Quanto vale um amigo em redes sociais na internet?

25Nov
2009

"Eu quero ter um milhão de amigos". Quando Roberto Carlos entoava esses versos jamais imaginaria que esse seria um objetivo de muitos interagentes das futuras redes sociais online. Mas cabe perguntar: o que é um amigo, o que é a amizade? A pergunta pode parecer óbvia, mas não encontra consenso na história da filosofia e da sociologia. Na verdade, o entendimento do que é um amigo varia muito de época para época. Será que hoje, em tempos de internet e da circulação dos discursos sobre capital social, amigos (e sua quantidade) passam a ser avaliados em termos utilitários e estratégicos?

Hoje falamos muito de laços fracos e fortes. Boa parte nem sabe de quem é o canônico texto sobre a força dos laços fracos, mas repete sempre que o mais importante é ter uma boa rede de laços fracos. Estes sim seriam mais vantajosos. Podem nos garantir novas oportunidades de trabalho e lucros mercadológicos. Ser um hub passa a ser um imperativo. Fazer networking (estranho esse verbo to network!) torna-se uma necessidade para quem busca o "sucesso". Intimista e por demais compromissado para nossos tempos, o laço forte parece ser algo do passado. Como nos diz o brilhante sociólogo Bauman, o que importa hoje é a conexão, não o relacionamento. Pois quem conecta também pode desconectar a qualquer momento.

Além disso, parece que os debates sobre capital social, conceito que se vulgariza, resumem-se agora à sua interpretação mais econômica. Nesse sentido, o acúmulo de "amigos" em sites de redes sociais na internet torna-se uma etapa necessária para alcançar-se vantagens. Em outras palavras, a amizade passa a ser vista fundamentalemnte de forma utilitária.

Na verdade, o debate sobre amizade e utilidade não é novo. Desde a antiguidade o tema está em pauta. Entre os gregos, a philia é pensada como um relacionamento masculino idealizado, em termos de virtude e justiça. Para Aristóteles, as amizades baseadas no prazer e no interesse não seriam verdadeiras: "amigos que se amam com fundamento na utilidade não se amam por si mesmos".

Foucault, Epicuro e SênecaJá Epicuro vai afirmar que "Toda amizade é por ela própria desejável; entretanto, ela tem seu começo na utilidade". Por causa dessa defesa, a perspectiva "utilitarista" do epicurismo vai ser muito criticada por outros tantos filósofos que o seguiram, como Sêneca e Cícero. Foucault, por sua vez, vai lembrar que é de Epicuro também a seguinte frase: “Nem é amigo quem busca sempre a utilidade, nem quem nunca a associa à amizade; pois o primeiro faz, com o benefício o tráfico do que se dá em troca, o outro rompe com a boa esperança para o futuro”. Foucault passa a defender a proposta epicurista como uma forma de cuidado de si, que tem repercussões no grupo como um excedente voltado para o futuro.

Montaigne, que vai recuperar uma perspectiva idealista de amizade, lembra de uma frase que teria sido muito repetida por Aristóteles: "Ó amigos, não existem amigos". Montaigne mira as amizades circunstanciais que giram em torno de algum tipo de vantagem. Mais tarde, Nietzsche transmuta a célebre frase colocando a réplica na boca de um tolo: "Ó inimigos, não existem inimigos". Para Nietzsche as amizades não giram apenas em torno da verdade, como pretendiam os gregos. Amigo é aquele que também cala em benefício da manutenção da amizade. Para ele, amigos e inimigos encontram-se articulados. A amizade não se encontra na estreita igualdade. Conforme conclui Derrida, a amizade em Nietzsche depende da diferença, da desproporção, da dissimetria.

Na pós-modernidade, as relações sociais vem se transformando radicalmente. Não apenas a família passa a conviver menos no lar, mas a própria amizade e as relações amorosas se transmutam. Mesmo no trabalho os relacionamentos tem dificuldade de se fortalecer, em virtude principalmente do sistema de tercerização e serviços de curto prazo. Como nos lembra Putnam, a participação em associações civis e religiosas vem perdendo continuamente a intervenção afetiva de seus membros. Os associados atisfazem-se com o simples assinar de um cheque de anuidade. Até a prática esportiva vem se individualizando: a musculação, a esteira doméstica.

Com a chegada das mídias sociais, ganhamos novas formas de manter nossos amizades atuais e conhecermos pessoas que tem interesses semelhantes aos nossos. Podemos seguir centenas ou milhares de pessoas através do TweetDeck. A tecnologia nos permite conduzir essa multiplicação de interações, o que seria antes impossível. Por outro lado, como Stefana Broadbent neste vídeo, a maior parte das pessoas na verdade mantém conversações íntimas apenas com um punhado de amigos e/ou familiares.

Mas o que quero aqui problematizar é: a discussão sobre capital social e a vulgarização das estratégias em mídias sociais está instrumentalizando a percepção da amizade? Retorna com força a visão utilitarista do que é um amigo? O conceito de capital social está se fundamentando na metáfora econômica, num toma-lá-dá-cá interesseiro? O que importa sobretudo é como fazer amigos e influenciar pessoas?

Este é aapenas um panorada da pesquisa que venho agora conduzido. Seus primeiros resultados teóricos foram apresentados no último simpósio da ABCiber. Assim que tiver o texto final pronto vou disponibilizar ele por aqui. Enquanto isso, gostaria de ouvir seus comentários sobre o tema.

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PS: As montagens com filósofos que estudam a amizade foram feitas por Laura Andrade.



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Comentários:


Comentário de: Arnalado Queiroz RIbeiro Filho · http://midiasocialbrasil.blogspot.com

Acho que conexões realmente são importantes hoje em dia, mas o que vale e a qualidadade das conexões , não adianta ter 1 milhão de amigos se não interagir, e existe uma grande diferança entre amigos virtuais , e amigos reais, Amigos reais você sabe que pode confiar , vai pedir alguma coisa para algum amigo on line, vão achar que é golpe e o pior e que que muitas vezes isso é verdade.

PermalinkPermalink 25.11.09 @ 10:25



Comentário de: Piero Paglarin

Concordo com o texto. Hoje, o conceito de "amizade" tem um sentido totalmente diferente de anos atrás.

PermalinkPermalink 25.11.09 @ 10:26



Comentário de: Thiago Ventura · http://www.twitter.com/thiagocventura

Acho que as mídias não vão conseguir mudar o sentido da amizade. Um dos meus melhores amigos eu conheci em um jogo de MMORPG (Massive Multiplayer Online RPG), e fazem muitos anos que nos conhecemos. Já nos conhecemos pessoalmente, e mesmo distante a nossa amizade é maior do que muitas "reais". Eu a considero tão real quanto outra amizade qualquer. Os contatos são chamados de "amigos" pelas redes sociais, por uma questão de organização de interface. É claro que você tem amigos de verdade, e têm aqueles que estão ali por estar, por ser conhecido ou da família. A forma que as empresas tentam se infiltrar em nossas redes sociais com fins corporativos não fazem com que os amigos sejam desvalorizados ou igualados. A visão utilitarista existe em todo relacionamento. A humanidade age dessa forma para se manter viva. Eu estou vivendo essa nova era de informação, e me formei em cima dela. Tenho computador desde os 11 anos, e hoje com 19 vivo essa digitalização de e emoções trazida pelas novas tecnologias. Estudo comunicação social para tentar entender um pouco desses fenômenos. Com a minha experiência digital, digo que a percepção de amizade somente como utilidade está um pouco longe de se concretizar. Muita gente ainda busca amizade sem nenhum fim estratégico e/ou utilitário.

PermalinkPermalink 25.11.09 @ 11:09



Comentário de: Vinni Biazzus · http://www.marvinote.blogspot.com

Temática perfeita, Professor!

As mídias sociais banalizaram a amizade e distorceram o seu objetivo inicial (se é que esse objetivo existiu algum dia!). Hoje as pessoas entram nessa busca frenética por novos amigos e seguidores unicamente pelo volume, mesmo que não falem com 10% deles.

Meu medo é que isso tome maiores proporções e a barreira entre os relacionamentos reais e os virtuais se torne cada vez maior. Sei lá, é legal eu saber se um amigo que está na China visitou a muralha e fez umas fotos por lá, mas aqui no meu "território de atuação" eu vou marcar (pelo wave, msn, facebook, tanto faz) uma conversa no Café mais próximo, pessoalmente.

Os laços fortes são importantes e, filosofando um pouco, o mundo até precisa mais disso. Há uma sutil diferença entre usar as pessoas e se relacionar com elas (mesmo que seja uma relação rigorosamente profissional). Re-humanizar os seres virtuais talvez seja um passo importante.

Será possível?

PermalinkPermalink 25.11.09 @ 11:12



Comentário de: Suzana · http://suzanacohen.wordpress.com

Ótimo texto, Alex. A maior questão aí é a designação de "amigo". E a diferenciação entre um amigo, um conhecido e um contato. Um contato profissional pode evoluir para um grau de amizade, mas são conceitos diferentes. O que não necessariamente quer dizer que todo amigo seja laço forte, ou que todo conhecido seja laço fraco. O oposto pode acontecer.

Inclusive, essa discussão me faz lembrar aquela questão do número dunbar - que "aumenta" com as redes sociais digitais. Li uma vez um artigo bem interessante que aborda essa questão - e outras também como a questão do "ambient awareness" - que diz que estamos historicamente voltando a um mundo mais normal, já que o conceito de pular de galho em galho nas amizades seria uma "modernidade" do século XX. E que com as redes sociais poderemos manter o contato com as pessoas ao longo "vida". Recomendo a leitura: The Brave new World of Digital Intimacy http://www.nytimes.com/2008/09/07/magazine/07awareness-t.html?_r=4&pagewanted=1

O que por sua vez me fez lembrar de um post que escrevi sobre "foreverism": http://suzanacohen.wordpress.com/2009/06/22/foreverism-a-nova-onda/

Abs!

PermalinkPermalink 25.11.09 @ 12:35



Comentário de: Francisco Costa · http://docarmocosta.wordpress.com

Brilhante conexão, digo, colocação... Acredito que estar conectado, informado, antenado as novas tendências são ossos do ofício dos dias atuais, além de que estar na mídia, em evidência, é bom, alimenta o ego. "Retuitar" algo interessante, visitar blogs e conhecer milhares de pessoas que compactuem nossas ideias e ideais é um ponto. Elas tornarem-se nossas amigas é outro, equidistante e meramente ilustrativo. Agora, amigo... Ah! Ser amigo é ir além. Por mais que tentemos a humanização das máquinas, por mais que interajamos virtualmente, nada substitui o “tête-à-tête”, o sorriso franco, o abraço, o famoso “ombro amigo”.
Tenho um grande amigo, meu irmãozinho, the best one, chegando agora no início de dezembro do Canadá para umas férias por aqui... Nenhum PC é capaz de substituir isso, pode crer...
abs

PermalinkPermalink 25.11.09 @ 14:09



Comentário de: Laura · http://www.twitter.com/lauandrade

Eles eram mesmo amigos! Eu não sabia! Tem até foto pra provar! ;D

PermalinkPermalink 25.11.09 @ 14:25



Comentário de: OCAPPUCCINO.COM · http://www.ocappuccino.com

Deixo link que pode interessar aos leitores do post. Matéria do nós da comunicação: Manuel Castells faz panorama da sociedade em rede em novo livro.
http://www.nosdacomunicacao.com/panorama_interna.asp?panorama=277&tipo=R

MATEUS

PermalinkPermalink 25.11.09 @ 22:34



Comentário de: Rodrigo dMart · http://www.imaginaconteudo.wordpress.com

Redes sociais são facilitadoras de interação, auxiliam nos contatos e, muitas vezes, na (re)ligação entre amigos no plano virtual e na vida real (se é que há distinção entre virtual e real hoje em dia... talvez num plano você seja deletado e noutro você sangre).

Pra mim, as redes sociais auxiliam para que você mostre o que anda fazendo, assim como você se atualiza sobre as atividades dos seus conhecidos (ou desconhecidos). E pronto.

Sempre me intrigou aquela ferramenta do Orkut para dar grau de intimidade às amizedes: "Melhor Amigo", "Amigo", "Conhecido" e assim por diante. Até comecei a fazer essa separação mas depois desisti. Qual era o sentido daquilo? Afinal, quem o adicionou, em algum momento, irá escutar o que você faz e diz que faz e vice-versa. Há termômetro para amizade?

Redes sociais ajudam a baratear a conta telefônica. Imagine se você tiver que ligar para familiares, amigos e conhecidos de todas as épocas de sua vida a cada nova realização ou idéia que teve. Uma mensagem e pronto. Todo mundo sabe que você ainda está vivo.

PermalinkPermalink 26.11.09 @ 12:14



Comentário de: Marcela

Muito boa a questão... Uma coisa é fato: as formas de nos relacionarmos muda, sim, com o tempo e com as modificações da sociedade. O que precisamos é entender realmente como se dão essas mudanças, o que realmente elas afetam (a natureza do sentimento, o "grau" desse relacionamento ?????) e quais as "consequências" (não necessariamente negativas...) disso. Acho que já demos um passo importante nessa longa caminhada: a percepção do "problema". Além disso, sabemos que essas novas tecnologias são mais do que apenas "facilitadores" para interação. Porque se fossem apenas isso (um facilitador pra interação), então não teríamos muitas mudanças. Mas a questão é que essas tecnologias, além de facilitarem a interação, também modificam a forma como o homem interage fora do ambiente virtual. Isso é que, ao meu ver, deve ser pensado com mais propriedade agora. Esta é a questão principal: se há mudanças no "grau", se há "graus" distintos, e qual é a natureza dessa mudança. Eu arrisco um palpite: acredito que mudou, sim, a natureza da interação (real, e não apenas virtual, senão seria afirmar o óbvio!!!). Acredito que estamos diante de uma nova forma de interação, muito mais interligada e dinâmica.

PermalinkPermalink 26.11.09 @ 16:54



Comentário de: cláudia caldeira

Eu concordo com a idéia de utilizar as redes sociais para baratear a conta tlefônica.
Como tenho pouco tempo não gostaria de utilizá-lo para formar novas "amizades" com pessoas que eu não conheço, mas para quem tem bastante tempo disponível eu acho a idéia interessente.
Gostei muito do texto. Parabéns.

PermalinkPermalink 26.11.09 @ 16:59



Comentário de: rfelipe · http://newnomadology.blogspot.com/

Os fins justificam os meios? E os meios justificam os fins?

Meios como espaços-tempo pertinentes aos encontros, ao modelamento de velocidades que aproximam e distanciam, aos agenciamentos... fins podem ser finais e finalidades. Aquilo que termina em uma amizade, aquilo que por meio dela se determina, aquilo que dela se objetiva (interesses), aquilo que se transforma.

As amizades se definem e se definham pelo meio, onde ganham/perdem velocidades, rápidas e lentas, pensando velocidade entre Spinoza e Virilio.

Gosto também de trabalhar com a idéia de intercessores, conforme deleuze. Os interecessores operam "entre", podem ser pessoas, frases, idéias, avatares, twittadas... vai saber.

"Que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu." - Voltaire

Abraços,

Rogério

PermalinkPermalink 27.11.09 @ 12:23



Comentário de: Alex Primo Email

Caríssimos, agradeço muito as valiosas dicas. Certamente serão incorporadas ao meu artigo.

PermalinkPermalink 01.12.09 @ 10:21



Comentário de: Gabriel Disconzi Barboza · http://tiro-livre.blogspot.com

Primo,

Dá uma olhada no link: http://www.nosdacomunicacao.com/panorama_interna.asp?panorama=198&tipo=E

É uma entrevista com o Rogário da Costa no site Nós da Comunicação. Ele fala justamente sobre como são os laços que as pessoas criam nas redes sociais online.

Um abraço,

PermalinkPermalink 02.12.09 @ 12:11



Comentário de: Tiago Nogueira · http://www.webdialogos.com

Excelente problematização. Ia apresentar algo bastante semelhante no intercom desse ano, mas mudei de tema. Gostaria muito de ler o resultado da pesquisa (=

PermalinkPermalink 20.07.10 @ 10:49



Comentário de: W. Gabriel de Oliveira · http://wgabriel.net

De que amizade estamos falando? Amizade como sentimento humano ou amizade como produto, que requer praça, promoção e até preço? Uma vez que tais "amizades" se tornaram métricas comerciais, seus sujeitos passaram de homens a produtos, assim como o exemplo de alguns políticos que deixam de buscar a confiança do povo para se focar em número de votos. Minha opinião (ainda sem base científica, ainda) é que a amizade não acabou nem se modificou: seu nome foi apenas apropriado por uma ação que tem lá seu quê de afeição.

PermalinkPermalink 20.07.10 @ 16:35



Comentário de: Fernanda Fogaça

Olá
JA varias de suas publicações e livros.
Estou desenvolvendo meu TCC sobre redes sociais e web 2.0
mas não encontro muita coisa sobre quem criou ,e quando surgiram as primeiras redes sociais no mundo.
Então se vc tiver algum material ou poder mi indicar algum agradeço.
Suas publicações ja mi ajudaram muito..

Att.fernanda fogaça

PermalinkPermalink 23.08.10 @ 17:05




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PermalinkPermalink 31.12.11 @ 15:06



Comentário de: visor deflector · http://www.auto-deflectors.com

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PermalinkPermalink 13.01.12 @ 01:01



Comentário de: Ford Focus 3 2011 visor · http://auto-deflectors.com/product_info.php/products_id/305

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