2009
"Eu quero ter um milhão de amigos". Quando Roberto Carlos entoava esses versos jamais imaginaria que esse seria um objetivo de muitos interagentes das futuras redes sociais online. Mas cabe perguntar: o que é um amigo, o que é a amizade? A pergunta pode parecer óbvia, mas não encontra consenso na história da filosofia e da sociologia. Na verdade, o entendimento do que é um amigo varia muito de época para época. Será que hoje, em tempos de internet e da circulação dos discursos sobre capital social, amigos (e sua quantidade) passam a ser avaliados em termos utilitários e estratégicos?
Hoje falamos muito de laços fracos e fortes. Boa parte nem sabe de quem é o canônico texto sobre a força dos laços fracos, mas repete sempre que o mais importante é ter uma boa rede de laços fracos. Estes sim seriam mais vantajosos. Podem nos garantir novas oportunidades de trabalho e lucros mercadológicos. Ser um hub passa a ser um imperativo. Fazer networking (estranho esse verbo to network!) torna-se uma necessidade para quem busca o "sucesso". Intimista e por demais compromissado para nossos tempos, o laço forte parece ser algo do passado. Como nos diz o brilhante sociólogo Bauman, o que importa hoje é a conexão, não o relacionamento. Pois quem conecta também pode desconectar a qualquer momento.
Além disso, parece que os debates sobre capital social, conceito que se vulgariza, resumem-se agora à sua interpretação mais econômica. Nesse sentido, o acúmulo de "amigos" em sites de redes sociais na internet torna-se uma etapa necessária para alcançar-se vantagens. Em outras palavras, a amizade passa a ser vista fundamentalemnte de forma utilitária.
Na verdade, o debate sobre amizade e utilidade não é novo. Desde a antiguidade o tema está em pauta. Entre os gregos, a philia é pensada como um relacionamento masculino idealizado, em termos de virtude e justiça. Para Aristóteles, as amizades baseadas no prazer e no interesse não seriam verdadeiras: "amigos que se amam com fundamento na utilidade não se amam por si mesmos".
Já Epicuro vai afirmar que "Toda amizade é por ela própria desejável; entretanto, ela tem seu começo na utilidade". Por causa dessa defesa, a perspectiva "utilitarista" do epicurismo vai ser muito criticada por outros tantos filósofos que o seguiram, como Sêneca e Cícero. Foucault, por sua vez, vai lembrar que é de Epicuro também a seguinte frase: “Nem é amigo quem busca sempre a utilidade, nem quem nunca a associa à amizade; pois o primeiro faz, com o benefício o tráfico do que se dá em troca, o outro rompe com a boa esperança para o futuro”. Foucault passa a defender a proposta epicurista como uma forma de cuidado de si, que tem repercussões no grupo como um excedente voltado para o futuro.
Montaigne, que vai recuperar uma perspectiva idealista de amizade, lembra de uma frase que teria sido muito repetida por Aristóteles: "Ó amigos, não existem amigos". Montaigne mira as amizades circunstanciais que giram em torno de algum tipo de vantagem. Mais tarde, Nietzsche transmuta a célebre frase colocando a réplica na boca de um tolo: "Ó inimigos, não existem inimigos".
Para Nietzsche as amizades não giram apenas em torno da verdade, como pretendiam os gregos. Amigo é aquele que também cala em benefício da manutenção da amizade. Para ele, amigos e inimigos encontram-se articulados. A amizade não se encontra na estreita igualdade. Conforme conclui Derrida, a amizade em Nietzsche depende da diferença, da desproporção, da dissimetria.
Na pós-modernidade, as relações sociais vem se transformando radicalmente. Não apenas a família passa a conviver menos no lar, mas a própria amizade e as relações amorosas se transmutam. Mesmo no trabalho os relacionamentos tem dificuldade de se fortalecer, em virtude principalmente do sistema de tercerização e serviços de curto prazo. Como nos lembra Putnam, a participação em associações civis e religiosas vem perdendo continuamente a intervenção afetiva de seus membros. Os associados atisfazem-se com o simples assinar de um cheque de anuidade. Até a prática esportiva vem se individualizando: a musculação, a esteira doméstica.
Com a chegada das mídias sociais, ganhamos novas formas de manter nossos amizades atuais e conhecermos pessoas que tem interesses semelhantes aos nossos. Podemos seguir centenas ou milhares de pessoas através do TweetDeck. A tecnologia nos permite conduzir essa multiplicação de interações, o que seria antes impossível. Por outro lado, como Stefana Broadbent neste vídeo, a maior parte das pessoas na verdade mantém conversações íntimas apenas com um punhado de amigos e/ou familiares.
Mas o que quero aqui problematizar é: a discussão sobre capital social e a vulgarização das estratégias em mídias sociais está instrumentalizando a percepção da amizade? Retorna com força a visão utilitarista do que é um amigo? O conceito de capital social está se fundamentando na metáfora econômica, num toma-lá-dá-cá interesseiro? O que importa sobretudo é como fazer amigos e influenciar pessoas?
Este é aapenas um panorada da pesquisa que venho agora conduzido. Seus primeiros resultados teóricos foram apresentados no último simpósio da ABCiber. Assim que tiver o texto final pronto vou disponibilizar ele por aqui. Enquanto isso, gostaria de ouvir seus comentários sobre o tema.
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PS: As montagens com filósofos que estudam a amizade foram feitas por Laura Andrade.




