Fama e narcisismo na blogosfera e no Twitter

08Set
2009

As celebridades estão por todos os lados: nas bancas, nas telas de TV e cinema... no imaginário. Pode-se dizer que elas são as figuras mitológicas de nosso tempo, no timing fugaz da pós-modernidade.

No trabalho que apresentei sábado no congresso da Intercom 2009 dei continuidade à pesquisa que venho realizando sobre celebridades e mídias sociais. No paper anterior, busquei mostrar que a celebridade não é simplesmente uma pessoa com raros talentos. Muitas delas, na verdade, nem talentos tem! Elas são, isso sim, uma mercadoria rentável da indústria cultural. Para além do indivíduo que oferece a face e o corpo para esse produto midiático, a celebridade é um composto mercadológico formado por inúmeros profissionais, como publicitários, agentes, maquiadores, contadores, etc.

Como fênomeno típico da mídia de massa, confesso que comecei a estranhar quando os próprios leitores e blogueiros passaram a se referir a celebridades da blogosfera. Foi a partir dessa contradição que escrevi o trabalho "Existem Celebridades da e na Blogosfera? Reputação e renome em blogs". Conclui que Inagaki e Cardoso, por exemplo, não são celebridades, mas sim blogueiros de renome, segundo a proposta conceitual de Rojek. Já atores e apresentadores de TV que abrem seus próprios blogs, ainda que escritos por equipes, seriam celebridades na blogosfera (o que é diferente de celebridades da blogosfera!).

Neste segundo trabalho, "A busca por fama na web: reputação e narcisismo na grande mídia, em blogs e no Twitter", busco estudar como a cultura do narcisismo atualiza-se com os serviços da Web 2.0. Além de analisar o caso @twittess, amplio a diferenciação entre a simples fama e o estatuto celebridade. Se no primeiro trabalho eu discutia o conceito de celetóide (fama instantânea e fugidia), desta vez eu estudo o conceito de vfama (a fama conferida a pessoas de pouco ou nenhum talento).

Para provocar, termino este post reproduzindo um trecho do trabalho onde questiono porque tantas pessoas buscam celebrizar blogueiros e twitteiros se na Web 2.0 poderíamos nos livrar das imposições das indústrias culturais.

...é possível detectar um desejo de blogueiros e twitteiros em desenvolver seu próprio “star system”. Diante de tal constatação, é preciso questionar-se sobre o que justifica a busca por estrelas em blogs e no Twitter, se estas seriam esferas onde se poderia estar livre da manipulação massiva. A idolatria em contextos de micromídia digital não seria a própria derrota das utopias que anunciavam que blogs, por exemplo, nos libertariam da tirania das estratégias mercadológicas da grandes instituições massivas? Seriam esses novos ídolos necessários para legitimar as mídias sociais? Não estaríamos mimetizando aqui o que lá criticávamos? O que pode justificar esse possível encaminhamento?


Algumas hipóteses. Depois de décadas sendo “educados” pela mídia, não fomos ensinados que devemos seguir certas personalidades? Talvez essa seja uma das razões pela busca por quem idolatrar na blogosfera e no Twitter. O encontro e desenvolvimento de ídolos na micromídia digital podem servir como a “cola” que junta as conversações dispersas pela Web 2.0? É como se essas pessoas de renome fossem nos livrar de nossa orfandade na blogosfera. Desgarrados do alento afetivo das grandes celebridades, procuramos agora quem nos reúna sob o calor de suas asas? Desorientados na Web descentralizada, queremos agora desenvolver altares que possam nos reunir em seu entorno para idolatrarmos juntos nossos próprios ídolos? Será que essas hipóteses fazem sentido? Espero que não. Mas temo que tais frases não sejam percebidas em breve como simples exageros.


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Hugo Cruz · http://www.offblog.com.br

FATO: O twitter não é uma rede social para se fazer 'amiguinhos', adicioná-los e marca-los em suas fotinhas.

Eu acho que é por esse motivo que a @twittess é mal vista e meio que 'odiada' por 'pseudos' blogueiros famosos (não preciso nem citar nomes e muito menos o motivo),

Tá mas tem muita gente usando scripts para obter o mesmo sucesso da @twittess e porque eles não conseguem?

O simples fato de ser uma mulher gata, e ao mesmo tempo não ser fake, ajuda muito.

Eu particularmente não tenho nada contra ela, o legal mesmo é ver esses blogueiros gordos, feios, velhos e sem personalidade alguma, com raiva e inveja da menina.

PermalinkPermalink 08.09.09 @ 11:35



Comentário de: Eric Coutinho · http://www.efeitoscolaterais.blog.br

Excelente texto! Eu, mesmo sendo chato e crítico com qualquer texto, não tenho nenhum adendo. Alto nível.

PermalinkPermalink 08.09.09 @ 11:40



Comentário de: Daniela Hinerasky · http://blogretalhos.wordpress.com

oi Alex,
esta é uma das discussão da minha tese, já que os autores/editores dos blogs de street-style do mundo todo passaram de difusores de imagens/imaginários de moda de rua, a protagonistas do mundo da moda e até editores da área. etc etc etc.
Mas sobre a tua discussão, lembrei de um livro que li há um bom tempo, e que sempre uso: "A nova cultura do desejo", de Melinda Davis (foi publicado aqui em 2003) que talvez traga pistas.

Ela explica que neste momento de proliferação de escolhas, ansiamos seriamente por um poder "sobre-humano" para nos mostrar o caminho, fazer escolhas por nós - neste caso, o que ela chama de YODAS, que seria como um "corretor de conhecimentos", que, inclusive, traria a paz de espírito Exs: Steve Jobs, Gates, Oprah, Paulo Coelho etc.

Trazendo pras redes sociais, as webcelebrities seriam os que nos ajudariam a organizar as informações também, não é mesmo?

Abração,
Daniela Hinerasky



Mestre Yoda = vai reger o futuro
Quem é ele?
Entidades - pessoas ou empresas que souberem dar as repostas!!!

PermalinkPermalink 08.09.09 @ 11:45



Comentário de: Thiago Petra · http://www.rjpontoevirgula.blogspot.com

Você foi perfeito em suas colocações

PermalinkPermalink 08.09.09 @ 14:00



Comentário de: Gabriel Dread · http://irradiandoluz.blogspot.com

Perfeitas considerações a respeito da blogosfera, da tuitosfera e da egosfera...

AXÉ
Gabi Dread

PermalinkPermalink 08.09.09 @ 20:14



Comentário de: Ocappuccino.com · http://www.ocappuccino.com

Penso que, invertendo um pouco o cenário - o objetivo de cada celebridade NA blogosfera é ser reconhecido como celebredidade DA (ou fora da) blogosfera. Estou engando?

Mateus d'Ocappuccino.com

PermalinkPermalink 08.09.09 @ 21:47



Comentário de: Alex Primo Email

Daniela, super obrigado pela sugestão do livro. Ainda não li, vou comprá-lo.

Mateus, concordo que muitos blogueiros de renome sonham sim em ser celebridades massivas.

PermalinkPermalink 09.09.09 @ 11:26



Comentário de: Aline Derenzi

Texto muito bom.
e eu concordo com o Mateus em partes. Creio que muitos queiram ser reconhecidos pelos seus feitos na web, mas tbm tem aquela porcentagem que simplismente quer compartilhar conhecimento, falar o que pensa e ter um espaço só seu. Uma maneira de se individualizar no meio de tantas pessoas iguais e por consequência viram celebridades da blogosfera.

PermalinkPermalink 11.09.09 @ 10:57



Comentário de: Turrar Blog · http://turrar.blogspot.com

É impressionante como essa cultura de celebridades está nas pessoas. E por estar nelas é que acompanham as novas mídias e acabam por transformar o que poderia ser um espaço novo (e, claro, inovador) num espaço cheio daquilo que às vezes procuramos fugir,,, muito legal o blog!

Eu tb escrevi a um tempo atrás um post sobre o assunto...

Abraços
Turrar

PermalinkPermalink 13.09.09 @ 13:25



Comentário de: André Luiz Santana · http://www.twitter.com/andreluizbahia

Alex, parabéns pelo texto.

Indo na contramão dos argumentos, o que dizer de celebridades consagradas, como a Xuxa, que na twittosfera foi uma catástrofe?

Muitas vezes o contato direto e constante, coloca certas mídias como uma espécie de Big Brother, ou seja, esse contato constante e informal no twitter o coloca mais na sua pessoa do que no seu personagem, com o passar do tempo. é como se houvesse uma exposição tão constante e cotidiana que se esquece que as "câmeras" estão ligadas.

"Astelavista"

PermalinkPermalink 16.09.09 @ 21:24



Comentário de: Leandro Cianconi · http://cianconi.com/leandro

Sem me aprofundar tenho uma forte sensação de que sua hipótese, embora autêntica, está equivocada.

Não é a mídia que cria celebridades, esta atua como um intermediário e claramente como um impulsor, mas a natureza biológica humana é liderar e ser liderado. São posturas nativas do convívio em grupo.

O maior benefício das mídias participativas não deveria ser contrapor esta necessidade humana, mas sim resolver os problemas políticos e sociais relacionados à autoridade imposta.

Creio que este tipo de estudo não nos levará a lugar nenhum, o que seria um despedício para alguém com sua capacidade metodológica.

PermalinkPermalink 08.10.09 @ 10:33



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