Ciborgues e a perfeição do corpo

01Dez
2009

Estava eu matando tempo no Twitter quando encontro o link do vídeo abaixo. O Cardoso (não aquele rabugento, mas o fundador do saudoso Cardoso Online) dava a entender que as imagens eram grotescas ("Nunca vou me recuperar" ), mas mesmo assim promovia a curiosidade pelo inusitado de seu comentário: "Silicone masculino".


O vídeo mostra um jovem muito orgulhoso de seus músculos. Simulando uma aula de aeróbica, Rodrigo dança ao som de uma música eletrônica exibindo seu corpo que parece ter sido esculpido por um chargista sem limites. O trapézio nasce de seus ombros como um trabalho equivocado no Photoshop. Seu peito parece ter sofrido a ação do filtro spherize. Mas a desproporcionalidade não foi gerada digitalmente. Tampouco parece fruto de um esforço "natural".

Em outro vídeo, Rodrigo diz "não estar nem aí" para quem o acusa de tomar bomba. O que lhe importa é que "a mulherada gosta". E ameaça: "Se você facilitar eu pego sua mulher. Porque vocês são uns invejoso [sic]". Já seu perfil no YouTube traz a intrigante confissão: "SEM TREINAR MUSCULACÁO A 2 ANOS [sic], IMAGINA SE TREINASSE". Como então o rapaz consegue manter aquele corpo?

Não parece haver dúvida que boas doses de anabolizantes foram utilizadas. Ora, esse procedimento parece ser o caminho mais rápido para tal "modelagem" muscular. Mas o intuito deste post não é fazer mais uma alerta sobre os riscos do abuso daquelas substâncias. O que quero aqui colocar em discussão é a relação entre corpo, tecnologia e nossa época.

As indústrias culturais nos convenceram com o tempo que mulheres devem ser magérrimas como as modelos que estampam capas de revistas femininas. Rostos não podem ter rugas e sinais de expressão. Homens precisam ser malhados, mesmo que não sejam esportistas. Tal imposição midiática acabou desvinculando a estética da saúde. Que importa se uma garota está em processo de desnutrição se está contente por estar magra? Por que preocupar-se com um possível problema cardíaco, se hoje uma exagerada musculatura pode atrair meninas da academia? Nesse cenário, rapazes mais magros que sofrem com pequenos halteres são chamados de "frangotes".

Mesmo vomitando suas refeições, uma garota sente-se gorda no espelho. Por outro lado, encontra suporte e incentivo de parceiras em sites de Ana e Mia (siglas usadas para disfarçar sites com dicas de incentivo à anorexia e bulimia). Enquanto para ela um corpo esquálido é o objetivo, para ele músculos desproporcionais são o ideal estético. Ela evita comer, ele abusa de suplementos alimentares e injeções de anabolizantes. A primeira pensa que pode emagrecer ainda mais, o segundo acha que seu braço e peito poderiam inflar ainda mais.

Revistas femininas fazem circular anúncios que pregam um tipo estético que só pode ser alcançado via Photoshop. Cinturas menores que cabeças são exibidas em fotos que, apesar de seu caráter grotesco, incentivam garotas a buscar aquele ideal em seus espelhos. Já as "bombas" são receitadas e vendidas em academias por marombeiros que não possuem nenhuma formação nutricional ou em educação física. Tal como um caricaturista que exagera formas para gerar riso, os fisiculturistas/químicos criam protuberâncias em seus corpos esperando a admiração alheia.

A busca pela perfeição do corpo tem como meta o protótipo do físico midiático: corpos esquálidos siliconados que roçam em troncos inchados nos episódios de algum BBB. A "perfeição" nas revistas é alcançada digitalmente, mas aqui fora muitas técnicas analógicas nos ajudam a buscar a mesma estética: o vômito provocado para eliminar calorias; injeções de anabolizantes.

Precisamos reconhecer, a tecnologia nos ajuda a vencer deficiências. Cirurgias plásticas podem ajudar uma garota a ultrapassar certos traumas. Loções podem retardar a calvície. Sessões de laser tem o poder de eliminar manchas, apagar tatuagens mal feitas e depilar pelos indesejados. Próteses dentárias e aparelhos metálicos podem corrigir sorrisos. E a mais básica das vacinas pode fortalecer nossos corpos. Enfim, somos hoje todos ciborgues. Nossos corpos são modificados continuamente. E assim vamos lutando contra a finitude, mantendo-nos jovens enquanto podermos negar a velhice.

Mas isso pode parecer pouco para quem quer ter um corpo mais que perfeito. Rodrigo é uma prova disso. Ao dançar, bate em seus peitos inchados. Pretende mostrar força. Debocha de seus críticos e gaba-se de não fazer musculação. Por que o esforço se a química pode ser sua aliada? Para que tanto suor se o que importa é a imagem final?

Quem sabe as TV digitais e suas imagens de alta definição nos ajudem a lembrar que nossos ídolos tem peles manchadas, marcas de expressão e dobras nas cinturas. Talvez não. O detalhe real não contribui para a mitificação. Em breve novas técnicas serão desenvolvidas para borrar a alta definição. O que importa é a fantasia.

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Saiba mais sobre o tema lendo este excelente artigo de Paula Sibilia: O bisturi de software (Ou como fazer um “corpo belo” virtualizando a carne impura?)



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Comentários:


Comentário de: Carol Janovik

Algumas marcas tentam se apropiar de outros valores em suas campanhas, como a Arezzo na recente campanha que homenageia o bom humor da mulher brasileira com algumas atrizes famosas de humor (http://www.arezzo.com.br/altoverao2010/#/pt-br/). Mesmo assim, elas estão lindas maravilhosas nas fotos, com seus pernões de fora (menos a Regina Casé hehehe), com ajuda de muito Photoshop, imagino. De qualquer forma, a campanha me surpreendeu positivamente. Me pareceu um progresso enorme em relação à campanha sexy de Juliana Paes e Cleo Pires.

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 10:12



Comentário de: Alex Primo Email

Bem lembrado, Carol!

Não sou contra o uso de Photoshop, claro. Mas exageros criam imagens ideais constrangedoras.

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 10:20



Comentário de: Pedro Henrique · http://ubermenschbydebord.wordpress.com/

Como eu tinha dito pra ti esses dias no twitter, o advento do HD veio - até a Oprah falou superficialmente sobre isso esses dias - junto com um tratamento de maquiagem e iluminação diferenciado pra que apresentadores e afins não aparentassem esses 'defeitinhos' que tu falou.


PermalinkPermalink 01.12.09 @ 10:22



Comentário de: Lidia · http://twitter.com/lidiazuin

Muito bom o post, apesar de eu achar que se extendeu demais em informações já bem difundidas.
De qualquer forma, eu adoro o assunto do pós-humano e a ciborguização e concordo que, enfim, os aparelhos metálicos, as cirurgias plásticas e as sessões a laser são um método para nos tornarmos ciborgues... só que ao mesmo tempo acho isso engraçado, no sentido de curioso... às vezes até acho que são eufemismos.
Imaginava-se que o homem se tornaria ciborgue com pernas e braços mecânicos substituídos voluntariamente, pela vontade de aprimoração, não é? Ou então chips, implantes neurais etc. Mas quanto aos membros mecânicos só vemos acontecer por conta de amputações e afins. Implantes neurais ainda estão em desenvolvimento, não? Bom, podem até estar prontos, mas não são "populares". Não nos tornamos o humano de silício, mas um humano biotecnológico.
Seria bom se pudéssemos saber quando essas práticas realmente serão difundidas (se é que vão), se vão se tornar comuns... Mesmo a tatuagem (que pra alguns autores é considerada uma forma de ciborguização) ainda sofre restrição. É que a impressão que eu fico de ciborgue, este que você passa no texto, é só um 'ciborgue' da moda e da estética, não da cognição. Parece que existe, no máximo, só uma legião de cyberperv (pervertidos por tecnologia) que querem, sei lá, pôr um relógio debaixo da pele e não baixar programas de kungfu no cérebro :)

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 10:30



Comentário de: Emidia Felipe

O pior é que mesmo os programas que trazem matérias sobre os males da bulimia e da anorexia; sobre a relatividade da beleza; e sobre métodos de a mulher "comum" ficar mais bonita; mesmo esses exaltam a magreza exagerada em seus concursos. Entre eles Fantástico (Globo) e Hoje em Dia (Record). Hipocrisia pura. Acredito que o ideal da beleza inatingível, além desse fortalecimento dos mitos que sustentam a imagem das empresas de comunicação, alimenta toda uma indústria anunciante. Logo, jogar contra eles seria um tiro no pé. O que eles não percebem é que a saúde unida à beleza também pode ser vendida e que um pouco de identificação das mulheres comuns com atrizes e modelos poderia ser muito bom.

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 10:44



Comentário de: Alex Primo Email

Pois é, saúde parece estar desvinculada de beleza.

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 10:48



Comentário de: 1 · http://gustavo

lembrei daquela brincadeira da xuxa de encher uma calça frouxa de bechigas.. será que esse cara ainda tem algum lugar onde possa tomar uma injeção??? implante de silicone explode??

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 11:08



Comentário de: Gustavo Schonarth

...borrar a alta definição, ou é photoshop quadro a quadro mesmo.
Não duvido.

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 11:21



Comentário de: Cardoso (o verdadeiro, não o ranzinza) · http://www.qualquer.org

Pelo que andei me informando (nos próprios comentários do vídeo) o que esse cara usou foi um ÓLEO INTRAVENOSO chamado SYNTHOL. Procura isso no Google Images e te prepara pra MORRER MUITO.

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 11:35




eu acho lindo uma velhice saudável uma mulher, homem com sorrisão cheio de rugas e quero muito envelhecer sabendo explorar a beleza que cada fase do homem possui.

a qualidade de vida, antes oriunda da saúde agora provém da estética, é a auto-estima, o status e a vaidade que estão no topo da pirâmide selvagem em que vivemos.

A questão social de sentir-se integralmente padronizado nos afasta de nossas verdadeiras necessidades fisiológicas, a base pra tudo.

Sou jovem, tento na medida do possivel sobreviver com coisas mais naturais possíveis mas fico mto triste de ver outros jovens inseguros consigs mesmos e tornando se vítimas de farmácias, cirurgiões e outros métodos que não nos ajudam de verdade, porque ao invés de nos amarmos mais, aceitarmos como somos, caímos em depressão caso não nos tornemos comum como a mídia mostra.

é um mercado, é capital, portanto não há uma fiscalização como deveria de tanta propaganda enganosa, tanta gente q morre na mesa de cirurgia e também ingerindo produtos....


PermalinkPermalink 01.12.09 @ 12:57



Comentário de: rfelipe · http://newnomadology.blogspot.com/

Eis nos nossos tempos a pergunta crucial, a que não se cala.

Um corpo, como funciona?

Mais do que um debate acerca das funções, uma investigação em meio a funcionamentos.

E um corpo funciona, pode apostar, mesmo que avariado, mesmo que conectado/atravessado por um sem número de gadgets... embora ainda não saibamos bem o que pode um corpo (pergunta espinosista).

Há os perigos do exagero, da imprudência, de se colocar o corpo a mercê de encontros que lhe são fortes demais. O insuportável.

Há padrões corporais e ao mesmo tempo, novas configurações de corpo a partir do que se pode fazer por meio destas parafernálias cibernéticas... Somos mesmo um pouco ciborgues, uns mais outros menos, tal como nos sugere Donna Haraway.

N'outros tempos, outros padrões corporais, isso não é nenhuma novidade... agora, hoje há um sem número de intervenções inusitadas, surpreendentes, a fletar com o impossível do passado.

Mais um post p/ lá de urgente! Abçz.



PermalinkPermalink 01.12.09 @ 14:08



Comentário de: Alex Primo Email

Cardoso, isso é que preocupa: é muito fácil buscar dicas de bombas na internet e em academias.

Vi um documentário no GNT, se não me engano, onde aparecia um americano que injetava doses cavalares dessas bombas em seus músculos. Não apenas seu biceps era muito grande, mas seu triceps era desproporcionalmente gigantesco. Algo MUITO grotesco. No vídeo esse cara, que fora preso por vender essas substâncias, gabava-se de um VHS onde ele havia quebrado a agulha de uma seringa enquanto tentava injetar o anabolizante. Talvez isso seja um sinal de "força".

Quanto ao rapaz do vídeo, suponho que ele tenha injetado diretamente no músculo, já que o crescimento é muito desproporcional. Bem, mas não sei como isso funciona. Nem quero...hehehehe

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 14:16



Comentário de: ieke

ai que saco.. num tem um assunto menos comum? É serio.

A abordagem é a mesma que eu geralmente leio nos temas de redacao de vestibular

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 23:13



Comentário de: TF · http://www.iq.usp.br

Lamentável ver como a estética se tornou uma substituta da ética em nossa sociedade, e como a ciência vem sendo mal-usada, em sua forma tecnológica, para o conforto de nossas impotências. Mas comentando o caso do rapaz que provávelmente usou "Synton"(um tipo de óleo usado para causar hipertrofia muscular, ou seja, ele abre espaços dentro do músculo, onde não deveria ter), que é um caso assustador que nos faz pensar não só até onde a vontade de se chamar a atenção com a aparência ultrapassa a preocupação com a saúde, mas até qual foi a intenção do rapaz, sendo que é pouco provável que alguma mulher , que podemos considerar "consciente" vai se atrair com sua forma corpórea deformada.

PermalinkPermalink 02.12.09 @ 11:31




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PermalinkPermalink 31.12.11 @ 14:43



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PermalinkPermalink 14.01.12 @ 07:13



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