2009
Certamente o fim da obrigatoriedade do diploma, decidido ontem no STF por 8 votos a 1, não porá fim ao jornalismo no Brasil. Neste debate precisamos separar duas discussões que não são exatamente a mesma coisa. As reflexões sobre o jornalismo e sobre o status da profissão de jornalista demandam argumentações em separado. Apesar da clara inter-relação entre as reflexões é capcioso afirmar que a não exigência de diploma acabará com a qualidade do jornalismo como um todo.
Ainda que se goste muito de elogiar o jornalismo americano e francês, prefere-se esquecer que lá o diploma em jornalismo não é pré-requisito para o exercício da profissão. Sobre essa condição, que se repete em dezenas de outros país, vale a pena ler este estudo realizado pelo professor Afonso Albuquerque.
Vamos ser sinceros, no Brasil o debate tornou-se por demais corporativista. Apesar da falaciosa campanha da Fenaj de que o fim da obrigatoriedade do diploma seria uma ameaça à democracia, a sociedade terá muito a ganhar com tal liberdade. Além de repetir o risco democrático que a liberdade de expressão pode acarretar (pasmem!), O presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), Sérgio Murillo Andrade, ainda lançou ontem esta pérola: "Foi um milagre o Supremo não nos proibir de exercer o jornalismo no Brasil" (veja íntegra da matéria da Folha de São Paulo). Sinceramente, os argumentos falaciosos de Andrade e da Fenaj acabam colocando em dúvida a seriedade de toda uma categoria. Ou os filiados concordam com a retórica distorcida de seu presidente?
Precisamos reconhecer que os salários de jornalistas nunca foram muito bons. E o volume de vagas cada vez se mostra mais insuficiente. Tal cenário inspira a reação à entrada em cena de profissionais com diplomas em outras áreas (ou até mesmo sem diploma!). Mas, como um defensor da liberdade de expressão, sou otimista. Apesar de potenciais deslizes nos primeiros tempos, acredito que o jornalismo no Brasil irá melhorar.
Dizer que o webjornalismo participativo, que blogs e que o fim da exigência do diploma representa a morte do jornalismo é assumir que o mesmo é muito frágil, o que não é verdade. O que morre é uma concepção antiga de jornalismo. Infelizmente, trata-se de uma área cheia de preconceitos. Diplomados preferem virar a cara para ex-colegas que trabalham em assessorias de imprensa: "Ora, isso não é jornalismo", dizem. É preciso abandonar visões essencialistas que querem fazer crer que só existe um tipo de jornalismo: o hard news da Folha de São Paulo!
Tampouco acredito que a decisão do STF acabe com as faculdades de jornalismo. Apesar de jornalistas odiarem ser comparados com publicitários (preferem se comparar com médicos, advogados e engenheiros), esta categoria nunca precisou mostrar diploma em qualquer agência. Mesmo assim, tais empresas vem sistematicamente empregando apenas diplomados. Sou convicto, portanto, que uma boa formação pode garantir um bom exercício da profissão. Logo, apesar dos rumores distribuídos pela Fenaj, acredito que a formação universitária em jornalismo melhorará com este baque (ela precisa melhorar!) e que fará diferença nas entrevistas de emprego. Espero também que os alunos de jornalismo ampliem seu interesse pelo estudo amplo e continuado.
Nos últimos anos ouvi em congressos a defesa de que o jornalismo deveria ser uma ciência autônoma e que profissionais e pesquisadores de outras áreas não deveriam estudar ou opiniar sobre jornalismo por falta de preparo. Torço que a decisão do STF realmente levante a poeira e mostre o que embolorava por baixo. Torço para que o debate nacional sobre jornalismo (e não simplesmente sobre jornalistas) se amplie. Espero não estar enganado, mas suspeito que o jornalismo começou ontem a ser reinventado. E que bom quando uma área se movimenta e se atualiza!




