2010
Há alguns dias, depois de acompanhar um debate sobre sites de redes sociais entre alguns tuiteiros, passei a observar à importância do uso do botão reply no Twitter para a organização da conversação e para a manutenção da adjacência dos turnos para aqueles que acompanham a conversa de terceiros, mas que não participam ativamente dela.
Os primeiros pesquisadores da análise da conversação organizaram as conversas partindo da premissa de que elas se dispõem em perguntas e respostas (Sacks, Schegloff & Jefferson). Cada parte é um turno, a pergunta é a primeira parte do turno e a resposta a segunda parte e, para que haja conversação, é necessária adjacência entre as partes dos turnos. Dessa forma os turnos adjacentes são formados de par em par e surgem as sequências conversacionais. Em vez de perguntas, em minhas dissertação analisei as conversas dispostas como declarações e respostas (Goffman), já que um turno pode oferecer adjacência a outro a partir de um locutor que não faz uma pergunta direta.
No Twitter podemos considerar que muitos replies são gerados a partir de declarações anteriores que não, necessariamente, foram perguntas diretas. Normalmente, as conversas surgem neste ambiente a partir de turnos desse tipo, já que muitas vezes as tuitadas de uns instigam outros a responder e dar continuidade na conversação.
As conversas públicas entre dois ou mais tuiteiros nem sempre são bem vistas, tanto que alguns criticam e chegam a dizer que os envolvidos deveriam usar as DMs (Direct Message). Certamente pode aparecer nas timelines as conversas de seguidos nossos que de nada nos interessam, mas há muitos debates que acompanhamos e que nem sempre participamos ativamente que julgamos interessantes. Pensem no potencial do Twitter para um debate entre políticos e eleitores.

O debate público é um dos potenciais do Twitter dos mais importantes que observo, mas que ainda é pouco utilizado, até mesmo porque é difícil se acompanhar uma conversação quando há mais do que dois tuiteiros envolvidos, principalmente, quando não seguimos todos eles. Outro agravante é o fato de não sabermos o momento em que a conversa inicia. A recuperação dos turnos da conversação é dificultada quando não se usa o botão reply
Quando se dá reply a um tuite, ele só aparecerá na timeline de nossos seguidores se eles seguirem as duas partes envolvidas na conversa. A solução para isto é simples, basta se colocar um ponto à frente do @ para que o nosso reply apareça para todos os nossos seguidores (.@fulanodetal).
Na semana passada acompanhei a conversa entre @MissMoura, @raquelrecuero e o editor deste blog, @alexprimo. Os três discutiam se alguns sites de relacionamentos que usamos podem ser considerados Redes Sociais. Neste post não me interessa discutir esse tema, mas analisar a conversação deles.
Aparentemente, a conversa foi originada a partir da declaração de @MissMoura que divulgava uma pesquisa da Nielsen sobre usuários de redes sociais no Brasil. A partir daí, @alexprimo passa a fazer questionamentos a @MissMoura do link da pesquisa e, depois, passa a questionar @raquelrecuero sobre o tema também. Ele não usa mais o botão reply em todas as suas respostas e o sistema não consegue organizar os turnos em sequências para que outros acompanhem a conversa.
Certamente, aqueles que como eu estavam online no momento e recebiam em suas timelines os tuites deles podiam acompanhar perfeitamente o debate, mas quem chegou depois de iniciada a conversação ou que não segue os três perdeu a sequência dos turnos. A própria @raquelrecuero publica um tuite mais tarde explicando que havia esquecido de usar o ponto à frente dos @s e que aqueles que desejassem acompanhar a discussão poderiam ver em sua timeline, mas realmente fica muito trabalhoso e torna a prática quase que indesejável organizar a conversa. Como nem todos estão interessados em analisar a conversação turno a turno como é meu interesse de pesquisa, certamente deixarão o debate passar.
O uso do botão reply resolve o problema para as conversas entre dois interagentes, como pode ser observado na figura que mostra alguns turnos da conversa entre @raquelrecuero e @alexprimo, mas a @MissMoura que também faz parte dessa conversa não aparece sempre. Nesse ponto o Twitter precisa evoluir para organizar melhor as conversas, pois assim poderíamos acompanhar os debates públicos de forma mais fácil.
Nesta semana, foi anunciado o fim do serviço Google Wave. O sistema permitia acompanhar as conversas de forma mais eficiente do que o Twitter, mas ainda era muito complicado se compreender o seu funcionamento que, somado ao elevado número de bugs, afastou os internautas e fez com que a Google descontinuasse o mesmo.
O Twitter poderia utilizar algumas das tecnologias que existem no Wave para organizar melhor as conversas entre mais do que dois tuiteiro, pois muitas vezes estamos interessados nas discussões daqueles que seguimos. Imaginem este debate entre os três tuiteiros citados acima para alunos que pesquisam redes socias na internet? As conversas entre os outros não devem ser vistas como flood em nossas timelines, mas como a abertura de conversas para o público que antes ocorriam em sua maioria exclusivamente no ambiente privado, mas para isso é necessário se ter melhores instrumentos para a organização da conversação. Enquanto isso, usem o botão reply e lembre de colocar ponto à frente do @ quando desejam que seus seguidores recuperem e acompanhem a conversa.




