Existe, de fato, o vício de internet?

15Set
2009

Quando a Rádio Gaúcha me convidou para participar do tradicional programa Polêmica em uma mesa redonda sobre vício de internet fiquei na dúvida: estariam eles me convidando como professor/pesquisador de cibercultura ou como dependente?! Deveria eu refletir sobre a possibilidade de tal adicção ou dar um depoimento pessoal emocionado?!

O programa baseava-se em uma matéria publicada no jornal Zero Hora intitulada "Clínica nos EUA trata vício em internet". Mas, antes de mais nada, é preciso perguntar se de fato existe uma dependência por interação mediada por computador. O tema é controverso e nos Estados Unidos há um debate se esse "vício" deveria constar do Diagnostic and Statistical Manual for Mental Disorders (DSM). Caso isso se confirme, o sistema de saúde e as empresas de seguros deveriam ajustar-se à cobertura desse novo distúrbio.

Como práticas excessivas de consumo online e jogos de azar na internet se diferenciam desses mesmos comportamentos compulsivos offline? As causas e tratamentos não poderiam ser os mesmos? É verdade que a internet pode potencializar muitas de nossas ações. Como lembra o sociólogo Manuel Castells, pessoas gregárias poderão fazer um número maior de amizades na rede; outros, que tendem ao isolamento, encontrarão na internet novas formas de distanciamento. Mas seria a internet uma droga digital com alto poder de addicção? A abstinência da rede pode causar graves crises de ansiedade?

Muitas vezes quando estamos conectados perdemos a noção do tempo como também sentimos uma gratificação instantânea pelas respostas recebidas do sistema (como em um game online). Outro fator importante é a sensação de imersão no virtual, que pode gerar uma agradável sensação de escapismo. Ou seja, não podemos pensar que a tecnologia é neutra, que a compulsão e obsessão online sejam exatamente o mesmo que offline. Por outro lado, tampouco podemos pensar que é a internet que causa a addicção, se é que ela existe. Depressão e ansiedade, por exemplo, podem ser causas anteriores que promovem o uso abusivo da rede.

Pelo que li neste excelente artigo, publicado no periódico científico CyberPsychology and Behavior, não existem evidências sólidas que possam confirmar a emergência desse novo distúrbio mental. Os autores afirmam que os trabalhos que sustentam a hipótese tem problemas metodológicos sérios (desde a seleção dos sujeitos avaliados) e não conseguem apresentar uma definição específica que distinga essa forma de addicção de outras compulsões conhecidas.

Mesmo assim, além da clínica citada na matéria no jornal Zero Hora, você facilmente encontra na web outros centros de tratamento de vício em Internet. O Center for Internet Addiction Recovery inclusive traz um teste online para você avaliar se é um dependente digital. Que bom que esse teste é aplicado na própria internet!

Se um dia for comprovado que o vício em internet é um fato, uma coisa é certa: seu tratamento não pode ser comparado ao de dependentes químicos. Para estes é preciso evitar o consumo das substâncias a qualquer preço. Por outro lado, no mundo em que hoje vivemos evitar a internet pode ser impossível. O possível tratamento pode ser pensado como aquele ministrado para quem come compulsivamente (já que não se pode deixar de comer!), onde o comportamento moderado deve ser trabalhado.

Além de mim e do coordenador do Instituto de Informática da Unisinos, Cristiano Costa (do podcast Hora do Mac), participaram do programa os psiquiatras Daniel Zprietzer (que estuda a dependência de jogos de azar online) e Rogério Cardoso. Ao final do debate eu e o Cristiano pegamos os cartões dos psiquiatras. Quem sabe eles nos ajudam!

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E os videogames? Eles viciam ou podem contribuir para o desenvolvimento cognitivo? Vale a pena ler "Surpreendente! A televisão e o videogame nos tornam mais inteligentes", de Steven Johnson.



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Comentários:


Comentário de: Massimino Delazeri · http://www.ocappuccino.com

credito que os “ciberviciado” não são pessoal que se viciaram em internet, são pessoas doentes (propência a vícios) se não existi-se a internet os indivíduos que se tornaram viciados nela com certeza estariam procurando outra coisa para colocar no lugar.

a internet e só um meio de comunicação, o “ciberviciado” ,se existir, é uma pessoa doente que encontrou na internet uma maneira de suprir alguma falta

mas na duvida eu fiz o teste e pelo resultado eu estou ”limpo”

Massimino Delazeri
www.ocappuccino.com

PermalinkPermalink 15.09.09 @ 11:05



Comentário de: Tuca · http://www.tucaamerico.blogspot.com

UFA ! 40 pontos no teste... Não precisarei me internar em alguma clínica da moda... Navego com moderação...

PermalinkPermalink 15.09.09 @ 15:17



Comentário de: Ocappuccino.com · http://www.ocappuccino.com

considero um caso de estudo de um participante do debate que twitta durante o debate se perguntando se por 'estar num programa que debate o vício e estar utilizando a ferramenta seria um possível dependente' ahahahhahha

mateus

PermalinkPermalink 16.09.09 @ 01:38



Comentário de: Paulinho Saturnino Figueiredo · http://rindodenervosoainda.blogspot.com/

Essencial, nessas questões, é encurralar o maniqueísmo, quebrar as preguiçosas relações de causa e efeito impostas pelo vício de mais falar do que pensar. Questionamentos como os seus serão sempre mais produtivos que o medo.

PermalinkPermalink 16.09.09 @ 14:10



Comentário de: Alex Primo Email

É divertido mesmo a gente se sentir aliviado de passar no teste online. Assustador é a gente conceber que pode ser diagnosticado como um dependente de internet!

Daniel, obrigado pela leitura de meu livro. Conte comigo para quaisquer dúvidas.

Paulinho, essa é a idéia: refletir sobre as potencialidades e riscos da cibercultura.

Em tempo, o Ocappuccino estava falando sobre uma frase que twittei enquanto estava no programa de rádio!

PermalinkPermalink 16.09.09 @ 16:15



Comentário de: Gabriela Galvão · http://mgabrielagalvao.blogspot.com

Pierre Lévi diz q a vida virtual caminha paralelamente à 'palpável'.

Uma ñ exclui a outra; se vc for um pouco esperto e competente, antes o contrário: uma enriquece a outra!

Bisous

PermalinkPermalink 17.09.09 @ 22:14



Comentário de: Gislaine

Ola professor passo sempre aqui, hj quero elogiar este teu post que me faz pensar, ja vai virar aula. Escreva mais sobre os riscos da cibercultura na comunicação.
E um tema legal, se eu não estou mal informada aqui poucos tratam do assunto.
Abraços.

PermalinkPermalink 20.09.09 @ 21:40



Comentário de: Carlos Nepomuceno · http://www.nepo.com.br

Primo, acredito que há sim, hoje, uma doença que é a compulsão informacional, postei sobre isso:

http://nepo.com.br/2009/09/30/compulsao-informacional/

Se difícil diagnóstico, mas importante para ser trabalhada.

Valeu,

Nepô.

PermalinkPermalink 13.10.09 @ 12:27



Comentário de: cely

Sim é um vício. E como todo vício, é destrutivo. Conheço casos de crianças que roubam seus própios pais pra sustentar o vício. Muitas crianças preferem ficar com fome na escola e gastar o dinheiro da merenda em Lan houses, outras mentem para os pais fingindo que vão para a escola e fogem para acessar a net ou até mesmo negligenciam os deveres escolares em prol desse vício. Ha também o isolamento social e os problemas familiares desencadeados pelo excesso de exposição a internet. A mudança de comportamento também fica evidente, pois a criança fica irritadiça e as vezes até violenta quando se é vetado o acesso a net.

PermalinkPermalink 24.03.10 @ 21:33



Comentário de: Washington

O que existe é muita desinformação nas pessoas. Muitas não estão acostumadas com a internet, tanto que usam inadequadamente o termo "virtual", quando sabemos que pelo contrário, a internet é real, é forma de se comunicar, de interagir com outras pessoas, que também são reais.

Quando noticiam gente "viciada em internet", na verdade observamos que são viciadas em jogos, não na rede de computadores em si.
São indivíduos com propensão à dependência, por um conjunto de fatores. Provavelmente por falta do que fazer, monotonia, trabalho mal remunerado, inclusive.

Esses psicólogos precisam mesmo é de uma reciclagem pra poder diagnosticar os possíveis "dependentes".

PermalinkPermalink 21.01.11 @ 11:30




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