2010
Nesta entrevista, Lucas Silveira, da banda Fresno, fala da experiência com a fama, da relação com fãs e do uso de mídias sociais. Como você certamente sabe, a Fresno foi uma das primeiras bandas a perceber a importância de meios como o orkut para promoção e interação. Lucas, que foi meu aluno de Publicidade e Propaganda na UFRGS, construiu o primeiro site da banda e até hoje tem uma participação muito grande na rede. A banda ainda segue trabalhando diretamente na promoção de suas músicas, apesar de terem contrato com a Sony Music. O sucesso da música Redenção, quarto single da banda (e que já não dispunha de verba promocional), é um exemplo do uso do Twitter para fomentar a divulgação do trabalho da banda.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista que gravei com Lucas.
A Fresno é sempre comentada como uma das primeiras bandas que soube usar o Orkut pra divulgar seu trabalho.
Soube não, é porque chegou primeiro. O Orkut é tipo de janeiro de 2004 e Porto Alegre foi o primeiro “foco”de Orkut. Eu lembro que já tinham criado (uma comunidade) pra gente, tinha 77 pessoas. Daí tinha uma comunidade da Tom Bloch que tinha 200 e poucas pessoas. Aí queríamos passar essa comunidade, aí quando vimos passou de 200 e foi, foi e foi. Lembro que tinha uma “guerra”, uma competição entre as bandas de quem tinha mais gente. (...) Mas o lance de saber usar na verdade é que a gente realmente participava ativamente, moderando a comunidade, a gente administrava o negócio mesmo. E aí foi crescendo, hoje a gente não é a maior, mas é a comunidade mais forte de Orkut. A comunidade de algumas bandas às vezes tem o dobro de gente, a Claudia Leitte por exemplo, mas é só jogo, spam. A nossa é muito organizada. O Orkut tá largadíssimo agora, com o twitter. Mas eu ainda vou lá porque ainda tem gente lá, mas é muito menos.
E hoje quem modera o Orkut?
São uns fãs de confiança. Mas eu Tb modero.
A menor participação no orkut faz parte de alguma estratégia?
Eu sou péssimo nisso, eu respondo demais, participo demais. Já participei muito mais e aí vi o malefício disso. É que no início tu consegue responder todo mundo, depois não consegue mais, depois não quer responder mais ninguém, porque se tu responde um, as outras 10 vão te xingar por ter respondido aquele e não eu. O twitter também é assim, mas é menos. Porque no twitter o cara tá seguindo 15 pessoas que ele idolatra. No começo eu me expunha bastante, entrava em discussões, quando alguém falava alguma coisa que eu não gostava, depois larguei, voltei mais calmo, mais institucional. Mais assim “o Orkut Lucas da banda Fresno”.
Qual é a diferença do institucional “Lucas da banda Fresno”?
É que realmente o cara se porta como uma pessoa pública. Por exemplo, tem muitas coisas da época da faculdade, tipo humor mega negro que hoje não tem como ser aceito, viraria notícia. (...) Se aquilo ali tivesse ido pro ar, hoje ia ta no youtube, e as pessoas iam pensar “bah como que o cara pensa essas coisas” porque humor negro é pra uma fatia das pessoas, elas não entendem muito. E aí por isso, o [Lucas] institucional, eu já meço mais.
E tu acha que participando muito diminui um pouco aquela aura diante do fã?
Diminui totalmente, claro que aquela idolatria, histeria continua, mas as pessoas que conseguem separar um pouco, tira justamente a aura, vira aquela coisa do cara que tem brother ali, fala contigo, te chama pelo nome. Por exemplo se tu era fã de uma banda nos anos 80, tu só sabia o que essa banda ia fazer quando ela ia na tua cidade, ou ia no Faustão e falava que tal dia ia tá não sei aonde, etc. Como que tu ia saber onde o Legião ia tocar na próxima semana? (...) Hoje eu tenho essa nóia com o lance da voz, porque logo já tem um vídeo no youtube com pessoas dizendo “’bah olha o cara desafinou aqui”, ai num outro vídeo que eu tô cantando bem também tem “ah mas ele desafinou nesse outro aqui”. A internet gera essa coisa de tudo tá acontecendo em todos os lugares, não vive mais aqui, porque tu sabe de tudo que tá rolando.
Assim como a internet ajuda a promoção, ela também pode te prejudicar?
Claro, e ainda por cima na fase que a gente vive que qualquer coisa é um escândalo. Não sei aonde que eu falei: “Pois é, hoje tudo o que a gente faz vira notícia, a gente não pode mais nem fazer show pelado” – aí saiu “Lucas lamenta que não pode mais fazer show pelado” era manchete na capa do Ego, sei lá, essas coisas.
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Pausa: e não é que eles realmente tocaram "pelados" no Casseta & Planteta de ontem!
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Então você sabe administrar bem a questão da imagem? Tem que controlar, manter uma certa distância?
Tem que tá controlando. Eu estou a par meio de tudo que é falado, eu leio todas as mensagens com @lucasfresno, mesmo que sejam mil por dia. No celular tu não consegue não ler, vai passando e lendo. E até é bom porque tu tem um termômetro de praticamente tudo que tá sendo feito.
E como isso ajuda no teu trabalho?
Isso ajuda pelo lado do termômetro de tu saber se o que tu falou agradou ou não, de saber a repercussão de uma coisa q tu fala, até onde vai.
E tu chega a ter uma ansiedade assim de saber tudo o que tão falando? Isso chega em algum momento a te prejudicar?
As pessoas tão envolvidas 100% do tempo no trabalho, eu to 100% do tempo pensando nessa coisa institucional que na verdade se mistura comigo porque eu sou eu. Mas da mesma forma eu tenho contato sobre como as pessoas me vêem.
Então tu te reconhece como pessoa pública?
Sim.
E qual a diferença desse Lucas "pessoa pública" pro Lucas que eu dei aula na Fabico? O que mudou?
O que mudou é que naquela época nos fins de semana eu já era uma pessoa pública no meio que eu freqüentava, no Garagem Hermética, por exemplo. E hoje é em qualquer lugar. Mas eu vivo muito normalmente, eu moro na avenida Paulista. Saio, mas quanto mais tu aparece na rua, menos as pessoas vão ficar “baaah olha ali”. O cara só te cumprimenta, aquela coisa de vereador, que pra mim é mais saudável. Eu não me escondo nem um pouco, porque o que é bizarro é aquela coisa de te tratarem como um extraterrestre.
Mas antes você me disse que a grande exposição pode prejudicar a aura da pessoa pública. Como você se resguarda? Deixa de ir em algum lugar?
Não, só não vou passar na frente de um colégio na hora da saída, por conforto. Grandes aglomerações onde eu não “tô em casa”, mas em um show de uma banda que eu curto eu vou lá na pista. [...] É muito mais de tu passar olhando na cara das pessoas, porque às vezes quanto mais se esconde... Mas é normal o cara passar e ouvir uma ‘berrada’ ou uma xingada... Eu também xingaria, ou gritaria pro cara que passasse.
E vocês pelo estilo de música que tocam, pelo visual que vocês tem, também são alvo de muita critica né? E como vocês lidam com isso, como tu aprendeu a lidar com isso?
Sim... É porque a gente montou, adotou sem querer uma coisa que dentro da “cena” do underground era a coisa mais normal e mais cool era se vestir do jeito que a gente se veste, usar cabelo que a gente usa, escrever do jeito que a gente escreve... E isso tudo o que faz parte de um “gueto” cultural, e tudo que é jogado pra massa, é interpretado da forma mais superficial possível. Se tu pegar tipo o heavy metal, ele faz sentido num show de heavy metal, mas larga um metaleiro no centrão, ele sempre vai causar choque. Mas o cara de legging e cabelão num show de metal ele tá dentro do universo dele, e a gente sempre teve isso dentro dos shows, era a coisa mais normal. Mas aí que a gente começou a ver como escandaliza as pessoas uma calça diferente, sendo que o mundo já viveu choques muito maiores com os músicos. Com certeza quando a Madonna fez o clipe do ‘Erotica’, isso sim é choque cultural... O Ney Matogrosso, David Bowie... Mas parece que quanto mais “pós-moderna” vai ficando a sociedade, parece que tem um instinto do homem, do ser humano, de “não, não, calma”. Acho que tá rolando um “neoconservadorismo”.
Mas agora vocês não são mais gueto, são mainstream.
É mainstream. E hoje não rola mais aquele choque, mas ou o cara gosta ou não gosta. Mas a gente lida com esse tipo de crítica até dentro dessa cena do underground, tinha a galera que tocava um som mais pesado, de protesto. A gente lida com isso há tanto tempo... E foi aumentando. Hoje a gente tá no auge do sucesso e também no auge das críticas, porque as coisas crescem juntas. Então a gente aprendeu a lidar muito aos poucos, por isso que não é o fim do mundo pra mim. O dia que o cara assume pra ele mesmo que não agrada todo mundo e tá longe de agradar todo mundo e que é saudável não agradar a todo mundo. Porque se tem alguém que ama muito aquilo que tu faz é óbvio que vai ter alguém que odeia aquilo muito e que por tabela vai odiar a tua cara e tudo a respeito de ti.
E o que tem de estranho na relação de fã e ídolo?
Ah, é o cara saber o nome da tua mãe. Pedir autógrafo pra tua mãe, ao mesmo tempo em que tu não sabe nada sobre o cara. E o fanatismo às vezes vira cobrança tipo “eu te ajudei a ganhar o prêmio tal, então tu tem que me responder”. Já falaram isso, direto. Quando na verdade a relação de troca é que tu oferece um trabalho que o cara gosta e ele demonstra um carinho pra ti de volta. Só que aí começa a rolar aquela coisa “por que o cara daquela banda lá (que tá no estágio que a gente tava antes) me mandou email de volta”. E tem que se adaptar também com essa cobrança que é injusta, porque não tem como responder 180 mil pessoas.
Tu sente que tu tem alguma responsabilidade com o teu fã? Qual seria ela?
Sim, aquela coisa que tu acaba sendo um exemplo pras pessoas, se o cara imita o jeito que tu te veste, ele vai imitar tudo que tu fizer. E existe essas responsabilidades, até porque hoje o mercado mainstream não tem espaço pro roqueiro barraqueiro que não vai nos compromissos, porque hoje é tão fácil ter uma banda e existem tantas bandas boas querendo aquele espaço, que os caras vão preferir aqueles que trabalham direito. Não pode chegar no show e não fazer, dar barraco, mega escândalos... Não existe mais permissividade pra isso porque é uma coisa tão profissional quanto o mercado dos médicos, sabe.
[Vale aqui comentar que quando fui entrevistar Lucas em um hotel de Porto Alegre, encontrei uma estudante de 17 anos que havia se hospedado no mesmo hotel para ficar mais perto de Lucas. Mais tarde, seu amigo de 15 anos foi também ao hotel para encontrá-la e tirarem fotos do vocalista/guitarrista da banda.]
O que quer dizer celebridade pra ti?
Celebridade, agora pensando, deve ser alguém que as pessoas celebram. Eu imagino que seja isso, mas hoje é muito distorcido, hoje rola aquela coisa do “Lucas celebridade”, rola esse tipo de coisa. Mas celebridade pra mim é aquela pessoa que é conhecida por todo mundo, não só pelas pessoas que se interessam por aquilo. Eu considero isso, uma pessoa que saiu ali da sua agenda. Tipo uma modelo conhecida só no ramo de modelo não é uma celebridade, agora quando teu pai conhece ela, aí ela é uma celebridade.
E as pessoas te consideram uma celebridade?
Algumas sim, outras não. A galera que é mais da música assim, não. É porque é do mesmo meio, justamente. Até aquele público mais ávido. Mas querendo ou não, pro “grosso do povo” que a gente conheceu, aí sim, só depois da gravadora, de ter essa estrutura, de tocar na ‘festa do abacaxi de não se onde’, na Expointer... Aí sim tu tem contato com o povo e vê que tu é uma celebridade por ter um monte de pessoas berrando que às vezes nem sabem teu nome, mas tão berrando.
E como você imaginava que era a vida de um cantor, naquele momento em que vocês não eram famosos ainda?
A gente só imaginava coisa que a gente faz por menos tempo. Tipo show pra milhares de pessoas. Isso eu já sabia como ia ser. Mas isso é o que a gente menos faz. Tem o resto todo que é o que a gente faz a semana inteira: viajar, rádio, TV, autógrafo, reunião, andar na rua sem poder coçar a bunda que vai ter alguém olhando, ou fazer isso sabendo que alguém tá olhando.
Uma das definições de celebridade a trata como mercadoria. Ela é um produto que é vendido, que é manipulado pra ser rentável. É claro que o Lucas da Fresno é diferente do Michael Jackson e diferente da Claudia Leite. Tu acha que essa definição é precisa, ou é exagerada, muito acadêmica? Ou ela não serve pra ti, mas serve pro Michael Jackson?
Acho que até o Michael Jackson que era um produto rentável realmente moldado, mas tu tem que ver a porcentagem disso que vem de ti mesmo. Por exemplo, se eu fosse somente o Lucas vocalista da Fresno, eu não teria tantas coisas assim, tudo o que eu quero ter, tipo ‘o cara é respeitado como vocalista da Fresno’. Não, eu quero que um cara que não goste de Fresno me respeite como o cara que ele acha legal porque o cara é legal, ou porque fez alguma outra coisa. Tu fica querendo cada vez mais mostrar não a tua vida – tua casa, mulher – não, tu tá querendo realmente mostrar o que tu faz. Com Twitter tu pode mostrar tudo que tu faz, até inventar coisas que tu não fez.
E quando é que vai vir o fracassso, o que vai acontecer?
Um dia vai vir, mas eu não jogo muito com essa hipótese, eu transformaria o fracasso em uma coisa... (...) A gente tem sempre aquela coisa, pode ter banda mais famosa, mas o Twitter de banda perfil Fresno rock, tem que ser o mais seguido de todas as bandas, tu tem esses compromissos assim. O Twitter eu uso pra uso pessoal, de leve também... Falo alguma coisa que eu queira falar, mas ao mesmo tempo o fato de eu tá tuitando toda a hora é trabalho pra mim. É uma coisa que eu gosto, mas também é trabalho porque vai fazer com que eu esteja cada vez mais crescendo e os caras vão ficar “putz, mas como eles têm tantos seguidores assim?”.
Isso é falso ou é um trabalho como qualquer outro?
Eu não consigo ver como falso. Eu não to fazendo ali nenhum personagem diferente de mim. É uma parte minha que eu permito ser pública, que é um monte, tem gente que se expõe muito menos. Então a parte minha que eu permito ser pública é grande, porque eu faço parte dessa geração de internet. Então é autêntico porque não tem uma mentira, uma máscara, é só a parte minha que eu permito. Não preciso entrar em questões hiperpolêmicas porque eu sou assim. Eu converso isso com os meus amigos, com a minha família.
A internet vai matar a celebridade?
Vai inventar esse monte de celebridade, matar não. Só vai modificar o acesso que as pessoas tem à celebridade. A celebridade de internet mesmo, ela tem que mostrar a vida dela que é o caso da Tessália, Mari Moon, é um novo time de celebridade. Não tá matando, só criando um novo tipo. Acho que ainda vai ter o ator famoso, o músico famoso. Mas pega por exemplo o Freddie Mercury, tudo que a gente sabe sobre ele são meio que lendas, porque não tinha Twitter pra falar “hoje estou aqui jantando com a minha mãe e estou gripado”. É uma celebridade nova que surgiu.
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PS: Agradeço Laura Andrade pela transcrição da entrevista.




