Fama, tortura e interação no BBB 10

31Mar
2010

Por Alex Primo
Editor

Mais um Big Brother Brasil acaba de terminar. Acaba assim a desesperada busca pela fama e das torturas em horário nobre. Se você viu ontem o programa final, talvez tenha ficado pensando que o colorado Marcelo Dourado foi o único vencedor. Engana-se. Para os outros concorrentes, que ontem faziam figuração, o grande prêmio foi a repentina fama alcançada. A exposição por meses no principal canal massivo da TV pode render contratos futuros, fazer decolar uma carreira de modelo ou cantor ou capas em revistas masculinas.

A guerra de egos em cadeia nacional não surpreende e não é privilégio do Big Brother Brasil. Uma pesquisa realizada por Young e Pinsky (2006) mostrou que os participantes de reality shows apresentam graus de narcisismo mais altos que de atores, atletas e modelos. Supreso?

A grande dúvida é o que vem depois dessa rápida ascenção midiática? O status de celebridade é facilmente mantido por aqueles que passam a ter como profissão o título de ex-BBB? Grazielli Massafera é um nome que ainda é facilmente lembrado pelo grande público. Mas você lembra de outros concorrentes? Este tipo de "celebridades" cuja notoriedade rapidamente se esvai é chamado por Rojek (2008) de celetóide. Nesta categoria encontram-se ganhadores de loteria, mordomos de celebridades, anônimos que praticam um repentino ato de heroísmo, etc. Mas o que ocorre com essas pessoas quando seus rostos são esquecidos? Talvez consigam se eleger para algum cargo público? Bem, não foi o que aconteceu com Dhomini (BBB3) ou com a super celetóite Ruth Lemos.

Talvez você tenha tentado evitar o BBB 10, pois não aguenta mais assistir esse jogo de vaidades, esse espetáculo sobre o nada. Muito provavelmente você teve grande dificuldade com esse exílio midiático. Jornais e revistas (impressos e online), blogs e até mesmo o Twitter não pararam um dia sequer de tratar desse dramalhão. Na verdade, o uso intenso do Twitter pelos telespectadores deu novo sentido ao que se entende por TV interativa! Não posso deixar de mencionar que isso também serviu de ótimo exemplo para se compreender o conceito de encadeamento midiático (a forma como meios de comunicação de diferentes naturezas e com audiências distintas mantém inter-relação).

"Muito se falou sobre quase tudo o que ocorreu dentro da "casa mais vigiada do Brasil". O que não se discutiu foram as cenas de tortura psicológica (travestidas de provas de resistência física) exibidas no programa. Além do quarto branco, cuja opressão causou a desistência de um concorrente em uma edição anterior, neste ano a produção do programa conseguiu sofisticar os mecanismos de tortura. Em uma das últimas disputas pela liderança, dois pequenos grupos ficaram confinados em um ambiente onde chovia, ventava, fazia frio e depois calor intenso. Os "brothers" eram proibidos de se alimentar e de fazer suas necessidades e tentavam de todo modo se proteger das intempéries comandadas pelos internautas (isso é que é "interatividade"?). O que se assistiu eram os celetóides úmidos, com queixos batendo, chorando ou dormindo de pé. Estranho mesmo foi a Fiat achar que esse tipo de imagem é interessante de ser associado ao carro Linea.

A defesa fácil da Globo é: a porta permaneceu o tempo todo aberta. Qualquer concorrente poderia sair da clausura assim que quisesse. Mas, além do desafio físico, a tortura psicológica era muito superior. Como mostrar a fraqueza em cadeia nacional? Para os desesperados aspirantes pela fama é como se as portas estivessem lacradas, ou como se elas fossem a passagem para a revelação de seu fracasso. Enquanto isso, o público aplaudia e ria com o sofrimento dos tais brothers. Se eles podem ganhar fama e dinheiro, que tenham então que sofrer muito.

Qual o limite da audiência massiva em reality shows? O documentário francês Le Jeu de la Mort (O Jogo da Morte) simulou, sem que a platéia soubesse, um jogo de perguntas e respostas onde um concorrente (na verdade um ator disfarçado) levava choques sempre que errava. A audiência ensandecida mostrou que não existe limites em reality shows.Dos 80 participantes, 64 optaram por aplicar um choque de 460 volts no candidato. Tamanha carga foi então responsável pela morte ao vivo do candidato ao prêmio. A prova e o choque eram falsos e a morte foi simulada. O que assusta é que a platéia era real e a decisão pela tortura do participante foi consciente.

No espetáculo massivo tudo parece um grande jogo. O que a massa precisa é descarregar suas tensões para dormir em paz.



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Comentários:


Comentário de: Érica Rigo

Desde que o Big Brother começou a ser exibido na Globo, sou muito interessada pelo programa, porém há algumas edições venho encarado o reality de forma diferente. Como estudante de comunicação, achei muito válidas as suas exposições, o que prova que, mesmo sendo um programa com conteúdo não muito relevante, podemos ter uma visão crítica sobre ele. Não conhecia esse documentário francês, porém me interessei muito, assistirei com certeza.

PermalinkPermalink 31.03.10 @ 16:08



Comentário de: Alex Primo Email

Érica, que bom saber que você assiste ao programa com um olhar sempre crítico. Sim, ele pode nos ensinar muito sobre comunicação de massa, desejo, interação e fama. É preciso contudo não ficar ludibriado com o puro entretenimento.

PermalinkPermalink 31.03.10 @ 16:49



Comentário de: Ana Roberta

esse programa, Le Jeu de la Mort, está a serviço do sadismo torto dos espectadores. o Big Brother também é sustentado pela mesma motivação (e outras, mais narcísicas). mas tudo isso não é novidade... me faz lembrar dos "espetáculos" no Coliseu.

PermalinkPermalink 31.03.10 @ 16:54



Comentário de: Alex Primo Email

A diferença é que Le Jeu de la Mort era fake. Já o BBB é um programa onde se aplaude a tortura real, como se fosse apenas uma inocente brincadeira.

PermalinkPermalink 31.03.10 @ 17:45



Comentário de: Ocappuccino.com · http://www.ocappuccino.com

Não dá pra assisitir mais o vídeo :(

Belo texto professor. Entendo a busca pela fama, mas as torturas são somente para o Bial chama-los de 'heróis' hehehehe

Torci mt pelo Dourado. Gaúcho e colorado merece. :D

MATEUS

PermalinkPermalink 31.03.10 @ 20:43



Comentário de: Alex Primo Email

Mateus, estranho, aqui o vídeo está funcionando...

Ah, pelo menos no BBB o nosso colorado vence!

PermalinkPermalink 31.03.10 @ 21:15



Comentário de: Mariana Oliveira · http://twitter.com/marianarrpp

Ótimo texto, Alex.

Destaco o parágrafo em que tu citas a Fiat como patrocinadora de "espetáculos de tortura 2.0". Acho que ninguém tinha olhado por essa ótica. Até onde vão as empresas que querem proporcionar "interatividade"?

Isso dá uma discussão acalorada em Relações Públicas :P

Outra coisa: a velha discussão. É formato que é o "culpado" ou ele apenas liberta nossos instintos primitivos? O ovo ou a galinha? :)


PermalinkPermalink 31.03.10 @ 21:52



Comentário de: Alex Primo Email

Boa pergunta, Mariana! A Globo responderia que oferece aquilo que o público quer ver. Respostinha fácil, não é? ;-)

PermalinkPermalink 31.03.10 @ 22:40



Comentário de: Marco Medronha

Gosto muito de assitir televisão, até mesmo para tentar entender mensagens subliminares do texto e das imagens, motivo pelo qual assisto de tudo. Me interessa muito saber mais sobre interatividade, mas não consigo ver como positiva a que a Globo oferece. Você conhece algum exemplo em canal aberto que seja boa para o cidadão? Não vale sorteio. Abraço grande professor...fiquei surpreso e adorei o texto!!!

PermalinkPermalink 01.04.10 @ 15:23



Comentário de: Bernardo Moura

Nossa. Muito bom seu texto e seu blog. Não o conhecia. Caí aqui através de Alice.. Mas, no começo, adorava BBB. Vi o 1,2,3 e 5. Depois, achei que foi caindo na mesmice e, principalmente, depois que entrei na universidade, pude ver os mecanismos utilizados para se ter audiência. Neste, o 10, vi uns lances, mas não acompanhei de perto por achar a mesma vaziez de sempre. Ótimo post!

P.S: Já o conhecia de um txt que uma amiga utilizou-o na monografia. Parabéns!

PermalinkPermalink 02.04.10 @ 01:16



Comentário de: Alex Primo Email

Boas vindas, Bernardo! Tomara que possamos sempre contar com tua participação por aqui. :-)

De fato, quando começamos a conhecer melhor as estratégias mercadológicas por trás do programa, fica difícil apenas "curti-lo". Mesmo assim, ele pode nos servir para repensarmos a comunicação de massa e as próprias tentativas de trazer algum tipo de interação para esse tipo de meios monológicos.

PermalinkPermalink 02.04.10 @ 10:19




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