2009
Ela nasceu idea, e por muito tempo viveu entre nós como idéia. Mas agora, em sua maturidade, transformou-se em ideia.
Como tantas outras, esta idéia ficou obsoleta. Numa época em que o envelhecimento precoce condena tudo que é novo, a ideia mais nova condenou todas as velhas idéias.
Para explicar sua teoria das ideias (no grego ????), Platão recorreu à famosa metáfora da caverna, onde se assentavam pessoas comuns, iludidas por imagens projetadas. Já nossos especialistas encerraram-se em um gabinete para definir que brasileiros e portugueses (e outros gatos pingados) deveriam padronizar a ideia, sem acento e com muita precisão.
A ideia é um universal, "unidade visível na multiplicidade de objetos", ou uma representação geral, matéria comum do pensamento? Essa é uma questão filosófica, que pouca importa ao léxico agora padronizado.
Coitados dos especialistas lusófanos. Mal sabem eles que a ideia grafada da mesma forma entre brasileiros e portugueses jamais padronizará suas ideias sobre o mundo. Os novos dicionários já trazem a ideia registrada, dirimindo qualquer dúvida (esta ainda com acento…enquanto as proparoxítonas forem um grupo à parte). Aqui fora, contudo, brasileiros e portugueses tem ideias muito diferentes sobre o mesmo mundo em que vivemos. Xi, será que é mesmo o mesmo?
Apesar de nossa raiz portuguesa, experimentamos o real de forma muito diferente de nossos primos portugueses. Podemos agora usar a escrita de forma semelhante, mas falamos o mundo de forma distinta. Mais do que isso, nossas ideias sobre a vida em muito se distinguem. A língua não é apenas um conjunto de signos que representa objetos. Mais do que simples referência, ensinam Sapir e Whorf, as línguas carregam consigo nossas concepções de mundo. Exemplo típico é o número de palavras que os esquimós usam para se referir ao que conhecemos simplesmente por "neve".
E neste mundo tecnológico, onde tudo é reduzido à informação quantificável, empacotável e transmissível, não importa como a ideia é grafada. Ela tem existência separada do corpo, e pode sofrer download daquele aparato úmido e perecível. Essa fantasia cibernética, claro, não foi escrita por um teórico gripado ou mergulhado em uma paixão arrebatadora.
A ideia, para ele, não tem nem acento nem afeto. Talvez você não tenha nem ideia (nem idéia) do que estou falando. Nem tampouco ache importante uma crítica sobre o mecanicismo de muitas teorias sobre redes sociais, onde simplesmente se quantifica a circulação de informações, sem qualquer preocupação com as subjetividades e formações discursivas que contaminam necessariamente as ideias. Essa contaminação não importa nos debates transmissionistas, que equivalem comunicação e epidemias virais.
Bem, a única coisa que vale decorar é que ideia não tem acento.




