2010
Mais um Big Brother Brasil acaba de terminar. Acaba assim a desesperada busca pela fama e das torturas em horário nobre. Se você viu ontem o programa final, talvez tenha ficado pensando que o colorado Marcelo Dourado foi o único vencedor. Engana-se. Para os outros concorrentes, que ontem faziam figuração, o grande prêmio foi a repentina fama alcançada. A exposição por meses no principal canal massivo da TV pode render contratos futuros, fazer decolar uma carreira de modelo ou cantor ou capas em revistas masculinas.
A guerra de egos em cadeia nacional não surpreende e não é privilégio do Big Brother Brasil. Uma pesquisa realizada por Young e Pinsky (2006) mostrou que os participantes de reality shows apresentam graus de narcisismo mais altos que de atores, atletas e modelos. Supreso?
A grande dúvida é o que vem depois dessa rápida ascenção midiática? O status de celebridade é facilmente mantido por aqueles que passam a ter como profissão o título de ex-BBB? Grazielli Massafera é um nome que ainda é facilmente lembrado pelo grande público. Mas você lembra de outros concorrentes? Este tipo de "celebridades" cuja notoriedade rapidamente se esvai é chamado por Rojek (2008) de celetóide. Nesta categoria encontram-se ganhadores de loteria, mordomos de celebridades, anônimos que praticam um repentino ato de heroísmo, etc. Mas o que ocorre com essas pessoas quando seus rostos são esquecidos? Talvez consigam se eleger para algum cargo público? Bem, não foi o que aconteceu com Dhomini (BBB3) ou com a super celetóite Ruth Lemos.
Talvez você tenha tentado evitar o BBB 10, pois não aguenta mais assistir esse jogo de vaidades, esse espetáculo sobre o nada. Muito provavelmente você teve grande dificuldade com esse exílio midiático. Jornais e revistas (impressos e online), blogs e até mesmo o Twitter não pararam um dia sequer de tratar desse dramalhão. Na verdade, o uso intenso do Twitter pelos telespectadores deu novo sentido ao que se entende por TV interativa! Não posso deixar de mencionar que isso também serviu de ótimo exemplo para se compreender o conceito de encadeamento midiático (a forma como meios de comunicação de diferentes naturezas e com audiências distintas mantém inter-relação).
"Muito se falou sobre quase tudo o que ocorreu dentro da "casa mais vigiada do Brasil". O que não se discutiu foram as cenas de tortura psicológica (travestidas de provas de resistência física) exibidas no programa. Além do quarto branco, cuja opressão causou a desistência de um concorrente em uma edição anterior, neste ano a produção do programa conseguiu sofisticar os mecanismos de tortura. Em uma das últimas disputas pela liderança, dois pequenos grupos ficaram confinados em um ambiente onde chovia, ventava, fazia frio e depois calor intenso. Os "brothers" eram proibidos de se alimentar e de fazer suas necessidades e tentavam de todo modo se proteger das intempéries comandadas pelos internautas (isso é que é "interatividade"?). O que se assistiu eram os celetóides úmidos, com queixos batendo, chorando ou dormindo de pé. Estranho mesmo foi a Fiat achar que esse tipo de imagem é interessante de ser associado ao carro Linea.
A defesa fácil da Globo é: a porta permaneceu o tempo todo aberta. Qualquer concorrente poderia sair da clausura assim que quisesse. Mas, além do desafio físico, a tortura psicológica era muito superior. Como mostrar a fraqueza em cadeia nacional? Para os desesperados aspirantes pela fama é como se as portas estivessem lacradas, ou como se elas fossem a passagem para a revelação de seu fracasso. Enquanto isso, o público aplaudia e ria com o sofrimento dos tais brothers. Se eles podem ganhar fama e dinheiro, que tenham então que sofrer muito.
Qual o limite da audiência massiva em reality shows? O documentário francês Le Jeu de la Mort (O Jogo da Morte) simulou, sem que a platéia soubesse, um jogo de perguntas e respostas onde um concorrente (na verdade um ator disfarçado) levava choques sempre que errava. A audiência ensandecida mostrou que não existe limites em reality shows.Dos 80 participantes, 64 optaram por aplicar um choque de 460 volts no candidato. Tamanha carga foi então responsável pela morte ao vivo do candidato ao prêmio. A prova e o choque eram falsos e a morte foi simulada. O que assusta é que a platéia era real e a decisão pela tortura do participante foi consciente.
No espetáculo massivo tudo parece um grande jogo. O que a massa precisa é descarregar suas tensões para dormir em paz.





