A obsolescência das idéias

10Mar
2009

Ela nasceu idea, e por muito tempo viveu entre nós como idéia. Mas agora, em sua maturidade, transformou-se em ideia.

Como tantas outras, esta idéia ficou obsoleta. Numa época em que o envelhecimento precoce condena tudo que é novo, a ideia mais nova condenou todas as velhas idéias.

Para explicar sua teoria das ideias (no grego ????), Platão recorreu à famosa metáfora da caverna, onde se assentavam pessoas comuns, iludidas por imagens projetadas. Já nossos especialistas encerraram-se em um gabinete para definir que brasileiros e portugueses (e outros gatos pingados) deveriam padronizar a ideia, sem acento e com muita precisão.

A ideia é um universal, "unidade visível na multiplicidade de objetos", ou uma representação geral, matéria comum do pensamento? Essa é uma questão filosófica, que pouca importa ao léxico agora padronizado.

Coitados dos especialistas lusófanos. Mal sabem eles que a ideia grafada da mesma forma entre brasileiros e portugueses jamais padronizará suas ideias sobre o mundo. Os novos dicionários já trazem a ideia registrada, dirimindo qualquer dúvida (esta ainda com acento…enquanto as proparoxítonas forem um grupo à parte). Aqui fora, contudo, brasileiros e portugueses tem ideias muito diferentes sobre o mesmo mundo em que vivemos. Xi, será que é mesmo o mesmo?

Apesar de nossa raiz portuguesa, experimentamos o real de forma muito diferente de nossos primos portugueses. Podemos agora usar a escrita de forma semelhante, mas falamos o mundo de forma distinta. Mais do que isso, nossas ideias sobre a vida em muito se distinguem. A língua não é apenas um conjunto de signos que representa objetos. Mais do que simples referência, ensinam Sapir e Whorf, as línguas carregam consigo nossas concepções de mundo. Exemplo típico é o número de palavras que os esquimós usam para se referir ao que conhecemos simplesmente por "neve".

E neste mundo tecnológico, onde tudo é reduzido à informação quantificável, empacotável e transmissível, não importa como a ideia é grafada. Ela tem existência separada do corpo, e pode sofrer download daquele aparato úmido e perecível. Essa fantasia cibernética, claro, não foi escrita por um teórico gripado ou mergulhado em uma paixão arrebatadora. A ideia, para ele, não tem nem acento nem afeto. Talvez você não tenha nem ideia (nem idéia) do que estou falando. Nem tampouco ache importante uma crítica sobre o mecanicismo de muitas teorias sobre redes sociais, onde simplesmente se quantifica a circulação de informações, sem qualquer preocupação com as subjetividades e formações discursivas que contaminam necessariamente as ideias. Essa contaminação não importa nos debates transmissionistas, que equivalem comunicação e epidemias virais.

Bem, a única coisa que vale decorar é que ideia não tem acento.


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Comentário de: Joe

Ótimo post mostrando como falar muito sem dizer nada.


PermalinkPermalink 11.03.09 @ 13:42



Comentário de: Bbel · http://bbelblog.net

Alex
Tanto faz se grafamos idéia ou ideia. O importante é ela em si, sem o seu corpo.
Parabens pela ideia, ela é nova mas continua uma idéia.
Bebel


PermalinkPermalink 11.03.09 @ 14:11



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Bbel, a propósito, fiquei impressionado pela quantidade (e qualidade) de informações em teu blog!


PermalinkPermalink 11.03.09 @ 16:05



Comentário de: André HP · http://www.FormigueiroComunista.com

Post magnífico - na falta de adjetivos. Foi uma ótima ideia…


PermalinkPermalink 11.03.09 @ 19:55



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Obrigado, André! Pelo menos eu me diverti escrevendo :-)


PermalinkPermalink 12.03.09 @ 10:44



Comentário de: popelina · http://de-grau.blogspot.com

Olá Alex, gostei do post. mas, isso das representações e percepções também tem que se lhe diga: haverá unidade nas representações sociais de um grupo de nacionais? elas são tantas como as categoriais sociais a que pertencem, as suas trajectórias pessoais, profissionais, mobilidade, etc.
resumindo, posso estar muito mais perto de você, incluindo na linguagem (na noção da ideia :), do que do meu vizinho do lado (aqui em Lisboa). Um abraço!
Cristina


PermalinkPermalink 13.03.09 @ 02:58



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Cristina, tens toda razão. Mesmo em nossos países (e mesmo em estados e cidades) podemos encontrar uma grande diversidade cultural.


Muito obrigado pela observação!


PermalinkPermalink 13.03.09 @ 07:47



Comentário de: xenya

Integração é algo muito mais complexo do que grafar as palavras do mesmo modo..engraçado que lendo o post fiquei pensando na questão da tecnologia…não basta estar na rede e utilizar os mesmo aparatos tecnológicos para que possamos nos compreender melhor, porque nesse trama complexa entra toda a questão do imaginário…



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