A experiência transmidiática em Alice de Tim Burton

29Mar
2010

por Mariana Oliveira
Redatora

Contar histórias é um dos hábitos mais antigos da humanidade, e diversos fatores nos motivam a repassá-las adiante. Além de retratar e perpetuar a cultura de uma época, histórias exercitam nossa imaginação, nos fazem conhecer outras realidades e, por que não dizer, alimentam a alma. A história é o conteúdo, independente da plataforma escolhida: rádio, TV, cinema, livro, internet, teatro, moda, vídeo, fotografia... e algumas se adequam melhor a este ou aquele meio, de acordo com as intenções do autor e de seu público.

A prática de contar essas mesmas histórias transpondo mídias, em que cada meio atua de forma única para a construção de um universo, também não é exatamente uma novidade. Mas o conceito de Transmedia Storytelling nunca esteve tão em voga na indústria de entretenimento: a cada dia surgem novas iniciativas envolvendo transmídia para divulgar filmes, livros, quadrinhos, séries de televisão. Segundo Henry Jenkins,

“uma história transmídia desenrola-se através de múltiplas plataformas de mídia, com cada novo texto contribuindo de maneira distinta e valiosa para o todo” (Cultura da Convergência, 2006, p. 138)

Na narrativa transmidiática, o conteúdo é rei: utilizando os multimeios de maneira sincronizada e inteligente, a história pode ser contada em cada plataforma de uma forma inovadora, sem repetição de conteúdo, valorizando a experiência interativa e despertando grande interesse no público-alvo. Enquanto estratégia de marketing, existem diversos cases de sucesso que utilizam recursos de Transmedia Storytelling na sua divulgação. Henry Jenkins já apresentou alguns, como Star Wars e Harry Potter, e acredito que um dos grandes cases de divulgação transmídia é a versão de Alice no País das Maravilhas dirigida por Tim Burton.

A Disney investiu – e investiu alto – ao proporcionar uma intensa experiência transmidiática  na divulgação de Alice. Utilizando de diversos meios (massivos e de nicho, online e offline), o buzz gerado pelas estratégias multiplataformas de divulgação do filme já o colocava no patamar de sucesso de bilheteria antes mesmo de sua estreia.

Os recursos transmidiáticos em Alice
No longínquo mês de junho de 2009, as primeiras fotos do filme “vazaram na web”; em julho, foi a vez do trailer cair na rede e, em setembro, imagens do set. A partir daí uma sucessão de estratégias em diferentes meios:

- o press kit entregue a jornalistas e blogueiros foi um incrível livro personalizado com a história. Dentro dele um livro menor, e ainda outro, até encontrar uma chave pequena com a USB que trazia informações e cenas especiais;

- utilizando a técnica Flashmob, uma ação chamada Tea Party trouxe dezenas de bailarinos fantasiados como personagens de Alice, que “invadiram” a feira Magic Marketplace (importante evento de moda);

- passando pra mídia impressa, a Disney comprou a capa do LA Times, por uma bagatela de 700 mil dólares;

- já na televisão aberta, a Disney reservou um dos milionários espaços do Super Bowl;

- a Amazon disponibilizou a trilha sonora do filme;

- entre os souvenirs oficiais, foram produzidos bonecos do Chapeleiro Maluco (personagem de Johnny Depp), além de uma linha exclusiva de roupas, bolsas, canecas, esmaltes e joias;

- o diretor do filme concedeu entrevista exclusiva via livestream no MySpace, atraindo mais de 400 mil espectadores;

- Alice no País das Maravilhas tem um mobile game para Iphone;

- é claro que também foi lançado um game oficial para Nintendo DS e Wii;

- o perfil oficial do Twitter, @importantdate, possui mais de 15 mil seguidores e divulga fotos, entrevistas e promoções exclusivas;

- já a página oficial no Facebook foi a primeira a divulgar os pôsteres do filme e hoje conta com 1 milhão e 300 mil fãs, que têm acesso a informações, trailer, jogos e aplicativos como o do Chapeleiro Maluco;

- a revista WIRED publicou um vídeo com o making of do filme;

- outra forma de mídia utilizada foi a sala de cinema, em que o trailer de Alice, que terá versão em 3D, foi exibido antes da megaprodução Avatar;

- o offline ataca com um outdoor do personagem de Johnny Depp;

- a sessão de premiére mundial foi transmitida ao vivo no Facebook;

- ah, e esqueci do site oficial, que traz todas essas coisas citadas, e ainda possibilita a compra online de ingressos para assistir o filme no cinema.

Ufa! Cansou?
As ações de divulgação da Disney desencadearam diversas outras manifestações não-oficiais, como exposições e eventos temáticos,o que colaborou para o sucesso de bilheteria que o filme se tornou logo nas primeiras semanas de exibição. Lançado em 4 de março nos Estados Unidos e em outros países, Alice quebrou recordes e superou Avatar, atingindo U$ 210,3 milhões no primeiro fim-de-semana (sendo que a produção ainda não estreou em 40% do mercado mundial).

É claro que uma parcela considerável deste sucesso vem da história maluca de Lewis Carroll e da fórmula Tim Burton + Johnny Depp, que já possui uma legião de fãs. Mas o investimento em recursos transmidiáticos para divulgação geraram grande curiosidade e expectativa no público, impactando o maior número de pessoas de diferentes formas e, com isso, obtendo o maior lucro possível. Com mais esse sucesso na indústria do entretenimento, é provável que a maioria das produções cinematográficas adotem o Transmedia Storytelling como parte fundamental de suas estratégias de divulgação. Atualização: no caso de Alice, os recursos de transmídia foram utilizados como estratégia de divulgação do filme, e não da história (que não continua nesses outros meios, mas oferece uma experiência interativa que pessoas que apenas assistiram o filme não irão conhecer).

O longa terá sua estreia no Brasil em 21 de abril, e deve repetir o sucesso de bilheteria global. Depois desse post “transmidiático”, você ficou ainda mais ansioso para assistir Alice, acertei? :)



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Comentários:


Comentário de: Gabriel Ishida · http://midializado.blogspot.com

Olá,

Achei bem legal o post enumerando as diversas frentes de divulgação do filme Alice no País das Maravilhas, mas a questão que coloco é o conceito de Transmedia Storytelling.

Acredito que, esse caso de Alice, não seja um exemplo muito marcante. Como o próprio conceito diz, é uma narrativa. Essas frentes de divulgação não contribuem para a narrativa, na minha opinião. Envolvem o espectador em torno da marca, mas não vai influenciar na construção da narrativa. Harry Potter e Star Wars, ao contrário, usava os outros meios para contar mais detalhes ou se aprofundar na narrativa.

Jenkis no seu livro ainda cita Matrix, que é um exemplo mais perfeito, já que era necessário perpassar pelas mídias para entender a narrativa por completo.

Eu não vi mais a fundo os recursos utilizados pela Disney, mas pelo que li por aí e pela descrição presente nesse post, o que a Disney fez foi apenas envolver e cercar o espectador através de divulgação via várias mídias, mas não contribuiu com a narrativa do universo.

Obrigado.

PermalinkPermalink 29.03.10 @ 14:43



Comentário de: Thiago Oliveira · http://www.twitter.com/thcorps

Narrativa transmídia é contigo mesmo, né?

Parabéns por mais um ótimo texto e por compilar todas as ações da Disney, acho q não conhecia a maioria delas. Tu tá boa nas pesquisas, hein ^^




PermalinkPermalink 29.03.10 @ 14:47



Comentário de: Mariana Oliveira Email

Oi Gabriel!

Obrigada pelo comentário!
De fato o que você disse está corretíssimo, o conceito de Transmedia envolve a narrativa contada em meios diferentes, como em Matrix. 3
Mas, no caso de Alice, acredito que a Disney tenha usado RECURSOS de transmídia para divulgar o filme, como por exemplo o flashmob, que não traz a história literal do filme, mas uma outra perspectiva dela (o que caracterizaria Transmedia). O filme "continua" nas outras mídias, ao ter criado um universo paralelo que as pessoas que simplesmente assistirem o filme, sem interagir com esses recursos, não irão conhecer!

Obrigada pela visita! Abraços!

PermalinkPermalink 29.03.10 @ 14:52



Comentário de: Jonas · http://www.jonasaraujo.com

Eu li o livro do Jenkins e achei fantástico! O que me deixa meio sem esperança é a falta de investimentos em transmídia no Brasil... o que me parece é se cria para um meio e repete-se as mesmas coisas nos demais. Quase sempre são as mesmas pessoas que vêem o conteúdo e ele se torna chato porque é pura repetição.

PermalinkPermalink 29.03.10 @ 14:52



Comentário de: Thiago Oliveira · http://www.twitter.com/thcorps

Apesar de citar a narrativa transmídia no começo do texto, as ações de Alice são referidas como "experiências transmidiáticas".

Mas concordo com o Gabriel quando ele diz que Alice não explora, de fato, a possibilidade de ampliar o enredo do filme em outros suportes.

PermalinkPermalink 29.03.10 @ 14:53



Comentário de: Israel Degásperi · http://midiassociais.blog.br

Nossa, excelente post Mariana ! Caprichou. Eu também adoro escrever e quando gostamos do assunto e nos dedicamos a procurar as informações na internet, não tem como dar errado não é mesmo ?
Parabéns!
@idegasperi

PermalinkPermalink 29.03.10 @ 16:10



Comentário de: Laura · http://www.twitter.com/lauandrade

Adoreeei o post! Realmente, as experiências são transmidiáticas, mesmo que a história já esteja "fechada".
Quando meu post sobre as referências à Alice na moda (que também tão por tudo na internet e em todo lugar) tiver pronto eu mando o link!
Beijo!

PermalinkPermalink 29.03.10 @ 16:42



Comentário de: Chico Montenegr l Mídia Boom · http://www.midiaboom.com.br

Eu li o livro do Jenkins e gostei bastante. Adorei seu post!

Parabéns!

@srchico

PermalinkPermalink 29.03.10 @ 18:01



Comentário de: Mariana Oliveira · http://twitter.com/marianarrpp

Jonas, concordo contigo. Infelizmente o investimento neste tipo de estratégia ainda é escasso no Brasil. Inclusive neste case, a maioria das ações (jornal, outdoor, flashmob, souvenirs) não tiveram suas "versões brasileiras". É uma pena. Espero que este post possa ajudar a abrir os olhos (e os bolsos!) para o nosso mercado!

Laura, Thiago, Chico e Israel: obrigada pelos elogios! Isso faz com que a gente queira sempre continuar! :D

PermalinkPermalink 29.03.10 @ 22:20



Comentário de: Ocappuccino.com · http://www.ocappuccino.com

No Espaço Aberto da Globo News rolou um progrma que fala sobre Narrativa Transmídia. O primeiro filme que usou foi 'mil e uma noites' e outros cases de sucessão são 'guerra nas estrelas' e o grande exemplo é 'matrix'. Segue o link http://tinyurl.com/ylcdqqa

A grande dica que os 'estudiosos' dão é que a história tem que ser boa, do contrário não adianta criar mil maneiras de contar uma parte da história em cada plataforma se a história não for boa e não provocar o sentimento de apropriação das pessoas.

Mt bom post Mari.

MATEUS

PermalinkPermalink 29.03.10 @ 23:09



Comentário de: Guto

hey, já comentaram um pouco do que eu planejava escrever assim que li o post.

Não acho que esse case entra na mesma categoria dos exemplos usados pelo Jenkins para explicar o seu conceito de transmedia storytelling.

Como tu mesma atualizaste depois, as diferentes mídias não foram utilizadas para contar a história, trazendo elementos únicos para o todo: foram utilizadas apenas como meios publicitários.

Não consigo ver esse case entrando como um exemplo do conceito de transmedia storytelling apenas porque foram utilizadas diversas mídias para divulgar o filme. Se for assim, afinal, toda campanha publicitária pode entrar nesse conceito?

Aliás, tu escreves:

"A prática de contar essas mesmas histórias transpondo mídias, em que cada meio atua de forma única para a construção de um universo,(...)"

e

"Na narrativa transmidiática, o conteúdo é rei: utilizando os multimeios de maneira sincronizada e inteligente, a história pode ser contada em cada plataforma de uma forma inovadora, sem repetição de conteúdo(...)"

Bem, pelo que li no post, e pelo que acompanhei (pouco, é verdade) do filme, não me parece que essas situações ocorreram.

--//--

Tu também colocas o seguinte:

"Enquanto estratégia de marketing, existem diversos cases de sucesso que utilizam recursos de Transmedia Storytelling na sua divulgação. Henry Jenkins já apresentou alguns, como Star Wars e Harry Potter,(...)".

Certamente, é possível usar esse conceito como uma estratégia de marketing, mas do jeito que tu escreveste, me parece que os cases apresentados pelo Jenkins foram reduzidos apenas como cases de marketing; e é muito mais do que isso, pois a própria história se desenrola de formas diferentes nas diferentes mídias, e como tu escreveste, "em que cada meio atua de forma única para a construção de um universo".

Assim, na minha visão, isso é errôneo: "os recursos de transmídia foram utilizados como estratégia de divulgação do filme, e não da história".

A própria nomeação do conceito pressupõe que a história seja contada espalhada pelas mídias; se isso não acontece, temos apenas uma campanha publicitária realizada em diversas plataformas - o que já é bom, já é diferente, mas insuficiente para ser colocada dentro do conceito de transmedia storytelling.

PermalinkPermalink 30.03.10 @ 11:59



Comentário de: Reah · http://www.color-report.blogspot.com

Eu sou fã do Burton há muuuito tempo, muito mesmo. E Alice foi uma história que sempre me encantou. Além disso, eu estudo comunicação e seu post foi recomendado pelo meu professor de Comunicação e Novas Tecnologias.
Adorei tudo que você escreveu e, só faltou citar um pouquinho da fantástica trilha sonora, que foi disponibilizada na internet antes do lançamente do cd "Almost Alice".

O conceito de transmidia é fantástico e eu acredito que, é bem melhor para se divulgar qualquer evento. =]

PermalinkPermalink 30.03.10 @ 14:52



Comentário de: Mariana Oliveira · http://twitter.com/marianarrpp

Oi Guto!

Obrigada pelo ótimo e fundamentado comentário aqui no Dossiê. Como já dito ao Jonas, concordo com alguns pontos do que foi dito, foi por isso que realizei a atualização. Realmente, Alice não tem a essência da NARRATIVA transmidiática, mas utiliza ESTRATÉGIAS transmidiáticas de divulgação.

Quem assiste um filme e quem assiste um filme+flashmob+livro+exposição+... tem experiências (e expectativas, no caso de um lançamento) diferentes em relação ao filme. O que eu quis demonstrar foram as estratégias transmidiáticas utilizadas pela Disney, mas seria impossível falar disso sem contextualizar Transmedia (iria ficar perdido). Vou fazer mais uma atualização quanto a isso.

Em relação ao cases colocados no livro do Jenkins, sou obrigada a discordar. Ainda que "seja muito mais do que um case de marketing", em suma ele é um case de marketing, sim. Sei que pra quem é fã é difícil de assumir isso, mas a história não foi destrinchada em diversos meios e recursos simplesmente para agradar o fã. Talvez até para agradá-lo, mas para que ele se torne fiel. No fim é tudo lucro. Todas essas frentes foram utilizadas para impactar pessoas e gerar lucro. Essa indústria não é "amamos nossos fãs" e fim. Então acredito que Star Wars e HP são cases sim, antes de ser "muito mais que isso".

Obrigada e até a próxima. :)

PermalinkPermalink 30.03.10 @ 18:08



Comentário de: Guto

Hey, quando eu digo que não são apenas cases de marketing me refiro ao fato de que as histórias foram realmente desenvolvidas em outras plataformas de forma única, não apenas para divulgar o produto principal, como aconteceu com o filme Alice. Creio não ter deixado isso muito claro.

Se foram todas feitas para gerar lucro? Sem dúvida, como quase tudo o é, certo? ;)

PermalinkPermalink 30.03.10 @ 22:00




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