2010
O embate entre Apple e Adobe sobre o Flash já foi muito discutido na mídia especializada em tecnologia e nos papos entre geeks, designers e programadores. Com o suporte ao Flash em celulares com Android, o debate parece ganhar nova força. Para o internauta comum, contudo, a briga entre Flash e HTML 5 não parece ter qualquer importância. O que ele realmente quer saber é quando a web ficará mais interessante. Com exceção de sites de nicho, que abusam de interação e criatividade, os portais e páginas mais visitadas da web andam muito parecidos. Mudam as cores, os logos, mas o resto segue um padrão já cansativo.
É como se algumas regras e procedimentos tenham atingido um consenso estável, quase uma garantia de sucesso. E quando alguma coisa muda, todos os sites mudam juntos. Ontem as abas dominavam a navegação, hoje os grandes menus passam a tomar conta das interfaces. Sim, padrões são importantes, pois oferecem uma sensação de familiaridade que facilita o uso dos sites. Mas isso não deveria ser sinônimo de “mesmice”.

Com acesso direto a fontes primárias e a farta disponibilidade de informações e imagens, o conteúdo da web foi também ficando igual. Desde portais, sites noticiosos até blogs (que deveriam oferecer a crítica não convencional) vêm oferecendo informações muito parecidas. No Brasil, muitos blogs populares se resumem a traduzir matérias da imprensa internacional. Jornais online também compartilham a mesma estrutura visual e oferecem textos convencionais.
Tudo isso pode ser muito decepcionante para quem achava que a internet iria nos livrar da informação padronizada da mídia de massa. Correndo por fora, os sites de jornalismo participativo e os blogs de nicho oferecem análise crítica sobre os fatos contemporâneos. Eles também conseguem colocar tempero nas informações sem sal dos sites da “cabeça” da curva. Pena que a maior parte deles seja desconhecida do grande público.
A discussão sobre Flash e HTML 5 é certamente relevante, pois a tecnologia utilizada condiciona os resultados. O problema é quando o site fica “com cara de Flash”! Nesses casos, é a técnica que está no centro do projeto, não a ideia. Você deve conhecer muitas páginas que são um show de pirotecnia, mas que são apenas mais uma manipulação de código dentre tantas outras. Diante disso tudo, podemos sentenciar: a web ficou muito igual, muito chata.
É justamente nessa hora que o iPhone e o iPad vieram sacudir a pasmaceira. A interface foi reinventada para se ajustar aos limites de tela e de interação. E os aplicativos vieram permitir inovações difíceis de serem implementadas na desunida família de browsers. Sabemos que os apps são arquivos fechados e que precisam ser aprovados pela Apple. Ou seja, esse procedimento vai contra o movimento de tecnologias abertas. Mas, mais uma vez, o grande público não quer saber desse debate. O que ele quer é um ambiente fácil de ser usado, que seja agradável visualmente e que ofereça conteúdo criativo. Outros players como Nokia e Google lutam para oferecer suas próprias inovações. Nesse cenário o que parece chocante é que as interfaces móveis estão se tornando mais criativas que os sites da web! Isso pode parecer uma contradição. Como pode um dispositivo como um celular ou um tablet ser mais fácil e prazeroso de operar? Não é estranho um site em um computador calibrado, com monitor widescreen, parecer mais chato que um app em uma pequena tela de smartphone? Sinal dos tempos! Ou melhor, é uma prova da exaustão das interfaces da web.
Mas não podemos pensar que o Flash é o vilão da história, nem que o HTML 5 e que as novas linguagens de programação sejam a redenção. O que precisamos é de mais ousadia, mais criatividade. O resultado dessa velha fórmula será mais prazer e mais conversões.
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Publicado originalmente em minha coluna na Revista W.




