2009
Para encurtar a história, acho que a equipe de relações públicas e jornalistas da Petrobras merecem todos os prêmios da área. Não apenas pela nova forma de interação com seus diferentes públicos, mas pelo debate nacional que promoveram com o lançamento do blog Fatos e Dados e do Twitter @blogpetrobras.
Faz tempo que discutimos a importância de blogs organizacionais, apesar das instituições terem dificuldades de reconhecer para o que eles servem. Logo, creio que o blog da Petrobras apareceu tardiamente. Mesmo assim, conseguiu despertar uma grande reflexão sobre jornalismo, relações públicas e liberdade de expressão.

Decidida a publicar a íntrega das entrevistas que concede, a empresa angariou ataques dos principais jornais e jornalistas do país. Declaradamente movidos por um lógica de mercado, onde o furo é fundamental para vencer a concorrência, os diretores de redação prontamente acusaram a Petrobras de falta de ética. Vejam algumas desses ataques (via Blog do Noblat e Observatório da Imprensa):
Atropelar a apuração jornalística é uma forma de censura, muito criativa, sem dúvida, mas censura.
Euripedes Alcântara (diretor de Redação da revista Veja)Publicar as perguntas dos jornalistas antes de o material ser publicado nos respectivos veículos é mais do que um ato de deselegância. Cheira um pouco a intimidação, incompatível com uma empresa que afirma não temer as investigações.
Sergio Lirio (redator-chefe da CartaCapital)O que podem estar querendo, atropelando a ética dessa forma, é tumultuar e impedir a reportagem, para supostamente provar que, no jornalismo, tudo é opinião. É um erro, um abuso e um disparate – que merece o repúdio de todo.
Luiz Antonio Novaes (editor-executivo de O Globo)A Folha de S.Paulo considera que o teor do blog "Fatos e Dados" está na esfera de autonomia empresarial da Petrobras. Não considera adequado, porém, que questionamentos jornalísticos endereçados à empresa sejam tornados públicos por meio daquele blog antes que as respostas possam ser avaliadas e utilizadas pelos veículos que enviaram as interpelações.
Otavio Frias Filho (diretor de redação da Folha de S. Paulo)Após a publicação da reportagem, a Petrobras e qualquer outra empresa, se assim considerar necessário, podem tornar pública a íntegra das respostas. Não há mal nenhum nisso: jornalista algum se oporá a íntegras. Antes da publicação, porém, íntegras serão sempre uma atitude de desrespeito, não a veículos específicos, mas à imprensa, uma instituição que, numa democracia, deve ser sempre prestigiada.
Ali Kamel (diretor-executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo)Criar um antagonismo entre o sigilo da apuração e a transparência é falso. E pode, em último caso, jogar a opinião pública contra a imprensa, o que não é produtivo nem para a sociedade como um todo nem para a democracia.
Ricardo Gandour (diretor de conteúdo do Grupo Estado de S. Paulo)
A Petrobras recuou e decidiu publicar suas respostas às entrevistas apenas à zero hora do dia da publicação da matéria. A negociação foi realizada, e agora? Do que poderão reclamar os jornais? A Petrobras tem todo o direito de divulgar suas respostas. Caso um veículo tema o que pode ocorrer com a divulgação da íntegra da entrevista, que se recuse a buscar a Petrobras como fonte. Simples assim. Enquanto isso, na mesma lógica de mercado, os jornais concorrentes vão aproveitar o flanco e divulgar suas entrevistas com a empresa.
Acuados, alguns jornalistas preferem ainda chamar a Petrobras de anti-ética e anti-democrática. Ora, divulgar suas opiniões e respostas em seu próprio blog é contra a democracia? Quer dizer que uma fonte perde a liberdade de divulgar seus próprios posicionamentos? Vale também lembrar que as informações que uma assessoria de imprensa ou um relações públicas divulgam não é sinônimo de "vazamento", como rotulam o Globo e a Folha de São Paulo. Trata-se, isso sim, da divulgação do posicionamento oficial e autorizado da empresa.
E vejam que curioso. Apesar da pergunta capciosa desta enquete com Folha de São Paulo, o público votante mostra preferir a transparência total ao filtro "oficial" da imprensa:

É absolutamente legítimo que a Petrobras, como qualquer empresa, queira se resguardar de interpretações de suas manifestações. Ao publicar as entrevistas em seu blog, a instituição não exerce qualquer censura à imprensa. Nem teria como, vamos ser sinceros. E não há nada mais democrático que o jogo de forças e a livre circulação de informações.
Convenhamos, não há santo nesta história de CPI da Petrobras. É um fato político interessante para a oposição e perigoso para o governo. Para nós, reles mortais, cabe a busca por informações para montarmos nosso próprio parecer. Sendo assim, o blog é mais um dado para nossas considerações (a favor ou contra). Quer participar deste jogo? Fácil: escreve em seu blog, comente no blog dos outros, twitte.
Não suponho que o leitor comum vá deixar de ler notícias da Petrobras em jornais para consultar apenas seu blog oficial. Por outro lado, entendo que os leitores interessados nas diferentes denúncias que a empresa recebe buscarão dados onde quer que eles estejam.
Sim, os blogs contribuem para a liberdade de expressão. É preciso que aprendamos a lidar com isso. Os jornalistas já não mantém a primazia da coleta, filtragem e publicação de informações. Porém, isso não enfraquece o jornalismo...apenas os maus jornalistas e empresas noticiosas presas a um passado que não volta mais.
Creio que todos estas ameaças à "instituição" jornalismo ainda o fará mais forte e lhe trará mais qualidade, apesar das gralhas saudosistas.




