Para a Folha de São Paulo o jornal do futuro é pouco inovador

24Mai
2010

Por Alex Primo
Editor

Fazia tempo que eu não ficava tão motivado com uma futura reforma gráfica. Pois desde a semana passada, quando vi os anúncios da Folha de São Paulo (não apenas em suas páginas, mas como também na Veja), fiquei contando os dias para receber o jornal deste domingo.

Assim que peguei o jornal em minhas mãos vi o mesmo anúncio com Fernanda Torres que anunciava: "Enquanto se discutia o futuro do jornal, a Folha fez o jornal do futuro". Jornal do Futuro? Quando vi esse mesmo anúncio há uma semana, fiquei tentando antever o que as renovadas páginas do jornal nos trariam. Fiquei torcendo por mais opinião e o fim de manchetes que repetiam o que todo mundo já sabia desde ontem. Além disso, imaginei que o projeto gráfico ficaria tão moderno ao ponto de lembrar páginas de portais da Web (seria mais uma concretização do conceito de remediação!).


Enquanto o elevador me levava até meu apartamento, fui abrindo os primeiros cadernos do jornalão... eu não podia esperar para ver o jornal do futuro. A Folha prometia revolucionar o jornalismo impresso e eu, um assinante de anos, queria ser testemunha desse momento histórico. Pois eis que à medida que eu ia folhando as páginas dos cadernos, meu entusiasmo foi perdendo força. Sim, encontrei um novo projeto gráfico, que oferecia mais cor e melhor legibilidade. Mas onde se escondia a revolução prometida?

Como "viúvo" do assassinado caderno Mais!, corri para o novo caderno, batizado de Ilustríssima (parece nome de novela da Globo!). Quem sabe lá estaria a mais radical das mudanças, um sopro de criatividade no jornalismo. Pois nem a diagramação nem as imagens (que me pareceram velhas, sinceramente) me causaram surpresa. As muitas páginas sobre o crack não conseguiram suprir minha tristeza em perder artigos de especialistas como Peter Burke e Roger Chartier, ou de críticos como Ivana Bentes. Segundo a Folha, em seu site e no caderno especial de apresentação da reforma, a ideia era evitar textos acadêmicos. Não, eu nunca pensei que os artigos da Mais! eram acadêmicos, afinal trata-se de um jornal, não de um periódico científico. Ei, não é porque um pesquisador escreve o texto que o resultado final tenha que ser "acadêmico". Sim, eram textos muito inteligentes, provocativos, mas certamente não acadêmicos. De qualquer maneira, depois de 18 anos o Mais! agora é um saudoso finado. Tentei gostar do tal Ilustríssima, mas não tem jeito. A Folha realmente ficou mais burra. E meus domingos também saíram perdendo.

Enquanto isso, a Folha não para de celebrar seu feito. Vídeos especiais foram produzidos para apresentar a reforma gráfica e o novo projeto editorial. Quanto ao segundo, ainda é cedo para fazer uma avaliação mais precisa. A proposta é oferecer textos menores (já que as pessoas não tem mais tempo para ler jornais, eles justificam), porém mais analíticos. Será que essa combinação vingará? Como um leitor que defende mais opinião no jornalismo, onde a mesmice redundante impera, espero que a crítica encontre mais espaço...ainda que em espaços menores...

Quanto ao projeto gráfico, ele ficou melhor, com certeza. Mas chamar isso de jornal do futuro é muita prepotência. Os títulos ficaram maiores e ganharam fontes mais encorpadas. O corpo das matérias e o miolo das letras cresceram. Se antes a leitura da Folha, com fontes pequenas e alguns títulos cinzas, cansava nossos olhos, agora o jornal tem maior legibilidade.

A cor azul ciano ganha protagonismo no jornal. Gostei de ver cartolas e intertítulos nessa cor. Ela também é utilizada para destacar palavras-chave em matérias especiais. Por outro lado, o grande retângulo ciano no logo de cada caderno (conforme terminologia da Folha) não parece muito moderno. Além disso, a combinação vermelho e azul no logo dos cadernos Ilustrada e Cotidiano podem nocautear aqueles que sofrem de epilepsia. Ora, texto vermelho sobre fundo azul gera uma vibração desconfortável. Mesmo que os valores dessas cores tenham sido mexidos (ciano muito saturado e vermelhos mais escuros), a sobreposição delas não é agradável.

Gostei das fontes e de seus novos tamanhos. Os títulos de matérias mais importantes ganharam destaque especial, com palavras em diferentes tamanhos e até cores (dependendo da cor temática do caderno). Por outro lado, usar itálico nos textos dos articulistas era desnecessário. Mesmo que "conceitualmente" ele possa ter algum sentido (afinal usa-se itálico em citações de especialistas), os caracteres deitados freiam a leitura e cansam os olhos.

É bem verdade que a diagramação ganhou mais movimento. Ficou menos dura e quadrada. Os encorpados títulos e intertítulos poderão captar a atenção do leitor mais ligeiro. Falando em títulos, eles agora encabeçam as colunas de articulistas. Os nomes desses especialistas, que antes ocupavam a parte superior, agora vem abaixo do título (que certamente é mais importante que seus imponentes nomes!).

De maneira geral, a leitura ficou mais agradável. Até mesmo o caderno Mercado (antes chamado de Dinheiro), cujo conteúdo é por mais natureza mais hermético, ficou mais interessante e colorido. A última página do caderno Cotidiano já me agradava muito, por resumir os principais fatos e fotos. Agora o Folha Corrida ganhou um design mais moderno e arejado, mas resume-se basicamente a frases do dia. Se antes o slogan era "Seu dia em 5 minutos", agora ele converteu-se para "A semana em 7 frases".

IMG_0046Além de novos colunistas (como Palocci) e novos chargistas (incluindo a arriscada contratação de um garoto de 14 anos cujos desenhos focam a política), a maior mudança é a unificação das redações das versões impressas e digitais. O site na Web, que passa a se chamar Folha.com, ficou também mais leve. Mas mesmo prometendo uma grande revolução no jornalismo, a Folha continua sem versões específicas para Kindle e iPad. Neste você pode simplesmente folhear a mesma versão digital da Web ( a foto ao lado foi enviada por Eduardo Pellanda).

Sejamos sinceros, todo jornal precisa renovar seu projeto gráfico e editorial de tempos em tempos. E todos os bons jornais seguem essa norma. A Folha ontem apresentou apenas mais uma reforma. Fez mais que obrigação. Agora, se ela acha que isso é o jornal do futuro, realmente os jornais impressos não tem salvação.



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Comentários:


Comentário de: Ricardo

Versões específicas pra dispositivos móveis são coisa do passado, e se tomarmos o Estadão como exemplo não geram um resultado melhor que o site. A tecnologia já permite que o site seja maleável e se adapte a diferentes tamanhos e à orientação de tela.

PermalinkPermalink 24.05.10 @ 14:59



Comentário de: Chris · http://twitter.com/christyexx

O vídeo ficou instigante mesmo...
Mas, à primeira vista, digo, não vi a folha; acabei de vê-la através de sua análise; me parece que esta nova formatação visa muito mais o formato ipad, do que a construção de conteúdo. Afinal, folhear a folha no ipad em seu formato original, talvez tenha ficado cansativo de ler...
Reconheço que "A Folha" ainda é um veículo forte, mas fazem bem 20 anos que ela reduziu drasticamente suas pautas em nome da lógica de mercado. Para nossa infelicidade.....

=/

PermalinkPermalink 24.05.10 @ 15:06



Comentário de: Ricardo

Acrescentando um pouco já que meu comentário ficou meio fora de contexto.. acredito que inovação seria, como dito no artigo, mais opinião na versão impressa, e uma versão online com menos poluição visual, mais conteúdo relevante e destaque às interações com o público, e que funcione bem em qualquer dispositivo.

Aplicativos para plataformas específicas feitos por grandes empresas dificilmente são inovadores, e em geral fazem mal uso delas, vide Época e Estadão no iPad.

PermalinkPermalink 24.05.10 @ 16:11



Comentário de: Alex Primo Email

Pois é Ricardo e Chris, ainda dá tempo para aperfeiçoar versões para iPad e Kindle. O problema é que a Folha colocou todo foco na "revolução" de sua versão impressa. Infelizmente, a reforminha ficou longe de algo revolucionário.

Desta vez o jornal perdeu para a propaganda.

PermalinkPermalink 24.05.10 @ 16:34



Comentário de: Alexandre Sena · http://www.alexandresena.jor.br

A grande revolução no jornal impresso brasileiro já havia ocorrido em 1996, com o Correio Braziliense, à época comandado pelo Ricardo Noblat. Esteticamente, quebrou vários paradigmas. Editorialmente, reviveu o jornalismo combativo dos anos 1950/60. Pena que o jornal mudou de direção e muitas das boas idéias de 1996 se perderam.

Para mim, o futuro do jornal impresso é desaparecer. As novas gerações já se habituaram a ler notícias na Internet.

PermalinkPermalink 24.05.10 @ 19:30



Comentário de: Alex Primo Email

Oi Alexandre! Que bom te encontrar por aqui.

Você lembrou muito bem. E olha que desde 1996 a visão de jornal do futuro deveria ter evoluído muito.

Eu gostaria muito que o jornal impresso não morresse, pois tenho o hábito dessa leitura. Mas, se tudo continuar como está, ele durará pouco tempo...

PermalinkPermalink 25.05.10 @ 15:37



Comentário de: Rafael · http://twitter.com/r_abraham

Largue as drogas pesadas, Alex! Largue a Veja :)

PermalinkPermalink 26.05.10 @ 14:28



Comentário de: daniel · http://pontoblogspotpontocom.blogspot.com

honestamente, eu também fiquei muito curioso e esperando pela renovação da folha, mas era de se esperar que o resultado fosse menor que o pregado. afinal, apesar de muito romantizada, a publicidade faz basicamente isso: superlativa os produtos, como se vivêssemos num mundo maniqueista.

concordo com os comentários sobre fonte, com o exagero do ciano (algumas combinações parecem resultado de uma visita desavisada ao brechó;) e com vários outros pontos de diagramação e afins que você mencionou e que eu não tenho capacidade alguma pra discutir a fundo.

já a mudança de mais! pra ilustríssima me parece mais uma mudança de nome (mal escolhida por sinal) com algumas alterações editoriais que não afetam tanto assim o que o caderno já era nos últimos tempos.

enfim, "jornal do futuro" é pura pretensão. estranho seria se eles soubessem o que vai ser do jornal em 50 anos e antecipassem a novidade. isso, no atual ritmo midiático, é um tanto quanto imprevisível e vai se dar aos poucos.

PermalinkPermalink 27.05.10 @ 01:18



Comentário de: jv

disse tudo. o que mais me incomodou foi essa combinação de ciano breguíssima, e o fato de que isso não é lá um grande "futuro".

PermalinkPermalink 28.05.10 @ 10:17




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