2009
As celebridades estão por todos os lados: nas bancas, nas telas de TV e cinema... no imaginário. Pode-se dizer que elas são as figuras mitológicas de nosso tempo, no timing fugaz da pós-modernidade.
No trabalho que apresentei sábado no congresso da Intercom 2009 dei continuidade à pesquisa que venho realizando sobre celebridades e mídias sociais. No paper anterior, busquei mostrar que a celebridade não é simplesmente uma pessoa com raros talentos. Muitas delas, na verdade, nem talentos tem! Elas são, isso sim, uma mercadoria rentável da indústria cultural. Para além do indivíduo que oferece a face e o corpo para esse produto midiático, a celebridade é um composto mercadológico formado por inúmeros profissionais, como publicitários, agentes, maquiadores, contadores, etc.
Como fênomeno típico da mídia de massa, confesso que comecei a estranhar quando os próprios leitores e blogueiros passaram a se referir a celebridades da blogosfera. Foi a partir dessa contradição que escrevi o trabalho "Existem Celebridades da e na Blogosfera? Reputação e renome em blogs". Conclui que Inagaki e Cardoso, por exemplo, não são celebridades, mas sim blogueiros de renome, segundo a proposta conceitual de Rojek. Já atores e apresentadores de TV que abrem seus próprios blogs, ainda que escritos por equipes, seriam celebridades na blogosfera (o que é diferente de celebridades da blogosfera!).
Neste segundo trabalho, "A busca por fama na web: reputação e narcisismo na grande mídia, em blogs e no Twitter", busco estudar como a cultura do narcisismo atualiza-se com os serviços da Web 2.0. Além de analisar o caso @twittess, amplio a diferenciação entre a simples fama e o estatuto celebridade. Se no primeiro trabalho eu discutia o conceito de celetóide (fama instantânea e fugidia), desta vez eu estudo o conceito de vfama (a fama conferida a pessoas de pouco ou nenhum talento).

Para provocar, termino este post reproduzindo um trecho do trabalho onde questiono porque tantas pessoas buscam celebrizar blogueiros e twitteiros se na Web 2.0 poderíamos nos livrar das imposições das indústrias culturais.
...é possível detectar um desejo de blogueiros e twitteiros em desenvolver seu próprio “star system”. Diante de tal constatação, é preciso questionar-se sobre o que justifica a busca por estrelas em blogs e no Twitter, se estas seriam esferas onde se poderia estar livre da manipulação massiva. A idolatria em contextos de micromídia digital não seria a própria derrota das utopias que anunciavam que blogs, por exemplo, nos libertariam da tirania das estratégias mercadológicas da grandes instituições massivas? Seriam esses novos ídolos necessários para legitimar as mídias sociais? Não estaríamos mimetizando aqui o que lá criticávamos? O que pode justificar esse possível encaminhamento?
Algumas hipóteses. Depois de décadas sendo “educados” pela mídia, não fomos ensinados que devemos seguir certas personalidades? Talvez essa seja uma das razões pela busca por quem idolatrar na blogosfera e no Twitter. O encontro e desenvolvimento de ídolos na micromídia digital podem servir como a “cola” que junta as conversações dispersas pela Web 2.0? É como se essas pessoas de renome fossem nos livrar de nossa orfandade na blogosfera. Desgarrados do alento afetivo das grandes celebridades, procuramos agora quem nos reúna sob o calor de suas asas? Desorientados na Web descentralizada, queremos agora desenvolver altares que possam nos reunir em seu entorno para idolatrarmos juntos nossos próprios ídolos? Será que essas hipóteses fazem sentido? Espero que não. Mas temo que tais frases não sejam percebidas em breve como simples exageros.




