2010
Não se deve confiar em ninguém com mais de 30 anos. Esse era um mantra repetido nos anos 60. Já Janis Joplin, que morreu aos 20, defendia que preferia viver dez anos a mil que mil anos a dez. Envelhecer (passar dos 30!) era visto na era sexo/drogas/rock'n roll como uma tragédia da vida. Mas o tempo passou.... A juventude de hoje tem como ídolos senhores na volta de 70 anos! Esses idosos servem de modelo de vida, um ideal a ser seguido.
Esse é o caso de sir Paul McCartney. Com 68 anos, esse lorde inglês lotou o estádio do Beira-Rio em Porto Alegre e terá agora casa cheia em São Paulo, no Morumbi. Durante o show nos pampas, escutei jovens universitários debatendo qual era o melhor disco dos Beatles, uma discussão que já dura 40 anos!
Quando o "Beatle bonito" entrou no palco, vi garotas chorando e berrando como se estivessem em um túnel do tempo. A emoção que tomou conta do Beira-Rio foi motivada pelas milhares de histórias pessoais que tiveram como trilha sonora músicas do fab four.
Aquele senhor que um dia refletia como seria ter 64 anos, agora beira os 70. Enquanto isso, meninas seguravam cartazes pedindo que ele assinasse seus braços, na esperança de tatuar para sempre aquele registro histórico.
Registros. Isso foi o que mais aconteceu durante o show em Porto Alegre e certamente se repetirá nos dois shows em São Paulo. A soma dos pixels dos grandes telões do show pareciam troco diante de todas as câmeras digitais que miravam o centro do palco. Quantos na plateia vi curtirem o show apenas através das pequenas telas de suas máquinas fotográficas. Mais importante que estar diante de um Beatle era capturar para sempre aquele momento. Melhor que estar lá seria poder provar no YouTube que lá se esteve.
Enquanto beatlemaníacos grizalhos e alguns garotos que recém descobriram McCartney no jogo Beatles Rockband berravam e soluçavam, outros tantos preferiam prazeres mais digitais. Cercando tietes lacrimejantes, um exército de lentes gravava em cartões Flash imagens borradas, tremidas e com áudio estourado. A qualidade, entretanto, importava menos que guardar para si o testemunho em megas e gigas.
Será que o número de fotos e vídeos captados no Beira-Rio não superou todas as imagens dos Beatles durante a década de 60 inteira? Isso não me surpreenderia. Mais difícil que avistar o palco espremido na plateia era desviar o olhar dos pares de braços levantandos equilibrando Sonys, Fujis, Panasonics, iPhones, Nokias...
Enquanto para alguns era um privilégio viver aquele momento histórico, para outros história é o que pode ser "subido" para o Flickr. Para estes, o registro do momento passado vale mais que a sensação daquele presente. Viver o acontecimento, para estes ciberhistoriadores, é apenas um percalço necessário para a gravação do instante.
Em nossa sociedade do consumo, importa muito ter a posse da coisa. Nem que seja um evento fugidio. Possuir uma imagem que ninguém tem, salvar um filme como peça rara de uma coleção... capturar seu próprio McCartney. Eis o ápice do poder virtual sobre o real efêmero.
Você não precisa cair na histeria saudosista, nem mergulhar nos pixels de sua câmera. Vá até o Morumbi e cante todas as letras, envie uma foto por SMS para alguém que você ama e escreva que queria compartilhar com ela aquele momento. Daí desligue o aparelho e curta cada momento. Fotografe tudo com a retina e guarde apenas para si aquela memória inesquecível. O sonho não vai acabar, mesmo que você não filme McCartney no telão (estranho registro virtual do show virtualizado).




