Blogs X jornais: o debate Steven Johnson X Paul Starr

13Mai
2009

A Folha deste domingo publicou a tradução de um debate travado entre os jornalistas Steven Johnson e Paul Starr sobre internet e jornais. Na maioria dos debates tendemos a escolher com qual parte concordamos. Neste, contudo, é preciso reconhecer a pertinência dos argumentos dos dois lados. O que pretendo neste post é justamente discutir algumas idéias.

Antes de mais nada, é preciso descrever os oponentes em cada canto do ringue. Johnson é co-fundador e editor-chefe da revista online Feed Magazine, mas é mais conhecido entre nós por livros como "Emergência", "Surpreendente! A televisão e o videogame nos tornam mais inteligentes" e "Cultura da Interface". Starr é professor de sociologia da Univesidade de Princeton, ganhou o prêmio Pulitzer de não-ficção e autor de livros como "Freedom's Power", sobre o desenvolvimento do liberalismo.

Na mensagem que abre o debate, Johnson sugere que a mídia seja hoje entendida como um ecossistema. De fato, o atual sistema midático já não pode ser estudado como um regime centralizado por grandes instituições midiáticas. Johnson lembra que os blogs e o YouTube nos ajudam a compreender o jogo político, acompanhar a íntegra de discursos e conhecer longas argumentações sobre tais fatos. Para que se possa compreender o sistema midiático contemporâneo, o autor sugere que se faça como os ecologistas ao estudar uma floresta: é preciso observar as florestas que tiveram mais tempo para se desenvolver. Nesse sentido, é preciso usar o mesmo método para compreender a evolução dos blogs. Inicialmente se focavam em tecnologia. Com o passar do tempo, passaram a cobrir e comentar todos os assuntos que se encontram nos jornais convencionais.

Apesar de Starr reconhecer a importância da internet para a troca de informações e debate público,ele provova:

Mas, você está tomando algumas árvores por uma floresta.
Além disso, a própria metáfora orgânica induz ao engano. As mídias não se desenvolvem naturalmente. Elas se desenvolvem historicamente, e as forças que regem seu desenvolvimento são sobretudo políticas e econômicas.

Starr tem razão ao criticar a metáfora de Johnson. Na verdade, este último tem se notabilizado por empregar diversos exemplos biológicos para fundamentar os argumentos em seus livros. O problema desse tipo de estratégia, que equipara sociedades humanas com o trabalho instintivo de insetos sociais (abelhas, formigas) e a estrutura midiática com ecossistemas e florestas, é que se minimiza ou mesmo se apaga tudo o que é político, histórico e subjetivo nas redes sociais. Deixa-se de lado a inveja, a vingança, o orgulho a vaidade, etc. No que toca os regimes midiáticos, não podemos os analisar como simples evolução darwiniana. Starr tem razão neste ponto. A história e a política não podem ser reduzidas ao biológico.

Por outro lado, Starr vê a internet como uma inimiga do bom jornalismo. Realmente, o conteúdo gratuito disponível na rede ameaça a vida dos jornais impressos. Mas não podemos transformar esse cenário em um duelo onde um lado é o bandido e o outro é o mocinho. Como reconhecem Johnson e Starr, parte da crise de grandes jornais é justificada por má administração. Mesmo assim, este último considera que a internet não pode garantir, como fazem os jornais, jornalismo profissional e responsável e engajamento do público. Além disso, Starr aponta que os internautas desempenham uma leitura perigosamente seletiva. Enquanto em um jornal um fã de esportes acaba passando por páginas de outras editorias (política, economia, etc), na web ele lerá apenas o que lhe interessa: as páginas esportivas. Ou seja, existe mais informação na web, mas isso não quer dizer que as pessoas estejam mais bem informadas sobre o mundo.

Johnson retruca com estilo:

Qual sociedade lhe parece incluir mais participação cívica? Uma em que o noticiário é controlado por uma pequena minoria e onde as interações cívicas das pessoas acontecem como leitura feita a caminho da seção de esportes? Ou uma em que milhares de pessoas comuns participam ativamente na criação do próprio noticiário?

Para ilustrar seu ponto, Johnson cita seu site Outside.in, um agregador de notícias que permite que os interagentes encontrem informações sobre a sua própria vizinhança. Ou seja, oferece uma valorização do "hiperlocal".

Esse é o grande potencial da rede. Como a grande mídia se interessa em difundir tudo aquilo que atrai maior público, ela acaba por se focar no gosto médio (no mínimo denominador comum), nos grandes fatos ou no que é mais bizarro. Já a web, com seu espaço infinito, permite que tudo seja publicado: discursos e debates na íntegra, notícias pontuais que visam pequenos públicos, opiniões radicais, etc. E, mais do que isso, as redes sociais online se encarregam de passar adiante informações que elas julgam relevantes (o que permite interconectar diferentes redes ).

É justamente essa força informacional das redes sociais online e dos agregadors de notícias que assusta Starr. Sobre o Outside.in, ele dispara:

Pelo que pude apreender, ele não faz nenhum trabalho de reportagem próprio. Ele agrega o que aparece em outros lugares. Não parece haver qualquer critério de relevância ou importância. E, se o que aparece em outros lugares é lixo, o site ajuda a difundir esse lixo, porque, por sua própria natureza, um site de notícias automatizado não possui aquilo que tem todo bom editor: um detector de lixo.

Essa crítica mira também outros agregadores, que apenas coletam notícias produzidas e custeadas por outras instituições. Enquanto lucram com propaganda, tais agregadores acabam por prejudicar o sistema jornalístico estabelecido:

Sites como o seu, que tiram notícias, comentários --e lucros-- da web dependem inteiramente de que outros paguem pelo trabalho original de reportagem. Alguns blogueiros podem dar furos jornalísticos ocasionais, mas fazer de conta que eles possuem as capacidades de um grande jornal metropolitano é enganoso.

Ora, não se pode ampliar tal crítica para toda rede. Blogs não são o vilão da história, nem querem acabar com os jornais. Nem tampouco os blogueiros aspiram substituir os profissionais dos jornais. Vamos ser sinceros, nós blogueiros dependemos da grande mídia para nos informarmos e termos sobre o que falar! Por outro lado, nosso papel, creio eu, é de não apenas reproduzir esse conteúdo, mas analisá-lo, criticá-lo. O que a blogosfera tem de melhor é essa capacidade de dar sentidos diferentes ao que se encontra na mídia, dar repercussão contextualizada.

Agora, não posso negar que agregadores de notícias e blogueiros que simplesmente copiam e colam notícias canabalizam os veículos noticiosos. Aos poucos vou ficando convencido que um sistema de micropagamentos ou algum tipo de assinatura barata será adotado pelos sites jornalísticos. Mas tenho sérias dúvidas se isso resolverá o problema.

A discussão continua...


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Fabiana Andrade

Excelente análise... Pelo jeito a ferramenta mais importante para utilizar a internet continua sendo externa a ela: o senso crítico de quem está acessando.

PermalinkPermalink 14.05.09 @ 10:30



Comentário de: Alex Primo Email

Fabiana, gostei da perspicácia de seu comentário! Concordo plenamente!

PermalinkPermalink 14.05.09 @ 12:43



Comentário de: Celso Hora · http://www.twitter.com/cchcreative

Cara, muito bom o seu texto... o seu blog tá no meu favoritos a algum tempo já! :D

Andei lendo ontem mesmo a Veja com a reportagem sobre a decadência dos grandes jornassauros, e ainda complementei a leitura com o Meio e Mensagem... e sabe de uma coisa?
Nem eles que pensam nisso todos os dias já resolveram alguma coisa ou tem noção sobre qual o caminho a seguir....

Só que percebi uma coisa: todos concordam que essa questão do micropagamento é furada...
Eu sei que o buraco é bem mais embaixo, mas acredito que grandes corporações como o BYT por exemplo já andam fazendo muita coisa pra virar esse jogo, visto que o próximo herdeiro do trono é um dos filhos que controla o maior e mais ativo blog do NYT, o http://cityroom.blogs.nytimes.com. Já é um bom sinal, um herdeiro para a cadeira mais prestigiada dentre todos os jornais ser um "blogueiro"...

Abraços!

PermalinkPermalink 14.05.09 @ 14:41



Comentário de: Alex Primo Email

É, essa história ainda vai dar muito pano para manga! O importante é estarmos acompanhando cada novo lance. E quanto mais refletirmos sobre tudo isso, mais crescerá o jornalismo (e não o oposto).

E, Celso, obrigado por toda sua gentileza!

PermalinkPermalink 14.05.09 @ 17:13



Comentário de: Lauro Teixeira

O debate possui argumentos razoáveis, mas, na minha opinião, sem vencedor.

Apesar do meu gosto pelos textos do Steven Johnson, endosso intimamente o desespero de Starr quanto ao futuro incerto do conteúdo generalista polido por poucos. Afinal sou fruto dessa cultura, ao contrário de meu filho.

Porém também sou parte da geração que está vivendo a mudança. Uma geração que não descartou totalmente o velho, porque ele ainda funciona, mas também não mergulhou de cabeça no novo porque aprende com o próprio "novo" a duvidar dele.

Como toda dúvida motiva o aprendizado, no final das contas sou mais "integrado" do que "apocalíptico".

ósculos e amplexos...


PermalinkPermalink 14.05.09 @ 22:10



Comentário de: Vivian Belochio · http://flwedisse.wordpress.com/

Essa questão ainda tem muita polêmica pela frente!

Apesar de meu comentário sobre isso ser meio atrasado, após uma semana de concurso, devo dizer q acho q os hábitos de consumo de informações dos interagentes é que vão acabar indicando quais as atitudes e as soluções mais corretas aos jornais tradicionais. Percebo isso pelos meus próprios atos na navegação: hoje, consumo muito mais informações por blogs e pelo Twitter.

Ñ quero dizer, com isso, que todos os demais interagentes possuem os mesmos costumes que eu. Acredito que os meios de referência que não prestarem atenção nas tendências de relacionamento que vem sendo criadas e se estabelecendo na Web vão acabar ficando para trás.

Outros autores, como Andrew Keen, também criticam a questão das informações amadoras, dos blogs, enfim.. Contudo, os veículos jornalísticos que buscarem a integração com os modelos comunicacionais atuais terão a chance de chamar a atenção dos leitores contemporâneos. Afinal, como foi comentado no seu post, "as redes sociais online se encarregam de passar adiante informações que elas julgam relevantes". Assim, os leitores se tornam mais seletivos, é mais fácil chegar aos tópicos de seu interesse sem a mediação dos meios de massa.

A forma como Zero Hora.com utiliza o Twitter para difundir chamadas sobre os seus conteúdos é um exemplo de apropriação interessante. No microblog, a partir das twitadas de ZH, os interagentes verificam quais informações são do seu interesse e acessam o site. É uma primeira experiência, q pode gerar resultados satisfatórios a um meio tradicional, que está buscando seu lugar na ambiência digital.

Posso estar equivocada, mas creio que as diferentes formas de expressão, manifestação e consumo na Web precisam ser analisadas de perto pelos meios jornalísticos.. Talvez, dessa forma, seja possível definir novas estratégias de captação do público nas redes digitais..

PermalinkPermalink 16.05.09 @ 20:57



Comentário de: Cecília · http://www.zahar.com.br

Oi a todos. Sou a Cecília, da Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor. Johnson expõe algumas das ideias discutidas no post em livros que ele já lançou pela editora. Quem gosta do assunto e quer entrar em mais uma polêmica, recomendo o livro O Culto do Amador, de Andrew Keen, também lançado pela Zahar, que fala bastante dessa questão blogs x jornais, profissionais x amadores.
Abraços

PermalinkPermalink 16.07.09 @ 17:21



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