O aluno não quer mais se sentar e ouvir

13Fev
2009

Reproduzo abaixo minha entrevista que o jornal Zero Hora publicou ontem:

Professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Informação da UFRGS, Alex Primo sustenta que o mundo digital deu origem a um novo padrão de estudante, acostumado ao uso da tecnologia. Para se adequar a esse perfil, escolas e educadores devem rever suas práticas. Confira trechos da entrevista a ZH:


Zero Hora – Qual principal o impacto das novas tecnologias na vida do estudante?

Alex Primo – O acesso às informações. Antes, a educação era baseada no livro, e os livros eram prescritos pelos professores como a informação que devia ser estudada, onde estavam as respostas. Hoje, mesmo uma criança tem possibilidade de buscar as soluções na internet.

ZH – O que isso muda?

Primo – Constrói na criança o espírito da investigação. Não é o professor que entrega uma resposta pré-definida. Ela vai atrás para construir suas respostas.

ZH – É um novo aluno?

Primo – Sem dúvida. Antigamente, falava-se em ensinar. Hoje, é preciso ter preocupação maior com a educação, como um processo global para a aprendizagem e para a produção ativa. O aluno não quer mais se sentar e ouvir, porque ele está acostumado a produzir por meio das novas tecnologias.

ZH – Isso exige uma adaptação na maneira de dar aula?

Primo – Demanda-se um maior dinamismo nas aulas e a valorização da expressão multimídia: usar fotos, sons, textos em blogs para os estudante poderem valorizar aquela linguagem que eles conhecem. Se não se fizer isso, fica um hiato muito grande entre linguagem do aluno e do professor.

ZH – Os jovens de hoje têm menor capacidade de concentração?

Primo – Uma vez escutei que havia professores que ensinavam em blocos de 15 minutos e contavam uma piada, para seguir o ritmo da televisão. Agora, percebemos uma mudança, as pessoas se afastando da TV e indo para o computador, onde a dedicação é total. Ficam horas no computador. A diferença é que hoje se navega em muitas janelas ao mesmo tempo. O jovem conversa, navega, vê vídeos, tudo ao mesmo tempo. Então, é uma concentração fragmentada.

ZH – A internet estimula a cópia de trabalhos?

Primo – O plágio, a cola da enciclopédia sempre existiu. Eu lembro de fazer isso quando criança, vários alunos copiavam informações das enciclopédias, o professor recebia muitas cópias e nem se dava conta. Não é um problema novo, da internet. O interessante é que o aluno comece a reconhecer a importância da consulta às fontes e de valorizar a autoria, não minimizar a importância da busca de informações e citações.



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Comentários:


Comentário de: Aline de Campos · http://alinedecampos.org

Li ontem na Zero Hora e gostei, não só da sua entrevista, mas da reportagem em si que ficou bem didática. Considero muito importante a abordagem desse assunto num jornal de grande circulação como esse. Porém, mais importante são as ações concretas no sentido de preparar os professores para as tecnologias de comunicação e informação a fim de que possam acompanhar os alunos ou proporcionar contato àqueles que não convivem com as tecnologias de maneira direta.


Como você sabe, sou uma grande entusiasta desse assunto e da inclusão digital no sentido mais pró-ativo que houver, porque se não for assim, toda essa informatização da rede de ensino brasileira não vai passar de mais uma subutilização de tecnologia e um marketing político.


PermalinkPermalink 13.02.09 @ 10:07



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Excelente, Aline. Você tem toda a razão.


Aproveito para comentar que nfelizmente muitos professores conhecem pouco (ou nada) sobre blogs, wikipédia, etc. Isso lhes causa medo e ansiedade, e saem dizendo que tudo isso apenas prejudica o estudo. Enquanto essas tecnologias não forem vistas como complementares à aprendizagem, ocorre o você aponta: uma subutilização da tecnologia.


PermalinkPermalink 13.02.09 @ 10:10



Comentário de: Andrea Paccini · http://www.andreapaccini.com.br

Olá….adorei a entrevista…o mundo mudou e acho que as escolas deveriam acompanhar a evolução das crianças….


PermalinkPermalink 13.02.09 @ 12:14



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Exato Andrea, a escola tem que fazer parte do mesmo mundo da criança e não um túnel do tempo que leva ao passado.


PermalinkPermalink 13.02.09 @ 13:31



Comentário de: luiz galvão

Legal Alex..vc deve ter lido..mas fica aqui minha sugestão para quem não leu…o trabalho do mexicano Ulises Ali Mejias,especialista em mídias sociais, que ministrou o curso "Teaching Social Softwares with Social Software" no Teachers College da Universidase Columbia, NY.
Esse trabalho que está no livro "Conectado" de Juliano Spyer.
Abcs


PermalinkPermalink 14.02.09 @ 08:20



Comentário de: Bebel · http://bbelblog.net

oi Alex
Estivemos juntos no Campus Party. Tenho um site feminino http://www.bbel.com.br agora tenho um recem nascido bbelblog.net.
Ninguem deve ficar de fora do uso da tecnologia.
Para mim, que não sou da geração internet, foi particularmente dificil, mas incrivelmente gratificante fazer parte ativa do mundo digital.
A internet coloca o mundo no alcance de todos. Podermos abrir nossos horizontes através de pesquisas infinitas mas devemos sempre dar valor à autoria.
Os assuntos se entrelaçam e cada um fica enriquecido com o outro.
Espero, um dia fazer parte do rol de suas amigas.
Linkei você no meu blog
Um abraço. Bebel


PermalinkPermalink 14.02.09 @ 10:48



Comentário de: Lauro Teixeira · http://www.lauroteixeira.com.br

Alex,

Gostei muito da entrevista. Sua opinião, ainda que óbvia, é necessária. Pois na prática a metodologia antiquada de ensino resiste.

Recentemente, uma tímida tentativa de aplicar um pouco de meritocracia no ensino público de São Paulo, resultou em briga entre o sindicato dos professores e o estado. O estado aplicou uma prova aos professores substitutos, com objetivo de ajudar na classificação daqueles que tivessem melhor desempenho em suas áreas. Porém a Apeoesp, em defesa de professores antigos (muitos que zeraram na prova), conseguiu liminar invalidando a "provinha".

Este é um exemplo triste, mas que deve abrir novos precedentes. Ainda que tarde, as coisas tendem a mudar nem que seja na marra. Pois de nada adianta os alunos mudarem seu modo de ver o mundo se estiverem cada vez mais frustrados com um modelo de ensino que não é capaz de compreendê-los.

abração
Lauro


PermalinkPermalink 14.02.09 @ 11:09



Comentário de: Leo Lagden · http://www.blogdoargonio.blogspot.com

Alex,

Com certeza esse é um tema que deveria ser muito mais discutido.
O mundo mudou e muito com o avanço das tecnologias, principalmente às relacionadas com os meios de comunicação.
E o ensino, principalmente o infantil, deve entrar nesse novo cenário.


PermalinkPermalink 16.02.09 @ 08:22



Comentário de: Tuca Américo · http://www.tucaamerico.blogspot.com

Oi Alex,


Estou trabalhando em meu doutorado com estas questões e sinto na pele como uma parte da academia (principalmente e educação) despreza a situação… Acham que ao utilizar games e programas interativos pela web ou pela tv é "espetacularizar" o ensino… Parece que eles não tem nem a capacidade de observar o comportamento de seus filhos ou netos e de perceber que a tecnologia faz parte, naturalmente, de suas vidas, assim como nós fomos criados com geladeira, telefone e televisão… Esta molecada é diferente da gente… Esse dias meu filho de nove anos definiu o Nintendi Wii como "aquele game em que o nosso corpo é o joystick"… Então… Abraços.


PermalinkPermalink 16.02.09 @ 08:48



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Lauro, tens toda razão. Tudo o que eu disse, ainda que com foco na tecnologia, já tinha sido dito antes por Dewey, Piaget, Vygostky, Paulo Freire, etc. Mas precisamos repetir e repetir tudo isso, atualizando para nossos tempos. Quem sabe um dia o foco na aprendizagem ainda vence!


Tuca, tua filha tem a melhor definição de todos os tempos!!!


PermalinkPermalink 16.02.09 @ 13:34



Comentário de: Joe

Vamos colocar o pé no chão: a criança e o adolescente brasileiro não usa a internet pra estudar, 90% do tempo é msn, orkut, youtube, etc, e isso não é novidade à ninguém há tempos já. Qual criança você conhece que usa Wikipedia ? Dá pra contar nos dedos…



"Constrói na criança o espírito da investigação. Não é o professor que entrega uma resposta pré-definida. Ela vai atrás para construir suas respostas."


Por que você compara um livro à uma resposta pré-definida ? Acho meio equívoca essa afirmação, um livro não é uma resposta pré-definida, acredito que se a criança procurar num blog (que é realmente considerada uma fonte nada confiável de informação), aí sim terá a resposta pré-definida, a internet é que garante essa resposta mastigada e não um livro, acho que o que ocorre na realidade é bem o contrário do que tu citaste; um livro requer um esforço bem maior e uma atenção/concentração que vai muito além do que se gasta entre os 5 minutos procurando um assunto no Google e vendo fotos de balada no Orkut.


PermalinkPermalink 11.03.09 @ 13:58



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Joe, obrigado por seus comentários. Mas, veja: eu não estou opondo internet e livro. Eles coexistem, pois tem forma e usos diferenciados. Meu uso da internet, por exemplo, não acabou com minha leitura de livros. Pelo contrário, compro ainda mais livros hoje!


Eu estou opondo o modelo pedagógico em que o professor discursa e o aluno escuta. Nesse modelo, o aluno deve responder na prova o que o professor espera. Ou seja, uma mera reprodução. O que estou valorizando é o espírito investigativo, tanto em livros quanto na internet. A internet, claro, dinamiza em muito a busca.


PermalinkPermalink 12.03.09 @ 10:05



Comentário de: Ana Claudia

Adorei a matéria
Gostaria que me enviasse algumas referencias onde eu possa estar lendo mais sobre o assunto.

PermalinkPermalink 06.04.09 @ 00:17




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PermalinkPermalink 31.12.11 @ 15:20



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