Parte 3/3 - A cobertura dos casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann em jornais, blogs e no Twitter

18Nov
2008

Nos últimos dois posts busquei relatar brevemente os dados da pesquisa que realizei sobre como se deu a cobertura e o debate dos casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann nos jornais, blogs e no Twitter. Na última parte desta série, quero apresentar algumas conclusões gerais (se preferir, leia meu artigo completo sobre a pesquisa).

Durante os 16 dias que acompanhamos matérias, cartas de leitores, posts e tweets que mencionavam os casos, foi possível identificar o fenômeno que chamo de "encadeamento midiático" (leia mais sobre isto neste artigo). Ou seja, observou-se uma intertextualidade entre os diferentes níveis midiáticos: mídia de massa, mídia de nicho e micromídia (e seu sub-tipo micromídia digital). Tanto os cidadãos comuns utilizaram seus posts para comentar o caso e analisar a cobertura da grande mídia, quanto estas instituições se referiram em seus jornais aos blogs e Twitter, como também se aproveitaram destes meios digitais para divulgar matérias e links para suas páginas na Web.

Quanto ao tempo, observou-se que a blogosfera reage com grande velocidade aos fatos noticiados na mídia. Como se pôde constar nos gráficos gerados pelo Technorati, assim que o caso Isabella Nardoni chegou aos veículos jornalísticos, os blogs passaram a falar ativamente sobre a menina. Se antes não se verificava a ocorrência de seu nome, assim que se noticiou o fato, o Technorati e Blogpulse apontaram picos de postagem sobre ela.

Por outro lado, o caso Madeleine, de repercussão internacional, vinha sendo pouco coberto na mídia tradicional, em virtude da ausência de novos fatos. Apesar disso, e mesmo antes do aniversário de um ano do desaparecimento da inglesa, blogs e Twitter permaneciam falando do caso. Isto é, o timing na blogosfera e em micro-blogs se diferencia daquele da mídia tradicional. Em virtude do constrangimento de espaço e tempo em rádios, TVs, jornais e revistas, só o que é mais atual e cumpre os critérios de noticiabilidade é veiculado nos veículos jornalísticos. Mesmo instituições midiáticas do mundo inteiro usaram o Twitter para tratar do caso Madeleine em dias que jornais e TVs não abordavam o tema.

Durante os 16 dias da análise dos 3 jornais da amostra, observou-se outros casos explícitos de encadeamento midiático. Veja abaixo apenas alguns deles:

  • O caderno Donna de Zero Hora, em uma matéria sobre homens na cozinha (27/04), citou blogs do nível micromidiático dedicados à gastronomia.
  • O mesmo jornal reproduz trechos do blog da cantora Maria Rita (do nível de nicho) sobre sua turnê em Porto Alegre (6/05).
  • A Folha de São Paulo fez uma nota sobre a resposta da pré-candidata Hillary Clinton à acusação de blogs políticos de que teria cometido uma "gafe racista" (9/05).
  • Em uma matéria sobre o dossiê da gestão Fernando Henrique, a Folha relatou que cópias de um post do blog de José Dirceu foram distribuídas para a imprensa durante um evento.
  • Sobre o caso Isabella, O Sul publica a seguinte matéria de página inteira (28/05): "Caso Isabella vira 'febre' na Internet. Comoção se reproduz virtualmente, e debate sobre o crime toma conta do Orkut, de blogs e portais de notícias".

Enfim, o interesse que motivou essa pesquisa foi justamente confrontar a polarização que muitos fazem entre a micromídia digital e as mídias de massa e de nicho. Além do encadeamento midiático, foi possível demonstrar empiricamente que blogs e Twitter não são apenas produções espontâneas de pessoas comuns. Como se viu, as próprias instituições midiáticas tradicionais vêm utilizando tais meios digitais para a divulgação de notícias e atração de novos leitores (e, portanto, audiências para seus anúncios). Por outro lado, esse mesmo público se expressa e interage na blogosfera e em micro-blogs debatendo as notícias lidas. Além disso, desempenham uma função de watchdog da grande mídia, avaliando e criticando as coberturas sensacionalistas.

Para além de uma simples polarização entre broadcasting e narrowcasting, a estrutura midiática contemporânea complexificou-se, ampliando as vozes e intensificando a circulação e debate de informações.

____

PS: Peço desculpas ao leitores pela demora que tomou a publicação desta terceira parte. Mas nas últimas 3 semanas estive viajando por 4 destinos e em diferentes eventos. :-O


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Comentário de: Nívea

Oi, Alex! Perfeita a observação. É neste ponto que se concentra a minha pesquisa sobre os blogs, na busca destes tensionamentos entre as lógicas de comunicação. Quando se fala em blog, logo se pensa no entrelaçamento entre pólos de emissão e recepção, na livre cooperação e no famoso afã colaborativo. Mas um olhar um pouco mais detido na realidade denuncia que é justamente essa livre apropriação que faz surgir uma imensidão de usos para a ferramenta.



Já sobre o "entrelaçamento de pontes aéreas," fico feliz pelo presente que o meu marido trouxe lá da UFMG para mim, com dedicatória e tudo. Obrigada!


PermalinkPermalink 19.11.08 @ 09:22



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Nívea, que bom que você gostou do livro. Mais uma vez obrigado por ter participado do concurso.


E quanto tiver terminado sua pesquisa sobre blogs, não deixe de divulgar por aqui.


PermalinkPermalink 19.11.08 @ 09:30



Comentário de: green card · http://www.yesil-kart.com

Há alguma informação sobre este assunto em outras línguas?


PermalinkPermalink 03.12.08 @ 17:13



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Que informações você precisa? E em qual idioma?


PermalinkPermalink 03.12.08 @ 17:22



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