Políticos brasileiros sonham em ser Obama no Twitter, mas não passam de um Mercadante

25Ago
2009

Política e Twitter. Eis um assunto que vem ganhando cada vez mais interesse. O Twitter ganhou credibilidade como importante meio político na última eleição americana. Com suficiente antecedência, a campanha de Obama soube construir a imagem do candidato através de mídias sociais. Essa interação na rede mostrou um candidato diferente, que se aproxima dos eleitores e sabe ouvi-los. Além disso, "humanizou" o político, normalmente estampado estaticamente em santinhos e cartazes. Se a televisão e o rádio exibem um político distante, protegido pela distância da comunicação de massa, o Twitter oferece a sensação de intimidade.

Enquanto isso, no Brasil o Twitter aparece na política apenas como paródia. Conscientes do poder midiático e interativo dos novos meios digitais, nossos políticos começam a divulgar seus perfis em serviços da Web 2.0. Mas, não sabem eles, as mídias sociais não fazem milagres eleitorais. São de fato um potente canal de interação, não apenas uma vitrine reluzente. Veja-se por exemplo as trapalhadas do senador Mercadante (sim, aquele que já apoiou Renan Calheiros). Sua equipe está ciente de que blogs e Twitter pautam a mídia de massa e de que as mensagens com 140 caracteres podem ter grandes efeitos. Por outro lado, esqueceram que a ferramenta não é suficiente. De que adianta uma mensagem forte e de impacto instantâneo se o responsável pelo perfil é inseguro e a todo momento trai os seus princípios?

No Twitter tudo é rápido. Um pseudo-protesto do senador, que avisava que iria deixar a liderança do PT no senado em caráter "irrevogável" (risos, muitos risos!), transformou-se pouco tempo depois em um atestado de óbito. Discursando para um plenário vazio (bem, isso não é novidade no senado), o senador vacilão atestava em viva voz que aquilo que se lera em seu Twitter era uma mentira virtual de um covarde real. Pobre política nacional, pobre Twitter. Pobre eleitor brasileiro.

Gostamos muito de elogiar o uso do Twitter pelo Obama. Mais ainda de mostrar a importância desse meio nos protestos do Irã. Por outro lado, muitos criticam o uso da tag #forasarney. É como se lá fora o Twitter realmente movimenta o debate público, enquanto no Brasil ele não passa de uma ignição para modas passageiras. Sim, Sarney não vai arredar o pé. Ele está "blindado" (palavra asquerosa que virou bordão na imprensa). Mesmo assim, continuo crendo que tanto a tag #FORASARNEY (sim, as maiúsculas é para indicar que estou GRITANDO) quanto os debates em blogs tem um impacto no espaço de debates. Certamente alguns estamparam a tag pouco sabendo quem é o senador bigodudo e os colegas que o apóiam. Mesmo assim, o tema estava circulando, provocando reflexões.

A insistência das mensagens na blogosfera e na Twittosfera pedindo a necessária saída de Sarney nunca teria sozinha a força de afastá-lo do cargo. Mesmo assim, o debate no ciberespaço é mais uma força, não a única, nem a mais forte. Quero crer que esses movimentos no mínimo despertam a curiosidade de jovens eleitores. Mais do que isso, ajudem a fortalecer a crescente insatisfação de nosso povo com seus representantes políticos. Essas mudanças são lentas. Mesmo assim, olhando para trás podemos ver o quanto nossa política já evoluiu. Pode parecer que estamos indo ladeira abaixo, em direção àquele imenso lamaçal. Mas hoje podemos expressar livremente nossas opiniões, sem sermos exilados, perseguidos ou torturados. E podemos testemunhar em tempo real como os políticos que elegemos roubam nossos bolsos e saqueiam nossa dignidade. Quem sabe essa total visibilidade e tanto debate nos conduzam a escolhas melhores no futuro.

Enfim, blogs e Twitter não são nossa salvação na política, nem a estratégia eleitoral certeira. Os debates que lá ocorrem tampouco são mudos, sem real impacto. São, na verdade, mais um elemento do debate político.

Por que não comprei um Sony Reader

20Ago
2009

Quando saí de férias, tinha certeza que voltaria com um Sony Reader na bagagem. Depois de ler e escrever sobre o aquecimento do mercado dos dispositivos para leitura de e-books, estava convencido que um desses aparatos se encaixaria muito bem em minha rotina de pesquisador. Mas, voltei de viagem sem ter comprado tal gadget. Veja abaixo as razões que fizeram eu me decepcionar com o Sony Reader.

Estou constantemente comprando novos livros para minhas pesquisas. Como a leitura deles não se dá por simples prazer, preciso marcar trechos e anotar comentários nas margens. Cheguei até a desenvolver alguns códigos para hierarquizar as partes que sublinho com um marcador de textos! Depois, essas notas e frases destacadas farão parte de um arquivo no Word onde coleto todas as citações que usarei em meus artigos.

O Sony Reader seria excelente para ler e armazenar esse volume de livros. Em vez de amontoá-los todos em minha bagunçada mesa de trabalho e de ter de carregar esse peso para baixo e para cima, eu poderia levar comigo apenas o fino aparelhinho da Sony. Estava disposto a pagar seu preço em Libras ou Euros. Mas acabei desistindo quando o conheci de perto.

A primeira fez que encontrei o aparelho em uma pequena loja em Londres não foi marcada por aquele deslumbre de testar uma nova maravilha do mundo tecnológico. De fato, o Sony Reader é elegante. Sua capa protetora o aproxima da estética de um pequeno livro, já que precisamos abri-la para ler os textos. O metal da carcaça do aparelho é sóbrio e não tem o charme do Kindle ou dos produtos da Apple. Confesso que para mim essa parte estética é fundamental! Após muitos anos usando produtos da Apple, não vejo graça em comprar uma nova tecnologia se o seu design é sem graça. Não, isso não é frescura, pois faz parte da experiência total com o produto.

A tela do Sony Reader tem alta legibilidade. A tecnologia do e-paper é muito superior a qualquer monitor de notebook. Mas, já que a tela não tem iluminação traseira, como nos LCDs, ela não pode ser lida em condições de pouca luminosidade. A Sony vende um acessório que ilumina a tela por cima, mas achei o dispositivo esquisito.

A atualização da interface é lenta. A mudança de página leva um tempinho para acontecer. Não tenho certeza se isso é causado pelo chip ou pelas características do e-paper. De toda forma, parece uma eternidade para quem está acostumado com a instantaneidade das interfaces de programas e sites!

Os botões do Sony Reader são pequenos e finos. Por causa disso, achei o toque dos controles pouco confortáveis. Os botões laterais agilizam as opções, já que não é preciso mover um cursor para cima ou para baixo. Mesmo assim, a tela sensível ao toque na nova versão do Sony Reader vai certamente facilitar o processo.

Além de ter achado o Sony Reader um concorrente sem graça do Kindle (infelizmente ele não é vendido na Europa), a principal razão para não comprar o aparelho foi sua incapacidade de marcar trechos e tomar notas. Para minhas necessidades de pesquisa essa deficiência é inadmissível. No Kindle é possível não apenas fazer essas marcações como também sincronizá-las com o próprio site da Amazon, de onde se pode fazer o download dessas notas e trechos.

Fiquei achando que o modelo do Sony Reader que avaliei é ótimo para quem lê muitos livros de literatura. Ele é leve, oferece ótima legibilidade e tem uma interface fácil de ser usada (ainda que não me pareça inovadora). Mas, para quem quer usar o aparelho para pesquisa ele não é útil, já que seria preciso estar sempre acompanhado de um caderno ou notebook para tomar notas e copiar trechos manualmente.

Mas nem tudo está perdido! A Sony anunciou que está lançando um novo modelo com touchscreen, recurso que nem o Kindle oferece, no qual será possível marcar trechos do livro. Isso sim é o que eu preciso!

Outra falha do Reader é não ter uma interface do aparelho com o Macintosh. Mas o pior é dispor de um número muito inferior de livros. Nessa área a Amazon leva enorme vantagem. Apesar do aparelho da Sony aceitar uma maior quantidade de formatos de arquivos, o volume de e-books oferecido pela Amazon para o Kindle (incluindo livros científicos) é várias vezes maior.

Apesar de não ter ficado fascinado com o Reader, assim como fiquei quando vi um iPod pela primeira vez, ainda não desisti de comprar um leitor de e-books. Vou precisar esperar, infelizmente. E vou ficar na torcida para que Amazon libere a compra de livros para o Kindle para outros países.