Uma reflexão sobre Serendipismo, overload e inovação. Ahn?

16Ago
2010

por Mariana Oliveira
Redatora

Além das coisas positivas que todos sabemos que a internet nos proporcionou, como acesso à informação, poder para os consumidores, democratização dos meios de produção, entre tantas outras "maravilhas" que lemos por aí, é preciso considerar também os novos problemas que a web criou – ou, pelo menos, intensificou. É aí que se enquadra a tendência de overload: informação em grande quantidade, angústia por saber que não vamos conseguir ler tudo, tweets, feeds, artigos, comentários… sempre fica a sensação que em algum blog do mundo tem algo interessantíssimo esperando pela sua leitura.

Essa ansiedade de informação não é característica exclusiva da web: desde que começamos a registrar as histórias - seja em papiro, livros ou e-books, o volume de dados ultrapassou as nossas capacidades cognitivas para “conhecer tudo”. Aí entram os curadores de conteúdo, os críticos, os jornalistas, a imprensa: pessoas que “selecionam”, dentre esse montante, as informações mais relevantes e aplicáveis na nossa realidade. Se este modelo funciona bem ou não é outra questão a ser debatida, mas o fato é que a internet provocou uma ruptura nesse modelo de curadoria e seleção. Com as facilidades da internet, qualquer pessoa pode ignorar este conteúdo “selecionado” e partir para suas próprias fontes de informação alternativas – inclusive, se tornando a fonte de informação para outros.

Já existem muitas publicações que investigam esse overload, e como isto está afetando o nosso cérebro e as tais capacidades cognitivas. Há quem faça previsões apocalípticas para esse excesso de conteúdo, assim como quem exalte essa nova era de conhecimento abundante e compartilhado. Neste fogo cruzado conheci através deste post uma tendência chamada Serendipismo. Aplicada à web, seria algo como uma contratendência que “se joga” neste mar de informação, em vez de tentar controlá-lo. Ahn?

Para explicar melhor: a palavra Serendipismo, do inglês Serendipity, significa “descobertas ao acaso”, e é um neologismo criado a partir de um conto infantil persa. Em Os Três Príncipes de Sarandip, os protagonistas viviam fazendo descobertas inesperadas durante seu caminho. Dotados de grande sagacidade e com a mente aberta para as múltiplas possibilidades, os príncipes acabavam encontrando “acidentalmente” soluções para seus dilemas, o que os tornava muito importantes perante o reino.

O Serendipismo é uma forma especial de criatividade, em que saímos em busca de uma coisa e acabamos encontrando outras muito mais importantes e valiosas. A ciência está repleta de casos famosos que podem ser classificados como serendipismo, mas estes só ocorrem quando estamos “abertos” a estas descobertas, preparados e com o senso de observação apurado. Está aí a associação máxima com a navegação hiperlinkada na web, em que começamos por googlar uma coisa e acabamos mergulhados em um assunto mais interessante e completamente diferente do planejado inicialmente.

E o que isso tem a ver com o excesso de informação do início deste post? A questão é que se tentarmos controlar essa avalanche de dados, seja com ferramentas como agregadores de feeds, listas, sistemas de recomendações, ou até mesmo com uma “desintoxicação”, podemos perder grandes oportunidades de descobrir outros mundos e, bingo!, lá estava a solução para o nosso dilema. É um risco que se corre. Uma tentativa de vida digital organizadinha, em que você lê os mesmos sites, segue as mesmas pessoas no Twitter e acompanha só os assuntos relacionados à sua área definitivamente não combina com o serendipismo, em que “estar disponível a encontrar coisas que você nem sabia que existia” é um fator fundamental para acessar o que não é alardeado pela mídia, mas que pode ser essencial para o seu projeto - e, desses encontros inesperados, pode emergir a tão almejada inovação.

Moral da história: o volume desenfreado de conteúdo pode provocar novas descobertas e/ou muita dor de cabeça. Basta escolher (ou descobrir?) como aproveitar este caos informacional da melhor maneira possível. :)



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Comentários:


Comentário de: Apolônio

Moral da história: comer muito ou beber pode fazer mal ou bem, basta saber dosar e aproveitar as coisas da melhor maneira possível.

E viva o Serelepismo!

PermalinkPermalink 16.08.10 @ 11:57



Comentário de: Paulo Siqueira · http://blog.exadigital.com.br

Olá Mariana,

Gostei muito da postagem e achei bem interessante o uso do termo Serendipity. A primeira vez que tive contato com este termo foi em 2000, trabalhava para a UNIDO, e participei de um evento em Londres, Inglaterra, no Imperial College.
A idéia era reunir pessoas de várias áreas, que apresentaram vários projetos. Houve também premiações de projetos inovativos.
Depois, nos reunimos em grupos temáticos. Cada grupo tinha representantes de diversas áreas, TI, Saúde, Educação, Transporte, Alimentar, Política etc.
Depois de 3 dias e vários "insights" produzimos algumas propostas e documentos voltados para a ações de apoio social.
Um dos objetivos era trabalhar novas propostas com pessoas que não se conheciam e que fossem de áreas diferentes.
Evento interessante e o tema era Serendipity.

PermalinkPermalink 16.08.10 @ 12:07




Sei lá...
Mas será que se a gente entrasse, por exemplo, na biblioteca do Vaticano, ao ver tantas obras raras, não sentiria a mesma angústia?
Eu costumava frequentar a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e já sentia-me incapaz de ler tudo o que me interessava.
Mas talvez a graça esteja justamente aí...milhares de opções!
Ninguém sabe tudo!
O conhecimento total, só é possível se considerarmos o conhecimento acumulado por toda a humanidade, sem subestimar ninguém....
A internet não cria, ela é uma ferramenta; quem cria com ela somos nós. Muitas vezes mais reproduzimos velhos comportamentos do que criamos...
Esta é a parte chata...
Com tanto espaço para criar, vamos seguir reproduzindo?

=/

PermalinkPermalink 16.08.10 @ 12:22



Comentário de: Adriana · http://adrianabaggio.blogspot.com

Olá Mariana, muito bacana e pertinente o texto.

É um alerta importante sobre como lidar com o volume de informação e conhecimento e aproveitar essa quantidade, ao invés de sermos "soterrados" por ela. Confesso que fiquei aliviada com esse outro ponto de vista.

Lembrei daquela orientação sobre como sair de uma corrente ou redemoinho no mar. Não adianta tentar lutar contra a água e a sua força. O melhor é entrar na corrente e aproveitar esse fluxo para ir mudando devagarinho a direção.

Pode ser que a gente não volte exatamente ao mesmo ponto em que entrou, mas pelos menos vamos sair na praia, sãos e salvos. De outro jeito, o perigo de se afogar é grande - no mar de água e no mar de informações.

Um abraço,

Adriana

PermalinkPermalink 16.08.10 @ 14:35



Comentário de: OCAPPUCCINO.COM · http://www.ocappuccino.com

Mt bom Mari. No blog publicamos um texto com esta mesma 'aflição', aqui ó > http://ocappuccino.blogspot.com/2010/08/ode-as-redes-sociais-uma-convocacao.html

Mateus
@ocappuccino

PermalinkPermalink 16.08.10 @ 22:21



Comentário de: Vanildo Oliveira

Outro interessante post, Mariana.

Concordo plenamente com o comentário acima de Chris!

Outro ponto: Pelo que eu entendo, serendipity também demanda que estejamos focados em um problema ou em busca de uma informação específica, não "navegando" a ermo. Portando, demanda uma mente aberta, porém em busca de algo e não aberta e vazia!

Demanda também uma capacidade para processar a nova informação e extrair algo relevante. Como dizia o "Barão de Itararé": Do vazio só se extrai o nada.

Abç.
@vanildoliveira

PermalinkPermalink 17.08.10 @ 18:54



Comentário de: Gisela Sanchez · http://www.bispagisela.com

Amo ser criativa e buscar o que ainda não sei se existe. Gosto de sair por caminhos desconhecidos para encontrar novos conhecidos. Acredito que o acaso está dentro de uma criação eterna de Deus. Serendipismo foi abordado no meu blog hoje. Parabéns pelo texto! Por um acaso entrei aqui!

PermalinkPermalink 24.01.11 @ 00:00



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