2010
A web, em sua geração 2.0, oferece diversos serviços gratuitos onde os internautas podem expressar suas ideias e opiniões. A propósito, esta é uma das afirmações das mais panfletárias e das mais utilizadas por entusiastas da democratização da informação que a web pode apresentar. Mas o que esses serviços gratuitos cobram de você? No caso do blog Twitter Brasil o custo foi o nome e a URL que deverão ser entregues à Twitter, Inc.
O blog de @fernandosouza, @gabizago e @raquelcamargo foi criado quando o Twitter ainda não era um serviço muito conhecido no Brasil. A ideia era criar um espaço para explicar o funcionamento e tirar dúvidas em português do serviço, visto que será somente agora em 2010 que o site ganhará uma versão no idioma dos brasileiros.
Na época em que os blogueiros criaram o blog, entraram em contato com a própria Twitter, Inc. para solicitar autorização de uso da marca, a qual foi aparentemente cedida. O fato pode ser conferido no próprio post que trata do tema no blog que, por exigência da Twitter, Inc. já trocou de nome para Twit Brasil.
Os blogueiros ficaram indignados com a atitude e reclamaram no blog e em suas páginas no próprio Twitter por terem que ceder o nome e URL à Twitter, Inc. O protesto ganhou o hashtag #FreeTwitterBrasil e recebeu vários apoios na tarde desta quinta-feira (29). A revolta deles realmente tem fundamento, já que o blog aparece na maioria das vezes como o primeiro resultado nas buscas do Google quando se procura informações do serviço. Não foi a toa também que a Twitter, Inc. exigiu a mudança do nome e da URL, já que um fanblog aparece à frente do próprio serviço.
A atitude da empresa pode ser “moralmente reprovável” como fala a autora Gabriela Zago, mas é de direito legal. Mas como devemos pensar este episódio ao utilizarmos serviços gratuitos ou falar dos mesmos na web?
A Twitter, Inc. cobrou nada mais do que os direitos de sua própria marca. Mesmo que tenham concedido o direito no passado, a empresa tem direito de voltar atrás, já que é o seu produto que está em questão. A verdade que deve ser observada, ainda que também me soe inaceitável, é que o blog Twitter Brasil não existiria sem o próprio serviço Twitter.
Por utilizarem esses serviços web desde a sua origem e por estudarem os mesmos em suas pesquisas, as blogueiras Gabriela Zago e Raquel Camargo certamente sabiam da popularidade que o blog poderia atingir no momento em que o Twitter fizesse sucesso no Brasil. O próprio nome do blog, URL e títulos das postagens publicadas apresentam facilmente as técnicas de SEO que são utilizadas no blog. A propósito, por mérito indiscutível desses blogueiros pelo bom conhecimento da ferramenta e pela relevância do conteúdo postado. Não é a toa que aparecem bem no Google, foram os primeiros a falarem no serviço e falam com propriedade. Mas ainda assim falavam do serviço de uma organização que não é sem fins lucrativos, trata-se de uma empresa que visa lucro e precisa cuidar de sua marca e do seu espaço no mercado.
Ainda que eu também ache um absurdo a atitude da Twitter, Inc. da forma como ocorreu, precisa-se observar que o conceito de Web 2.0 fala em um novo modelo de negócios com participação do usuário, que se pode até dividir o lucro (AdSense), mas ainda é um negócio comercial. No momento em que as empresas que oferecem esses serviços gratuitos se sentirem prejudicadas, tomarão atitudes, politicamente corretas ou não, para reverem seus direitos legais e preservarem seu negócio. Nessas horas tenho medo da Google que controla boa parte de minha vida online.
Creio que a Twitter, Inc. poderia negociar melhor com os blogueiro para compensar o esforço e o trabalho voluntário desses fãs do serviço desde quando a empresa nem se interessava pelo Brasil. É revoltante ver esses blogueiros tão pequenos frente à Twitter, Inc. terem que simplesmente ceder uma outra marca que foi construída.
O que se deve levar de lição deste acontecimento é que quando empenhamos trabalho em um projeto com a intenção de se ter ganho no futuro, pois a própria postagem no blog revoltada com a atitude da Twitter, Inc. fala em ganhos materiais, é que deve ser feito de forma mais profissional. Não é errado querer ganhar dinheiro com um blog, não é errado querer ganhar reputação ao se escrever sobre um serviço, mas é necessário lembrar que esses serviços não são organizações filantrópicas, mas empresas que visam lucro, muito lucro (vide Google, Facebook, LastFm, etc).
O acontecimento com o Twitter Brasil, que pra mim também soa revoltante, não é uma forma de censura, não fere a liberdade de expressão dos blogueiros, mas mostra a verdadeira cara das organizações que administram os serviços gratuitos na web. Precisamos lidar de forma mais madura com esses serviços e cuidar para não ficarmos reféns de ambientes que nós mesmos construímos.
Confira abaixo a entrevista com a autora Gabriela Zago (jornalista e advogada) concedida ao DossiêAP:
Como você classificaria a atitude do Twitter em exigir o nome e a URL do Twitter Brasil?
@gabizago: A opinião dentro da equipe do blog é dividida. Eu particularmente acho justa a exigência (pela questão de proteção da marca), embora não concorde em ter que mudar nome e URL, na medida em que não estamos fazendo um mau uso da marca, e sim buscando ajudar as pessoas com informações sobre Twitter e outros microblogs em português, algo que o Twitter (por enquanto) não oferece.
Legalmente, o Twitter pode tomar esta atitude?
@gabizago: Tendo a marca registrada, sim. É juridicamente possível a exigência, ainda que moralmente reprovável.
Segundo um post no próprio blog, vocês dizem que não discutirão legalmente pelo direito do nome e da URL, por que vocês decidiram isto?
@gabizago: Primeiro porque o acordo parecia amigável, e segundo porque seria um processo internacional, provavelmente envolvendo grandes gastos financeiros.
Como vocês pensam o blog com o novo nome a partir de agora?
@gabizago: Continuaremos a oferecer informações em português sobre microblogs, mas talvez não com tanto gás como antes. A confusão toda nos desmotivou um pouco.
O Twitter ganha ou perde com esta atitude, já que houve grande manifestação com o hashtag #FreeTwitterBrasil?
@gabizago: Tem ganhos para todos os lados. A imagem do Twitter-empresa pode ficar arranhada, mas por outro lado eles estão mostrando que é preciso ter cuidado com o uso da marca.
Houve alguma oferta financeira pelo nome e URL do Blog?
@gabizago: Não.
Caso houvesse, vocês aceitariam?
@gabizago: Estamos usando a marca no endereço, juridicamente seria bem complicado poder exigir qualquer compensação financeira pelo domínio.
Há pessoas que criam URL com nome de organizações com a intenção de vender depois. Vocês pensaram nisto em algum momento antes de criar o blog?
@gabizago: De jeito nenhum. Quando o blog foi criado, o Twitter não era tão popular. Tanto que inicialmente escrevíamos posts sobre outros microblogs também bastante usados na época, como Pownce e Jaiku; A intenção era simplesmente ter um espaço para escrever sobre microblogs em português.
Esta atitude fere a liberdade de expressão de vocês? Como?
@gabizago: Ainda podemos escrever livremente, mas de certa forma nos tolhe no sentido de que a cada post teremos que pensar se fere ou não os termos de uso do Twitter, se podemos ou não colocar um determinado printscreen para ilustrar o texto, e por aí vai.
Vocês mudarão a forma como lidam com os serviços web gratuitos a partir de agora?
@gabizago: Talvez no sentido de prestar mais atenção para o fato de que mesmo um serviço gratuito pode ter por trás uma estrutura corporativa capitalista interessada na otimização do lucro.




