs seja usar a tragedia como forma negativa de marketing. E sim uma forma de contabilizar e motivar os clientes a participarem.





PermalinkPermalink 02.04.11 @ 15:02




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