William Bonner (@realwbonner) deixa seus sobrinhos em luto

04Mai
2010

Por Alex Primo
Editor

A twittosfera brasileira parece estar de luto. Desde que William Bonner (@realbonner) anunciou que deixaria o Twitter, as lamentações soaram em infindáveis tweets. Em um post passado eu fiz uma análise da onipresença dessa celebridade em sucessivas entrevistas e no próprio Twitter. Logo, eu não poderia deixar de refletir agora sobre sua anunciada saída.

Em seu "discurso de despedida", fragamentado em vários tweets, Bonner diz ter mostrado um lado seu que apenas seus amigos conheciam. Contudo, não se pode acreditar que a simples publicação que mensagens bem-humoradas convertam você, seguidor do @realbonner, em um amigo de confiança do jornaslista. Mesmo que a criação e manutenção do perfil tenha sido uma iniciativa do jornalista, seria ingênuo pensar que ali manifestava-se o William autêntico, desnudado de todas imposições de seu cargo no Jornal Nacional. Conhecedor da responsabilidade de sua função e de que qualquer arranhão em sua imagem poderia repercutir na credibilidade do telejornal, Bonner tinha exata noção de até onde poderia ir com seus tweets.

O que importa aqui é discutir como Bonner conseguiu a atenção e o carinho de tantos seguidores, sendo que muitos deles nem são espectadores do JN. O mais óbvio é poder tomar a decisão de assinar os tweets de uma celebridade. O fascínio dos rostos públicos por si só já desperta a curiosidade da audiência. Logo em seguida, o novo seguidor surpreendia-se com falas cotidianas e ironias que simplesmente não pareciam colar com a postura do sério apresentador do telejornal mais visto do Brasil. Além disso, Bonner referia-se a si próprio como tio e aos seus seguidores como sobrinhos. Essa linguagem de familiaridade e a exposição de algumas informações pessoais (claro, filtradas pela consciência de seu papel de figura pública) potencializavam na audiência twitteira a falsa sensação de intimidade. É o que Schickel chama de "estranhos íntimos".

Diferentemente do cinema, a televisão desperta em nós uma ideia de proximidade com seus atores e jornalistas. Tendo lugar privilegiado em nossas salas de estar, ficando muito próxima de nós, seus close-ups forjam um olho-no-olho fictício. É assim, imerso nessa linguagem, que William Bonner educadamente nos deseja boa noite...quase todas as noites. A partir daí, o jornalista/celebridade salta para o Twitter e passa a nos dirigir suas mensagens. Mesmo que a assinatura seja possível para qualquer pessoa que deseje acompanhar suas mensagens, a impressão que se tem é que ele escreve diretamente para você. Esse simulacro é realmente sedutor. Na noite seguinte, quando você revê Bonner na bancada do JN, ele parece ainda mais íntimo. Você pode acompanhar a definição da pauta e os comentários do âncora durante o dia. E, mais do que isso, você participou de uma votação para a escolha de sua gravata! A partir de uma foto publicada por Bonner, com três opções de padronagens, você pode se envolver nessa decisão. É a televisão interativa; é sua intervenção na própria definição do traje da celebridade; é a intimidade midiatizada, pensa você.

Cid Moreira pode ter parecido próximo de muitas gerações. Mas ele nunca dividiu com você aspectos de sua vida profissional e cotidiana. Cid foi sempre um simples apresentador, leitor de teleprompter. Bonner é um bom pai de família, bom marido e profissional sério. Agora descobrimos que é um piadista, um bom amigo. Podemos ter certeza disso, pois no Twitter não existe script... Ops, calma lá! Não é porque lá não exista teleprompter que os tweets de @realbonner não sigam qualquer roteiro.

Sua presença na twittosfera foi boa para sua imagem, para a Glogo, para a divulgação de seu livro (que gera recursos para doações, é verdade). A onipresença do personagem Bonner na em programas de entrevistas, em revistas de celebridades e no Twitter não foram acidentes. São também movimentos estratégicos. Não podemos confundir seus tweets com livres exposições de seu self. William Bonner nunca disse por lá que Fátima havia reclamado do comprimento de suas unhas, nem tampouco criticou sua empregada doméstica. Pelo contrário, desde que sua imitação de Clodovil circulou, ele passou a ser muito cuidadoso com sua imagem. Ou seja, o que se viu no Twitter pode ter sido uma degustação dos bastidores. Mas o que sempre vimos foi uma fachada bem pensada. Aliás, pouco importa as meias furadas de Bonner, ou as rusgas cotidianas com sua esposa. O que queremos é nosso "tio" brincando conosco, oferecendo sua intimidade ensaiada. O que importa é a sensação... o real sempre foi muito chato.

Na real, Bonner percebeu que o Twitter vicia e pode prejudicar nosso trabalho. Sei bem como é, meus sobrinhos, também sofro desse mal!



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Comentários:


Comentário de: Gustavo Lopes

Pois é. Somente achei que "jogar fora" um perfil que possuía tanto poder e tantos seguidores foi uma decisão meio radical. Existem vários modos de suicídio no twitter que não necessariamente seguiriam essa lógica. Proteger os tweets velhos, bloquear seguidores, ou mesmo avisar que não twitaria mais por um longo período por causa de seu trabalho (solução mais plausível), ao meu ver, seria uma decisão mais coerente para o que @realwbonner quis efetivamente fazer.
Agora a piada do dia: Pena que ele não conhecia o Twitter Generator e ferramentinhas de Macros, podia twittar o resto da vida sem dificuldades!!! Huahauhauha!

PermalinkPermalink 04.05.10 @ 14:36



Comentário de: Alex Primo Email

Gustavo, bem lembrado! O Twitter Generator poderia ter resolvido o problema do Bonner!!!

PermalinkPermalink 04.05.10 @ 14:42



Comentário de: Luis Antonio

Bacana reflexão. Como se vê, boa parte do atual sucesso de alguns novos "olimpianos" acontece quando eles resolvem descer (por pouco tempo e de maneira astuciosamente dosada) ao mundo dos mortais. Isso não só ocorre com o apresentador de telejornal mais famoso do país, mas com qualquer celebridade. Enquanto isso, todo ano temos o perfeito exemplo do processo inverso: a escalada dos anônimos rumo ao estrelato no Big Brother...

Abs.

PermalinkPermalink 04.05.10 @ 14:49



Comentário de: laíza

eu fiquei realmente sentida com a saída dele, especialmente pq é o objeto da minha monografia! bateu um medo de ele deletar a conta, mas parece que é um time-out... fica a esperança da volta! pra mim, de todas as celebridades brasileiras, acho que o bonner foi um dos que melhor usou o twitter para se expor e interagir.

aproveito pra dizer que seus posts e seus papers me inspiram muito, primo. parabéns pelo trabalho!

PermalinkPermalink 04.05.10 @ 14:54



Comentário de: Carol Terra · http://meadiciona.com/carolterra

Será, Alex, que não foi uma imposição veladada Globo? O @realwbonner poderia culminar num sucesso maior que seu programa no horário nobre da TV...Abraços, Carol Terra.

PermalinkPermalink 04.05.10 @ 15:07



Comentário de: CHRIS · http://twitter.com/christyexx

Isso é sem dúvida, pelo menos, curioso... Sendo ele uma "celebridade televisiva", e como todos bem sabemos, o valor de uma celebridade é sua popularidade, tendo Bonner, através do twitter, conquistado "novos" públicos, porque então, justamente no momento em que os resultados do seu investimento no Twitter começam a "dar frutos", ele decide sair?
É, no mínimo, curioso....

PermalinkPermalink 04.05.10 @ 16:32



Comentário de: Susan Liesenberg

De fato, Alex, não importa a natureza, qualidade ou sinceridade da performance do ídolo, contato que ele devote atenção ao seu público. Ou, nas tuas palavras, “a impressão que se tem é que ele escreve diretamente para você. Esse simulacro é realmente sedutor." E é isso que basta, o que interessa. Plateia faminta de pão e circo, que dispensem os brioches. E quem se importa com eles? Embora se saiba que a atuação seja ensaiada, "participar" da vida, estar "mais perto" do ídolo é o privilégio, a "sensação" que queremos, nosso ludibriar confrotável, a mentira cativa, o subterfúgio de estimação. Como disseste, "o que se viu no Twitter pode ter sido uma degustação dos bastidores. Mas o que sempre vimos foi uma fachada bem pensada. Aliás, pouco importa as meias furadas de Bonner, ou as rusgas cotidianas com sua esposa. O que queremos é nosso "tio" brincando conosco, oferecendo sua intimidade ensaiada." E que venha a Copa do Mundo, o grande espetáculo midiático das grifes esportivas, dos ídolos galácticos, das câmeras em superzoom, dos corpos lapidados anabolicamente e da torcida sincronizada, adestrada a fazer cara de surpresa a cada resultado - e sofrer por isso. Todos participamos do show e voltamos para casa comentando a própria atuação como se falássemos de um alter ego terceiro, um personagem alheio, uma coisa meio... Pelé comentando de Edson Arantes do Nascimento. Triste é quando o espetáculo encerra e temos de voltar para a realidade, retirando as gravatas e devolvendo as roupas à figurinista. Ces't la vie, mas não é isso que queremos, a exemplo do twitticídio williambonneriano! Que seja mentira a sensação de verdade, mas que seja! Ser ou não ser, tanto faz. Mentira sinceras é o que interessam.

PermalinkPermalink 04.05.10 @ 19:01



Comentário de: thais

q bom q ele voltou a twittar...
hein

PermalinkPermalink 15.07.10 @ 20:10



Comentário de: Sâmila

Acho que ele seria louco de não medir suas palavras. Ninguém leva tanto tempo para conquistar um cargo de extrema importância no telejornalismo para depois jogar tudo fora por uma simples brincadeira. E mesmo sendo uma "degustação dos bastidores" todos dão follow nele porque gostam e não porque são obrigados. Independente de que tudo seja planejado ou não!

PermalinkPermalink 02.10.10 @ 14:42



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