2010
Quando comentei em meu vídeo-relato sobre o iPad de que eu encontrava nele um futuro para o jornalismo uma polêmica se instaurou. Estaria eu sendo irônico? Manifestando apenas uma paixão cega pela Apple? Defendendo o modelo pago de jornalismo digital?
Primeiramente é preciso lembrar que a discussão do jornalismo passa por muitos caminhos. Podemos discutir a experiência da leitura de notícias, o modelo de negócios, o processo de produção jornalística, entre outros tantos. Eu quero aqui focar apenas aquele primeiro aspecto. E foi justamente ele que provocou aquele meu comentário entusiasmado.
É realmente uma satisfação poder acessar diariamente (e várias vezes ao dia) sites e twittter de webjornais. E, melhor que isso, de forma gratuita e hipertextual. Porém, não posso deixar de comentar que acho hoje os jornais e revistas digitais todos muito parecidos. A recente mudança da interface do G1 mostra o caminho em direção a essa padronização progressiva.
Analise o design dos periódicos que você lê na web. Você verá que eles se repetem. Muito provavelmente você cai em sites jornalísticos aleatórios a partir de links no Twitter e da página de resultados do Google. A leitura dessas notícias é quase automática e sem maiores surpresas. Pior do que isso é constatar que quase todos jornais digitais trazem as mesmas informações e com o mesmo formato. Diante desse cenário eu me arrisco dizer: notícias na web tornaram-se uma commodity. Não importa onde você leu, nem quem escreveu ou publicou. A experiência é quase sempre a mesma.
Eu, que sou uma pessoa "visual", nunca consegui separar a notícia da experiência que ela promove. Talvez seja por isso que eu ainda goste de sujar meus dedos com tinta barata fixada em papel barato (sim, eu ainda assino dois jornais impressos). Provavelmente seja também por essa razão que eu me deleite com o fotojornalismo de revistas semanais e até mesmo com as grandes imagens de uma Caras em um consultório médico (pois é, isso ainda é jornalismo). A diagramação criativa em colunas, o forma como o texto "abraça" as fotos recortadas é também informação!
Não, isso não é simples frescura. Lembre-se, não existe notícia sem forma. E, para quem gosta de jornalismo, a leitura de jornais vai além do simples processo de se atualizar. Muitos de nós inclusive desenvolveram hábitos de ler: esticar o jornal na mesa do café da manhã, ler revistas deitado na rede, etc. Enfim, praticamos (ou praticávamos) uma relação íntima com as mídias jornalísticas. Na web, sinto confessar, isso se perdeu.
Foi esse deslumbre esquecido que redescobri em meu primeiro contato com o iPad. Os aplicativos do New York Times, da Associated Press, da BBC e da Time que experimentei estão recém em suas primeiras versões. De qualquer forma, me ofereceram uma experiência com as notícias e imagens diferenciada. Cada um deles oferecia experiências diferenciadas. Essa estratégia sensorial volta a ser um elemento de concorrência.
Segurar as páginas digitais da Time nas mãos e consumir a explosão das cores e do conteúdo imagético oferece uma experiência "íntima" com a notícia. O interessante é que o New York Times no iPad se parece com um jornal, enquanto a Time não deixa dúvidas de que seja uma revista. Na web, tanto um quanto o outro são sites convencionais. Quando tudo fica muito igual, tudo fica muito chato!
Essa experiência diferenciada só é permitida pela liberdade que a programação de aplicativos para iPad oferece. Claro, essas inovações são o último suspiro do modelo pago de jornalismo. O aplicativo é oferecido de graça, mas a leitura das edições depende de pagamento. Não é objetivo deste post discutir modelos de negócios, nem debater as alternativas gratuitas de circulação jornalística no iPad. Minha proposta é apenas de relembrar como pode ser prazeroso ler jornais e revistas em dispositivos digitais. Espero que os outros tablets ofereçam o mesmo ambiente interativo e sensorial.




