O que jornalistas e relações públicas podem aprender com o blog organizacional da Petrobras?

15Jun
2009

Para encurtar a história, acho que a equipe de relações públicas e jornalistas da Petrobras merecem todos os prêmios da área. Não apenas pela nova forma de interação com seus diferentes públicos, mas pelo debate nacional que promoveram com o lançamento do blog Fatos e Dados e do Twitter @blogpetrobras.

Faz tempo que discutimos a importância de blogs organizacionais, apesar das instituições terem dificuldades de reconhecer para o que eles servem. Logo, creio que o blog da Petrobras apareceu tardiamente. Mesmo assim, conseguiu despertar uma grande reflexão sobre jornalismo, relações públicas e liberdade de expressão.

Decidida a publicar a íntrega das entrevistas que concede, a empresa angariou ataques dos principais jornais e jornalistas do país. Declaradamente movidos por um lógica de mercado, onde o furo é fundamental para vencer a concorrência, os diretores de redação prontamente acusaram a Petrobras de falta de ética. Vejam algumas desses ataques (via Blog do Noblat e Observatório da Imprensa):

Atropelar a apuração jornalística é uma forma de censura, muito criativa, sem dúvida, mas censura.
Euripedes Alcântara (diretor de Redação da revista Veja)

Publicar as perguntas dos jornalistas antes de o material ser publicado nos respectivos veículos é mais do que um ato de deselegância. Cheira um pouco a intimidação, incompatível com uma empresa que afirma não temer as investigações.
Sergio Lirio (redator-chefe da CartaCapital)

O que podem estar querendo, atropelando a ética dessa forma, é tumultuar e impedir a reportagem, para supostamente provar que, no jornalismo, tudo é opinião. É um erro, um abuso e um disparate – que merece o repúdio de todo.

Luiz Antonio Novaes (editor-executivo de O Globo)

A Folha de S.Paulo considera que o teor do blog "Fatos e Dados" está na esfera de autonomia empresarial da Petrobras. Não considera adequado, porém, que questionamentos jornalísticos endereçados à empresa sejam tornados públicos por meio daquele blog antes que as respostas possam ser avaliadas e utilizadas pelos veículos que enviaram as interpelações.
Otavio Frias Filho (diretor de redação da Folha de S. Paulo)

Após a publicação da reportagem, a Petrobras e qualquer outra empresa, se assim considerar necessário, podem tornar pública a íntegra das respostas. Não há mal nenhum nisso: jornalista algum se oporá a íntegras. Antes da publicação, porém, íntegras serão sempre uma atitude de desrespeito, não a veículos específicos, mas à imprensa, uma instituição que, numa democracia, deve ser sempre prestigiada.
Ali Kamel (diretor-executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo)

Criar um antagonismo entre o sigilo da apuração e a transparência é falso. E pode, em último caso, jogar a opinião pública contra a imprensa, o que não é produtivo nem para a sociedade como um todo nem para a democracia.
Ricardo Gandour (diretor de conteúdo do Grupo Estado de S. Paulo)

A Petrobras recuou e decidiu publicar suas respostas às entrevistas apenas à zero hora do dia da publicação da matéria. A negociação foi realizada, e agora? Do que poderão reclamar os jornais? A Petrobras tem todo o direito de divulgar suas respostas. Caso um veículo tema o que pode ocorrer com a divulgação da íntegra da entrevista, que se recuse a buscar a Petrobras como fonte. Simples assim. Enquanto isso, na mesma lógica de mercado, os jornais concorrentes vão aproveitar o flanco e divulgar suas entrevistas com a empresa.

Acuados, alguns jornalistas preferem ainda chamar a Petrobras de anti-ética e anti-democrática. Ora, divulgar suas opiniões e respostas em seu próprio blog é contra a democracia? Quer dizer que uma fonte perde a liberdade de divulgar seus próprios posicionamentos? Vale também lembrar que as informações que uma assessoria de imprensa ou um relações públicas divulgam não é sinônimo de "vazamento", como rotulam o Globo e a Folha de São Paulo. Trata-se, isso sim, da divulgação do posicionamento oficial e autorizado da empresa.

E vejam que curioso. Apesar da pergunta capciosa desta enquete com Folha de São Paulo, o público votante mostra preferir a transparência total ao filtro "oficial" da imprensa:

É absolutamente legítimo que a Petrobras, como qualquer empresa, queira se resguardar de interpretações de suas manifestações. Ao publicar as entrevistas em seu blog, a instituição não exerce qualquer censura à imprensa. Nem teria como, vamos ser sinceros. E não há nada mais democrático que o jogo de forças e a livre circulação de informações.

Convenhamos, não há santo nesta história de CPI da Petrobras. É um fato político interessante para a oposição e perigoso para o governo. Para nós, reles mortais, cabe a busca por informações para montarmos nosso próprio parecer. Sendo assim, o blog é mais um dado para nossas considerações (a favor ou contra). Quer participar deste jogo? Fácil: escreve em seu blog, comente no blog dos outros, twitte.

Não suponho que o leitor comum vá deixar de ler notícias da Petrobras em jornais para consultar apenas seu blog oficial. Por outro lado, entendo que os leitores interessados nas diferentes denúncias que a empresa recebe buscarão dados onde quer que eles estejam.

Sim, os blogs contribuem para a liberdade de expressão. É preciso que aprendamos a lidar com isso. Os jornalistas já não mantém a primazia da coleta, filtragem e publicação de informações. Porém, isso não enfraquece o jornalismo...apenas os maus jornalistas e empresas noticiosas presas a um passado que não volta mais.

Creio que todos estas ameaças à "instituição" jornalismo ainda o fará mais forte e lhe trará mais qualidade, apesar das gralhas saudosistas.


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Gabriel Dread · http://irradiandoluz.blogspot.com

Mais uma obra prima do Primo!

Midia de massas, vigiai! O fim está próximo.
Os dinossauros vão ser extintos em breve... será que os ratinhos tomarão o poder?

Os jornais e revistas brasileiros são uma piada mesmo... tem a cara de pau de chamar de censura a veiculação de informações que eles não querem divulgadas! Censores e manipuladores, isso é o que eles são.
O mercado tem esse terrível hábito de distorcer o significado das palavras, conferindo um novo significado mais adequado a seus propósitos... Guerreiro Ramos chama isso de colocação inapropriada de conceitos visando a política cognitiva.
Nunca pensei que veria o dia em que a imprensa deturparia o significado de censura...

Abração
Gabi Dread

PermalinkPermalink 15.06.09 @ 12:48



Comentário de: raphael

o leitor sempre quer a "verdade", a transparência nas relações, conhecer todos os lados envolvidos...

se o atual jornalismo só pensa na lógica do mercado,
se existe um jornalismo ideal e a internet é o melhor caminho para ele, e ainda acho que poucos já sabem disso e não compram mais o jornal-papel, devemos democratizar o acesso da internet com mais força ainda
e conscientizar as pessoas mais próximas a nós.

É um dos caminho possíveis, entre muitos.

Obrigado Alex!,
Raphael

PermalinkPermalink 15.06.09 @ 12:52



Comentário de: Max Delazeri · http://www.ocappuccino.com

Como eu já tinha dito no Ocappuccino.com e na tua aula semana passada: O mais engraçado é que foi a Petrobras que teve que dizer isso pros jornalistas.. algo que todo mundo já deveria saber.

Acho que todo blogueiro brasileiro sentiu um poquinho de alegria com isso... Um sorriso discreto e um pensamento de "viu só!"

abraço

PermalinkPermalink 15.06.09 @ 13:02



Comentário de: Fabiana Andrade

Análise show de bola. É justamente este viés que tentarei propor para uma dissertação de mestrado!

PermalinkPermalink 15.06.09 @ 13:46



Comentário de: alysson lisboa · http://http:\\www.etcedigital.blogspot.com

Parabéns Alex Primo. Apenas uma ressalva. É claro que os blogs estão aí para difundir informação mas devemos olhar sempre o lado da Petrobras. Acredito que a empresa não queira apenas se passar por "transparente" nessa história. Isso pode ser um aviso ao jornais de "grande circulação" para dizer: nós agora podemos atacar vocês também... é um jogo de poder que começa a surgir com a nova mídia!

PermalinkPermalink 15.06.09 @ 14:00



Comentário de: Mo_Hoffelder · http://www.twitter.com/mo_hoffelder

De certa forma, é compreensível todo o furor dos jornalistas em ter sua pauta préviamente publicada antes de ser apurada, se considerarmos a pretenção do "furo" jornalistico, ou da exclusividade. Disto tudo podemos refletir:

De quem é a autoria das perguntas?
Qual é o propósito das perguntas e porque do temor em publicar as respostas antes do tempo?
Qual é o real objetivo da Petrobrás divulgar antes da imprensa sua resposta? Disputa entre Assessor de Imprensa Vs Jornalista?


Algumas pessoas, conforme indicou a pesquisa, apoiam a posição da Petrobrás em divulgar suas respostas antecipada aos veículos de massa, porém, quantas verdades existem? Uma só? Duas, a da imprensa e a da Petrobrás? Três? talvez quatro?

Será a Petrobrás a única fonte legitimamente sincera a respeito dos escândalos que emvolvem a empresa que é patrimônio nacional?

AI (jornalista chapa branca a serviço dos dirigentes da Petrobrás?) Vs Jornalista (exageradamente ofendido a serviço do veículo?)


E quem está interessado na verdade e na prestação de serviço ao povo brasileiro?

PermalinkPermalink 15.06.09 @ 14:04



Comentário de: Mateus · http://www.ocappuccino.com

E ontem caiu a obrigatoriedade do diploma. E viu que o blog foi um dos recursos utilizados em plenário pela advogada do Sertesp (sindicato que queria a extinção da obrigatoriedade), Taís Gasparian? Ela defendeu que a exigência do diploma é inconstitucional, sob o argumento de que a Constituição garante a liberdade de expressão e o livre pensamento. E ainda destacou, citando a proliferação de blogs: Mais do que indesejável, a exigência do diploma para jornalistas é impraticável. Como se proibirá o exercício da disseminação da informação pela internet?.

Hehehehe. E agora estes jornalistas não podem mais falar nada da Petrobras, porque qualquer um pode ser jornalista. heheheh. Brincadeira.

Fiz um post hoje sobre o diploma do jornal e o que me preocupa é o proximo passo. Entra la e le. www.ocappuccino.com

Abraços,
mateus d'Ocappuccino

PermalinkPermalink 18.06.09 @ 11:44



Comentário de: Mariana Mendes · http://midiaeti.blogspot.com

Perfeito!

Todo esse receio dos veículos só gerou maior disconfiança dos seus leitores (ou pelo menos dos mais críticos...).

PermalinkPermalink 18.06.09 @ 17:18



Comentário de: Natália Saavedra (@natysaavedra)

O que eu acho mais estúpido nisso é o fato de que os jornalistas não querem que a Petrobrás publique as respostas antes. Quer dizer, se eles publicassem antes, poderia acontecer de respostas serem "editadas", mudando completamente o sentido inicial da mensagem insitucional. Com esse blog, a mensagem é mais "protegida", ao meu ver, de forma que é publicada exatamente da maneira que a instituição deseja. Isso diminui o poder da mídia de distorcer uma imagem organizacional através de manchetes sensacionalistas baseadas em gotas de verdade e enxertos generosos de mentiras...

PermalinkPermalink 20.08.09 @ 11:06



Comentário de: Alex Primo Email

Oi Natália! A Petrobras passou a publicar suas respostas no dia de publicação das matérias. Mas concordo com tua opinião.

PermalinkPermalink 20.08.09 @ 12:01



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