2009
O Twitter já não é mais o que era. Logo, logo você vai ouvir e ler que o Twitter morreu. Antes que posts alarmistas invadam a blogosfera, decidi me adiantar: o Twitter não morreu, assim como os blogs, o orkut e outros serviços populares da Web 2.0 ainda não sucumbiram. O que vem morrendo é uma certa visão normativa, moralista e até individualista que insistia em determinar os usos "corretos" daquelas mídias sociais.
Tenho visto gente reclamar que celebridades, políticos e empresas invadiram o Twitter, que alguns blogueiros vem seguindo gente demais, que a proposta original do Twitter (What are you doing?) se perdeu, que os releases e links substituíram a interação entre amigos, blá, blá, blá... É também curioso ver muitos early adopters, cheios de hype, ameaçarem sair do Twitter ou desdenharem desconhecidos que os seguem e toda pessoa que usa o Twitter de forma diferente. Lembro bem que muita gente "descolada" cometeu orkuticído dizendo estar cansado da modinha que envolveu aquela rede de relacionamentos. Pouco tempo depois voltaram ao sistema, tendo de reiniciar o processo de "add" da estaca zero.
Já escrevi muito sobre a variedade de blogs, seus gêneros (veja estes dados quantitativos), e como eles escapam a definições simplistas, como diário pessoal online (ver este PDF). Mesmo assim, muitos ainda acham que blogs deveriam ser assim ou assado. No final de 2008 muito se discutiu se os blogs teriam morrido, perdido sua essência espontânea e contaminado-se com propaganda (na verdade, essa discussão vem desde 2007). Assim como os blogs, o Twitter e outras ferramentas de microblogging são ferramentas de comunicação. Não são nem neutras (pois oferecem condicionamentos ao comunicar) nem predestinadas a um certo uso correto. Como meios de comunicação, pretam-se aos mais diferentes usos e estratégias. Blogar sobre assuntos pessoais é correto. Divulgar releases e notícias no Twitter é correto. Tratar de conquistas profissionais e resultados de pesquisa na blogosfera é igualmente correto, assim como twittar sobre hobbies, insatisfações e piadas. Oras, se você não gosta de alguma dessas propostas, basta não ler ou dar unfollow. Assim como ninguém lhe obriga a ler tais textos, por que achar que eles deveriam seguir a sua receita individual? Em tempo: estamos falando de redes sociais ou da sua rede individualista?

Na verdade, seria espantoso se uma organização, uma agência de propaganda, um expert em mídias sociais ou marketeiro não visse no Twitter, assim como em qualquer meio de comunicação, uma forma de interagir com seus públicos. Então por que supor que o Twitter perdeu sua essência pura ao mediar mensagens estratégicas? Por acaso você acha que o telefone e as cartas são impuros por mediar mensagens com fins mercadológicos? O telefone deveria ser usado apenas para conversar com família, conjuges e amigos? Nada de ligações para colegas e clientes de sua profissão?
É uma pena que alguns achem que a sua forma de twittar e blogar seja a correta e que a de todos os outros devesse ser proibida. A blogosfera e a twittosfera não estão nem aí para estas matracas normativas e moralistas. E que a interação continue, livre de predeterminações.




