2010
Que as tags no Twitter são usadas para categorizar mensagens por assuntos não é nenhuma novidade. Mas o quero comentar aqui é um uso de tags que se tornou bastante popular: a indicação de contextos afetivos.
O desenvolvimento das hashtags
A tag (para ser mais exato, hashtag) é um recurso que foi criado de forma espontânea. O sinal # foi usado pela primeira vez para facilitar a organização de mensagens sobre um mesmo tema em 22 de outubro de 2007 por Nate Ritter. Ele criou a tag #sandiegofire nos relatos que vinha fazendo sobre os incêndios em San Diego. No Brasil as tags vêm também sendo muito usadas para cobrir eventos e tragédias (a tag #terremotoSP foi um marco nesse sentido).
Tagging, que significa etiquetar, é um processo de associação de metadados (dados sobre dados) a textos, imagens, bookmarks, etc. Diferentemente da taxonomia que utiliza vocabulários controlados, qualquer palavra pode ser utilizada como tag. Estas palavras-chave facilitam a recuperação de informações no sistema em sistemas de busca, como o Twitter Search. O próprio Twitter facilita a recuperação de tweets com a mesma etiqueta transformando todas tags em links em suas páginas oficiais.
Para facilitar o processo de “tagueamento” costuma-se usar etiquetas curtas, que sejam descritivas do assunto em questão. Como se vê ao lado, a inclusão da tag #games circunscreve a mensagem em um tema determinado. Quem tiver interesse nesse assunto pode fazer uma busca sobre essa tag e encontrar tudo o que se está falando no momento sobre ele.
A importância das tags tornou-se tão grande que o Twitter incorporou em 30 de abril de 2009 a seção Trending Topics (e mais tarde com diversas localizações ) para reunir as etiquetas mais populares em cada instante. O Twitter também passou a publicar uma lista das tags mais usadas em um ano (veja aqui o relatório de 2009).
Ou seja, de um movimento espontâneo as tags foram oficialmente incorporadas pelo Twitter e hoje contam com toda uma estrutura que facilita a busca e recuperação de mensagens. Politicamente, as tags têm servido como costura virtual para protestos mundiais (como #iranelection) e nacionais (#forasarney, por exemplo). E elas também têm sido usadas como uma forma de interagir sobre conteúdos da mídia de massa (#foradourado).
Tags e afetos
Enquanto podemos identificar os usos acima como “formais”, um protocolo social para organização e recuperação de informações, um uso menos estruturado das tags ganhou força. Ainda que elas mantenham a função de contextualização, o uso de tags perde a função de folksonomia.
Nestes casos, o twitteiro quer demonstrar de forma concisa seu estado emocional naquele momento.
Enquanto um simples franzir de sobrancelha pode acrescentar informações contextuais a uma frase, indicando raiva ou ironia, as mensagens de puro texto e com poucos caracteres limitam as pistas não-verbais. O uso de emoticons e onomatopéias (hahahaha, AHHHHH!!!) podem viabilizar alguma informação não-verbal, mas eles parecem não ser suficientes. É nesse sentido que #cansei, #sono, #gamei, #morri (indicando uma surpresa, normalmente desagradável) qualificam a mensagem com dados sobre como se sente o interagente.
Algumas tags "afetivas" tornaram-se muito populares, tornando-se um padrão dessa categoria, como #prontofalei #muitoamor #euquero #rialto. Apesar de seu uso contínuo, não se pode dizer que os twitteiros estejem visando uma melhor indexação de suas mensagens pessoais.
Algumas tags indicativas de emoções são repletas de ironia e podem ser difíceis de se compreender em um primeiro momento, como #oiq ("Oi, quê?"). Outras incorporam erros ortográficos intencionalmente: #comofas, por exemplo. De toda forma, os dois exemplos incorporam novos sentidos ao que está sendo dito.
Este processo diferenciado de tagueamento pretende simplesmente revelar um estado de espírito, um posicionamento afetivo, um contextualização das emoções em jogo. Ainda que não se possa dizer precisamente que trata-se de uma pista não-verbal, já que palavras são usadas na etiqueta, tais tags podem ter um efeito semelhante àquela sobrancelha franzida ou a olhos lacrimejantes (de sono ou tristeza).
As tags também podem ser usadas como indicação de uma breve opinião sobre o que se escreve na mensagem. Serve como aprovação ou crítica do que diz o texto anterior. Em uma situação de alta limitação de caracteres para a expressão, tags desse tipo revelam o posicionamento do autor diante dos fatos que narra.
O sinal #, nestes casos, não é um convite para a busca de outras mensagens com a mesma tag. Tampouco é um compromisso com a coletividade, à medida que o interagente não visa agrupar sua mensagem com outras sobre o mesmo tema, facilitando a busca temática. O objetivo nestes casos é expor publicamente um dado afetivo que acrescenta informações ao que acaba de ser escrito, ou que ressignifica o retweet da mensagem de um terceiro.
Enfim, o uso de tags foi um movimento bottom-up que foi mais tarde instituicionalizado. O uso padronizado dessas etiquetas visam a produção de uma folksonomia cujo finalidade é potencializar a recuperação de informações em um dado contexto temático. Hoje as tags ganham um novo uso cuja importância é apenas local, no interior de uma determinada mensagem. Este novo tipo de procedimento visa apenas qualificar um texto com pistas contextuais de cunho afetivo. Para os que recém estão chegando no Twitter, não se assuste com esta linguagem ainda em construção! #beijomeliga




