2009
Os jornais estão em crise. As versões online estão canabalizando os periódicos impressos das grandes instituições jornalísticas. A capa de uma edição recente da revista Time perguntava: o que poderá salvar o seu jornal? O problema é tão grave que o diretor de conteúdo do Estadão, Ricardo Gandour, defende que o conteúdo dos jornais online deve ser fechado.
Todos os jornais devem fechar o conteúdo gratuito e passar a cobrar. Senão, será a morte do jornalismo (via Comunique-se).
A defesa é contundente e polêmica. Contudo, é preciso lembrar que mesmo que os jornais impressos venham a desaparecer, o jornalismo não irá desaparecer. Nós precisamos do jornalismo. A sociedade, a política, a cultura dependem do jornalismo. Mas ele não é sinônimo de jornais.
De fato, parece anacrônico receber o jornal em casa pela manhã com notícias de ontem, que já chegam obsoletas com os novos fatos que vem sendo publicados na rede desde a noite passada. Mas como pode a cara estrutura de empresas jornalísticas ser sustentada se os veículos online não são tão lucrativos quanto suas versões impressas? Em sua palestra no último Campus Party, o jornalista blogueiro Ricardo Noblat afirmou que uma única revista incluída na edição dominical de O Globo é mais rentável que os ganhos com publicidade de todo um mês do site do jornal.
Banners e anúncios online não vem se mostrando suficientemente rentáveis. Antes, acreditávamos que basta juntar um alto número de internautas que os lucros virão. O Google vem percebendo que isso não é bem verdade, pois não tem conseguido transformar o popular YouTube em um serviço lucrativo.
Confesso que eu presto mais atenção nos anúncios do jornais impressos que assino (Folha de São Paulo e Zero Hora) do que em banners e nos links patrocinados do Google. O impacto visual de um grande anúncio na Folha de São Paulo, mesmo que impresso em papel jornal, me seduz muito mais que um banner animado.
Diante desses fatos, podemos dizer que a crise não é só do jornais impressos, mas também da propaganda online. Será que viveremos em breve o estouro de uma nova bolha? Talvez. De toda forma, precisamos entender essas ameaças como um força que demandará que o jornalismo e a propaganda se reinventem. São esses momentos históricos que podem movimentar toda uma área, promovendo inovações e avanços.
Vamos ser sinceros, os jornais estão cada vez mais parecidos. A propaganda, principalmente de grifes e bebidas, também se satisfaz com receitas batidas. Podemos até perguntar: será que o crescente interesse por blogs independentes não é uma busca por análises críticas e criativas que rareiam nos jornais? Será que as pessoas não cansaram do simples quê+quem+onde+quando+como+ por quê? Em outras palavras: existe uma crise do jornalismo ou de um modelo específico de jornalismo? Qual será o futuro do jornalismo?
Por outro lado, alguém pode argumentar que o New York Times traz o melhor de todos os mundos (informação, crítica, humor, cultura, etc.), mas enfrenta a eminência de sua falência. Diante do fechamento de outros jornais americanos, será que o possível fim do New York Times não desencadeará um tsunami nas redações do planeta? É verdade que não podemos reduzir o problema do jornal à ameaça do online. Vivemos hoje uma crise econômica mundial. O New York Times construiu um luxuoso prédio em uma das zonas mais privilegiadas da cidade e investe no time de baseball Rex Sox. Ou seja, a crise do NYT, como de outras instituições jornalísticas, também advém de outros problemas administrativos.
O New York Times já testou vários modelos de negócios em seu site, mas ainda não encontrou a fonte de receita correta. Mas vale agora acompanhar o movimento do jornal em utilizar tecnologias digitais recentes e implementar novas formas de assinatura.
Tem se falado muito sobre o uso do Kindle da Amazon para a leitura do NYT. E com o anúncio de ontem sobre lançamento do Kindle DX, a discussão sobre um novo modelo de negócios para os jornais volta a esquentar. O novo dispositivo tem a tela bem maior e vem sendo apresentado como a alternativa ideal para livros didáticos e para a leitura de jornais. O Los Angeles Times vai além e diz que o Kindle DX tem uma tarefa muito grande: salvar a indústria de jornais. Será que ele conseguirá sozinho cumprir tamanha façanha? O que se espera é que os leitores se sintam motivados a pagar pelo conteúdo. A aposta é interessante. Para que os leitores aceitem assinar jornais online seria preciso que todos fechassem seus conteúdos ao mesmo tempo. Ou seja, se o Estadão passasse a cobrar pelo acesso a seu site, seus leitores migrariam para outro jornal online gratuito. Por outro lado, a adoção de um novo dispositivo (um leitor de e-books) com boa usabilidade e que pudesse mimetizar a experiência de leitura de um jornal é de fato uma aposta viável.
O New York Times já tinha desenvolvido um sistema de assinaturas para a primeira (e "bugada"
versão do Kindle. De toda forma, pelo que afirma o analista Peter Kafka, os lucros com o serviço ainda é modesto. Mas, com a popularização do Kindle é possível que vejamos em breve um aumento da lucratividade.
Como já tive a oportunidade de dizer em outros posts, eu gosto da interface do jornal impresso. A leitura de um jornal faz parte de nossos hábitos. Gosto de ler a Zero Hora de manhã na mesa do café. Seria muito chato levar o notebook para a cozinha! E leio a Folha de São Paulo durante o almoço. Nessas horas, o que menos quero é ficar clicando e navegando. Suponho que o Kindle DX possa se aproximar daquela experiência. Mas, como ainda não testei o dispositivo, não posso ainda confirmar isso. De qualquer forma, existe esperança para o New York Times. Ela vem através de um novo dispositivo, e não via seu site na Web.
Como o potencial é grande e o custo da impressão de jornais é muito alto, o colunista Nicholas Carlson chega a defender que o New York Times deveria enviar Kindles gratuitos para seus assinantes!
Um grave problema que vejo no Kindle é que ele não oferece acesso à Web. Logo, continuaremos lendo jornais com as notícias de ontem!




