2010
Fazia tempo que eu não ficava tão motivado com uma futura reforma gráfica. Pois desde a semana passada, quando vi os anúncios da Folha de São Paulo (não apenas em suas páginas, mas como também na Veja), fiquei contando os dias para receber o jornal deste domingo.
Assim que peguei o jornal em minhas mãos vi o mesmo anúncio com Fernanda Torres que anunciava: "Enquanto se discutia o futuro do jornal, a Folha fez o jornal do futuro". Jornal do Futuro? Quando vi esse mesmo anúncio há uma semana, fiquei tentando antever o que as renovadas páginas do jornal nos trariam. Fiquei torcendo por mais opinião e o fim de manchetes que repetiam o que todo mundo já sabia desde ontem. Além disso, imaginei que o projeto gráfico ficaria tão moderno ao ponto de lembrar páginas de portais da Web (seria mais uma concretização do conceito de remediação!).
Enquanto o elevador me levava até meu apartamento, fui abrindo os primeiros cadernos do jornalão... eu não podia esperar para ver o jornal do futuro. A Folha prometia revolucionar o jornalismo impresso e eu, um assinante de anos, queria ser testemunha desse momento histórico. Pois eis que à medida que eu ia folhando as páginas dos cadernos, meu entusiasmo foi perdendo força. Sim, encontrei um novo projeto gráfico, que oferecia mais cor e melhor legibilidade. Mas onde se escondia a revolução prometida?
Como "viúvo" do assassinado caderno Mais!, corri para o novo caderno, batizado de Ilustríssima (parece nome de novela da Globo!). Quem sabe lá estaria a mais radical das mudanças, um sopro de criatividade no jornalismo. Pois nem a diagramação nem as imagens (que me pareceram velhas, sinceramente) me causaram surpresa. As muitas páginas sobre o crack não conseguiram suprir minha tristeza em perder artigos de especialistas como Peter Burke e Roger Chartier, ou de críticos como Ivana Bentes. Segundo a Folha, em seu site e no caderno especial de apresentação da reforma, a ideia era evitar textos acadêmicos. Não, eu nunca pensei que os artigos da Mais! eram acadêmicos, afinal trata-se de um jornal, não de um periódico científico. Ei, não é porque um pesquisador escreve o texto que o resultado final tenha que ser "acadêmico". Sim, eram textos muito inteligentes, provocativos, mas certamente não acadêmicos. De qualquer maneira, depois de 18 anos o Mais! agora é um saudoso finado. Tentei gostar do tal Ilustríssima, mas não tem jeito. A Folha realmente ficou mais burra. E meus domingos também saíram perdendo.
Enquanto isso, a Folha não para de celebrar seu feito. Vídeos especiais foram produzidos para apresentar a reforma gráfica e o novo projeto editorial. Quanto ao segundo, ainda é cedo para fazer uma avaliação mais precisa. A proposta é oferecer textos menores (já que as pessoas não tem mais tempo para ler jornais, eles justificam), porém mais analíticos. Será que essa combinação vingará? Como um leitor que defende mais opinião no jornalismo, onde a mesmice redundante impera, espero que a crítica encontre mais espaço...ainda que em espaços menores...
Quanto ao projeto gráfico, ele ficou melhor, com certeza. Mas chamar isso de jornal do futuro é muita prepotência. Os títulos ficaram maiores e ganharam fontes mais encorpadas. O corpo das matérias e o miolo das letras cresceram. Se antes a leitura da Folha, com fontes pequenas e alguns títulos cinzas, cansava nossos olhos, agora o jornal tem maior legibilidade.

A cor azul ciano ganha protagonismo no jornal. Gostei de ver cartolas e intertítulos nessa cor. Ela também é utilizada para destacar palavras-chave em matérias especiais. Por outro lado, o grande retângulo ciano no logo de cada caderno (conforme terminologia da Folha) não parece muito moderno. Além disso, a combinação vermelho e azul no logo dos cadernos Ilustrada e Cotidiano podem nocautear aqueles que sofrem de epilepsia. Ora, texto vermelho sobre fundo azul gera uma vibração desconfortável. Mesmo que os valores dessas cores tenham sido mexidos (ciano muito saturado e vermelhos mais escuros), a sobreposição delas não é agradável.

Gostei das fontes e de seus novos tamanhos. Os títulos de matérias mais importantes ganharam destaque especial, com palavras em diferentes tamanhos e até cores (dependendo da cor temática do caderno). Por outro lado, usar itálico nos textos dos articulistas era desnecessário. Mesmo que "conceitualmente" ele possa ter algum sentido (afinal usa-se itálico em citações de especialistas), os caracteres deitados freiam a leitura e cansam os olhos.

É bem verdade que a diagramação ganhou mais movimento. Ficou menos dura e quadrada. Os encorpados títulos e intertítulos poderão captar a atenção do leitor mais ligeiro. Falando em títulos, eles agora encabeçam as colunas de articulistas. Os nomes desses especialistas, que antes ocupavam a parte superior, agora vem abaixo do título (que certamente é mais importante que seus imponentes nomes!).
De maneira geral, a leitura ficou mais agradável. Até mesmo o caderno Mercado (antes chamado de Dinheiro), cujo conteúdo é por mais natureza mais hermético, ficou mais interessante e colorido. A última página do caderno Cotidiano já me agradava muito, por resumir os principais fatos e fotos. Agora o Folha Corrida ganhou um design mais moderno e arejado, mas resume-se basicamente a frases do dia. Se antes o slogan era "Seu dia em 5 minutos", agora ele converteu-se para "A semana em 7 frases".
Além de novos colunistas (como Palocci) e novos chargistas (incluindo a arriscada contratação de um garoto de 14 anos cujos desenhos focam a política), a maior mudança é a unificação das redações das versões impressas e digitais. O site na Web, que passa a se chamar Folha.com, ficou também mais leve. Mas mesmo prometendo uma grande revolução no jornalismo, a Folha continua sem versões específicas para Kindle e iPad. Neste você pode simplesmente folhear a mesma versão digital da Web ( a foto ao lado foi enviada por Eduardo Pellanda).
Sejamos sinceros, todo jornal precisa renovar seu projeto gráfico e editorial de tempos em tempos. E todos os bons jornais seguem essa norma. A Folha ontem apresentou apenas mais uma reforma. Fez mais que obrigação. Agora, se ela acha que isso é o jornal do futuro, realmente os jornais impressos não tem salvação.




