Congele seu próprio Paul McCartney

18Nov
2010

Por Alex Primo
Editor

Não se deve confiar em ninguém com mais de 30 anos. Esse era um mantra repetido nos anos 60. Já Janis Joplin, que morreu aos 20, defendia que preferia viver dez anos a mil que mil anos a dez. Envelhecer (passar dos 30!) era visto na era sexo/drogas/rock'n roll como uma tragédia da vida. Mas o tempo passou.... A juventude de hoje tem como ídolos senhores na volta de 70 anos! Esses idosos servem de modelo de vida, um ideal a ser seguido.

Esse é o caso de sir Paul McCartney. Com 68 anos, esse lorde inglês lotou o estádio do Beira-Rio em Porto Alegre e terá agora casa cheia em São Paulo, no Morumbi. Durante o show nos pampas, escutei jovens universitários debatendo qual era o melhor disco dos Beatles, uma discussão que já dura 40 anos! McCartneyQuando o "Beatle bonito" entrou no palco, vi garotas chorando e berrando como se estivessem em um túnel do tempo. A emoção que tomou conta do Beira-Rio foi motivada pelas milhares de histórias pessoais que tiveram como trilha sonora músicas do fab four.

Aquele senhor que um dia refletia como seria ter 64 anos, agora beira os 70. Enquanto isso, meninas seguravam cartazes pedindo que ele assinasse seus braços, na esperança de tatuar para sempre aquele registro histórico.

Registros. Isso foi o que mais aconteceu durante o show em Porto Alegre e certamente se repetirá nos dois shows em São Paulo. A soma dos pixels dos grandes telões do show pareciam troco diante de todas as câmeras digitais que miravam o centro do palco. Quantos na plateia vi curtirem o show apenas através das pequenas telas de suas máquinas fotográficas. Mais importante que estar diante de um Beatle era capturar para sempre aquele momento. Melhor que estar lá seria poder provar no YouTube que lá se esteve.

MaccaEnquanto beatlemaníacos grizalhos e alguns garotos que recém descobriram McCartney no jogo Beatles Rockband berravam e soluçavam, outros tantos preferiam prazeres mais digitais. Cercando tietes lacrimejantes, um exército de lentes gravava em cartões Flash imagens borradas, tremidas e com áudio estourado. A qualidade, entretanto, importava menos que guardar para si o testemunho em megas e gigas.

Será que o número de fotos e vídeos captados no Beira-Rio não superou todas as imagens dos Beatles durante a década de 60 inteira? Isso não me surpreenderia. Mais difícil que avistar o palco espremido na plateia era desviar o olhar dos pares de braços levantandos equilibrando Sonys, Fujis, Panasonics, iPhones, Nokias...


Enquanto para alguns era um privilégio viver aquele momento histórico, para outros história é o que pode ser "subido" para o Flickr. Para estes, o registro do momento passado vale mais que a sensação daquele presente. Viver o acontecimento, para estes ciberhistoriadores, é apenas um percalço necessário para a gravação do instante.

Em nossa sociedade do consumo, importa muito ter a posse da coisa. Nem que seja um evento fugidio. Possuir uma imagem que ninguém tem, salvar um filme como peça rara de uma coleção... capturar seu próprio McCartney. Eis o ápice do poder virtual sobre o real efêmero.

Você não precisa cair na histeria saudosista, nem mergulhar nos pixels de sua câmera. Vá até o Morumbi e cante todas as letras, envie uma foto por SMS para alguém que você ama e escreva que queria compartilhar com ela aquele momento. Daí desligue o aparelho e curta cada momento. Fotografe tudo com a retina e guarde apenas para si aquela memória inesquecível. O sonho não vai acabar, mesmo que você não filme McCartney no telão (estranho registro virtual do show virtualizado).



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Comentários:


Comentário de: Victor · http://www.blablagol.com.br

Já tive a NECESSIDADE de ficar batendo foto de tudo. Porém, percebo a limitação que isto causa em acompanhar/participar de um evento para o pouco resultado efetivo ao fim do mesmo, isto é, fotos/gravações toscas aquém do evento que não produzem o encantamento passado.

TODAVIA, nutro a paixão pela fotografia, e o fato de tirar fotos em si me diverte. Resolvo da seguinte forma este desequilibrio:

Em eventos em que eu quero participar (será o caso do show do Paul ou um jogo do Flu) eu levo uma máquina portátil para dois ou três registros e bolso.
Quando o interesse é para a fotografia, eu vou com o intuito de c**** para o show e me divertir fotografando. Provavelmente se alguém me perguntar que música tocou, eu nem vou saber.

SÓ QUE, para isso, eu tive de colocar a mão na consciência e entender essas limitações. Isso com anos de uso de máquinas e bom conheciomento técnico de fotografia. DUVIDO que a rapaziada neófita (ou mesmo antiga) tenha essa percepção. AINDA mais quando incentivados pela massa que faz a mesma coisa.

De qualquer forma, agradeço a esses empolgados que me permitem ao voltar de um jogo ou espetáculo, ir ao Youtube e usar do trabalho deles. Vejo o show e tenho os registros amadores. ADEQUAÇÃO ao Mundo que vivo, embora o lamente.

PermalinkPermalink 18.11.10 @ 15:13



Comentário de: pollianaaraujo · http://neobudega.wordpress.com

Poxa Alex Primo,
confesso que o último parágrafo do seu texto me fez chorar.
É isso aí, quero guardar o Paul no meu coração, que é o mais importante :)

Abraço!

PermalinkPermalink 18.11.10 @ 15:16



Comentário de: Alex Primo Email

Victor, equilíbrio é sempre a melhor solução! Também agradeci muito quando pude ver no YouTube o show do Led Zepplin com Robert Plant retomando os vocais, porque alguém estava lá e filmou! Mas me incomoda muito ter todas aquelas jogando luz em meus olhos quando estou em um teatro ou em um show.

Polliana, seu comentário é que me comoveu! :-)

PermalinkPermalink 18.11.10 @ 15:20



Comentário de: radios comunicadores · http://www.oluapmot.com.br

Muito bom esse post, gostei!

PermalinkPermalink 23.11.10 @ 14:00



Comentário de: Thaís · http://subdelirios.blogspot.com/

As pessoas estão cada vez mais dependentes da tecnologia e da integração, querem estar conectadas a todo o momento, sem perder nada. Mas esquecem que um tempo sozinho é bom, mesmo que esse "sozinho" seja no meio de uma multidão que está lá por um mesmo motivo. Tirar fotos em um show ou filmar pede a atenção de quem está usando a máquina, que fica preocupado com ângulos e não presta atenção no show, podendo perder alguma coisa. Mas também podem não perder e gravar algo que pode depois ser compartilhado com o público, algum incidente que aconteceu no palco (são inúmeros os exemplos, então nem citarei). Ponderando, há vantagens e desvantagens. E não poder ver o palco devido ao mar de câmeras é o maior deles.

PermalinkPermalink 29.11.10 @ 20:21



Comentário de: Rafael Cruz e Silva

Olá Alex, tudo bem?

Gostei muito do post e ele me levantou outro questionamento: o desejo das pessoas é pela experiência mediada ou pela SUA experiência mediada? Pergunto isso porque, pelo relato, parece que a audiência não queria ver o Paul pelo telão, mas queria ver pela SUA telinha de máquina digital. Recordo de um episódio na UFMG, quando da visita de Boaventura de Sousa Santos p/ uma palestra. O auditório ficou lotado, c/ as pessoas sentadas nos corredores ou de pé encostadas nas paredes mas, as salas externas ao auditório, nas quais haviam grandes telões c/ assentos p/ todos, estavam vazias. Entretanto, a audiência no auditório, gravava e fotografava. Essa interrogação vai continuar me "incomodando" (no bom sentido): qual o desejo das pessoas? O da experiência, vivida, mediada ou do registro da SUA experiência (sendo assim, mediada)?

Abraços!

PermalinkPermalink 30.11.10 @ 11:42



Comentário de: Alice G. · http://lovethebeatlesforever.blogspot.com

Você tem toda razão. Não vou negar que, se eu tivesse comparecido ao show, teria tirado uma razoável quantidade de fotos e vídeos. Mas pensando aqui, é uma prática um tanto quanto inútil. Concordado com o comentário de pollianaaraujo, o último parágrafo foi comovente. Gostei muito. Se é para amar, prefiro amar ao Paul do que a uma foto.

PermalinkPermalink 03.12.10 @ 13:11



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