2009
Quando vou a um museu e vejo a arte e os artefatos de outras eras fico muito intrigado ao ver esses produtos de pessoas que viveram muitos séculos e milênios atrás. Como teriam vivenciado os problemas de sua época? E como deve ter sido experimentar as lentas revoluções de outrora?
Pois neste domingo me tornei um quarentão. Esse tipo de perguntas sempre ganha força em quem chega ao meio da vida (bem, planejo viver mais que isso!). A grande diferença é que os quarenta anos de hoje são muito diferentes daqueles de nossos antepassados. Um homem de quarenta anos era um senhor, o patricarca de uma já numerosa família. O quarentão de hoje ainda se sente jovem e vislumbra a sua frente um futuro a ser vivido intensamente. Apesar do disparar da tecnologia e das imposições do tempo real, a ampliação da expectativa de vida fez distender a percepção de nossa duração. Curioso isso. Se por um lado nosso cotidiano é hoje uma frenética corrida — saltando de uma rua congestionada para outra, de um computador para um laptop/smartphone —, por outro lado estamos tentando frear o avanço da idade. A medicina contemporânea, a ginástica, a moda “jovenzinha” dos quarentões e as cirurgias plásticas ajudam a anestesiar a percepção da idade.
Confesso, estava louco para fazer 40. Agora que cheguei lá, o que fazer?!! Este primeiro dia de quarta década de minha curta existência tem sido bom. A vida tem me tratado bem. Nunca quebrei um osso, nunca tive uma grave doença, sempre tive familiares e amigos para me dar suporte para a alma. Educação e tecnologias de comunicação nunca me faltaram. Ou seja, não posso reclamar de nada, só agradecer. E muito.
Antes que isso vire um texto piegas (típico de um senhor que ainda quer se sentir um pré-adolescente), melhor falar um pouco de cibercultura, afinal de contas este não é um blog pessoal auto-reflexivo!
É um privilégio chegar aos 40 em plena cibercultura. Viver as revoluções informáticas e das tecnologias móveis em sua invenção e popularização. Aos meus futuros netos (será que os terei?!!) poderei dizer que vivi o apogeu da mídia de massa. Assisti Vila Sésamo, Zé Colméia, novelas da Globo e muitas vinhetas diferentes do Fantástico. Acompanhei a criação da MTV e estudei mais tarde como sua linguagem visual transformou a expressão audiovisual. Quando tudo parecia definitivo (e perdido!), eis que usei computadores Apple ][, XT, a versão 6 do sistema operacional do Macintosh, Windows 3.11, aprendi Cobol e achei que a Web nunca pegaria em virtude da maior capacidade e velocidade dos CD-Roms. Joguei muito telejogo, Atari e Odissey. Carreguei pesados Tijorolas na cinta, comprei baterias de tarjas verde e branca e comprei um moderno aparelho de Fax doméstico.
Hoje tenho um Playstation 3, a tão esperada HDTV, um computador na mochila e outro no bolso (um iPhone, qua ainda acho revolucionário). A cabeça que um dia sentiu-se perdida pela “crise das utopias e falta de referenciais”, hoje está cheia de expectativas. Sou testemunha visual, sensorial e cognitiva desta revolução. Vejo lançamentos todos os dias e o sepultamento de padrões e artefatos nos dias seguintes. Nada é sólido, tudo flui nesta modernidade líquida. Onde vamos parar? Hoje isso não importa. É meu primeiro dia após os 40. Não quero estragar a festa neste momento pensando no aquecimento global ou no crescimento das formas de vigilância e controle.
Quero festejar com você a marcação deste momento rápido no cronômetro. Aproveito para agradecer todos os scraps, tweets e SMS que recebi. Estes quarenta não poderiam ser lembrados de forma melhor, já que os comemoro em plena cibercultura. Uma boa história para contar para os netos de alguém. A história poderá parecer mofada e sem graça para algumas crianças do futuro, ou simplesmente curiosa para os filhos do vizinho. Mas será minha história. A história de meu/nosso tempo.




