Don't be evil: a crise diplomática do Google

18Jan
2010

por Mariana Oliveira

Os polêmicos China e Google são os protagonistas de uma emblemática guerra de/por informação entre uma empresa e uma nação-estado, que envolve censura, monopólio, restrições e ataques à privacidade alheia.

Como foi noticiado em diversos meios, já que a maioria dos jornais e blogs está fazendo intensa cobertura sobre o caso, o Google anunciou a decisão de quebrar o acordo com a China e retirar os mecanismos de censura da ferramenta de busca em território chinês. Logo no início da declaração em seu blog, a empresa avisa que “detectou” uma grande ameaça de ataque proveniente da China, a então chamada Operação Aurora, que ainda envolvia ataques de pishing a ativistas locais usuários do Gmail. E ainda ameaçou: caso não tenha o aval para retirar a censura nos seus resultados, o Google fecha as portas no país. Isso mesmo, Googlebye, como apelidaram os chineses mais abalados com a notícia.

Muitos desdobramentos ainda estão por vir, inclusive há rumores que estes ataques provêm do governo chinês e/ou do próprio Google(!). E entre diversas análises sobre o caso publicadas na mídia especializada, as opiniões heróico-apaixonadas têm destaque, na linha “finalmente, alguém teve coragem de enfrentar a monstruosidade da China”. De fato, a postura da empresa traz à tona a discussão e acaba por revelar outras facetas destas relações diplomáticas, mas bloquear a censura das pesquisas em um país em que o Google nem é líder (30% das buscas) não combateria as históricas fragilidades em termos de direitos humanos que permeiam o país, intensamente retratados pela imprensa mundial durante as Olimpíadas. Mas uma outra corrente crítica argumenta que a briga é de gente grande: o gigante das buscas não irá abandonar este gigante mercado, o que faz disto uma manobra estratégica. That's the good PR!

Para além desta discussão centrada no governo chinês, o que surpreende é a crise diplomática que o Google vêm enfrentando a partir do crescimento exponencial de seus negócios para mais e mais áreas (já conhecem o projeto Energy?). O departamento de Relações Públicas da empresa deve estar sobrecarregado de trabalho, pois o Google está interferindo nas relações comerciais, editoriais, políticas e até de privacidade de diversos países. Algumas das quais consigo lembrar no momento:

- Suíça x Google: aqui, o problema é com a privacidade dos cidadãos suíços clicados no Google Street View. A empresa de buscas foi acusada de não obscurecer as fotos de transeuntes e placas de carros, além de colocar as câmeras em determinada altura que contempla imagens de propriedades privadas. A decisão judicial determinou que o Google poderá continuar registrando o país para o Street View, mas atentando para normas mais rígidas de privacidade. Polêmica semelhante também ocorreu no Reino Unido.

- Alemanha x Google: em entrevista à revista Del Spiegel, a ministra da Justiça do país, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, fez declarações em que demonstrou preocupação na quantidade de dados sobre cidadãos, e anuncia que a empresa está criando um “monopólio gigante”, similar ao construído pela Microsoft, o que a coloca na mira das investigações alemãs.

- Índia x Google: Já no país indiano, a preocupação é com o Google Earth. O governo considera o software um perigoso aliado para ataques terroristas, por oferecer informações por satélite dos possíveis alvos.

- França x Google: como recentemente tratado aqui no Dossiê, o presidente Sarkozy fez declarações polêmicas sobre o processo de digitalização de obras francesas pelo projeto Google Books. E a briga recém começou, pois o governo francês estuda propostas de criar um "imposto google" sobre as buscas.

- Brasil x Google: alguém se lembra das extensas batalhas judiciais para revelar dados de possíveis pedófilos no Orkut?

Pergunto: de fato, quem detém informação detém o poder? Ou também é preciso muito jogo de cintura diplomático e manobras estratégicas (como o caso China?). Uma coisa é certa: nunca nos questionamos tanto sobre a possível criação de um monopólio nas buscas por informação, e como estamos colaborando para isto. Esperamos que o Google siga seu próprio slogan: Don't be evil.



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Comentários:


Comentário de: Richard · http://www.twitter.com

A grande verdade é que o Google é uma empresa muito nova que cresceu muito e muito rapidamente em várias areas, isso assusta muita gente, eles realmente monopolizam já muita coisa.

Fora que o modelo de "grátis" deles acabou com muita gente que empresa ousaria a cobrar em serviços de email após o gmail?

PermalinkPermalink 18.01.10 @ 13:47



Comentário de: Mariana Oliveira Email

Verdade, Richard. Por outro lado, não pagamos o Gmail com dinheiro em si, mas fornecemos dados, muitos dados. Se informação é poder... poder é dinheiro... acho que pode ficar seis por meia dúzia, né?

PermalinkPermalink 18.01.10 @ 13:56



Comentário de: Compulsivo · http://usuariocompulsivo.blogspot.com/

Atente para o slogam do Google, que é: "Dont be Evil". ou, "Não seja mau". São eles (Google) dizendo aos outros: Não sejam maus (conosco). Não devemos confundir com "Não sou mau", que é muito diferente...

PermalinkPermalink 18.01.10 @ 14:49



Comentário de: Mariana · http://twitter.com/marianarrpp

É, mas se for ver, é uma questão de interpretação. Este be pode ser lido como algo (grosseiramente) "Não sejamos maus". Afinal, ter um slogan que diz "Não sejam maus" é, no mínimo, estranho... hehe

PermalinkPermalink 18.01.10 @ 16:09



Comentário de: alan david · http://www.alandavid.com.br

o google cresceu muito e de uma forma muito organizada, e ainda dentre as aquisições deles, várias foram boas e estratégicas, mas, não para por ai, o Google está constantemente melhorando seus serviços. Isso explica de certa forma porque usamos e vamos continuar a usar o Google em diversos momentos do nosso dia.

O Google vai dominar a internet, depois o mundo. ¬¬'

PermalinkPermalink 18.01.10 @ 16:46



Comentário de: Thiago Oliveira · http://www.twitter.com/thcorps

Duelo de titãs Google vs China. É claro que o modelo de negócios e quantidade de informações reunidas pela Google assusta.

Mas me assusta muito mais o crescimento e expansão da Google pra tudo quanto é área que essa briguinha de censura com a China.

O regime da China é esse. Não adianta os defensores da "pseudo-democracia" que temos aqui ficarem choramingando. Se a China é um país soberano, ou joga de acordo com as regras deles ou simplesmente abandona o serviço por lá mesmo, o que eu duvido que vá acontecer, já que nosso capitalismo ocidental morre de amores pelo comunismo chinês, hehe.

PermalinkPermalink 18.01.10 @ 17:08



Comentário de: Luma · http://luzdeluma.blogspot.com

Como uma grande empresa está usando de estratégia e isto não tem nada com questões políticas ou ideológicas. A China se retraí a qualquer tipo de invasão de modernidade, não quer correr o risco de perder o controle sobre a população. Queira ou não, mesmo que a Google seja pequena perto do quase monopólio da Baidu, não deixa de ser uma ameaça. Quanto a saída estratégica da Google do território Chinês, considero uma excelente tacada.
indicação de leitura http://brainstormtech.blogs.fortune.cnn.com/2009/12/28/google-v-baidu-which-company-will-win-china/

PermalinkPermalink 18.01.10 @ 20:40



Comentário de: Luma · http://luzdeluma.blogspot.com

Indiquei o texto errado, mas está valendo também. Leitura complementar, no mesmo blogue http://brainstormtech.blogs.fortune.cnn.com/2010/01/13/googles-gutsy-move/

PermalinkPermalink 18.01.10 @ 20:51



Comentário de: Marcelo Albagli

Muito completo o seu post, parabéns! Nos próximos dias vamos assistir aos desdobramentos desse caso, e as implicações podem acabar se revertendo contra o próprio Google. O que podia ter sido uma boa jogada de PR pra se retirar do país, pode acabar se transformando num verdadeiro pesadelo para a empresa (http://bit.ly/8v6GpV), que agora carrega na aba a responsabilidade de ter trazido à tona informações de ataques a outras empresas que dependem da credibilidade na segurança da informação para seus negócios - Microsoft, Symantec, Yahoo, entre outras. Tanto a França quando a Alemanha já divulgaram notas oficiais, recomendando a não utilização do Internet Explorer. A Microsoft, pela primeira vez na história, recomenda que os usuários de IE6 e XP façam o upgrade não apenas do navegador, mas também de sistema operacional. Dia 21/jan acontece o pronunciamento de Hillary Clinton sobre o assunto - quero ver se ela vai sair em defesa da liberdade de expressão ou irá preferir falar sobre o direito das patentes norte-americanas. Abs e boa sorte!

PermalinkPermalink 18.01.10 @ 22:50



Comentário de: Augusto Namitala · http://namitala.com/

A google tem em seus servidores muita informação e vem se mostrando muito ambiciosa, lembrando do caso Google Chrome, onde relatórios do histórico é enviado. Também fica a dúvida sobre o novo Dns,.

PermalinkPermalink 20.01.10 @ 09:56



Comentário de: Mariana Oliveira Email

Luma,
concordo que mesmo com a dominação do Baidu, essa ameaça do Google pode balançar o mercado de buscas da China, sim.
Entretanto, não vejo maneira de dizer que estas estratégias não tem nada a ver com questões políticas e ideológicas. Pelo contrário, acho que o Google, pela dimensão que a empresa tomou, está mais envolvido em questões políticas e ideológicas do que nunca!

PermalinkPermalink 20.01.10 @ 20:41



Comentário de: Marco · http://ar-desenho.blogspot.com

Não sejamos inocentes, corrupção e propina não existe só no brasil; dizer que a preocupação é com a privacidade do cidadão em alguns países é balela, depois do 11 de setembro os Estados Unidos criaram o ato patriota que viola tanto a privacidade de seus cidadãos como os de outros países, isso é feito por outros países da europa também, o problema que envolve dinheiro e quando se faz pressão sobre uma empresa a maneira mais fácil e curta pra que ela acabe, é molhando a mão de alguém em altos escalões de qualquer governo, e se a empresa se recusa, a desculpa é a da privacidade, não esqueçam do projeto de lei pavoroso do governo de controle da imprensa, estes politicos nossos que estão no governo sofreram com a ditadura e fizeram seus nomes sobre ela falando da falta de liberdade da imprensa, mas parece que não aprenderam, e querem controlar a mesma.

PermalinkPermalink 12.03.10 @ 11:17



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