Como a inteligência coletiva salvou o Twitter de suas deficiências

29Abr
2009

Vamos ser sinceros: a proposta original e a interface do Twitter são bem deficientes. Quando fui convidado pela primeira vez para entrar no Twitter logo recusei, pois não achei interessante ficar divulgando o que estou fazendo e ler sobre o cotidiano de outras pessoas. Mas, quando os interagentes se apropriaram da ferramenta para outros fins, como compartilhar links e provocar questões, dei o braço a torcer e... me viciei no serviço.

Confesso que até duas semanas atrás eu nunca tinha usado o site oficial do Twitter para ler e publicar tweets. Desde o princípio, uso programas que mediam essas ações, como o Twitterific, TwitterFox, Twhril e TwitterDeck. Nos últimos dias, contudo, decidi experimentar o próprio site do serviço. Descobri que retwittar e enviar mensagens privadas é mais custoso na página do Twitter, pois a interface demanda que eu copie e cole trechos e usernames e inclua comandos ("d" para mensagens diretas) e arrobas, além de RT para retweets (uma convenção social usada pelos assinantes do serviço para citações diretas). Por que a interface não me oferece botões que agilizem esse processo repetitivo? Na página de mensagens diretas, nem sempre o ícone de resposta funciona e frequentemente o username de quem quero responder está disponível no menu dropdown. Falhas primárias.

É verdade que a interface do Twitter melhorou recentemente. Com a compra do excelente Summize, foi possível incluir um campo de busca no site (rebatizado de Twitter Search). A listagem de assuntos populares (Trending Topics) foi também um recurso bem vindo. Fora o sutil redesign das páginas, o Twitter tem feito pouquíssimas atualizações na interface. Suponho que todos os esforços da empresa estejam sendo direcionados para conferir maior robustez ao serviço que vem atraindo um número crescente de assinantes. Sendo assim, a usabilidade não parece ser seu foco.

Então como pode o Twitter ter se popularizado, com uma proposta inicial limitada e uma interface deficitária?

Além dos novos usos que os assinantes inventaram para esse meio de comunicação, desenvolvedores do mundo todo passaram a criar programas e sites com recursos e serviços indisponíveis ou mal trabalhados pelo Twitter. Ou seja, é a inteligência coletiva aperfeiçoando o sistema. Como já apontava O´Reilly em seu célebre texto, esse aperfeiçoamento coletivo, descentralizado e espontâneo é uma das principais características da Web 2.0.

A implementação de serviços de terceiros só foi possível porque o Twitter abriu o acesso ao seu banco de dados e suas funcionalidades através de uma API. Com isso, não apenas twittar ficou mais fácil (com programas como aqueles que citei acima), como outros recursos e funcionalidades se tornaram possíveis. A cada semana novos sites são publicados, oferecendo novas formas de busca, mecanismos para administração de seguidores, jogos, estatísticas, etc.

Isso mais uma vez nos mostra que na Web 2.0 quanto mais aberto é um sistema, maiores são as suas chances de prosperar. Será que se o Twitter não tivesse oferecido uma API, nós ainda estaríamos por lá? Sem todas essas ferramentas de terceiros a experiência na twittosfera seria tão informativa e divertida?

É interessante observar que a empresa Twitter introduziu uma nova infra-estrutura de comunicação. Já a mediação de interações (interface, serviços e recursos) vem sendo trabalhada por pessoas e equipes sem qualquer relação empregatícia com o Twitter. Esse é o tipo de relação produtiva que desafia os especialistas na velha economia.

O Twitter morreu?

27Abr
2009

O Twitter já não é mais o que era. Logo, logo você vai ouvir e ler que o Twitter morreu. Antes que posts alarmistas invadam a blogosfera, decidi me adiantar: o Twitter não morreu, assim como os blogs, o orkut e outros serviços populares da Web 2.0 ainda não sucumbiram. O que vem morrendo é uma certa visão normativa, moralista e até individualista que insistia em determinar os usos "corretos" daquelas mídias sociais.

Tenho visto gente reclamar que celebridades, políticos e empresas invadiram o Twitter, que alguns blogueiros vem seguindo gente demais, que a proposta original do Twitter (What are you doing?) se perdeu, que os releases e links substituíram a interação entre amigos, blá, blá, blá... É também curioso ver muitos early adopters, cheios de hype, ameaçarem sair do Twitter ou desdenharem desconhecidos que os seguem e toda pessoa que usa o Twitter de forma diferente. Lembro bem que muita gente "descolada" cometeu orkuticído dizendo estar cansado da modinha que envolveu aquela rede de relacionamentos. Pouco tempo depois voltaram ao sistema, tendo de reiniciar o processo de "add" da estaca zero.

Já escrevi muito sobre a variedade de blogs, seus gêneros (veja estes dados quantitativos), e como eles escapam a definições simplistas, como diário pessoal online (ver este PDF). Mesmo assim, muitos ainda acham que blogs deveriam ser assim ou assado. No final de 2008 muito se discutiu se os blogs teriam morrido, perdido sua essência espontânea e contaminado-se com propaganda (na verdade, essa discussão vem desde 2007). Assim como os blogs, o Twitter e outras ferramentas de microblogging são ferramentas de comunicação. Não são nem neutras (pois oferecem condicionamentos ao comunicar) nem predestinadas a um certo uso correto. Como meios de comunicação, pretam-se aos mais diferentes usos e estratégias. Blogar sobre assuntos pessoais é correto. Divulgar releases e notícias no Twitter é correto. Tratar de conquistas profissionais e resultados de pesquisa na blogosfera é igualmente correto, assim como twittar sobre hobbies, insatisfações e piadas. Oras, se você não gosta de alguma dessas propostas, basta não ler ou dar unfollow. Assim como ninguém lhe obriga a ler tais textos, por que achar que eles deveriam seguir a sua receita individual? Em tempo: estamos falando de redes sociais ou da sua rede individualista?

Na verdade, seria espantoso se uma organização, uma agência de propaganda, um expert em mídias sociais ou marketeiro não visse no Twitter, assim como em qualquer meio de comunicação, uma forma de interagir com seus públicos. Então por que supor que o Twitter perdeu sua essência pura ao mediar mensagens estratégicas? Por acaso você acha que o telefone e as cartas são impuros por mediar mensagens com fins mercadológicos? O telefone deveria ser usado apenas para conversar com família, conjuges e amigos? Nada de ligações para colegas e clientes de sua profissão?

É uma pena que alguns achem que a sua forma de twittar e blogar seja a correta e que a de todos os outros devesse ser proibida. A blogosfera e a twittosfera não estão nem aí para estas matracas normativas e moralistas. E que a interação continue, livre de predeterminações.

Por que o Google precisa comprar o Twitter?

22Abr
2009

A produção em sites colaborativos e em serviços da Web 2.0 vem aumentando exponencialmente a quantidade de conteúdo publicado na rede. Esse é um desafio para os mecanismos de busca, que precisam rastrear rapidamente todas essas novidades na rede. Foi justamente essa a principal razão da compra do Blogger pelo Google em 2003. Diante da crescente publicação na blogosfera, o Google percebeu que precisava rastrear essas informações com maior agilidade.

Já em 2006, mesmo tendo o serviço Google Video, a empresa também reconheceu a importância da compra do YouTube. Essa aquisição bilionária não se justificava apenas pelo conteúdo lá publicado, mas também pela riqueza da base de assinantes do sistema. E, como tudo na Web 2.0, onde há um volume significativo de pessoas interagindo recorrentemente e produzindo bom conteúdo existe também o alto potencial de lucratividade. (Bem, no caso do YouTube os custos andam muito mais altos que seus lucros).

Pois essas são as mesmas razões que nos mostram que mais cedo ou mais tarde o Google comprará o Twitter. Na verdade, o Google precisa fazer essa aquisição. A base de assinantes do Twitter cresce de forma impressionante. O conteúdo publicado a cada segundo é muito rico e precisa ser rastreado pelo Google. Na verdade, o Twitter Search (ex-Summize) e o Twazzup já fazem um excelente trabalho. Mas, perder ações de busca para outros mecanismos é prejuízo para o Google, pois deixa de monetizar seus anúncios com valor pleno. E mais, a imagem de seu mecanismo de busca fica desafiada.

Além do potencial futuro do Twitter na área da propaganda online, a base de assinantes e os dados sobre as redes que eles formam são informações fundamentais para estratégias mercadológicas. É verdade que o Twitter ainda não explora a propaganda em suas páginas, mas ele vem se preparando para isso. Na primeira quinzena de abril o Twitter deixou escapar uma pista sobre como pretende começar a veicular anúncios. Como se vê na imagem ao lado, as definições veiculadas em breve serão comercializadas. Mesmo que a empresa tenha dito que a veiculação da frase "Sponsored definition" foi um engano (!), muito em breve estaremos vendo anúncios no serviço.

Apesar da falta de rendimentos, o Twitter continua angariando investimentos. Enquanto isso, o número de assinantes tem aumentado muito nas últimas semanas. Na sexta passada, a apresentadora americana Oprah deu a sua primeira twittada ao vivo em seu programa, entrevistou o Evan Williams (co-fundador do Twitter) e o ator Ashton Kutcher (o primeiro a ultrapassar a marca de um milhão de seguidores). Em tempo, ninguém me convence que todo esse destaque no programa da Oprah não passou de um testemunhal pago para aumentar o valor de venda do Twitter. Já aqui no Brasil, a grande imprensa descobriu o Twitter faz pouco. A capa da revista Época e uma matéria no Fantástico atraíram um novo público para o serviço.

Enquanto cresce o interesse pelo Twitter e o número de assinantes vai aumentando, cresce também o possível valor de venda. O Google ainda precisará esperar mais um pouco para conseguir comprar o Twitter. Esta empresa certamente está esperando o momento e o valor certo. Ou será que um Rupert Murdoch da vida vai comprar antes? Ou o Twitter vai resistir todas as ofertas, como fez o Facebook?

Blu-ray: você quer comprar mais plástico?

15Abr
2009

Não há dúvida, a capacidade dos novos discos blu-ray em armazenar até quatro horas de vídeo em Full HD já está deixando os DVDs com cheiro de mofo. Mas será que esse é o futuro para mercado de filmes e shows? Tenho minhas dúvidas. E você, está disposto a recomprar toda a sua coleção do Star Wars e Friends? E seus shows e musicais preferidos: vai substituir seus velhos DVDs por novos blu-rays em widescreen e soundtronic 13:9? Em outras palavras, quanto plástico você planeja comprar nos próximos anos?

De fato, a invenção de novos suportes, com maior capacidade e qualidade, é sempre uma oportunidade de novos negócios para a indústria cultural. Vale lembrar a transição de VHS para DVDs e do vinil para o CD. Os catálogos foram aos poucos sendo relançados, muitas vezes com extras que motivavam a recompra. Mas, repito: será que as pessoas, na era dos downloads (pagos e piratas) em banda larga, estão dispostas a seguir comprando discos que precisam ser estocados em prateleiras e gavetas? E quando foi a última vez que você voltou para casa feliz com seu novo armário de CDs?

As lojas online estão transformando o mercado de filmes e musicais. É tão mais fácil deixar um filme baixando do que ter que enfrentar o tráfego para buscar e devolver um filme na locadora. Além disso, tenho lido e escutado pessoas reclamando do valor extra que tem que pagar pela locação de blu-rays.

E quem um dia poderia supor que a Apple, típico player no setor de informática, iria competir com vídeolocadoras e barganhar preços com grandes estúdios de Hollywood? É, o mercado de entretenimento já não é mais o mesmo. A nova concorrente da vídeolocadora da esquina não está no mesmo bairro, mas sim na internet.

Sim, é estranho locar um filme na iTunes Store (ainda não disponível em nosso país). Você baixa o filme e tem 30 dias para começar a assisti-lo. Assim que apertar o "play", pode ver e rever o filme nas próximas 24 horas. Mas o sujeito logo se acostuma. E com a largura de banda aumentando, a espera pelo download vai ficando cada vez menor.

Realmente não sei se o blu-ray vai vingar ou não. Mas tenho certeza que será o último suporte plástico para filmes e musicais. Depois dele, nada de átomos, apenas bits!

Sensacional coleção de Captchas

13Abr
2009

Existe alguma coisa mais chata que o tal "tira-teima" da UOL? Trata-se de um recurso de captcha para bloquear o envio de mensagens por robôs de spam. Seu funcionamento é simples. Se alguém tenta enviar uma mensagem para um assinante da UOL para o qual jamais escreveu, ele precisará decifrar um conjunto de letras que lhe é apresentado. Normalmente, se você não conhece o destinatário e nem sabe por que está fazendo a gentileza de lhe responder, aí sim é que as letras apresentadas estarão realmente embaralhadas e ilegíveis. Você xinga o UOL, o destinatário e você mesmo. Mas, como sabe que os captchas funcionam para separar homens de máquinas, você decide que a humanidade está sobre seus ombros e precisa defender a espécie. Depois de 3 ou 4 tentativas, você finalmente consegue passar pelo teste. Ah, além de ter de aguentar essa chatice da UOL, que transfere o problema de seu assinante para nós, ainda é preciso encarar o logo da UOL misturado ao texto. Humpf!

Alguns captchas são muito difíceis de ler. Outros, tentam ser mais criativos. Veja abaixo como o RapidShare adaptou o recurso, pedindo que o internauta digite as letras sob as quais pode-se visualizar gatos. De fato, o recurso é um desafio ainda maior para máquinas....e para humanos também!

Como os captchas são sempre uma chatice, decidi brincar um pouco com a coisa.

SENSACIONAL COLEÇÃO DE CAPTCHAS

Para o Detran, criei este útil captcha a prova de dautônicos. Sugiro que ele seja usado no site na tela anterior à marcação de exames oftalmológicos.

Em direção semelhante, criei o captcha abaixo para a matrícula do curso de astronauta. Afinal de contas, não queremos ninguém com problemas de tontura em expedições espaciais, não é mesmo?

Já para a inscrição no curso de comércio exterior proponho o seguinte tira-teima. Para que aceitar um aluno que não consegue nem passar em um simples teste como este?

Diante de tantas confusões na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), acho melhor utilizarem este captcha para protegerem o site de ataques de hackers com baixa formação musical.

Mas, desconfiado que estava sobre a disponibilidade na rede de outros captchas ainda mais desafiadores, me joguei à busca de novos testes. Encontrei este ótimo captcha de Pokémon. Bem, talvez alguns robôs japoneses consigam decifrar a questão.

Estes testes abaixo oferecem maior precisão. Contudo, o primeiro teste pode oferecer ainda maior dificuldade para humanos! Já o segundo deve ser resolvido sem que se tenha ingerido álcool, pois a capacidade de avaliação pode ser prejudicada por aquela substância.

Achou fácil? Que tal este (via Digg)?

Finalmente, Nic Honing acha tudo isso uma bobagem. Para ele o captcha mais simples para se separar homens de máquinas é simplesmente este:

O poder dos hubs no retweet

08Abr
2009

Nesta segunda-feira eu escrevi sobre o poder do retweet. Um fato interessante é que logo após esse texto ter sido comentado pelo Edney no Twitter, seguiram-se 15 retweets, sendo que estes geraram mais 5 retweetadas. Tal procedimento em rede e o tráfego adicional gerado por aqueles retweets nos mostram outro aspecto interessante das redes: a força dos hubs.

retweetadas

Você certamente sabe que o um hub em uma rede social nada mais é que uma pessoa que tem um número muito alto de conexões. Certamente, o Edney (@interney) é um hub no Twitter. Neste momento, mais de 21 mil pessoas o seguem. Com tantos seguidores, não é de surpreender que um tweet do Edney renda muitos retweets. Em virtude da credibilidade que conquistou com o tempo, um texto que ele publique vem associado a sua autoridade na rede. É inclusive provável que seus "seguidores" no Twitter prestem mais atenção a uma mensagem enviada por ele do que por outra pessoa.

E como o Edney, como outros hubs, transitam em muitas redes, o volume de informações com que tem contato lhe mantém muito bem informado. Sendo assim, as informações que hubs retransmitem são fruto de uma filtragem prévia. À medida que esse filtro se torna bastante seletivo, garantindo a qualidade das informações passadas adiante, novos interagentes passam a confiar no que o hub publica. Em outras palavras, o capital social dos hubs cresce de forma recursiva. Quanto mais capital social...mais capital social. É o efeito "ricos ficam mais ricos".

As mensagens publicadas por hubs acabam "escorrendo" para outros grupos a partir de retweets de pessoas que funcionam como pontes entre essas redes. Esses novos leitores podem se interessar em conhecer os tweets de quem enviou aquela mensagens original, conferindo-lhe novos seguidores no Twitter.

Enfim, podemos concluir que nem todos os tweets e retweets tem a mesma força. A assinatura de um hub em uma mensagem ou em uma retweetada confere "peso" e motiva o repasse daquela informação.

O poder do retweet em redes sociais

06Abr
2009

Você está lendo suas mensagens no Twitter. Ao encontrar um texto interessante enviado por seu amigo Fulano, você não pensa duas vezes: faz um retweet. Ou seja, republica a mensagem. Essa retweetada leva o texto original para outras redes cujos participantes não não assinam o Twitter de Fulano. Assim, essas pessoas podem tomar conhecimento de uma informação a que não teriam originalmente acesso, por não fazerem parte da(s) rede(s) a que Fulano se filia.

No exemplo acima, você funciona como um "broker", fazendo uma ponte entre redes sociais diferentes. Esse fenômeno, chamado na teoria de redes sociais como "structural holes", viabiliza que informações ultrapassarem a simples circulação entre participantes de uma dada rede, "escoando" para outras redes.

Uma vez escutei em um congresso internacional que as informações que circulam dentro de uma rede da qual você participa faz você e seus colegas serem ainda melhores no que já fazem. Por outro lado, a conexão com outras redes sociais oferece um desenvolvimento em áreas que você conhece pouco, ampliando seu potencial. De fato, a circulação de informações em uma rede social tende a ser focada em interesses compartilhados. Mas novidades de outros clusters no sistema podem oxigenar um grupo coeso, motivando a criatividade e a diferença.

Logo, um simples retweet pode não apenas ampliar o alcance de uma informação, mas também criar novas conexões, motivar debates a partir de uma perspectiva diferente, e até mesmo gerar uma ação coletiva em rede. Sei que algumas pessoas não gostam de retweets pois redundam algo que elas já leram. Mas da próxima vez veja-os como um potente fenômeno de redes sociais.

Quer saber mais sobre o tema? Leia este capítulo de Ronal Burt, um dos principais nomes na teoria de Structural Holes.

Ameaçado por todos os lados, o jornalismo vai acabar?

02Abr
2009

É claro que não. O jornalismo não acabará. O que vem morrendo é um certo modelo industrial de jornalismo. Outros modelos precisam ser desenvolvidos para a reinvenção do jornalismo.

Os debates, contudo, são alarmistas, já que as ameaças vem de todos os lados.

O acesso instantâneo e gratuito vem desafiando os jornais em papel (de notícias estáticas sobre um longínquo ontem). Muitos tem fechado suas portas, entrado com pedidos de falência (como fez o Chicago Sun-Times nesta semana), convivido com dívidas crescentes (como o New York Times) ou até mesmo reduzido seus dias de circulação. Este é o caso dos jornais The Detroit Free Press e The Detroit News. Por cancelarem a entrega de jornais nas segundas, terças, quartas e sábados, só hoje (quinta-feira) os seus assinantes poderão ler sobre a queda do presidente da GM, forçada pela Casa Branca. Jornal de hoje com notícia de segunda!

A multiplicação de sites de jornalismo participativo, os blogs, os sites abertos de fontes primárias e as fotos e vídeos de cidadãos comuns parecem estar enfraquecendo a primazia das instituições jornalísticas. As ameaças ao diploma (em votação no Supremo) e a livre publicação na rede por qualquer "amador" parecem também colocar em xeque o papel das faculdades de jornalismo. Será?

A partir de uma perspectiva sistêmica, acredito que os desequilíbrios são o motor da transformação. Acho que o jornalismo e os jornalistas ficaram muito acomodados com um modelo industrial que parecia dar certo na área por tanto tempo. De fato, os salários permaneciam ruins e as vagas insuficientes para todos os formados. Mas, até há pouco tempo, o movimento inercial do jornalismo não parecia muito perigoso.

Enquanto isso, os jornais, revistas e programas de rádio e TV foram ficando iguais demais. Os textos e imagens ficaram pasteurizados. A própria criatividade parecia sofrer com as imposições das técnicas e workflows consagrados.

Quero crer, enfim, que todas as ameaças movimentarão o jornalismo, forçarão sua reinvenção. O jornalismo ficou velho como o jornal de ontem (ou, no caso de Detroit, como o jornal de domingo passado!). Novos modelos de negócios precisarão ser implementados e novos papéis e técnicas precisarão ser incorporados pelos jornalistas.

Logo, acho bobagem qualquer interpretação alarmista. Eu mesmo não poderia sobreviver sem jornalismo! Eu assino dois jornais impressos, assino revistas semanais e mensais, ouço notícias no rádio diariamente e leio de tudo na rede. Desse pout-pourri monto minhas visões de mundo. Só espero que ninguém venha pré-julgar o que leio, impondo que este ou aquele blog ou Twitter não pode ter credibilidade ou é escrito por um "amador". Deixa essa decisão comigo, OK?

Verdades que eu gostaria que fossem mentiras de primeiro de abril

01Abr
2009

PinóquioPrimeiro de abril. Certamente teremos um longo dia de pegadinhas via blogs, Twitter, e-mails, etc. E que tecnologia falsa será que o Google apresentará neste ano? Ora, isso já faz parte da cultura internética.

Mas, como o dia da mentira na internet já perdeu muito de sua graça, decidi fazer diferente: refletir sobre alguma verdades que eu gostaria que fossem mentiras de primeiro de abril.

  • O projeto inicial de uma internet livre e democrática vem sendo minado por políticos e grandes organizações
  • A velocidade dos processadores, o armazenamento ilimitado e a instantaneidade da comunicação nos deixou ainda mais sem tempo
  • Toda alegria é passageira
  • A tecnologia trouxe soluções para problemas que não tínhamos
  • Muito dos relacionamentos em redes sociais online vem assumindo um caráter burocratizado, estratégico e previsível
  • Nossa onipresença tecnológica, via dispositivos móveis e conexão permanente, tem nos tornado cada vez mais ausentes
  • Os avanços da robótica e da inteligência artificial são incapazes de resolver um básico problema não-tecnológico: a fome
  • A cada verão mais quente lembramos que a Terra está em perigoso processo de aquecimento
  • O ativismo político e social, mediado pelas tecnologias de informação e comunicação, é apenas uma pequena fatia do total das interações na rede
  • Nossa obsolescência ainda é programada
  • As baterias de nossos equipamentos precisam ser recarregadas frequentemente
  • Nossa competência em desenvolver sistemas cada vez mais precisos ainda não resolveu nossos medos e inseguranças