Não há nada de errado em dizer, de forma irônica, que este ou aquele blogueiro é uma celebridade na Web. Por outro lado, essa atribuição é tão imprecisa quanto entender que um comentarista crítico é um policial ou achar que um blogueiro age exatamente da mesma forma que um inseto social (formigas, abelhas). Comparações e metáforas podem ser muito úteis didaticamente, mas nunca podemos esquecer o que essas equiparações frouxas escondem.
Para ser preciso, portanto, precisamos olhar com mais cuidado o que é uma celebridade. Como disse em meu último post, celebridades são um fenômeno da comunicação de massa. Por isso, transportar esse conceito para a blogosfera, que nitidamente não é um contexto massivo, é problemático. Ora, fama e renome não são sinônimos de celebridade. Ainda que esta última seja necessariamente famosa, e que um Ronaldo, por exemplo, tenha renome no contexto esportivo, aquelas primeiras características não conduzem alguém necessariamente ao status de celebridade.
Se em outros tempos o herói tinha um papel cultural importante, hoje ele perde espaço para as celebridades. Enquanto o herói é reconhecido por sua bravura e grandes feitos, a celebridade ganha notoriedade por seu nome/marca. Corrosivo, o pesquisador Boorstin sentencia: o herói é um grande homem, a celebridade não passa de um grande nome! Na mesma linha, Lowenthal define os heróis do passado como “ídolos de produção”. Já os "heróis" midiáticos seriam “ídolos do consumo".
Entre as celebridades, podemos distinguir os seguintes tipos (Rojek):
- celebridade conferida – decorre de linhagem, como a família real inglesa;
- celebridade adquirida – deriva de realizações individuais (conquistas esportivas, artísticas, etc.);
- celebridade atribuída – mesmo sem talento ou habilidade excepcional, essa pessoa consegue atrair grande interesse, muitas vezes acessorado por intermediários culturais.
Dentre esse último tipo, Rojek sugere a categoria de "celetóide". São os sucessos efêmeros que aparecem na mídia com grande velocidade, para logo em seguida desaparecer. Exemplos são ganhadores de loteria, heróis por uma dia, etc.
Podemos localizar nesta última categoria aquelas pessoas que de uma hora para outra se tornam muito conhecidas no YouTube ou em algum site, por causa de uma dança esquisita, por uma forma engraçada de falar ou cantar, ou...por coisa pior! Mesmo assim, conseguem atrair grande atenção na rede e da grande mídia. Após aparecerem em programas e revistas, e experimentar por pouco tempo o sabor da fama, esses celetóides retornam abrutamente para seu anonimato.
E o que dizer de blogueiros muito conhecidos na blogosfera? Não estou falando de Marisa Orth, Dado Dollabella ou Carolina Dieckmann, por exemplo, que já eram celebridades antes de abrir um blog. Estou falando daquelas pessoas que com o tempo ganharam grande notoriedade com seus blogs, como Inagaki e Cardoso. Podemos chamá-los de celebridades? Não me parece. Entendo que eles gozam de grande renome na blogosfera, mas que não ocupam o mesmo status midiático que uma estrela de cinema, um esportista internacional ou uma socialite, como Paris Hilton.
Podemos então concluir (pelo menos por enquanto!) que temos celebridades na blogosfera, mas não da blogosfera.
Nessas horas vale lembrar o Marmota ao dizer que blogueiro famoso é como Miss Cangaíba!
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Quer saber mais sobre esse tema, então não deixe de ler os livros Celebridade, de Chris Rojek, e The celebrity culture reader, de David Marshall.
Você já deve ter visto vários posts falando sobre celebridades na blogosfera. A Wikipédia inclusive mantém diretórios de fenômenos da Internet e de "celebridades" do YouTube. Lá você encontra listagens atualizadas de vídeos, músicas, perfomances e pessoas que de uma hora para outra se tornam muito conhecidos em todos os cantos da Web. Mais do que de repente, você começa a receber links do YouTube e de sites cujos personagens principais você passa a saber o nome. Foi assim com Mahir Çağrı (I kiss you), Tay Zonday, Dancing Matt , Obama Girl, entre tantos outros. Com a mesma velocidade, você repassa o link em seu blog, por e-mail e no Twitter. É com essa disseminação em rede que anônimos ganham notoriedade e, possivelmente, até dinheiro e reconhecimento da grande mídia. Tay Zonday, por exemplo, estrelou um comercial para o refrigerante Dr. Pepper e, nada mais lógico, apresentou o evento YouTube Live. Durante este último evento, outras "celebridades" do YouTube fizeram apresentações, como Funtwo, Bo Burnham, Chad Vader.
Quer ver um pout-pourri dessas personalidades da Web? Então não deixe de assistir ao bem-humorado clipe da música Pork and Beans, da banda Weezer, por onde desfilam vários famosos da internet (veja aqui a listagem).
Mas seriam de fato celebridades? Estes desconhecidos que ganham súbita fama na rede (e muitas vezes desaparecem logo em seguida) podem ser comparados a Tom Cruise, Britney Spears, Paris Hilton, Luma de Oliveira, Sandy, Xuxa, Luana Piovani? Será que fãs dormiriam na frente do hotel em que Mahir Çağrı está hospedado? E quanto da pequena venda de camisetas de Tay Zonday não passa de simples curtição?
Em outras palavras, podemos simplesmente aplicar o mesmo termo "celebridade" a pessoas que ganham notoriedade instantânea? Veja, celebridade não é o mesmo que renome. Ser bem conhecido e até admirado em um bairro ou em uma comunidade científica não é o suficiente para tal pessoa atingir o mesmo status de um Bono Vox. Celebridades não são apenas pessoas famosas. Tais figuras, que passaram a emergir no cinema na primeira década do século XX, são uma mercadoria das indústrias culturais. Seus nomes e personalidades construídas servem como slogans de venda, fazem parte de estratégias mercadológicas. E, como produtos a venda, seus nomes (marcas) e suas imagens são controladas por equipes que ajustam suas aparições ao gosto dos consumidores.
Celebridades devem ser compreendidas em uma lógica de produção e consumo, segundo estratégias persuasivas bem planejadas. Como mercadoria, também se tornam obsoletas assim que um novo nome/produto atinge o mercado midiático. Nessa lógica, cantoras loiras, boy bands, calouros em programas de auditório (American Idol e afins), modelos e atores se sucedem na prateleira.
Não é estranho, portanto, que apliquemos o mesmo conceito da comunicação de massa ("celebridade") a pessoas de renome ou que alcancem rápido reconhecimento na rede? E será que estamos tão adestrados pela grande mídia que também desejamos inventar e encontrar celebridades na blogosfera? Que papel elas tem em nosso imaginário já que esperamos encontrar o mesmo terreno familiar das estrelas nas telas de nossos computadores? Não seria a internet o espaço onde nos livraríamos do poder da mídia?
Estas são algumas das questões que motivaram a escrita deste artigo que apresentarei na próxima semana no Encontro da Compós em Belo Horizonte. E este é o tema que inspirará os posts desta semana.
Há algo de conservador nos inovadores sites de probloggeres e nerds. Parece um paradoxo, eu sei, mas é o que tenho visto por aí na blogosfera.
Antes de mais nada quero dizer que não tenho nada contra o uso de propaganda em blogs. Pelo contrário, não vejo nada de errado em um blogueiro buscar remuneração por seu trabalho criativo. Por outro lado, tenho encontrado muitos blogs que dão um show de acessos e assinaturas, mas que oferecem muito pouco de novo. Em muitos deles encontramos basicamente o "requente" de textos publicados em blogs americanos...às vezes simples traduções. Alguns blogs nem isso apresentam. Limitam-se a incontáveis promoções de produtos e marcas. Mais uma vez: não sou contra publieditoriais. Só acho que posts pagos devem ser sempre apresentados como tais. Por uma questão ética, é preciso dizer que o texto é patrocinado. Além disso, defendo que deva haver um equilíbrio entre conteúdo original do blogueiro e material pago. Caso contrário, o blog não passará de um outdoor digital.
O tipo de blog que busca apenas ampliar a audiência com o simples intuito de veicular mais propaganda acaba por usar uma ferramenta nova para fins antigos. O que há de inovação em um blog "vendido"? Antes da crítica, o meu reconhecimento: trata-se de um empreendimento individual, que escapa ao tradicional esquema empresa-empregado, ao modelo industrial de comunicação. Mas o que há para além do empreendedorismo de uma geração que descobriu por si própria como se sustentar? Em muitos casos, não há a febre jovem em botar a boca no mundo, em deixar uma marca, em reclamar de tudo o que é velho. Infelizmente, os hormônios foram anestisados. Recupera-se velhos processos de exploração, sem que se leve em conta como se pode mudar o social.
Vamos ser sinceros, tênis All Star e camiseta básica de grife "alternativa" não configura nenhum tipo de resistência. Para ser mais provocativo, não deixa de ser uma aceitação do mesmo modelo mercadológico subscrito por mauricinhos e patricinhas. Não assistir novela, mas ver Simpsons e Lost é recusar a indústria cultural e a imposição das grandes instituições midiáticas? Ora, o processo ainda é o mesmo, só muda a embalagem. Na verdade, é uma sofisticação na sintonia entre mercadoria e público-alvo.
Não, não sou um velho marxista, um professor tacanho que ainda recita melhos mantras da Escola de Frankfurt. Por outro lado, não quero perder a oportunidade de analisar criticamente o ambiente no qual interajo. Se eu fosse um anti-capitalista não traria banners publicitários neste blog. Sim, reconheço que estou aberto a negociações promocionais por aqui. Mas não abro mão de expressar minhas impressões sobre nosso mundo. E sei que quem me visita espera debater pontos-de-vista.
Comparando os blogs mais populares no Brasil com aqueles listados no Technorati vejo que gostamos muito mais do besteirol e dos blogs copia/traduz/cola. Talvez isso tenha a ver com nossa cultura, com a faixa etária dos leitores de blogs no Brasil. Mas não podemos achar justificativas para a falta de compromisso social. OK, é a pós-modernidade: hedonismo, neo-tribalismo, presenteísmo...e outros ismos. Mas será que toda uma geração ficou broxa? Estaremos vivendo a emergência de uma geração conservadora?
Por mais que eu goste de frases de efeito, por seu potencial polêmico, não posso concordar com tais exageros. Estamos no ciberespaço protestando contra os ímpetos autoritários do Azeredo, multiplicando denúncias em nossas redes sociais online, discutindo a crise e reclamando do que é anacrônico. Por outro lado, precisamos também reclamar daqueles que buscam mimetizar as mesmas estratégias da grande mídia aqui na blogosfera. Se passarmos a encarar nossos interagentes e comentadores simplesmente como perfis segmentados ou público-alvo, a utopia de uma rede livre e crítica virará simples fantasia. Apesar de não acreditar que isso vá acontecer, vale a pena ficar alerta, desconfiando das "tendências" e modinhas pseudo-nerds.
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A foto utilizada neste post foi publicada originalmente aqui.

Já imaginou poder usar o Twitter com mais espaço que 140 caracteres, com suporte para publicação de vídeos, imagens e música, e com uma interface com melhor usabilidade? Pois essa é a proposta do novo serviço do Yahoo, o Meme.

Ontem à noite recebi um convite para participar da rede, que ainda permanece fechada para convidados. Pude experimentar um pouco dessa nova rede, seguir pessoas e testar a interface. Quero compartilhar agora um pouco de minhas primeiras impressões.
A interface gráfica é limpa, com predominância do branco e do azul claro. Os botões, seguindo o padrão Yahoo, são bem desenhados e apresentam tons cinza e rosa. Muitos deles se ampliam, mostrando a descrição de sua funcionalidade assim que você passa o ponteiro por cima. Por outro lado, não encontrei possibilidades de customização, nem do fundo nem das cores das fontes (como ocorre no Twitter). De modo geral, as páginas tem estilo "clean", com mais espaços em branco entre as informações. Enquanto isso foge do estilo "apertado" das mensagens no Twitter, o Meme exige mais rolagem e uso do botão "próximos" para ver as mensagens recebidas.
Gostei de ver como mensagens longas, vídeos e imagens se expandem quando você clica para vê-las. O comportamento do sistema é rápido e intuitivo. Mas, como identificou a MissMoura, o Yahoo Meme corta textos com mais de 2800 carateres aproximadamente. Outro recurso que achei bem pensado é a facilidade com que se republica informações. Um botão ao lado da mensagem facilita esse processo. Outro botão indica quantas vezes ela já foi republicada e leva você a uma tela com a listagem de pessoas que a repetiram. Essa funcionalidade facilita uma pesquisa sobre a propagação de uma meme (já falei que discordo da teoria das memes?!). O estranho é que o Yahoo chama os próprios participantes de memes, e não apenas as idéias/mensagens.

A interface apresenta uma seção para você seguir pessoas aleatórias, mas estranhamente ainda não tem uma funcionalidade para buscar amigos. Isso deve vir com o tempo.
Enfim, acho que o sistema está bem implementado para uma primeira versão. O Yahoo pede a colaboração e feedback dos interagentes para aperfeiçoar o serviço, demonstrando um comprometimento da empresa com seus clientes. A interface tem boa usabilidade, o que o difere bastante do Twitter. Vale lembrar que o uso de "@" em replies e hashtags foram invenções da comunidade, que só mais tarde o Twitter se apropriou oficialmente. E se você precisa usar serviços de terceiros para tirar o máximo do Twitter, no Yahoo Meme muitas dessas funções já está disponível nativamente. Agora, você deve estar se perguntando se o Meme vai desbancar o Twiiter. Neste momento acho isso muito difícil. O principal do Twitter não é o seu sistema de comunicação, mas sim o valor que emerge de sua comunidade. Ele não pode ser avaliado apenas por sua arquitetura informática, mas principalmente pelo que a rede social fez dele. Nesse sentido, temo que o Yahoo tenha chegado tarde demais, apesar de proporcionar uma melhor experiência interativa. Mas quem sabe eles consigam atrair os retardatários e pessoas que não entenderam o Twitter? Vamos ficar observando.
Quem quiser me seguir, uso a mesma identificação que tenho no Twitter: alexprimo
Se você estava no Twitter nesta quarta-feira provavelmente viu (e até repassou) mensagens com as tags #twitterfail #fixreplies. Tratava-se de um protesto contra a mudança anunciada pela empresa no gerenciamento de mensagens. Com isso, você só poderia ver respostas de pessoas que você segue a outras pessoas que também estão em sua lista de seguidos. A gritaria foi geral, sob a justificativa que assim você perderia a oportunidade de conhecer novas pessoas.
O envio e retweets de mensagens com aquelas tags multiplicou-se exponecialmente. Veja no gráfico ao lado (gerado no Twist) como em apenas um dia uma tag inexisteste apareceu e cresceu de forma abrupta.
Isso mais uma vez nos prova como fenômenos interativos em redes sociais podem "explodir"de uma hora para outra. Quem iniciou esse movimento? De um ponto de vista sistêmico isso pouco importa. Basta visualizar o efeito em rede do processo.
Veja abaixo que esse movimento atingiu ontem um pico de 115 mensagens por minuto (via Twibuzz).

A empresa Twitter foi rápida e publicou uma retratação em seu blog oficial prometendo rever a medida. Além de podermos perceber a força do uso de tags para protestos frouxamente organizados em redes sociais, também podemos aprender como a ágil comunicação com clientes é importante para as organizações. Não apenas o Twitter escutou os protestos, como reagiu prontamente. Esse tipo de ação repercute positivamente na imagem da empresa e na fidelização dos consumidores.
Mesmo que o ajuste no sistema tenha sido revisto, a tag #fixreplies ainda permanecia na listagem de "Trending Topics" nesta manhã. Talvez alguns interagens, do tipo "faísca atrasada", recém tenham percebido o protesto e nem saibam que o problema já foi resolvido. É importante, contudo, observar que a política sobre replies não vai ficar por isso mesmo. Em um post subsequente, o Twitter avisa que está estudando mudanças mais adequadas, pois o atual funcionamento de busca de interagentes, a partir de replies, lhe traz problemas de escala. Mas é bom saber que eles vão finalmente caprichar na usabilidade (uma das maiores falhas do Twitter). Caberá a nós escolhermos como preferimos que o Twitter reaja: mostrando todos os replies das pessoas que seguimos, ou só para aquelas que também seguimos. Mesmo assim, é estranho ver que o Twitter fará uma diferenciação entre replies gerados a partir do ícone de resposta na interface do sistema com a indicação "@pessoa" no início da mensagem e aquelas respostas digitadas sem o uso desse padrão. Estranho. Cabe esperar para ver como é que fica!
Finalmente, quero comentar como a indústria da pornografia é criativa em aproveitar todas tendências em redes sociais para difundir seus links. Veja abaixo como um desses sites vem publicando mensagens com a tag #fixreplies com o intuito de estar sempre listada no Trending Topics. Safados!

A Folha deste domingo publicou a tradução de um debate travado entre os jornalistas Steven Johnson e Paul Starr sobre internet e jornais. Na maioria dos debates tendemos a escolher com qual parte concordamos. Neste, contudo, é preciso reconhecer a pertinência dos argumentos dos dois lados. O que pretendo neste post é justamente discutir algumas idéias.
Antes de mais nada, é preciso descrever os oponentes em cada canto do ringue. Johnson é co-fundador e editor-chefe da revista online Feed Magazine, mas é mais conhecido entre nós por livros como "Emergência", "Surpreendente! A televisão e o videogame nos tornam mais inteligentes" e "Cultura da Interface". Starr é professor de sociologia da Univesidade de Princeton, ganhou o prêmio Pulitzer de não-ficção e autor de livros como "Freedom's Power", sobre o desenvolvimento do liberalismo.
Na mensagem que abre o debate, Johnson sugere que a mídia seja hoje entendida como um ecossistema. De fato, o atual sistema midático já não pode ser estudado como um regime centralizado por grandes instituições midiáticas. Johnson lembra que os blogs e o YouTube nos ajudam a compreender o jogo político, acompanhar a íntegra de discursos e conhecer longas argumentações sobre tais fatos. Para que se possa compreender o sistema midiático contemporâneo, o autor sugere que se faça como os ecologistas ao estudar uma floresta: é preciso observar as florestas que tiveram mais tempo para se desenvolver. Nesse sentido, é preciso usar o mesmo método para compreender a evolução dos blogs. Inicialmente se focavam em tecnologia. Com o passar do tempo, passaram a cobrir e comentar todos os assuntos que se encontram nos jornais convencionais.
Apesar de Starr reconhecer a importância da internet para a troca de informações e debate público,ele provova:
Mas, você está tomando algumas árvores por uma floresta.
Além disso, a própria metáfora orgânica induz ao engano. As mídias não se desenvolvem naturalmente. Elas se desenvolvem historicamente, e as forças que regem seu desenvolvimento são sobretudo políticas e econômicas.
Starr tem razão ao criticar a metáfora de Johnson. Na verdade, este último tem se notabilizado por empregar diversos exemplos biológicos para fundamentar os argumentos em seus livros. O problema desse tipo de estratégia, que equipara sociedades humanas com o trabalho instintivo de insetos sociais (abelhas, formigas) e a estrutura midiática com ecossistemas e florestas, é que se minimiza ou mesmo se apaga tudo o que é político, histórico e subjetivo nas redes sociais. Deixa-se de lado a inveja, a vingança, o orgulho a vaidade, etc. No que toca os regimes midiáticos, não podemos os analisar como simples evolução darwiniana. Starr tem razão neste ponto. A história e a política não podem ser reduzidas ao biológico.
Por outro lado, Starr vê a internet como uma inimiga do bom jornalismo. Realmente, o conteúdo gratuito disponível na rede ameaça a vida dos jornais impressos. Mas não podemos transformar esse cenário em um duelo onde um lado é o bandido e o outro é o mocinho. Como reconhecem Johnson e Starr, parte da crise de grandes jornais é justificada por má administração. Mesmo assim, este último considera que a internet não pode garantir, como fazem os jornais, jornalismo profissional e responsável e engajamento do público. Além disso, Starr aponta que os internautas desempenham uma leitura perigosamente seletiva. Enquanto em um jornal um fã de esportes acaba passando por páginas de outras editorias (política, economia, etc), na web ele lerá apenas o que lhe interessa: as páginas esportivas. Ou seja, existe mais informação na web, mas isso não quer dizer que as pessoas estejam mais bem informadas sobre o mundo.
Johnson retruca com estilo:
Qual sociedade lhe parece incluir mais participação cívica? Uma em que o noticiário é controlado por uma pequena minoria e onde as interações cívicas das pessoas acontecem como leitura feita a caminho da seção de esportes? Ou uma em que milhares de pessoas comuns participam ativamente na criação do próprio noticiário?
Para ilustrar seu ponto, Johnson cita seu site Outside.in, um agregador de notícias que permite que os interagentes encontrem informações sobre a sua própria vizinhança. Ou seja, oferece uma valorização do "hiperlocal".
Esse é o grande potencial da rede. Como a grande mídia se interessa em difundir tudo aquilo que atrai maior público, ela acaba por se focar no gosto médio (no mínimo denominador comum), nos grandes fatos ou no que é mais bizarro. Já a web, com seu espaço infinito, permite que tudo seja publicado: discursos e debates na íntegra, notícias pontuais que visam pequenos públicos, opiniões radicais, etc. E, mais do que isso, as redes sociais online se encarregam de passar adiante informações que elas julgam relevantes (o que permite interconectar diferentes redes ).
É justamente essa força informacional das redes sociais online e dos agregadors de notícias que assusta Starr. Sobre o Outside.in, ele dispara:
Pelo que pude apreender, ele não faz nenhum trabalho de reportagem próprio. Ele agrega o que aparece em outros lugares. Não parece haver qualquer critério de relevância ou importância. E, se o que aparece em outros lugares é lixo, o site ajuda a difundir esse lixo, porque, por sua própria natureza, um site de notícias automatizado não possui aquilo que tem todo bom editor: um detector de lixo.
Essa crítica mira também outros agregadores, que apenas coletam notícias produzidas e custeadas por outras instituições. Enquanto lucram com propaganda, tais agregadores acabam por prejudicar o sistema jornalístico estabelecido:
Sites como o seu, que tiram notícias, comentários --e lucros-- da web dependem inteiramente de que outros paguem pelo trabalho original de reportagem. Alguns blogueiros podem dar furos jornalísticos ocasionais, mas fazer de conta que eles possuem as capacidades de um grande jornal metropolitano é enganoso.
Ora, não se pode ampliar tal crítica para toda rede. Blogs não são o vilão da história, nem querem acabar com os jornais. Nem tampouco os blogueiros aspiram substituir os profissionais dos jornais. Vamos ser sinceros, nós blogueiros dependemos da grande mídia para nos informarmos e termos sobre o que falar! Por outro lado, nosso papel, creio eu, é de não apenas reproduzir esse conteúdo, mas analisá-lo, criticá-lo. O que a blogosfera tem de melhor é essa capacidade de dar sentidos diferentes ao que se encontra na mídia, dar repercussão contextualizada.
Agora, não posso negar que agregadores de notícias e blogueiros que simplesmente copiam e colam notícias canabalizam os veículos noticiosos. Aos poucos vou ficando convencido que um sistema de micropagamentos ou algum tipo de assinatura barata será adotado pelos sites jornalísticos. Mas tenho sérias dúvidas se isso resolverá o problema.
A discussão continua...
Hoje começo a publicar uma nova série de cartuns, que chamei de Digitália, para brincar com o ridículo de nossas interações na rede.

Os jornais estão em crise. As versões online estão canabalizando os periódicos impressos das grandes instituições jornalísticas. A capa de uma edição recente da revista Time perguntava: o que poderá salvar o seu jornal? O problema é tão grave que o diretor de conteúdo do Estadão, Ricardo Gandour, defende que o conteúdo dos jornais online deve ser fechado.
Todos os jornais devem fechar o conteúdo gratuito e passar a cobrar. Senão, será a morte do jornalismo (via Comunique-se).
A defesa é contundente e polêmica. Contudo, é preciso lembrar que mesmo que os jornais impressos venham a desaparecer, o jornalismo não irá desaparecer. Nós precisamos do jornalismo. A sociedade, a política, a cultura dependem do jornalismo. Mas ele não é sinônimo de jornais.
De fato, parece anacrônico receber o jornal em casa pela manhã com notícias de ontem, que já chegam obsoletas com os novos fatos que vem sendo publicados na rede desde a noite passada. Mas como pode a cara estrutura de empresas jornalísticas ser sustentada se os veículos online não são tão lucrativos quanto suas versões impressas? Em sua palestra no último Campus Party, o jornalista blogueiro Ricardo Noblat afirmou que uma única revista incluída na edição dominical de O Globo é mais rentável que os ganhos com publicidade de todo um mês do site do jornal.
Banners e anúncios online não vem se mostrando suficientemente rentáveis. Antes, acreditávamos que basta juntar um alto número de internautas que os lucros virão. O Google vem percebendo que isso não é bem verdade, pois não tem conseguido transformar o popular YouTube em um serviço lucrativo.
Confesso que eu presto mais atenção nos anúncios do jornais impressos que assino (Folha de São Paulo e Zero Hora) do que em banners e nos links patrocinados do Google. O impacto visual de um grande anúncio na Folha de São Paulo, mesmo que impresso em papel jornal, me seduz muito mais que um banner animado.
Diante desses fatos, podemos dizer que a crise não é só do jornais impressos, mas também da propaganda online. Será que viveremos em breve o estouro de uma nova bolha? Talvez. De toda forma, precisamos entender essas ameaças como um força que demandará que o jornalismo e a propaganda se reinventem. São esses momentos históricos que podem movimentar toda uma área, promovendo inovações e avanços.
Vamos ser sinceros, os jornais estão cada vez mais parecidos. A propaganda, principalmente de grifes e bebidas, também se satisfaz com receitas batidas. Podemos até perguntar: será que o crescente interesse por blogs independentes não é uma busca por análises críticas e criativas que rareiam nos jornais? Será que as pessoas não cansaram do simples quê+quem+onde+quando+como+ por quê? Em outras palavras: existe uma crise do jornalismo ou de um modelo específico de jornalismo? Qual será o futuro do jornalismo?
Por outro lado, alguém pode argumentar que o New York Times traz o melhor de todos os mundos (informação, crítica, humor, cultura, etc.), mas enfrenta a eminência de sua falência. Diante do fechamento de outros jornais americanos, será que o possível fim do New York Times não desencadeará um tsunami nas redações do planeta? É verdade que não podemos reduzir o problema do jornal à ameaça do online. Vivemos hoje uma crise econômica mundial. O New York Times construiu um luxuoso prédio em uma das zonas mais privilegiadas da cidade e investe no time de baseball Rex Sox. Ou seja, a crise do NYT, como de outras instituições jornalísticas, também advém de outros problemas administrativos.
O New York Times já testou vários modelos de negócios em seu site, mas ainda não encontrou a fonte de receita correta. Mas vale agora acompanhar o movimento do jornal em utilizar tecnologias digitais recentes e implementar novas formas de assinatura.
Tem se falado muito sobre o uso do Kindle da Amazon para a leitura do NYT. E com o anúncio de ontem sobre lançamento do Kindle DX, a discussão sobre um novo modelo de negócios para os jornais volta a esquentar. O novo dispositivo tem a tela bem maior e vem sendo apresentado como a alternativa ideal para livros didáticos e para a leitura de jornais. O Los Angeles Times vai além e diz que o Kindle DX tem uma tarefa muito grande: salvar a indústria de jornais. Será que ele conseguirá sozinho cumprir tamanha façanha? O que se espera é que os leitores se sintam motivados a pagar pelo conteúdo. A aposta é interessante. Para que os leitores aceitem assinar jornais online seria preciso que todos fechassem seus conteúdos ao mesmo tempo. Ou seja, se o Estadão passasse a cobrar pelo acesso a seu site, seus leitores migrariam para outro jornal online gratuito. Por outro lado, a adoção de um novo dispositivo (um leitor de e-books) com boa usabilidade e que pudesse mimetizar a experiência de leitura de um jornal é de fato uma aposta viável.
O New York Times já tinha desenvolvido um sistema de assinaturas para a primeira (e "bugada"
versão do Kindle. De toda forma, pelo que afirma o analista Peter Kafka, os lucros com o serviço ainda é modesto. Mas, com a popularização do Kindle é possível que vejamos em breve um aumento da lucratividade.
Como já tive a oportunidade de dizer em outros posts, eu gosto da interface do jornal impresso. A leitura de um jornal faz parte de nossos hábitos. Gosto de ler a Zero Hora de manhã na mesa do café. Seria muito chato levar o notebook para a cozinha! E leio a Folha de São Paulo durante o almoço. Nessas horas, o que menos quero é ficar clicando e navegando. Suponho que o Kindle DX possa se aproximar daquela experiência. Mas, como ainda não testei o dispositivo, não posso ainda confirmar isso. De qualquer forma, existe esperança para o New York Times. Ela vem através de um novo dispositivo, e não via seu site na Web.
Como o potencial é grande e o custo da impressão de jornais é muito alto, o colunista Nicholas Carlson chega a defender que o New York Times deveria enviar Kindles gratuitos para seus assinantes!
Um grave problema que vejo no Kindle é que ele não oferece acesso à Web. Logo, continuaremos lendo jornais com as notícias de ontem!
O sucesso do Twitter pode ser explicado por duas características básicas da Web 2.0: arquitetura de participação e inteligência coletiva. Apesar das deficiências da interface e da usabilidade do Twitter, a abertura de seu sistema permitiu que terceiros oferecessem dezenas de serviços que para a expansão da prática do twittar. Apesar da lista ser muito grande, quero resenhar algumas ferramentas que vão turbinar a sua experiência na twittosfera.
A interface oficial do Twitter deixa bastante a desejar. Mas para twittar você não precisa ficar limitado a ela. Eu mesmo só fui usá-la nas últimas semanas, com o propósito de fazer uma análise crítica. Desde o princípio eu experimentei a twittosfera através de programas externos como Twitterific, TwitterFox e Twhril. Apesar de existirem outros por aí, acabei optando pelo TweetDeck. Ele funciona como uma verdadeira central de comando. Além de facilitar os retweets, mensagens diretas e os processos de seguir, "unfollow" e bloqueio de twitteiros (funcionalidades que os outros programas já ofereciam), o TweetDeck permite que você visualize em diferentes colunas os tweets de todo mundo que você segue e as mensagens diretas e citações que você recebeu. Mas o melhor é que você pode criar novas colunas na interface com mensagens apenas de grupos específicos, como amigos, jornais, etc. Com esse recurso, quem é que disse que é impossível seguir mais de 200 pessoas?
O Tweepular se apresenta como um sistema de administração de seguidores. Você pode listar quem está seguindo você, quem você segue e até mesmo quem não está retribuindo o seu "follow". O serviço detalha informações de cada uma dessas pessoas. Mais do que isso, você pode dessassinar todos aqueles que não lhe seguem de uma só vez, como também seguir todos os seus seguidores. Contudo, você precisa selecionar essas pessoas uma por uma, pois não há a simples funcionalidade de selecionar todos os listados. A interface, como você pode ver aí ao lado, é de doer. Os autores se orgulham do colorido da tela, mas ainda não se deram conta da breguice do design. Outro serviço na mesma linha,
o Twitter Karma, tem uma interface bem mais limpa e é mais fácil de utilizar. Depois que você seleciona quem quer assinar ou dessassinar (esse número pode chegar a centenas de uma só vez), o sistema cumpre bem o seu trabalho automatizado. É possível que o resultado final leve alguns dias, pois o Twitter passou a limitar o número de consultas de serviços de terceiros. Um problema do Twitter Karma é sua grande demora em angariar todas as informações de sua conta, mas a espera acaba compensando.

Uma das melhores maneiras de visualizar quem são os seus seguidores e com quem você mais interage é gerar um grafo de sua rede social. O detalhe ao lado foi criado no site Top Twitter Friends. Basta digitar seu username no Twitter e visualizar a sua rede. Você pode clicar no avatar de seus amigos e saltar para uma visualização da rede de pessoas que o seguem. O serviço também se propõe a sugerir nomes de outras pessoas que você deveria seguir, com base no cruzamento dos dados disponíveis. Outra pedida é conhecer o Twitnest, que é mais lento mas oferece alguns recursos de visualização adicionais.
Se você está levando muito a sério a montagem de sua rede e quer saber exatamente o momento em que pessoas deixam de lhe assinar e qual a mensagem que disparou uma debandada geral, cadastre-se no Qwitter. O serviço envia um e-mail detalhando todas essas informações. A proposta é interessante, mas o serviço parece não cumprir muito bem o que promete. Outro projeto que vale acompanhar é o Twitterless.

Você anda observando que depois das matérias sobre o Twitter na revista Época e no Fantástico o seu número de seguidores vem crescendo. Ou, pelo contrário, você percebeu que depois de twittar umas bobagens perdeu uma série de assinantes. Quer ver gráficos da evolução desses números? Conheça o twittercounter. Você também pode comparar seus números com as estatísticas de outra pessoa. Cuidado, você pode descobrir que seu desafeto anda muito mais popular que você!
Agora, se você não se satisfaz em visualizar a quantidade de seguidores e quer saber como anda sua reputação na twittosfera, visite o TwitterGrader e conheça a sua nota e ranking mundial. O serviço serve tanto para alimentar egos como para deprimir quem sonha em ser popular mas não passa de um anônimo!
Outra forma de avaliar a sua reputação é analisar quantas pessoas dão um "retweet" em suas mensagens. Veja seu ranking no Retweetrank. Mas, se esses números não satisfazem sua gana estatística, esbalde-se no TweetStats. Lá é possível verificar quanto você tweeta por hora, por mês, quanto você retweeta, etc.
Querendo descobrir onde estão os seus seguidores? Não deixe de conhecer o Twittermap. Este mashup faz uma ótima integração entre o Google Maps e a API do Twitter. Com esse serviço, você pode descobrir quem anda twittando na sua região, em cidades selecionadas e até mesmo uma timeline geo-localizada a partir de uma busca por palavras-chave.
A graça do Twitter é permitir apenas 140 caracteres. Mas, já que uma imagem vale mais que mil palavras (e 140 caracteres, claro!), como deixar de mostrar uma foto sensacional para todos os seus seguidores? Essa é justamente a deficiência que o Twitpic quer suprir. Sim, você pode colocar um link para sua conta no Flickr. Mas o que o Twitpic oferece é uma integração rápida com o seu Twitter.
Talvez imagens não sejam sua praia, ou você acha que a graça do Twitter é justamente restringir-se ao texto. De qualquer forma, você pode pensar que 140 caracteres nem sempre são suficientes para suas argumentações. Seus problemas acabaram! Conheça o Twitlonger e cure-se da tensão "será que minhas idéias caberão em espaço tão pequeno?". Depois de cadastrar-se no site, escreva o que for necessário. O serviço envia para o Twitter um link para a continuação de sua fala.
Se você quiser envolver sua audiência em torno de uma rápida pesquisa, que tal vincular uma enquete ao seu Twitter? Conheça o twtpoll, criado pelo brasileito Felipe Coimbra. O serviço faz parte do twtapps, um conjunto de aplicações legais para o Twitter.
Encontre aqui os resultados parciais de uma enquete que criei para avaliar que sites ou programas estão sendo mais utilizados para twittar.
Esta é apenas uma pequena amostra de todos os serviços disponíveis na rede para ampliar a sua experiência na twittosfera. Quer consultar uma lista completa ou acompanhar tudo o que está sendo lançado? Então não deixe de visitar o Twitter Fan Wiki.
E para quem ainda não se convenceu do potencial do Twitter, sugira que eles acompanhem no GigaTweet o impressionante número de mensagens trocadas desde a abertura do sistema. Eles vão se surpreender.
Ah, antes de terminar: lembra quando você aderiu ao Twitter? Consulte aqui.
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Dica: quer saber mais sobre inteligência coletiva? Veja aqui uma lista de livros que selecionei sobre o tema.