Poderá o Kindle DX salvar os jornais?

07Mai
2009

Os jornais estão em crise. As versões online estão canabalizando os periódicos impressos das grandes instituições jornalísticas. A capa de uma edição recente da revista Time perguntava: o que poderá salvar o seu jornal? O problema é tão grave que o diretor de conteúdo do Estadão, Ricardo Gandour, defende que o conteúdo dos jornais online deve ser fechado.

Todos os jornais devem fechar o conteúdo gratuito e passar a cobrar. Senão, será a morte do jornalismo (via Comunique-se).

A defesa é contundente e polêmica. Contudo, é preciso lembrar que mesmo que os jornais impressos venham a desaparecer, o jornalismo não irá desaparecer. Nós precisamos do jornalismo. A sociedade, a política, a cultura dependem do jornalismo. Mas ele não é sinônimo de jornais.

De fato, parece anacrônico receber o jornal em casa pela manhã com notícias de ontem, que já chegam obsoletas com os novos fatos que vem sendo publicados na rede desde a noite passada. Mas como pode a cara estrutura de empresas jornalísticas ser sustentada se os veículos online não são tão lucrativos quanto suas versões impressas? Em sua palestra no último Campus Party, o jornalista blogueiro Ricardo Noblat afirmou que uma única revista incluída na edição dominical de O Globo é mais rentável que os ganhos com publicidade de todo um mês do site do jornal.

Banners e anúncios online não vem se mostrando suficientemente rentáveis. Antes, acreditávamos que basta juntar um alto número de internautas que os lucros virão. O Google vem percebendo que isso não é bem verdade, pois não tem conseguido transformar o popular YouTube em um serviço lucrativo.

Confesso que eu presto mais atenção nos anúncios do jornais impressos que assino (Folha de São Paulo e Zero Hora) do que em banners e nos links patrocinados do Google. O impacto visual de um grande anúncio na Folha de São Paulo, mesmo que impresso em papel jornal, me seduz muito mais que um banner animado.

Diante desses fatos, podemos dizer que a crise não é só do jornais impressos, mas também da propaganda online. Será que viveremos em breve o estouro de uma nova bolha? Talvez. De toda forma, precisamos entender essas ameaças como um força que demandará que o jornalismo e a propaganda se reinventem. São esses momentos históricos que podem movimentar toda uma área, promovendo inovações e avanços.

Vamos ser sinceros, os jornais estão cada vez mais parecidos. A propaganda, principalmente de grifes e bebidas, também se satisfaz com receitas batidas. Podemos até perguntar: será que o crescente interesse por blogs independentes não é uma busca por análises críticas e criativas que rareiam nos jornais? Será que as pessoas não cansaram do simples quê+quem+onde+quando+como+ por quê? Em outras palavras: existe uma crise do jornalismo ou de um modelo específico de jornalismo? Qual será o futuro do jornalismo?

Por outro lado, alguém pode argumentar que o New York Times traz o melhor de todos os mundos (informação, crítica, humor, cultura, etc.), mas enfrenta a eminência de sua falência. Diante do fechamento de outros jornais americanos, será que o possível fim do New York Times não desencadeará um tsunami nas redações do planeta? É verdade que não podemos reduzir o problema do jornal à ameaça do online. Vivemos hoje uma crise econômica mundial. O New York Times construiu um luxuoso prédio em uma das zonas mais privilegiadas da cidade e investe no time de baseball Rex Sox. Ou seja, a crise do NYT, como de outras instituições jornalísticas, também advém de outros problemas administrativos.

O New York Times já testou vários modelos de negócios em seu site, mas ainda não encontrou a fonte de receita correta. Mas vale agora acompanhar o movimento do jornal em utilizar tecnologias digitais recentes e implementar novas formas de assinatura.

Tem se falado muito sobre o uso do Kindle da Amazon para a leitura do NYT. E com o anúncio de ontem sobre lançamento do Kindle DX, a discussão sobre um novo modelo de negócios para os jornais volta a esquentar. O novo dispositivo tem a tela bem maior e vem sendo apresentado como a alternativa ideal para livros didáticos e para a leitura de jornais. O Los Angeles Times vai além e diz que o Kindle DX tem uma tarefa muito grande: salvar a indústria de jornais. Será que ele conseguirá sozinho cumprir tamanha façanha? O que se espera é que os leitores se sintam motivados a pagar pelo conteúdo. A aposta é interessante. Para que os leitores aceitem assinar jornais online seria preciso que todos fechassem seus conteúdos ao mesmo tempo. Ou seja, se o Estadão passasse a cobrar pelo acesso a seu site, seus leitores migrariam para outro jornal online gratuito. Por outro lado, a adoção de um novo dispositivo (um leitor de e-books) com boa usabilidade e que pudesse mimetizar a experiência de leitura de um jornal é de fato uma aposta viável.

O New York Times já tinha desenvolvido um sistema de assinaturas para a primeira (e "bugada") versão do Kindle. De toda forma, pelo que afirma o analista Peter Kafka, os lucros com o serviço ainda é modesto. Mas, com a popularização do Kindle é possível que vejamos em breve um aumento da lucratividade.

Como já tive a oportunidade de dizer em outros posts, eu gosto da interface do jornal impresso. A leitura de um jornal faz parte de nossos hábitos. Gosto de ler a Zero Hora de manhã na mesa do café. Seria muito chato levar o notebook para a cozinha! E leio a Folha de São Paulo durante o almoço. Nessas horas, o que menos quero é ficar clicando e navegando. Suponho que o Kindle DX possa se aproximar daquela experiência. Mas, como ainda não testei o dispositivo, não posso ainda confirmar isso. De qualquer forma, existe esperança para o New York Times. Ela vem através de um novo dispositivo, e não via seu site na Web.

Como o potencial é grande e o custo da impressão de jornais é muito alto, o colunista Nicholas Carlson chega a defender que o New York Times deveria enviar Kindles gratuitos para seus assinantes!

Um grave problema que vejo no Kindle é que ele não oferece acesso à Web. Logo, continuaremos lendo jornais com as notícias de ontem!


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: joamot30 · http://joamot30.blogspot.com/

Os jornais sempre vão existir claro que em menor quantidade, por o nosso mundo vai em poucas decadas virá completamente digital com isso niguem vai querer lê em um pedaço de papel o que aconteceu ontem isso vai causa a falencia dos jornais que não estiverem preparados para o mundo virtual.

PermalinkPermalink 07.05.09 @ 10:49



Comentário de: Francisco Arlindo Alves · http://arlifrancis.org/blog/

Sob o ponto de vista do conforto e comodidade, concordo quanto ao jornal impresso, a tinta sobre o papel teria uma melhor contraste que as telas do computadores, em qualquer angulo ou sobre a luz natural (coisa que o Kindle pretende resolver).
Mas particularmente para meu dia-a-dia para otimizar meu tempo tenho que ler o jornal, no metrô ou no onibus ou num restaurante apertado na hora do almoço, cheio de gente disputando espaço . Nestes ambientes uma das coisas que mais me atrapalha no jornal são as suas dimensões, quando utilizam o formato "tabloide europeu" (Zero Hora) tudo bem, é mais fácil, mas quando o formato é standart (Folha de São Paulo) ler um jornal se torna um grande exercicio de contorcionismo, malabarismo, estratégias de demarcação de territórios e técnicas origami.
Uma das vantagens alardeadas do Kindle DX é sua tela maior, o que chega a ser uma boa vantagem com relação a este meu problema quando comparamos seus 10 centimetros aos aproximadamente 56 centimentros do standart Folha de S.Paulo. (espero que em breve inventem um Kindle "dobrável")
O chato é ter que atravessar a cidade carregando mais uma parafernália, além do laptop e celular (pois como voce falou ter não acesso a internet é um grande problema). Espero o tempo traga a convergência em seu sentido clássico!

PermalinkPermalink 07.05.09 @ 12:11



Comentário de: Massimino Delazeri · http://ocappuccino.com/

na minha opinião

jornalismo ≠ jornal impresso
jornalismo = escolher os assuntos que mais interessam ao público e apresentá-los de modo atraente

apresentá-lo em todos os sentidos, físico também

empresas jornalisticas comescem a pensar

Massimino Delazeri
www.ocappuccino.com

PermalinkPermalink 07.05.09 @ 12:17



Comentário de: Francisco Arlindo Alves · http://arlifrancis.org/blog/

Ah! Este novo Kindle possui conexão Wireless 3G, possibilitando download de conteúdos, logo, se as empresas jornalisticas forem agéis não teremos ler as noticias de ontem.
Acho inclusive esta coisa de "edição referente ao dia" pode evoluir para algo mais fluído.

PermalinkPermalink 07.05.09 @ 13:57



Comentário de: Lígia · http://ligialana.wordpress.com

Não acho que mais uma ferramenta seja a solução.

Como vc aponta, o problema é muito maior que o suporte, é uma crise do dispositivo.
Quando leio sobre isso, fico com aflição só de pensar...

PermalinkPermalink 07.05.09 @ 19:30



Comentário de: Aline Leal Valcarenghi · http://www.alinelealbr.blogspot.com/

Confesso que odeio o formato standart, como o Francisco Alves comentou, é preciso ser contorcionista pra ler a Folha de SP. Aqui no Piauí além de todos os (3) jornais terem esse formato, ainda deixam muitíssimo a desejar na qualidade do conteúdo. Por essas e outras ainda opto pelas revistas e sites para me informar.
Quanto ao Kindle, é uma alternativa bem interessante, mas a maior questão ainda é a agilidade da notícia, o conteúdo interessante e a qualidade. Com estes três quesitos não há jornalismo que afunde, mesmo os meios pagos. Haverá uma queda, mas não o fim.

PermalinkPermalink 08.05.09 @ 17:43



Comentário de: luiz galvão

não há nada como abrir o jornal todo e scanear..é uma outra perspectiva...

PermalinkPermalink 10.05.09 @ 14:16



Comentário de: Sinara Oliveira

Olá! A ideia é que o Kindle seja apenas um novo suporte para ler o mesmo jornal? ou via Kindle as noticias iriam mudando ao longo do tempo, como se estivessem na web?

ah, sobre o pagamento de jornais online... eu não pagaria nada!!!

PermalinkPermalink 24.05.09 @ 17:20



Comentário de: fabiano · http://www.notebookbarato.net/

Ah, sei não hein. Jornais costumam ser grandes, volumosos, desengonçados.

Um notebook em cima do armário da cozinha fica mais prático, não fica não?

Ocupa bem menos espaço.

PermalinkPermalink 15.08.09 @ 05:14



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