2010
A Copa do Mundo da África do Sul já está marcada pelas derrotas inesperadas de grandes seleções. A Espanha, uma das favoritas ao título, tropeçou na estréia e perdeu para a Suíça. Itália e França fizeram apresentações desastrosas e já foram desclassificadas na primeira fase. Uma das equipes que será testada nesta sexta-feira de jogo da seleção brasileira é a de jornalistas da TV Globo. Depois das brincadeiras com o hashtag CALA BOCA GALVAO no Twitter, que ganhou o mundo em uma espécie de transmídia dos boatos, a TV sofre com a revolta de milhares de internautas que organizam a campanha UMDIASEMGLOBO para tirar audiência da emissora. Será?
Os tuiteiros reclamam da parcialidade jornalística da TV e reivindicam contra a leitura do seguinte texto feita pelo jornalista Tadeu Schmidt no programa Fantástico do último domingo:
“O técnico Dunga, no comando da seleção há quase quatro anos, não apresenta nas entrevistas comportamento compatível com a imagem de alguém tão vitorioso no esporte. Com frequência usa frases grosseiras e irônicas. Hoje depois de uma vitória incontestável mais uma vez foi assim.” (Fonte Folha.com)
Desde então, os tuiteiros aproveitaram a onda do CALA BOCA GALVAO e passaram a postar CALA BOCA TADEU SCHMIDT para criticar a posição do jornalista. Ao longo dessa última semana, o protesto contra Schmidt chegou a superar o próprio hashtag original de Galvão e os internautas criaram a campanha UMDIASEMGLOBO.
O protesto ganhou o perfil @diasemglobo no Twitter que já conta com mais de cinco mil seguidores e não para de crescer. Pode-se ver que muitos trocaram seus avatares no Twitter para uma modificação do logo da Globo que aparece como uma TV desligada e sombria.
Agora, quais lições podemos tirar desses fenômenos que envolvem Copa do Mundo, jornalistas da Globo e tuitosfera que movimentam a rede nas últimas semanas e são notícia em grandes veículos de comunicação do mundo? Foi notícia até no New York Times que não caiu na brincadeira, como Terra e UOL também não caíram — não nesta. Os portais brasileiros foram pegos por outro boato.

Uma matéria no site Comunique-se mostra que o boato de que o CALA BOCA GALVAO apareceria em um episódio do seriado norte-americano Simpsons foi notícia nos portais Terra e UOL (imagens). A corrida pela velocidade da publicação fez com que mais uma vez sites jornalísticos errassem. Isso mostra que o modelo de jornalismo atual na Internet ainda está longe de se encontrar. Mas não tenho intenção aqui de aprofundar este tema, mas salientar como os boatos ganham força na web e observar o comportamento dos internautas nesses fenômenos.
Quanto ao alcance que o CALA BOCA GALVAO tomou no mundo podemos observar que o idioma ainda é um limitador para que o mundo compreenda o que ocorre nos sites de redes sociais onde não se fala inglês. Os temas que aparecem nos Trending Topics por aqui não são considerados pelo mundo porque as pessoas que não falam português simplesmente não compreendem o que falamos. Não fosse o tamanho do Brasil que é um país continental e o número de brasileiros envolvidos em um único evento ao mesmo tempo – futebol – certamente o hashtag não figuraria nos TT.
Muitos brasileiros comemoram a piada que fizeram com os gringos que retuitavam com a intenção de salvar uma ave, como Bruno Maestrini que mora nos Estados Unidos confirma no Podcast Hora do Mac ao dizer que: “como as pessoas não entendem [o português], elas realmente retuitaram o CALA BOCA GALVAO” (Ouça em 27:38).
A brincadeira também me parece engraçada, mas lamento que um dos primeiros temas agendados pelos tuiteiros brasileiros em todo o mundo seja uma espécie de pegadinha para os gringos. Por um lado é bom para que vejam que nem só de inglês vive o mundo, mas que também é importante pensarmos até onde ganhamos com isso ou se somos vistos mais uma vez como pessoas abaixo deles, como alguns estrangeiros falaram depois de caírem na brincadeira e que pode ser lido em uma matéria do Global Voices.
O boato do CALA BOCA GALVAO gerou essas controvérsias, mas fiquei contente em ver a manifestação criada pelos tuiteiros em repúdio a posição da Globo frente ao texto de Tadeu Schmidt que aproveitaram a onda do boato para tratar de um tema sério e mostrar que a Copa do Mundo vai além do futebol.
Trata-se de um evento mundial onde se fala de futebol e se faz piada no Twitter, mas também se discute liberdade de imprensa, parcialidade jornalística e se protesta. A Globo questiona o acesso às informações da seleção e critica o técnico Dunga. Schmidt condena o técnico ao ler seu texto em rede nacional. Os tuiteiros apoiam o técnico e aproveitam a onda de uma brincadeira anterior e protestam.
No jogo de hoje dificilmente a Globo sinta alguma alteração em sua audiência sofrida pelo protesto dos tuiteiros. Não se pode negar que a qualidade das reportagens esportivas da Globo é muito boa, mas parece que a hegemonia da emissora não é bem vista por muitos tuiteiros, ainda mais quando ela usa dessa posição para obter favorecimento em exclusivas e pressionar por informações.
A tuitosfera neste protesto contra a Globo está como a Eslováquia contra a Itália, uma pequena mídia frente uma grande emissora, mas a voz de poucos quando somadas tomam o mundo, como foi no CALA BOCA GALVAO. Vejamos como será amanhã o UMDIASEMGLOBO e qual repercussão tomará. Na verdade já é notícia nos principais portais e jornais online brasileiros. Aqueles que estão na rede já passam a tomar conhecimento do protesto, vejamos se os impressos não ficarão só na divulgação da brincadeira CALA BOCA GALVAO como estampa a capa da revista Veja desta semana e passam a olhar para os temas que realmente merecem destaque em jornais e revistas.
A lição que tiro desde já dessa Copa do Mundo é que como pequenas seleções passam a figurar na mídia, pequenas mídias passam a figurar na sociedade…




