2010
A twittosfera brasileira parece estar de luto. Desde que William Bonner (@realbonner) anunciou que deixaria o Twitter, as lamentações soaram em infindáveis tweets. Em um post passado eu fiz uma análise da onipresença dessa celebridade em sucessivas entrevistas e no próprio Twitter. Logo, eu não poderia deixar de refletir agora sobre sua anunciada saída.
Em seu "discurso de despedida", fragamentado em vários tweets, Bonner diz ter mostrado um lado seu que apenas seus amigos conheciam. Contudo, não se pode acreditar que a simples publicação que mensagens bem-humoradas convertam você, seguidor do @realbonner, em um amigo de confiança do jornaslista. Mesmo que a criação e manutenção do perfil tenha sido uma iniciativa do jornalista, seria ingênuo pensar que ali manifestava-se o William autêntico, desnudado de todas imposições de seu cargo no Jornal Nacional. Conhecedor da responsabilidade de sua função e de que qualquer arranhão em sua imagem poderia repercutir na credibilidade do telejornal, Bonner tinha exata noção de até onde poderia ir com seus tweets.
O que importa aqui é discutir como Bonner conseguiu a atenção e o carinho de tantos seguidores, sendo que muitos deles nem são espectadores do JN. O mais óbvio é poder tomar a decisão de assinar os tweets de uma celebridade. O fascínio dos rostos públicos por si só já desperta a curiosidade da audiência. Logo em seguida, o novo seguidor surpreendia-se com falas cotidianas e ironias que simplesmente não pareciam colar com a postura do sério apresentador do telejornal mais visto do Brasil. Além disso, Bonner referia-se a si próprio como tio e aos seus seguidores como sobrinhos. Essa linguagem de familiaridade e a exposição de algumas informações pessoais (claro, filtradas pela consciência de seu papel de figura pública) potencializavam na audiência twitteira a falsa sensação de intimidade. É o que Schickel chama de "estranhos íntimos".
Diferentemente do cinema, a televisão desperta em nós uma ideia de proximidade com seus atores e jornalistas. Tendo lugar privilegiado em nossas salas de estar, ficando muito próxima de nós, seus close-ups forjam um olho-no-olho fictício. É assim, imerso nessa linguagem, que William Bonner educadamente nos deseja boa noite...quase todas as noites. A partir daí, o jornalista/celebridade salta para o Twitter e passa a nos dirigir suas mensagens. Mesmo que a assinatura seja possível para qualquer pessoa que deseje acompanhar suas mensagens, a impressão que se tem é que ele escreve diretamente para você. Esse simulacro é realmente sedutor. Na noite seguinte, quando você revê Bonner na bancada do JN, ele parece ainda mais íntimo. Você pode acompanhar a definição da pauta e os comentários do âncora durante o dia. E, mais do que isso, você participou de uma votação para a escolha de sua gravata! A partir de uma foto publicada por Bonner, com três opções de padronagens, você pode se envolver nessa decisão. É a televisão interativa; é sua intervenção na própria definição do traje da celebridade; é a intimidade midiatizada, pensa você.
Cid Moreira pode ter parecido próximo de muitas gerações. Mas ele nunca dividiu com você aspectos de sua vida profissional e cotidiana. Cid foi sempre um simples apresentador, leitor de teleprompter. Bonner é um bom pai de família, bom marido e profissional sério. Agora descobrimos que é um piadista, um bom amigo. Podemos ter certeza disso, pois no Twitter não existe script... Ops, calma lá! Não é porque lá não exista teleprompter que os tweets de @realbonner não sigam qualquer roteiro.
Sua presença na twittosfera foi boa para sua imagem, para a Glogo, para a divulgação de seu livro (que gera recursos para doações, é verdade). A onipresença do personagem Bonner na em programas de entrevistas, em revistas de celebridades e no Twitter não foram acidentes. São também movimentos estratégicos. Não podemos confundir seus tweets com livres exposições de seu self. William Bonner nunca disse por lá que Fátima havia reclamado do comprimento de suas unhas, nem tampouco criticou sua empregada doméstica. Pelo contrário, desde que sua imitação de Clodovil circulou, ele passou a ser muito cuidadoso com sua imagem. Ou seja, o que se viu no Twitter pode ter sido uma degustação dos bastidores. Mas o que sempre vimos foi uma fachada bem pensada. Aliás, pouco importa as meias furadas de Bonner, ou as rusgas cotidianas com sua esposa. O que queremos é nosso "tio" brincando conosco, oferecendo sua intimidade ensaiada. O que importa é a sensação... o real sempre foi muito chato.
Na real, Bonner percebeu que o Twitter vicia e pode prejudicar nosso trabalho. Sei bem como é, meus sobrinhos, também sofro desse mal!




