2010
por Mariana Oliveira
Os polêmicos China e Google são os protagonistas de uma emblemática guerra de/por informação entre uma empresa e uma nação-estado, que envolve censura, monopólio, restrições e ataques à privacidade alheia.
Como foi noticiado em diversos meios, já que a maioria dos jornais e blogs está fazendo intensa cobertura sobre o caso, o Google anunciou a decisão de quebrar o acordo com a China e retirar os mecanismos de censura da ferramenta de busca em território chinês. Logo no início da declaração em seu blog, a empresa avisa que “detectou” uma grande ameaça de ataque proveniente da China, a então chamada Operação Aurora, que ainda envolvia ataques de pishing a ativistas locais usuários do Gmail. E ainda ameaçou: caso não tenha o aval para retirar a censura nos seus resultados, o Google fecha as portas no país. Isso mesmo, Googlebye, como apelidaram os chineses mais abalados com a notícia.
Muitos desdobramentos ainda estão por vir, inclusive há rumores que estes ataques provêm do governo chinês e/ou do próprio Google(!). E entre diversas análises sobre o caso publicadas na mídia especializada, as opiniões heróico-apaixonadas têm destaque, na linha “finalmente, alguém teve coragem de enfrentar a monstruosidade da China”. De fato, a postura da empresa traz à tona a discussão e acaba por revelar outras facetas destas relações diplomáticas, mas bloquear a censura das pesquisas em um país em que o Google nem é líder (30% das buscas) não combateria as históricas fragilidades em termos de direitos humanos que permeiam o país, intensamente retratados pela imprensa mundial durante as Olimpíadas.
Mas uma outra corrente crítica argumenta que a briga é de gente grande: o gigante das buscas não irá abandonar este gigante mercado, o que faz disto uma manobra estratégica. That's the good PR!
Para além desta discussão centrada no governo chinês, o que surpreende é a crise diplomática que o Google vêm enfrentando a partir do crescimento exponencial de seus negócios para mais e mais áreas (já conhecem o projeto Energy?). O departamento de Relações Públicas da empresa deve estar sobrecarregado de trabalho, pois o Google está interferindo nas relações comerciais, editoriais, políticas e até de privacidade de diversos países. Algumas das quais consigo lembrar no momento:
- Suíça x Google: aqui, o problema é com a privacidade dos cidadãos suíços clicados no Google Street View. A empresa de buscas foi acusada de não obscurecer as fotos de transeuntes e placas de carros, além de colocar as câmeras em determinada altura que contempla imagens de propriedades privadas. A decisão judicial determinou que o Google poderá continuar registrando o país para o Street View, mas atentando para normas mais rígidas de privacidade. Polêmica semelhante também ocorreu no Reino Unido.
- Alemanha x Google: em entrevista à revista Del Spiegel, a ministra da Justiça do país, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, fez declarações em que demonstrou preocupação na quantidade de dados sobre cidadãos, e anuncia que a empresa está criando um “monopólio gigante”, similar ao construído pela Microsoft, o que a coloca na mira das investigações alemãs.
- Índia x Google: Já no país indiano, a preocupação é com o Google Earth. O governo considera o software um perigoso aliado para ataques terroristas, por oferecer informações por satélite dos possíveis alvos.
- França x Google: como recentemente tratado aqui no Dossiê, o presidente Sarkozy fez declarações polêmicas sobre o processo de digitalização de obras francesas pelo projeto Google Books. E a briga recém começou, pois o governo francês estuda propostas de criar um "imposto google" sobre as buscas.
- Brasil x Google: alguém se lembra das extensas batalhas judiciais para revelar dados de possíveis pedófilos no Orkut?
Pergunto: de fato, quem detém informação detém o poder? Ou também é preciso muito jogo de cintura diplomático e manobras estratégicas (como o caso China?). Uma coisa é certa: nunca nos questionamos tanto sobre a possível criação de um monopólio nas buscas por informação, e como estamos colaborando para isto. Esperamos que o Google siga seu próprio slogan: Don't be evil.




